(in) esquecível
13 Sobre como você acabou por ficar... sem restrições temporais
Notas iniciais
Sobre como você acabou por ficar... sem restrições temporais
Dois dias.
Dois dias sem notícia alguma.
Aquele não seria nem de longe o maior tempo que Heiwajima Shizuo ficou sem notícias de seu pior inimigo. O mais correto seria dizer que o guarda-costas sequer deveria admirar-se com os sumiços de Orihara Izaya. Durante mais de dez anos, afinal, lidou com as ausências e aparições repentinas do informante. Mesmo que ele não fosse, portanto, inexperiente quanto a sensação desconfortável de ver sumir diante de seus olhos a pessoa que jurou infinitas vezes matar, ele definitivamente não estava acostumado a importar-se com isso. Não, ao menos, da forma como agora se importava.
Era inegável até mesmo ao homem tão acostumado a negar suas preocupações o quanto a essência delas havia-se alterado: antes focadas no retorno de Izaya, prenunciando o momento no qual teria que expulsá-lo de seu distrito, pressentindo a raiva ao cheiro, às provocações, aos risos maliciosos, ao olhar insultante; agora as via deslizarem furtivamente na direção contrária e focaram-se vergonhosamente na ausência. Como se a falta de Izaya e não sua presença tornasse-se gradativamente a razão pela qual o cinzeiro enchia-se repetida e rapidamente com cinzas de cigarros tragados por lábios que não sorriam. Mesmo que atribuísse a cada cigarro acesso a função de acalmá-lo, entretanto, Shizuo não precisava de concentração para compreender que havia algo de errado em sentir desconforto na ausência do homem que tentou por anos manter longe.
O que exigiu dele o esforço e toda a calma que pudesse reunir foi, por fim, o entendimento de que havia uma grande distância entre preocupar-se com a ausência do informante e desejá-lo por perto. Dois dias inteiros e cinzas de cigarros o suficiente para encobrir seu nervosismo e Heiwajima Shizuo estava convicto de que não havia nada mais a dedicar a suas estranhas contradições. Convicção forte o suficiente, também, para fazê-lo esquecer-se de que fora ele mesmo a cravar em si seus desalinhos ao desejar ver, mais uma vez, o sorriso e os olhos que por tanto jurou odiar.
Talvez fosse um talento daqueles que ficariam sempre escondidos detrás de seus tantos defeitos, mas Shizuo possuía uma capacidade invejável de afastar para longe suas preocupações e esquecer-se delas como se soprasse para longe um anel de fumaça. Shizuo não perdia o sono facilmente, não gastava horas revirando-se entre lençóis, mesmo quando deveria fazê-lo. E talvez esse talento invejável fosse o exato resultado de seu maior defeito, aquele que ninguém ousaria cobiçar: ele explodia com facilidade. Shizuo era uma bomba e nunca, absolutamente nunca, há espaço para lamentações em bombas. Em especial em bombas simples, montadas com pólvora. Bombas como Shizuo. Daquelas que mudam de um instante para o outro: um instante inofensivas e quietas, no seguinte em explosões destrutivas, barulhentas, para, por fim, acalmarem-se, como se os arredores destruídos deixassem surgir ilusões de calma. Bombas simples: daquelas que todos sabem ser perigosa, mesmo enquanto apagadas.
Shizuo Heiwajima, entretanto, comicamente pensava em si mesmo como uma complexa bomba-relógio, sequer percebendo-se de que esta era, justamente, a descrição que merecia o homem cuja ausência agora apertava seu peito. Bombas-relógio não permitem tempos de calmaria, não permitem explosões repentinas. Bombas como Orihara Izaya anunciam por si mesmas a destruição que virá, mostrando a aproximação inexorável do caos a todos que ousem olhá-las. Números marcados em vermelho, vermelho como os olhos do informante mais perigoso de Ikebukuro.
Talvez se Shizuo soubesse que não era ele mas Izaya aquele que anunciava a claras vistas suas explosões se preocuparia menos com sua atual situação, conformando-se que, já programada, a explosão certamente viria, sendo ele capaz ou não de olhar diretamente para os números brilhando vermelha a contagem regressiva.
Ignorante, portanto, de que os números continuavam a correr em direção à explosão, ele ignorou também as mensagens recebidas em seu celular ao longo dos dois dias passados antes daquela atual quarta-feira. Uma de Kadota. Três de Shinra. Uma de Celty.
“Shizuo, vi que Izaya saiu depois de mim, mas ele não quis falar comigo e me deu uma desculpa qualquer. Tudo bem ele vagar sozinho por ai?”.
“Shizuo-kun, Kadota me contou que passaram juntinhos uma manhã agradável no domingo. =D Contou também que vocês estão se dando bem... Mas que Izaya-kun saiu do seu apartamento. Achei que ele estava ficando por ai... Ele está em Shinjuku?”
“Tentei escrever para o Izaya-kun hoje mais cedo, mas ele não me responde. Sabe se ele está com o celular?”
“Não me ignora, Shizuo-kun! =( Izaya-kun também está me ignorando e Celty não quer me consolar!”
“Shizuo, tudo bem? Como está o trabalho? Desculpa te escrever assim e... Não acho que seja da minha conta... Mas não acho seguro o Izaya sozinho. Hoje ouvi algumas coisas estranhas enquanto fazia uma entrega. Um pessoal meio suspeito comentando sobre ter visto o Izaya andando por ai com ‘cara de panaca’. Falei com Shinra sobre busca-lo, mas ele está reclamando sem parar sobre não querer outro homem em casa. Você pode ver como está Izaya? Prometo que vai ser só até eu convencer o cabeça-dura do Shinra...”
E talvez Shizuo devesse preocupasse-se ao menos o suficiente para responder a mensagem de Celty, recebida na noite do dia anterior, mas limitou-se a franzir o cenho, incomodado, e pousar o celular no criado mudo ao lado de sua cama. Não era surpreendente que as pessoas percebessem a mudança em Izaya, não após o informante segui-lo no sábado pelo distrito com olhos brilhantes de admiração. Assim como não era surpreendente que isso interessasse pessoas suspeitas. Orihara Izaya nunca fora uma pessoa discreta. E, ainda que os comuns moradores de Ikebukuro o temessem apenas como “aquele que é capaz de lutar com Heiwajima Shizuo”, na cidade que nascia quando as luzes se apagavam, na cidade que se esgueirava em becos e fugia do controle policial, o nome Orihara Izaya disputava ardentemente com Shizuo o título de homem mais temível de Ikebukuro. Mesmo não envolvido com o submundo do crime do distrito, portanto, o guarda-costas sabia que a notícia sobre as atípicas atitudes de Izaya ganhariam repercussão e levantariam suspeitas.
Claro que ele não se lembraria do provável problema que poderia encontrar Izaya se, além da mensagem de Celty, não ouvisse de seu empregador o quanto o distrito tornara-se barulhento no último final de semana. Shizuo, que até então não desconfiava o poder que um Izaya percorrendo a cidade com um olhar bobo no rosto poderia ter nas esferas obscuras de seu amado distrito, ouviu de Tom um “está tudo uma bagunça, Shizuo” antes mesmo de um “bom dia” na manhã de segunda-feira.
Por mais que compreendesse que o amigo tinha motivos para tal, Shizuo sabia que Tom evitaria ao máximo falar com ele a respeito de Izaya. Mesmo que contornasse o assunto, entretanto, o guarda-costas era consciente de que o trabalho de ambos estava mais interligado ao trabalho do informante do que o cobrador gostaria de admitir. 35%: este era o valor que assumiam as atividades de Orihara Izaya para seu empregador e amigo. E Shizuo sabia que o cobrador não se alegrava sequer minimamente desta porcentagem tão alta. Com ou sem sua aprovação, entretanto, era um fato que 35% das dívidas que Tom era obrigado a cobrar estavam ligadas diretamente ao informante mais perigoso de Ikebukuro, o que significava que Orihara Izaya, sozinho, competia com as dívidas causadas pela máfia, uma organização inteira, responsável por 45% das dívidas que tinha que lidar.
Mesmo que não desejasse, portanto, Shizuo sabia mais do trabalho de Izaya do que gostaria de admitir. Sabia, por exemplo, que as informações vendidas por ele eram ridiculamente caras. Sabia, também, que o informante tinha duas diferentes formas de trabalhar: primeiro, quando abordava suas vítimas (ou clientes) com informações já prontas e as vendia, recebendo dinheiro vivo; segundo, quando era contratado para alguma investigação em específico. No último caso, Shizuo sabia, o contratante era obrigado a pagar metade do valor antes e metade após receber a informação. E era exatamente neste ponto que os trabalhos de Tom, seu empregador, e Izaya, seu pior inimigo, se cruzavam: as informações que Izaya tinha a oferecer eram, aparentemente, preciosas o bastante para que pessoas emprestassem de agiotas quantidades absurdas de dinheiro, daquelas quantidades que gerentes de bancos nunca aprovam, daquelas quantidades que os contratantes não conseguem pagar nem após vender tudo o que têm e que levam, por fim, um cobrador com seu guarda-costas loiro vestido de barman até a porta das casas atrás de uma quantia que provavelmente nunca poderá ser paga.
Quando Tom, ao encontra-lo na manhã de segunda-feira, anunciou que o distrito estaria “uma bagunça”, ele referia-se a absurda quantidade de devedores que viriam a usar um mesmo único argumento quando cobrados. Anúncio este que se mostrou certeiro aos longos dos dias corridos até aquela quarta-feira. Sem acréscimo algum de palavras, a resposta era sempre: “o informante ainda não me entregou a informação, não vou pagar nada”, como se esta fosse, de alguma forma, razão o suficiente para manter os punhos de Shizuo longe de seus rostos. Mesmo que não fosse o suficiente para tal proeza, entretanto, era o suficiente para fazer correr pelo submundo de Ikebukuro a notícia de que Orihara Izaya não parecia mais o mesmo.
Nem suas próprias suspeitas, nem a mensagem de Celty, nem a exclamação de Tom, entretanto, preparariam Shizuo para o que encontraria ao deixar o trabalho naquela quarta-feira.
Quartas-feiras eram sempre dias estranhos em Ikebukuro e isso era perfeitamente visível às 18 horas na praça central do distrito. Quartas-feiras eram, comicamente, o único dia nos quais as pessoas permitiam-se sentar nos pequenos bancos de concreto, em grupos ou sozinhas. Shizuo não fazia a menor ideia do porquê, mas tivera de ouvir há anos, quando voltava do colégio com Shinra insuportavelmente grudado a seus calcanhares, as teorias que justificavam tal fenômeno daquele que viria a ser o médico-clandestino. Segundo o rapaz, segundas e terças-feiras não permitem às pessoas um descanso pois, mostrando-as o choque de realidade em seus miseráveis trabalhos após um final de semana prazeroso, eram dias essencialmente desanimados que não despertavam em ninguém a vontade de sentar-se no que teoricamente deveria ser um espaço cercado por natureza em meio à selva de pedra. Quintas e sextas-feiras por sua vez, ao antecederem e prenunciarem o fim de semana, despertavam nos pobres assalariados que escolhiam o distrito como morada a vontade de aproveitar outras maravilhas que ele tinha a oferecer, como bares e restaurante.
O guarda-costas não sabia se concordava com a dedução do amigo e, verdadeiramente, não se importava sequer minimamente com o motivo que levava multidões a se reunirem naquele espaço. Não, ao menos, enquanto não resolvessem reunirem-se todas no mesmo lugar: o centro da praça, justamente no seu caminho de volta a seu apartamento. Quando se aglomeravam como formigas, transformando em tarefa trabalhosa o seu retorno a sua querida casa, Shizuo definitivamente encontraria problemas em quartas-feiras e suas estranhas confraternizações no parque. Foi, portanto, com os punhos coçando com a vontade de arremessar pessoas em ternos aos céus de Ikebukuro que Shizuo notou como, naquela quarta-feira em específico, elas se aglomeravam especialmente juntas e especialmente silenciosas. Curioso quanto a atípica forma de aglomeração, Shizuo acabou por aproximar-se e, conforme o fazia, percebeu que a reunião assumia estranho formato circular, como se as pessoas que a compunham assistissem a um espetáculo ou algo do gênero.
Talvez se sua curiosidade o permitisse, Shizuo teria percebido que a expressão nos rostos das pessoas reunidas em círculo não era condizente com um espetáculo de entretenimento, mostrando-se muito mais próxima de pavor do que de divertimento. Se tivesse o feito, talvez sua reação não teria sido tão enfática ao fitar o centro do círculo e, em especial, aqueles que o ocupavam:
– Mas que caralho é isso?
Sua voz soou alta e rude, quase como um rosnado, poderosa o suficiente para parar no ar o bastão de beisebol prestes a encontrar o rosto já machucado que agora o encarava com os olhos arregalados.
– Shizu-chan... me ajuda, não sei o que tá acontecendo.
O apelido: somente isso denunciava que aquele fio de voz pertencia a seu pior inimigo. E, ainda assim, Shizuo teria duvidado se lhe fosse permitido, pois, ainda que fitasse olhos que eram inegavelmente castanho-avermelhados, encontrava dificuldade em acreditar que aquele rapaz que se esforçava para manter-se firme em seus próprios joelhos era Orihara Izaya, o homem que correu dele e de sua força monstruosa através do distrito por tantos anos sem permitir-se ser pego. Ainda mais difícil foi acreditar que aquele era o informante que fazia tremer o submundo criminoso de Ikebukuro quando o que tremia imediatamente diante de seus olhos castanhos-mel eram os pequenos lábios avermelhados de sangue, como se todas as forças que deveriam ser empregadas a manter firme o corpo normalmente ágil fossem dedicadas a não deixa-lo chorar.
E se não estivesse prestes a explodir como boa bomba que era, Shizuo notaria quando os três homens diante dele – dentre eles o que segurava o bastão que provavelmente arrancara sangue dos lábios ainda trêmulos – encararam-no com medo, assim como notaria que a multidão ao seu redor recuara alguns passos sustendo a respiração, aumentando o círculo que fazia em volta deles, fazendo-o agora o centro dele. E, principalmente, notaria quando as pontas de seus dedos encontraram os fios negros, agora embaraçados e molhados de suor, em uma carícia dura.
– E-eu estava indo te procurar, mesmo que tenha me dito pra sumir... Eu i-ia cozinhar algo gostoso pra quando você voltasse... Mas dai eu en-encontrei com eles e eles gritaram comigo e... e... aqui está doendo, Shizu-chan...
Shizuo não fez esforço para olhar o local para o qual Izaya provavelmente apontava, mantendo fixos os olhos nos três homens que ainda o encaravam.
– Cadê seu canivete?
– Hum? – a voz de Izaya soava incerta, como se não compreendesse o porquê de sua pergunta.
– Cadê a merda do seu canivete, Izaya?
– Meu caniv...? Em Shinjuku... Da última vez que fui com ele te encontrar você ficou bravo comigo, entã-
Um rosnado baixo cruzou os lábios de Shizuo, cortando Izaya.
– Pulga idiota. – resmungou baixo, desviando os dedos longos para longe dos fios negros, afastando-se a passos lentos de Izaya e, dirigindo-se até um dos postes de iluminação que acabara de acender-se, arrancou-o num só impulso, girando-o brevemente entre as mãos antes de voltar a sua posição original, de pé ao lado do ajoelhado Orihara Izaya – Você não deve sair por ai sem a porra do seu canivete, maldito. Eu não sou o único aqui que quer te mat-
– Heiwajima Shizuo! – o grito alto chamou sua atenção de volta aos três homens a sua frente, que, agora, pareciam recuperados do choque e dispunham-se no que Shizuo considerou ser uma espécie de formação para ataque: aquele que gritara seu nome (e que julgou ser o líder) no centro, os outros dois a cada um de seus lados, a da direita com um bastão de beisebol, o da esquerda com uma pequena faca. Shizuo não precisava ser um gênio para saber que o do centro provavelmente trazia uma pistola, era sempre assim, afinal. Armas de fogo sempre faziam pessoas corajosas o suficiente para chamar seu nome e olhá-lo de forma desafiante – Esse assunto não é da sua conta!
Não importava se aquela era ou não uma mentira, se Shizuo acreditava que era ou não de sua alçada postar-se em frente ao caído Orihara Izaya com um poste de iluminação em mãos apontado aos homens que o acatavam, o fato era que ninguém, absolutamente ninguém, dizia a Heiwajima Shizuo o que era ou não de sua conta. Assim, o homem cuja pistola na cintura fazia tão corajoso sequer teve tempo para pensar no rosnado que ouviu escapar dos lábios do homem mais forte de Ikebukuro antes cair inconsciente aos pés daqueles que Shizuo julgava seus subalternos.
Um estalo irritado deixou os lábios de Shizuo. Sua intenção inicial era acertar todos os três de uma só vez, os homens armados de bastão e faca, entretanto, mostraram-se um pouco mais espertos que seu chefe e desviaram do golpe.
O guarda-costas recuou um passo, pronto a tomar impulso para um novo giro do poste em suas mãos, mas acabou por assustar-se ao ouvir um gemido agudo.
– Ai, Shizu-chan, pisou na minha mão!
– E porque diabos você tá atrás de mim?
– Como assim? Estive aqui o tempo todo.
– Se não vai lutar, pulga, se afasta. Tá atrapalhando, idiota.
– Que rude, Shizu-chan!
– Cala a boca, Izaya! Eu devia deixar eles te acerta- – Shizuo viu-se obrigado a calar-se ao sentir um impacto no metal entre suas mãos, olhou o homem ao chão num misto de indignação e diversão ao notar uma faca ali cravada – Amiguinho seu, pulga?
– Nem conheço.
Izaya deu de ombros antes de afastar-se, engatinhando até onde se encontravam as pessoas ainda reunidas em círculo e deixando o caminho livre para que Shizuo pudesse mover-se da maneira como queria. E foi exatamente o que fez.
Os dois homens não representavam nenhum perigo em especial. O homem com a faca mostrou-se ainda menos habilidoso do que o guarda-costas esperava de alguém que escolhia tal arma. De alguma forma, ele esperava mais de alguém que optava por lâminas, arma pela qual optava também seu pior inimigo. Aquele homem, entretanto, parecia não saber exatamente como lutar daquela forma, sendo estúpido o suficiente para trazer consigo apenas uma arma e arremessa-la contra Shizuo na primeira oportunidade, não somente abrindo mão de sua única lâmina, mas também errando o alvo ao cravá-la no poste de metal com o qual Shizuo agora o acertava. O segundo homem não foi idiota o suficiente para lançar o bastão contra Shizuo, mas, numa briga entre bastões, não havia forma de ganhar contra o poste de iluminação que o guarda-costas trazia em mãos.
A briga teria sido, portanto, bastante rápida e fácil. Shizuo poderia facilmente tê-los derrubados juntos em um único golpe. Poderia. Se estivesse em seu estado normal. Mas a verdade é que não havia forma de que o homem mais forte de Ikebukuro se concentrasse em sua luta enquanto ouvia os comentários feitos a suas costas na voz de Orihara Izaya.
“Hey, hey! Você viu isso? O Shizu-chan fica tão legal segurando este poste, né? Tão imponente!”
“E ele veio me salvar. Tipo um príncipe, né?”
“Me diz? Você acha que somos namorados?”
“Eu pensei que a gente fosse... Mas o Shizu-chan me disse que não.”
“Mas há alguns dias eu peguei ele me olhando enquanto eu dormia!”
“E ele até fez um carinho em mim...”
“Eu acho que a gente é namorado sim, não sei por que ele esconde isso!”
“Você também não acha?! A gente faz um casal legal, né?!”
“E o Shizu-chan é tão bonito... E gosta da minha comida! E fica tão fofo comendo...”
“E dormindo... Ele dorme tão bonitinho! Tão quentinho...”
Ninguém respondia a Izaya, mas isso não era um fator relevante a Shizuo. Mesmo que todos olhassem o informante num misto de receio em afastar-se e vontade de desaparecer o quanto antes, o guarda-costas não podia evitar sentir-se extremamente desconfortável com a situação. Desconfortável ao ponto de errar seus golpes e levar muito mais tempo do que deveria naquela luta que estava ganha desde o início. Quando, entretanto, ouviu o baque surdo do poste de iluminação entre seus dedos quebrando o que julgou ser uma das costelas do último homem em pé, Shizuo não teve escolha a não ser respirar fundo, soltar finalmente o metal já quente entre seus dedos e virar-se para Izaya, que, com sangue seco ao redor dos lábios, o encarava com olhos ridicularmente brilhantes.
– Foi incrível, Shizu-chan! Eu não consegui ver direito antes porque eu era o alvo! Mas você é muito, muito, muito forte!
O primeiro impulso de Shizuo ao ver-se vítima de tal intenso olhar foi abaixar-se para pegar novamente a barra de ferro e acertá-la em Izaya, mas, percebeu no instante no qual ouviu um riso nervoso levantar-se na multidão a sua frente que, acima de qualquer desejo de fazer Izaya pagar pelo que dizia a suas costas durante a luta, ele queria com toda a sua alma sair dali. Mesmo que acontecesse com mais frequência do que gostaria de admitir, Heiwajima Shizuo assumia odiar ver-se no centro das atenções. Ter olhos voltados para si era função de seu irmão mais novo e sua beleza estonteante, Shizuo, enquanto pudesse escolher, desejaria estar longe dos holofotes.
Claro que havia outra forma de fazer com que todos deixassem de olhá-lo, mas, agora mais calmo devido a recente explosão da briga anterior, reconhecia que acertar metade dos assalariados de Ikebukuro com a barra de metal aos seus pés não era uma opção saudável. Assim, mesmo a contragosto, caminhou até Izaya e disse no que acreditou ser um tom baixo:
– Consegue andar, pulga?
– Se eu disse que não, vai me carregar como uma princesa?
– Não. Vou te arrastar.
– Bom, acho que, então, se for assim... – Izaya calou-se, limitando a levantar-se com esforço do chão, sorrindo mais uma vez um daqueles seus sorrisos abertos que Shizuo quase se acostumara a receber e seguindo-o em silêncio para além da praça, em direção a seu apartamento, deixando uma multidão silenciosa e confusa para trás.
O caminho até seu apartamento, mesmo que contemplasse uma considerável quantidade de longos quarteirões, foi feito em silêncio. Shizuo reduziu a velocidade de seus passos, mas não ofereceu em nenhum momento ajuda ao homem que se esforçava a acompanhá-los. O único movimento que fez no sentido de ajudar Izaya foi teclar rapidamente uma mensagem a Shinra exigindo que o médico passasse em seu apartamento o quão rápido quanto possível.
Jogar-se em seu pequeno sofá de dois lugares: esta foi a primeira ação de Shizuo ao entrar em seu desejado lar. Não era particularmente confortável, mas oferecia a ele a possibilidade de deitar-se com os joelhos dobrados e jogar a cabeça por cima de um dos braços estofados laterais, o que era, para Shizuo, neste momento, quase a definição de paraíso. Mais pelo dia de trabalho do que pela luta, ele sabia que precisava de um banho, mas o desejo de estirar-se e fumar um cigarro somado à consciência de que Izaya, mais do que ele, precisava meter-se em baixo do chuveiro, o fez levantar a voz e dizer enquanto liberava a fumaça do cigarro recém-aceso:
– Toma um banho, pulga. Tem sangue na sua cara. Já chamei o Shinra.
Um baixo agradecimento chegou aos seus ouvidos, os quais poucos minutos depois captaram o som do chuveiro ligado. Quando o cigarro entre seus dedos chegou ao fim, Shizuo permitiu-se fechar os olhos e suspirar fundo, relaxando no pequeno sofá.
Seu corpo estava quase entregue ao sono quando sentiu algo quente tocar seu rosto e acarinhá-lo suavemente, traçando os contornos de suas bochechas e queixo. Mais tarde ele usaria como desculpa o seu estado de pré-sono para justificar como manteve-se quieto diante do carinho, e até mesmo ousaria pensar, mesmo que sua família não fosse adepta de contatos físicos, que confundiu os dedos quentes que deslizavam por seu rosto com os dedos sempre frios de seu irmão mais novo. Mas a verdade era que sono algum ou recordação alguma de sua infância seriam o suficiente para mascarar o cheiro que sentia emanar da pele tão próxima a sua.
E ele poderia ter feito-se surpreso ao abrir os olhos e encontra-los fisgados pelo par castanho-avermelhados diante deles. Assim como poderia ter-se afastado quando o hálito quente de Orihara Izaya tocou seu rosto na forma de um baixo “obrigado por me salvar, Shizu-chan”. Ele poderia ter desviado para longe os dedos que agora traçavam as linhas de seus lábios, e distanciado-se quando a ponta gelada do nariz de Izaya tocou a ponta de seu nariz, chocando-se com ele algumas vezes. E, acima de tudo, poderia ter-se levantado ao ouvir um risinho baixo bater de encontro a seus lábios.
Tudo o que Heiwajima Shizuo fez, entretanto, foi respirar fundo, deixando o cheiro de Orihara Izaya mesclado a shampoo e sabonete infiltrar-se em cada mínima parte de seu corpo e cerrar novamente os olhos quando sentiu algo resvalar-se de leve em seus lábios. De olhos fechados, ele poderia dizer a si mesmo que o que sentia agora traçar suavemente a linha de sua boca eram os dedos longos, finos e cobertos de cicatrizes de cortes. Poderia dizer, se não sentisse estes tais dedos enroscarem-se e enrolarem-se em seus cabelos numa carícia sutil. Poderia dizer, se o que tocasse seus lábios não sorrisse enquanto o fazia. Mesmo sonolento, Shizuo nunca poderia convencer-se de que dedos sorriam. Sorrir era um gesto reservado somente a lábios. Apenas os maliciosos, vermelhos, insultuosos lábios de Orihara Izaya eram capazes de sorrir daquela forma.
Assim, mesmo depois que o sorriso morreu, deixando restar apenas um sopro que poderia perfeitamente ser classificado como suspiro, Shizuo teve certeza de que aquilo que sentia massagear sua boca, roçando-se a ela e chocando-se com ela, eram os lábios de seu pior inimigo. E sua mente poderia ter vagado por dezenas de diferentes caminhos ao sentir a inesperada carícia, mas tudo o que pode pensar era em como aquele choque, diferente de todos os outros que já trocara com o informante, era suave e macio.
E talvez tenha sido este absurdo único pensamento que o fez impulsionar suas mãos aos fios negros que caiam em seu rosto conforme Izaya se inclinava sobre si, entrelaçando neles seus dedos e puxando-os em carícias. E talvez tenha sido em resposta aos fios macios e parcialmente molhados que o homem mais forte de Ikebukuro acabou ele mesmo por selar os lábios juntos pela primeira vez, transformando o que era carícia em um contato que qualquer pessoa, sonolenta ou não, não hesitaria chamar beijo.
Quando o toque cessou, Shizuo reprimiu um sorriso diante do tom surpreso que escapou através dos lábios até então presos entre os seus. Ao puxar mais uma vez os fios negros, desta vez com mais força e em sua direção, entretanto, o som surpreso deu lugar a um novo selar de lábios, agora iniciado pelo homem que se inclinava sobre si, agora mais longo que o primeiro. Lábios inferiores pousados sobre lábios superiores.
Shizuo sabia que se deixasse-se deslizar minimamente a cabeça contra o estofado macio de seu sofá seria capaz de quebrar a simetria inversa e capturar entre os seus lábios o cheio lábio inferior de Izaya. Mas ele não esperava que quando o fizesse, o sentiria deslizar entre os seus, úmido. A imagem veio até sua mente sem permissão ou aviso, clara e nítida como se há poucos instantes seus olhos a tivessem capturado: a ponta da língua vermelha deslizando pelo lábio inferior, umedecendo-o em saliva antes de deixa-lo capturar por entre os seus.
No momento no qual tal imagem cruzou sua mente, Shizuo soube que ultrapassara um limite. Ultrapassara de tal forma que quase podia ouvir algo dentro de si quebrando.
Seu corpo lhe gritava a respeito da diferença enorme que havia entre deixar os lábios de Izaya massagearem os seus e senti-los deslizarem, molhados em saliva, e encaixarem entre os seus, que se separaram em um rosnar rouco e clandestino para receberem-nos. Também reconhecia que havia uma diferença enorme entre sentir os lábios molhados em saliva entre os seus e sentir a necessidade de fazer o mesmo, de umedecer também seus lábios e deixa-los deslizar contra os outros.
E, ainda que Heiwajima Shizuo nunca fosse admitir que havia alguma concordância entre ele e Orihara Izaya, ele não se surpreendeu ao perceber que o informante tivera a mesma ideia que ele. Shizuo não se importaria, entretanto, de assumir sincronia entre eles quando o resultado seria sua língua chocando-se de leve com a de Izaya, apenas suas pontas, afastando-se imediatamente, como se confusas por encontrarem um aliado no trabalho de umedecer os lábios do homem mais forte de Ikebukuro.
E Shizuo, se pudesse preencher sua mente com algo além da sensação de tocar Izaya de forma tão íntima, teria pensado que o informante era, sem dúvida, a personificação de sua loucura. Só assim ele poderia explicar como suas mãos que até então se mantinham entrelaçadas aos fios negros numa carícia que quase poderia ser dita suave desceram rudes pelo corpo do homem inclinado sobre si, agarrando com força sua cintura e o puxando em sua direção, trazendo-o sem hesitação nenhuma ao seu colo. E só loucura poderia explicar como o toque entre seus lábios, que dantes tanto tinha de carinho, transformara-se em desvario.
E não importava qual seria a opinião inânime, era fato que o contato de antes, o leve pressionar dos lábios, não merecia a alcunha de beijo. Não um beijo entre Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya.
Um beijo entre eles era aquele que começara agora. Aquele que levava os dedos finos e marcados por cicatrizes de cortes a enroscarem-se com forças nos fios descoloridos, puxando-os contra si com desespero. Aquele que permitia aos braços fortes enlaçarem com força a cintura magra, mantendo preso a si o corpo em seu colo. Aquele que era um caos, que mordia, que sugava, que gemia, que não respeitava os limites dos lábios, que afastava-se afoito e aproximava-se em desespero. Aquele beijo que não permitiria a ninguém confundir seus participantes com outros que não os dois mais perigosos homens de Ikebukuro.
E, ainda que findasse e recomeçasse, que reduzisse ou enlouquecesse, ninguém seria capaz de dizer que aquele não era, estranhamente, um único beijo, que tudo estava inexoravelmente interligado. E se, naquele momento, alguém possuísse suficiente coragem para perguntar, Shizuo não negaria que mesmo que os dentes de Izaya cravassem-se com força em seu pescoço, ele ainda podia sentir os lábios finos moldando-se aos seus, a afiada língua entrelaçando-se a sua, o hálito malicioso misturando-se ao seu. E, ainda que os gemidos soassem ao pé de seu ouvido enquanto dedicava-se ele mesmo a marcar a pele pálida do informante, ele poderia jurar senti-los como se vibrando dentro de sua boca. E ele, verdadeiramente, não poderia garantir mais tarde que não fora exatamente assim. Não poderia garantir que no meio da loucura de receber Izaya entre seus braços, tudo não acabou por confundir-se e transformar-se em caos. Talvez o homem cuja língua contornava agora seus lábios possuísse mesmo algum poder deste tipo.
– Uau! Isso é um beijo sexy! Celty, querida, eu te acho perfeita do jeito que é, definitivamente perfeita!, mas confesso que desejei agora que você tivesse cabeça para poder me beijar assim! Ai, ai, amor, doeu!
Mesmo que Shizuo soubesse que havia algo como loucura em Izaya, não havia forma de convencer-se de que os sons ousados que deixavam os lábios do informante pudessem ter-se transformado em exclamações exasperantes na voz de Kishitani Shinra. Assim, mesmo que ainda deixasse os lábios a marcarem a curva entre o pescoço e ombro pálidos, involuntariamente levou os olhos confusos até a figura parada a poucos metros de onde estava.
– Antes que diga alguma coisa, preciso explicar: Eu recebi sua mensagem pedindo para que viesse o quanto antes. Poucos minutos depois de recebê-la, minha bela Celty chegou ao nosso ninho de amor contanto sobre a briga na praça central. Fiquei bastante preocupado com o Izaya-kun, pensei que devia ser algo sério para que você me enviasse uma mensagem assim do nada, então juntei minhas coisas e vim o mais rápido que pude até aqui. Mas... bem... encontrei algo totalmente diferente do que esperava. E não me adianta olhar assim como se não entendesse! Você tá vendo, Celty? Tá vendo o mesmo que eu, né?! E viu antes também, né?! Eu entrei aqui e bum!, vocês estavam se pegando! Eu entrei bem na hora que o Izaya-kun te prensou com força no sofá, Shizuo. E eu vi quando você o puxou contra seu... hum... sua pélvis? Bom, melhor falar assim na frente da minha doce Celty! E então ele mordeu sua boca e, caramba!, uau, eu vi a língua de vocês dois! Tipo, assim, sabe?! Juntas e talz. E você mordeu o queixo dele e lambeu o pescoço! Caraca, o Izaya deve estar todo babado. Ah, Celty, querida, queria que você tivesse um queixo. Não, não, amor, não tô reclamando! Mas seria legal se você gemesse pra mim daquele jeito! Ai, Celty! Qual o problema? Eles estão se pegando ainda! Ei, Shizuo, tira a boca dele enquanto me ouve. E, Izaya-kun, não adianta esconder assim, eu vi seu rosto até agora pouco. Você viu, Celty? Quando o Shizuo colocou a mão por dentro da camisa do Izaya-kun?! Caramba! Aquilo foi quente! E logo depois o Izaya-kun se virou de frente e agarrou o Shizuo-kun com as pernas! Hehehe. Izaya-kun, sabia que ainda está grudado no Shizuo? Shizuo, por fins unicamente científicos, poderia me dizer se está duro?
Shizuo piscou, confuso, seus olhos acostumando-se lentamente com a realidade que agora se impunha a ele. Num instante encarava um Kishitani Shinra a tagarelar a sua frente como um lunático, no instante seguinte, o peso em seu colo desapareceu e o som de uma porta batendo com força preencheu o apartamento.
– Hehehe. Talvez eu devesse ter feito a última pergunta pra outra pessoa... Aquele é seu banheiro, Shizuo?
Encarou o médico clandestino a sua frente. Podia ver com perfeição a maleta em suas mãos e o sorriso malicioso preenchendo seus os lábios.
– O que está fazendo aqui?
– Já disse, Shizuo-kun. Recebi sua mensagem e-
– Não isso, idiota! O que está fazendo aqui dentro?
– Ah! Isso! Eu bati, mas acho que alguém estava ocupado demais para atender a porta, né?! – o sorriso em seus lábios alargou-se para, então, suavizar-se – Então entrei. Estava preocupado que algo de grave tivesse acontecido. Mas acho que, sinceramente, vocês estão ótimos, né, Celty?
Receosos, os olhos castanhos-mel desviaram-se na direção da amiga, arrependendo-se no instante seguinte de terem-no feito. Shizuo não tinha dúvidas de que Celty, caso as possuísse, estaria com ambas as bochechas coradas. O peso de encarar a entregadora daquela forma mostrou-se para ele mais constrangedor do que qualquer uma das infindáveis palavras que cuspira Shinra no instante anterior.
“ — Shizuo, desculpe... eu não tentei impedir que ele entrasse porque também estava preocupada. Mas fico feliz por ver que estão bem. Izaya não está machucado, certo?”
E, ainda com os olhos baixos, presos ao palmtop, o guarda-costas sussurrou a confirmação de que não, Izaya estava perfeitamente bem.
– Ele parece super bem pra mim. Só um pouco de sangue na boa dele, mas acho que isso foi sua culpa, né, Shizuo-kun?!
– Cala a boca, idiota. A pulga foi burra o suficiente para sair sem a merda do canivete e apanhou de uns idiotas na rua. Já estava com a boca sangrando antes de...
Shizuo calou-se, sequer ouvindo quando, com um riso, Shinra preencheu as lacunas de sua fala anterior com “antes de vocês se pegarem loucamente no sofazinho”. Mas talvez o médico clandestino reprimisse suas provocações se soubesse que elas acabaram por abafar um sussurro baixo, quase inaudível.
– Beijo.
Moldada através de anos na forma de gritos e rosnados, mesmo Shizuo não seria capaz de reconhecer a voz que escapou de seus lábios. Mas ele nem mesmo podia dizer se aqueles lábios, ainda que se movessem conforme suas ordem, eram mesmo seus. Não quando eles tinham tanto do gosto de Izaya.
Não o teria feito se soubesse que tinha público, se soubesse que, ainda que Shinra agora se esgueirasse até a porta de seu pequeno banheiro com um sorriso suspeito no rosto, a atenção de Celty era toda sua. Mas, ainda que soubesse, talvez ainda assim não pudesse ter controlado a carícia confusa que agora seu polegar direito dedicava a seu lábio inferior. Da mesma forma que não pode controlar quando sua língua moveu-se devagar, roçando-se contra o céu de sua boca.
Se pudesse concentrar-se em outra coisa além das sensações em sua boca, Shizuo questionaria como uma carícia que terminara tão inesperadamente quanto começara tinha o poder de ainda fazer-se tão viva em seu corpo.
Diferente da explosão que viria em seguida, o arrepio começou devagar, gelando primeiro o fundo do estômago de Shizuo para só então espalhar-se por sua coluna até atingir os pelos de sua nuca. Quando, por fim, cada centímetro de seu corpo queimava como se em chamas, o guarda-costas separou os lábios em um rosnar alto o suficiente para estender seu próprio arrepio aos três que o olhavam com atenção:
– Fora da minha casa agora!
Mesmo que seu peito arfasse em fúria, o guarda-costas limitou-se a assistir enquanto Celty caminhava até o noivo, parado entre a sala e o banheiro, e, tapando com uma das mãos sua boca, arrastou-o até a porta de entrada. Foi somente quando Shinra moveu-se que Shizuo notou um par de olhos castanho-avermelhados olhando-o surpresos. A fúria que ainda preenchia cada centímetro de seu corpo vacilou quando notou que os olhos de coloração tão atípica baixaram-se e acabou por quebrar-se quando percebeu Izaya seguir pelo mesmo caminho que o médico clandestino e a entregadora.
Shizuo não soube explicar o que o levou a mover-se, assim como não soube explicar absolutamente nada do que acontecera naquele dia a partir do momento no qual Izaya inclinou-se sobre si no pequeno sofá de dois lugares e pousou os lábios nos seus, mas, tão de repente quanto fora o inesperado beijo, Shizuo viu seus dedos se fecharem no pulso fino e barrarem o avanço de seu pior inimigo até a porta de entrada de seu apartamento. E, assim como não reconheceu a voz que deixara os lábios que lhe pareciam tão estrangeiros ao sussurrarem a palavra “beijo” minutos antes, também não reconheceu a voz que lhe escapou ao sentir a pele de Izaya contra sua mão direita:
– Você não, pulga. É perigoso ficar por ai sozinho. Você fica por aqui a partir de agora.
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