(in) esquecível

30 Sobre como você era o giro na maçaneta destrancada


Notas iniciais
Olá, olá, olá, olá, tudo sucesso por ai? Sim, eu sei, eu demorei. Não me orgulho nem um pouco disso. Tive vários motivos para isso. Parcialmente pelo ponto da história a que chegamos. Parcialmente porque achei um capítulo complicadinho. Parcialmente porque, por mais que eu tente evitar, a vida da pessoa por trás da Yuki afeta na vida da Yuki e quando a primeira está com problemas e insegura a segunda sofre junto. Mas, por outro lado, se a gente for otimista (hahahha... sou a rainha do otimismo), e considerar que o capítulo tem 9700 e poucas palavras, é quase como pensar que eu atualizei a cada quinze dias com um capítulo de quase 5000 palavras ou toda semana com um de quase 2500. E daí nem parece tão ruim meu sumiço de um mês, parece?! XD Enfim, tô tagarelando, né?! Vou parar... ... logo depois de agradecer todo mundo que favoritou, leu, comentou e dedicou um pouquinho do tempo pra história dessa gente perdida aqui! Valeu, gente, vocês são incríveis! ♥ Nos vemos nas notas finais? Beijo, beijo, =* Yuki



Sobre como você era o giro na maçaneta destrancada

Izaya cantarolava ao seu lado.

Baixinho. Tão baixinho que o som do chuveiro quase não o permitia ouvi-lo.

Conhecia a canção. Tinha certeza de que sim. Kasuka, provavelmente. Algum filme, algum clipe, alguma participação, alguma coisa que a ligasse a ele o bastante para que ficasse marcada em sua memória e agora, ouvindo-a na voz suave e melodiosa de Izaya, sentisse com ela estranha familiaridade.

Era bonita daquela forma. Apenas melodia sem palavras. Talvez até mesmo mais bonita do que soava quando na voz do Heiwajima mais novo. Tão bonita que o homem mais forte de Ikebukuro não pode evitar manter os olhos e os lábios bem cerrados enquanto sentia cada músculo de seu corpo embalar-se por ela e relaxar sob a água quente do chuveiro, o peito esvaziando-se suave em um suspiro leve.

‘Suave’, ‘leve’ – se não tão relaxado, Heiwajima Shizuo sorriria dolorido diante da ironia de serem aquelas as sensações a preencherem-no quando até pouco tempo tinha o coração a mal caber-lhe dentro do peito, queimando em frustração e raiva.

Não precisava de muito esforço, afinal, para lembrar-se do quão pesados foram os passos que minutos antes o arrancaram da cozinha, firmes o bastante para ecoarem sonoros por seu pequeno apartamento. Nem para lembrar-se de que apenas o frio, tão intenso a enevoar cada uma das janelas de sua pequena sala-de-estar, o impedira de atravessar a porta de entrada e correr pelo distrito em desenfreada busca por coisa que nem mesmo sabia o que era. Ou para lembrar-se da fúria que queimava cada centímetro de seu corpo quando irrompera para dentro de seu diminuto banheiro e arrancara em desespero as roupas para meter-se trêmulo debaixo do chuveiro ainda frio.

Lembrava-se de tudo.

Lembrava-se da frustração. Da irritação. Da raiva. Do quanto não entendia Izaya. Do quando apesar de tudo desejou poder apenas abraçá-lo de novo. Do quanto quis ter metido o rabo entre as pernas e perguntado mais uma vez, bem manso, o que havia de errado com ele. Do quanto quis expulsá-lo aos berros, xingá-lo, ameaçá-lo. Do quão humilhado sentira-se em suas contradições. Do quanto quis poder simplesmente ignorar tudo. Do quanto já não mais sabia lidar com tudo o que queria.

E, definitivamente, lembrava-se, lembrança que assumia a forma de pequeno arrepio de raiva que percorria-o frio quando em quando o estômago, do quão difícil fora manter-se calmo quando, pouco depois de ter cerrado com força além da necessária a cortina plástica do box do banheiro, pouco depois das gotas constantes do chuveiro terem-se aquecido, ouvira a maçaneta girar-se e o cheiro de Izaya invadir o pequeno cômodo. Do quão desconfortável assistira a silhueta sombrosa percorrer muda o espaço reduzido para sentar-se sobre a tampa abaixada de seu vaso sanitário. Lembrava-se, com mais detalhes do que gostaria, de como sentira-se preso dentro do silêncio tão colado ao seu próprio. De como confusão quase dolorida enrijecera cada um de seus músculos à primeira nota da inesperada familiar música cantarolada baixinha.

Agora, contudo, com as ritmadas notas entrelaçando-se tão suaves ao som contínuo do chuveiro, o vapor quente preenchendo confortável o pequenino banheiro e a silhueta de Izaya tão tranquila difusamente visível através da cortina plástica, não podia evitar deixar-se tragar pela calmaria e lavar na água quente, junto aos fios loiros, também tudo o que desconfortavelmente lembrava-se.

Raiva alguma, afinal, e frustração alguma e lembrança alguma, mudaria o inquestionável fato de que havia sido ele quem deixara destrancada a porta pela qual Izaya entrara.

Mesmo que, em contrapartida, também porta destrancada alguma ou canção suave alguma fosse capaz de mudar o quanto de perguntas tinha a fazer ao informante.

O porquê de agir estranho. O porquê de acusá-lo. O porquê de fugir de seus toques. O porquê de procurar por eles em seguida. O porquê de segui-lo até o banheiro. O porquê de sentar-se tão quieto ao seu lado. O porquê de quebrar o silêncio tão desconfortável com uma canção cantarolada. O porquê de prender-se apenas às notas e ignorar todos os porquês.

O homem mais forte de Ikebukuro, contudo, nunca fora bom lidando com causas. Sua vida sempre fora, afinal, ele reconhecia, um infinito looping de consequências, sem que nunca a chance de fazer perguntas lhe fosse oferecida. Nunca. Tanto, até que desaprende-se a fazê-las, desaprendesse a meter-se em conversas desconfortáveis, em porquês de cenhos e lábios franzidos.

Sua voz, portanto, não era coisa que facilmente conseguia encontrar.

Talvez medo da resposta, do que Izaya escolheria para justificar a estranheza em seus atos ou do quanto o culparia por ela. Talvez porque sentia errado interromper a melodia, porque aquela fora a forma como Izaya escolhera quebrar o silêncio. Talvez porque fosse o bastante que Izaya o houvesse seguido. Talvez porque não desejasse lidar com os porquês que seriam devolvidos a ele quando expusesse os seus, porque não queria que naquele momento nem os lábios seus nem os de Izaya franzissem-se desconfortáveis. Ou talvez porque, de todas as formas de Izaya naquele dia, a calmamente sentada na tampa cerrada de seu vaso sanitário cantarolando despreocupadamente uma canção e assistindo seu banho era a que mais o agradava.

Não soube, portanto, no fim, o quanto disso era verdadeiramente seu o quanto era medo ou o quanto era a despreocupada canção baixinha, mas escolheu esperar, em silêncio, de Izaya o que viesse. Fossem as explicações ou outras canções, fossem as causas ou as consequências. Esperaria. Izaya nunca descobriria, afinal, a maçaneta que deixara destrancada se não a tivesse girado por si mesmo. Não a teria girado se não escondesse dentro de si suas próprias causas.

Quando, contudo, com um suspiro fundo que um tantinho truncou a melodia a silhueta na cortina se moveu desconfortável, Shizuo não pode evitar franzir o cenho e fitá-la confuso como se não realmente acreditasse que sua espera teria resultados.

— É muita coisa ao mesmo tempo. – a voz soava suave, como se ainda parte da canção, findou de imediato os movimentos dos dedos pelos cabelos que, desatento, pela segunda vez Shizuo enchia de shampoo. Por um instante, brevemente marcado por alguns piscares repetidos dos olhos castanhos-mel, o guarda-costas não teve certeza se o que ouvira era ou não para si. O silêncio, contudo, que seguiu a estranha afirmação, não o deixou permanecer em dúvida. A canção, cessada agora totalmente, finalmente ganhara palavras – Eu... Shizu-chan... Eu... – agora alta demais ecoava a voz truncada pelo pequeno cômodo, devagar como se prestes a desaparecer, demorando-se tanto em silêncios que quase duvidou que Izaya o entregaria mais. Quando, contudo, com um suspiro alto o informante recomeçou, pareceu reivindicar de volta todo o tempo gasto em silêncios, soltando todas as palavras como se as vomitasse: – Tem um redemoinho... um redemoinho de coisas dentro de mim. Tantas, tantas, todas afastando-se e aproximando-se, correndo de mim, correndo pra mim, entrelaçando-se e contradizendo-se, tão perfeitamente harmônicas e então discrepantes, num sentido que num momento não existe e no outro é absoluto. E quando eu estou quase chegan-... você me olha assim e joga ainda mais, muda as regras, coloca peças novas, arranca algumas antigas, troca os nomes, inverte os pontos. E eu entendo, e é esse o problema, eu entendo. Não sou idiota. Eu entendo. E ontem... Mas também antes disso... E as gêmeas... E aquelas ligações, os arquivos... E o Shinra... E hoje à tarde a Celty... E quando eu cheguei aqui e vi aquelas coisas espalhadas, marcadas, e como eu pensei que estaria tudo bem se fosse vo-... E... E todos os pensamentos assim que não se deixam reprimir... É patético... E... E o quanto, no fim de tudo, depois de correr tanto, tudo o que alcanço é não saber mais o que pensar. De mim. De você. Do que tá acontecendo. De como seria se eu fosse eu e você fosse você. De verdade. Do que consigo e do que não consigo acreditar.

As sobrancelhas castanho-claro, que progressivamente franziam-se duras conforme cada uma das palavras altas demais de Izaya ecoava pelo tão pequeno banheiro, uniam-se quase juntas quando, por fim, o informante calou-se, a respiração descompassada tão mais audível do que era até momentos atrás a canção cantarolada.

‘jogo’

‘regras’

‘sentidos’

‘Eu entendo’

‘Não sou idiota’

‘ligações’

‘De verdade’

‘aquelas coisas’

‘acreditar’

As palavras jogadas sobre si pareciam soar ainda mais altas quando repetidas em sua cabeça, ainda mais sôfregas do que ao ecoarem por seu banheiro agora mais uma vez silencioso, ainda mais ansiosas a cada repetição, ainda mais incompreensíveis quanto mais as repetia...

‘De mim’

‘De você’

‘patético’

‘reprimir’

‘Celty, Shinra, gêmeas’

‘arquivos’

... incompreensíveis ao ponto de não mais possuírem sentido algum, de tornarem-se um amontoado de sons que não encontravam referente algum independentemente do tanto que franzisse seu cenho procurando-o.

‘Patético’ – ecoou mais uma vez a voz em sua cabeça, agora misturando-se à sua própria e ganhando a ele mesmo, Heiwajima Shizuo, como dono.

— Você não entendeu nada, Shizu-chan, entendeu? – a voz, só um sopro se comparada com a que anteriormente ecoava por seu pequeno banheiro, gelou seu estômago.

Não entendera. Verdadeiramente não entendera.

Tampouco sentia, contudo, que havia algo ali a ser entendido. Tampouco sentia que se pedisse por explicação receberia alguma. Tampouco sentia que o dono da voz ainda a ressoar alta em sua mente possuía uma.

Não foi, portanto, para pedir por esclarecimentos ou por novas palavras que afastou devagar a cortina, a mão ainda ensaboada em shampoo. Não esperava por nada de Izaya, afinal. Não esperava mesmo antes de fitar com os olhos abertos demais a cabeça a pender por sobre as mãos, os dedos enfiados com força entre os cabelos negros, a respiração curta e a postura tensa. Antes mesmo de observar atento um Orihara Izaya que parecia, mais uma vez, prestes a quebrar.

— Não importa. – resmungou. E surpreendeu-se por, verdadeiramente, não importar-se, por não mais desejar as explicações que há pouco pareciam tão fundamentais. Por, de todas as centenas de repetições, a única coisa a ter permanecido ter sido a sutil compreensão de que não era o único perdido, o único a correr em círculos sem chegar a lugar algum e isso, por mais que não devesse, o confortava. Izaya também estava pensando, também estava confuso. E a revelação, ainda que óbvia, de que o informante não passava imune por todos os acontecimentos que envolviam os dois, o deixava quase aliviado – Tá tudo certo, pulga. – acrescentou, acenando firme e afastando-se da pequena fresta, involuntária culpa por flagrar o suposto mais perigoso informante de Tóquio naquela forma tão frágil – Vai com calma. É foda mesmo.

“É foda pra mim também...” – quis acrescentar – “Tudo certo. Outra hora a gente tenta entender. Tá ok. É foda. Não esquenta.” – calou-se, contudo, mais uma vez, virando-se ao chuveiro, decidido a retomar o banho e engolir as perguntas e os consolos fajutos que poderia oferecer, forçando-os garganta abaixo. Um risinho, contudo, chamou de volta à fresta na cortina seus olhos.

Um suspiro surpreso escapou-lhe quase como engasgo quando no lugar da figura abatida encontrou na pequena abertura na cortina um par de olhos castanho-avermelhados sorridentes olhando-o intenso. Ao transformar-se, contudo, a intensidade em pequenina gargalhada, Heiwajima Shizuo não teve escolha que não rir junto, ainda que apenas sorriso discreto abafado pelo fluxo de água do chuveiro.

— ‘É foda mesmo’. – repetiu o informante em forçada imitação de sua voz – Sabe daquele tipo que não dá pra acreditar? Então... Você é incrível, Shizu-chan!... Ao menos nunca poderei, definitivamente, reclamar das novas memórias que está me dando, não é?!

Um piscadela e um sorrisinho de lado e lá estava, de volta, o Izaya dos olhos brilhantes em diversão. Teria insistido, naquele momento, ao ver de volta à expressão do informante algo tão mais leve que o transtorno anterior, silenciou-se, contudo, com um bufar alto, uma careta e o fechamento mal-humorado da cortina. Ainda queria, sem dúvidas, entender o que acontecia, mas não mais do que queria o sorriso leve e o olhar despreocupado e o novo silêncio confortável cortado apenas pelos ruídos do chuveiro ainda ligado...

... e pela canção que, baixinha, apenas melodia sem letras, mais uma vez soou.

Inspirou fundo, fechando agora voluntariamente os olhos e deixando-se tragar de novo pela tranquilidade que quase nunca era-lhe permitida.

— Qual é es-?

— Essa é a primei-

Um risinho divertido irrompeu ao seu lado e Shizuo não pode deixar de acompanhá-lo, surpreso.

— Você primeiro, Shizu-chan, nunca me perdoaria se cortasse alguma possibilidade de te ver tentar iniciar uma conversa.

— Cala a boca, pulga, seu merda... – rosnou, ainda que sem irritação, submerso demais em alívio para verdadeiramente incomodar-se com a clara provocação. Apesar de normalmente tão irritante, era definitivamente mais fácil lidar com um Orihara Izaya debochado do que com um Orihara Izaya perdido – Eu só queria saber que música é essa.

— Oh... bem... não é um tópico de interação muito grandioso, mas é um começo, Shizu-chan, estou orgulhoso... Enfim... é de um filme com um grande ator da atualidade, Hanejima Yuuhei, conhece? Ele está surpreendentemente aparecendo em quase todos os filmes ultimamente. O rostinho bonito de bons genes está espalhado por toda Ikebukuro. O irmão dele mora aqui por perto, você já deve ter topado com ele algumas vezes... Um bom rapaz, único problema o vício em pudim... – estalou os lábios, contrariado, e ganhou de Izaya um novo riso divertido – Estava passando na TV quando você chegou.

— Tava ligad-?

— Tava, desliguei quando te ouvi chegar. Eu precisava, afinal, me concentrar na expressão empenhada que você faria enquanto olhasse para minha testa e tentasse descobrir o que tinha de errado. Foi adorável, Shizu-chan, adorável! Quase tão adorável quanto o irmão mais velho do ator famoso, o pudinzão ambulante.

— Tsc. Quieto, pulga! Só fala merd-

— Mas não posso te culpar, Shizu-chan... Me lembro como também não soube lidar quando foi contigo. Lembra do susto que levei quando te flagrei pintando o cabelo? E eu sabia, claro, que você não era loiro natural, mas certamente a memória de você com uma toalha nos ombros, pincel nas mãos, cara raivosa e cabeça melecada vai ficar pra sempre comigo como preciosa. Você parecia prestes a obliterar a tinta, Shizu-chan. Eliminá-la da face da terra e perseguir todos os descendentes, as pobres pequenas tintazinhas loiras escondidas em supermercados e lojas de cosméticos, até que dela não sobrasse sequer história.

— Odeio pintar o cabelo. – resmungou, involuntariamente levando uma das mãos aos fios loiros e penteando-os apressado, esforçando-se para empurrar para longe a memória desconfortável. Descolorir os fios ainda era, ele admitia, algo que o irritava, mesmo que reconhecesse o papel dos fios loiros na diminuição do número de brigas nas quais envolvia-se. Tão útil que até mesmo o fazia relevar o fato de, quando em quando, Izaya provocá-lo por causa da cor.

— Você faz várias coisa que odeia, não é Shizu-chan?!...

Corou involuntariamente, mais pelo tom sério do que pelas palavras nele. Odiava como Izaya oscilava entre sério e animado sem qualquer prenúncio. E odiava ainda mais como o silêncio sempre era a única resposta que conseguia encontrar para entregar quando o informante oscilava entre humores.

— O que você ia dizer, pulga? – perguntou, disposto a não deixar que, mais uma vez, Izaya ditasse o ritmo.

— Quando?

— Quando falou junto comigo.

— Ah! Ia dizer que é a primeira vez que te vejo assim.

— Assim como?

— Assim.

O xingamento sobre a obliquidade de Izaya engasgou-se um sua garganta, imediatamente substituído por um arfar pesado e dois passos de recuo, quando, no lugar da silhueta indecifrável na cortina de plástico que há pouco cerrara, ao virar-se encontrou mais uma vez um par de olhos castanho-avermelhados olhando-o intensos através de uma fresta tão grande que mal podia mais chamar-se assim. Por pouco, muito pouco, conseguiu conter o impulso de vergonhosamente cobrir com as mãos ainda ensaboadas o baixo ventre. O rubor nas bochechas, contudo, não foi algo que conseguiu evitar, tanto mais intenso quanto mais entendia as palavras de Izaya.

— Não é. – retrucou, as mãos desconfortavelmente voltando à função de ensaboá-lo e os olhos fixos no olhar atento do rapaz ao seu lado.

— Não, não é. – concordou, a voz alta o bastante para não mais poder encaixar-se em canção alguma, tão divertida que Shizuo quase pôr-se a duvidar de que era mesmo aquele o rapaz que há menos de quinze minutos desviava de seus toques no cômodo ao lado. Quando a fresta na cortina se vez ainda maior, contudo, e um rosto plenamente sorridente encarou-o admirado, não se preocupou mais com dissonância alguma. Estava preso nele, no sorriso divertido e nos olhos brilhantes. O infundado acanhamento o abandonou de imediato. Não havia malícia em Izaya, nem no sorriso aberto nem nos olhos atentos nem na mão que sorrateira infiltrava-se por entre a fresta e tocava suave sua barriga – Mas é, ao mesmo tempo. É sempre você quem fica olhando... O que me lembra que – um riso baixinho dançou nos lábios do informante, leve, fácil, enquanto os dedos brincavam divertidos ao redor de seu umbigo – foi aqui a primeira vez que você me viu pelado. Eu estava sangrando e você fez uma piadinha cretina sobre o tamanho do meu pau... Sério, Shizu-chan! Você é horrível!

— Não é mesmo grande coisa, pulga. – retrucou, incapaz de evitar um sorriso, mais pela diversão de Izaya do que pela própria – Mas nem olhei de verdade nesse dia.

— Nesse dia. – repetiu Izaya, sorrindo largo, apegando-se, como sempre, nas palavras mais curiosas de suas declarações – E, bem... não posso dizer o mesmo da minha parte. Eu estou olhando, Shizu-chan. Olhando de verdade.

Arfou, surpreso, desviando o olhar para os dedos quentes agora a deslizarem devagar através de sua barriga até o meio de suas coxas. Devia afastá-los. Bem rapidinho. Talvez uma ameaça bastasse, apenas o suficiente para que dele fugissem, então cerraria outra vez a cortina e fugiria ele mesmo do sorriso tão aberto e dos olhos tão brilhantes. Berros, em seguida, um xingamento ou outro, terminariam de expulsar Izaya para longe de seu pequeno banheiro para que, então sim, pudesse lavar o sabonete que já quase secava em sua pele e terminar o banho que já tanto mais do que devia havia durado enquanto tentava se esquecer do calor do toque tão suave. Todo o plano tão bem arquitetado ruía, contudo, a cada novo caminho tracejado pelas pontas do dedos tão macios em sua pele nua.

Não eram toques de todo maliciosos, ele admitia. Se não estivesse nu e ensaboado, no banho, enquanto Izaya metia sorrateiro a mão através de uma abertura na cortina para tocá-lo, poderia até mesmo pensar que eram mais carinhosos do que eróticos. Não que fizesse diferença. O fato de que era aquele o seu corpo e aquela a mão de Izaya era mais do que o bastante para que, sem nada para disfarçá-la, sua ereção despontasse imponente. E foi, por fim, por culpa dela – e apenas dela – que permaneceu quieto, a respiração acelerando-se e os olhos presos nos dedos longos e cobertos de cicatrizes, agora quase frios em sua pele tão quente, traçando sinuosa linha entre o início e o fim de suas coxas.

— Agora sei porque todo mundo fica te olhando o tempo todo, Shizu-chan... É impossível não olhar.

Um riso anasalado, muito mais frustrado do que divertido, escapou por seus lábios.

— Tenho certeza de que não é por causa disso, pulga. – resmungou, entredentes, a respiração descompassada.

— E sei porque ficam me olhando, também. É tudo ciúmes porque posso te olhar tomar banho, não é?

O segundo riso, diferente do primeiro, encheu-se plenamente de diversão.

— Também tenho certeza de que não é por causa disso, pulga.

— Ou porque não é todo mundo que pode te ver rindo assim. – o comentário, sussurrado baixinho, arrepiou cada um dos pelos de seu corpo e o calou de imediato, obrigando-o a olhar Izaya com surpresa – Ah, não, pensando melhor, acho que é por causa da sua bunda incrível mesmo.

O dedos, que carinhosamente contornavam seu umbigo, caminharam sem pressa até uma de suas nádegas, para, então, entregarem-lhe um firme aperto. A surpresa pelo apertão perdeu-se de imediato, entretanto, sobreposta pela surpresa da proximidade entre ele e o rapaz ainda sentando no vaso sanitário. Era inegável que, em algum momento daquela conversa estranha, havia se aproximado o bastante para que Izaya não mais precisasse esticar o braço para alcançá-lo. Ele certamente coraria diante da entrega tão descuidada se ela não o agradasse tanto.

— Hey, pulga, – chamou, atraindo para seu rosto a atenção dos olhos castanhos-avermelhados que perdiam-se até então em algum ponto entre sua coxa e panturrilha – vem cá.

O olhar intenso e as sobrancelhas arqueadas: Shizuo deu-se conta do conteúdo de sua proposta apenas quando a atenção de Izaya prendeu-se em seu rosto. O informante, contudo, diferente dele, não pareceu ter grandes problemas em entendê-la, preenchendo de malícia o sorriso e de calor as carícias. Não havia mais sequer mínima chance de que os dedos agora a enrolarem-se suaves em seus pelos púbicos pudessem-se confundir com suaves e pudicos.

— Obrigado pelo convite, Shizu-chan. Muito gentil de sua parte. – Shizuo não pode conter um resmungo insatisfeito quando os toques quentes afastaram-se de sua virilha com um puxão suave, qualquer reclamação morreu, contudo, no momento no qual de um só pulo Izaya pôs-se de pé, afastando-se da abertura na cortina e não mais deixando-se ver. Foi, no fim, com o corpo arrepiado em expectação diante da possibilidade de que o informante aceitasse sua proposta e os olhos presos na silhueta parada diante da cortina que ouviu: – Mas já tomei banho quando cheguei. Inclusive estou com uma das suas cuecas neste exato momento...

Shizuo, certamente, teria se frustrado com a negação, bufado alto em reclamação, xingado o informante por mais uma vez tê-lo provocado apenas para deixá-lo sozinho, se, em seguida não ouvisse, bem baixinho, arrastado como um ronronar:

— Quer ver, Shizu-chan?

Com a proposta tão sugestiva nublando-o a mente, não havia no homem mais forte de Ikebukuro lugar a nenhuma reação que não assistir de olhos excessivamente abertos a silhueta na cortina começar a despir-se. Apenas sombra, ainda mais nebulosa pelo vapor no banheiro, mas, ainda assim, tão perfeitamente distinguível que não podia dela desviar o olhar.

Primeiro o casaco, os dedos movendo-se lentos pelos botões, no rosto um sorriso tão malicioso que fazia-se sentir mesmo através da cortina cerrada. As mãos então espalmadas na cintura, arrastando para longe da pele, pouco a pouco, a camisa negra, levantando-a como cortina de um palco. Um estalo sonoro e um riso alto ressoaram por sua espinha quando com um ricochetar alto o cinto de couro deslizou para fora das calças negras desbotadas e, com uma batida forte dentro de seu peito, Shizuo pode ver com perfeição como, sem a peça, o tecido escorregava um pouco pelo quadril estreito. Por fim desistiu, cerrando bem firme os olhos, incapaz de continuar a fitar os dedos que até pouco tocavam-lhe prenderam-se ao cós da calça. E, talvez em uma espécie de consolo pela punição de fazer-se cego, sequer tentou impedir quando suas mãos correram rápidas até seu baixo-ventre.

Tocou-se com empenho mesmo não desejando tocar-se e manteve os olhos bem fechados mesmo que os desejasse abertos aos limites, o corpo queimando com o involuntário medo de que, se fizesse o que queria, perderia tudo de uma só vez. Medo de arrancar a cortina e a silhueta desaparecer junto a ela. Medo de abrir os olhos e não encontrá-la mais ali. Medo que o manteve estático debaixo do fluxo de água até mesmo quando, com um passo à frente, Orihara Izaya livrou-se das calças presas a seu tornozelo e suspirou fundo em sua direção.

— Não quer ver, Shizu-chan? – a voz, lenta e arrastada, arrancou-o um fôlego – Prefere se divertir ai sozinho? – a malícia na pergunta o fez abrir os olhos de uma só vez, enormes em culpa – O que foi esse pulo, Shizu-chan? Surpreso que eu saiba o que está fazendo? Sério, eu sempre me surpreendo com como você sempre acha que é o único agindo, Shizu-chan. O único olhando. O único pensando. O único se divertindo. Você não é o único, Shizu-chan, te garanto. Eu consigo te ver, também... Consigo te ver perfeitamente. Consigo ver suas mãos movendo-se. Consigo ver seus olhos arregalados em mim... Diz pra mim, Shizu-chan, você também consegue me ver? Ver direito, eu digo. Consegue me ver fazendo o mesmo que você? Consegue ver minhas mãos se movendo dentro da sua cueca? Consegue ver meus olhos vidrados em você?

Heiwajima Shizuo nunca seria capaz de determinar se, por fim, foram as suas mãos ou as de Izaya as responsáveis por afastarem a cortina plástica, ou se o arfar alto que ecoou pelo pequeno banheiro escapara de seu pulmão ou do dele. Nada disso importaria, contudo, no segundo seguinte. No segundo seguinte, afinal, quando as mãos se entrelaçaram juntas e os lábios uniram-se em desespero, nada mais, absolutamente nada mais, poderia de alguma forma importar.

Não importava, portanto, que afastasse-se do beijo para fitar eufórico o corpo seminu de seu pior inimigo. Assim como não importava que ele risse da expressão em seu rosto e metesse as mãos em seus cabelos molhados com desleixo. Ou como não importava que ele mordesse seu lábio com força e piscasse divertido para seu gemido. Ou que espalmasse ambas as mãos em seu peito e o mantivesse afastado reclamando do quão molhado estava. Ou que barrasse sua língua com um selar de lábios discreto enquanto afastava-se. Não importava nem mesmo que ele o olhasse em misto de desejo e repreensão e estalasse junto os lábios ainda molhados em saliva.

— Você vai me molhar todo se eu ficar aqui e não quero ser o alvo da sua raiva quando você receber a conta de água absurda, então... – um novo selar de lábios, ainda mais suave que o primeiro, foi entregue rápido em seus lábios –... termina logo com isso, sim?

Os olhos castanhos-mel abriram-se largos, confusos, quando, com uma piscadela e um sorriso cretino, Izaya virou-se em direção à porta. Antes mesmo que a maçaneta fosse girada, contudo, já estava mais uma vez recomposto e debaixo do chuveiro, decidido a arrancar da pele todo resquício de sabonete e antes mesmo que o informante alcançasse seu quarto, irrompeu banheiro afora.

O quarto beijo, sequer minimamente parecido com os dois anteriores, aconteceu ainda no corredor, as costas do informante de encontro à parede fria e o peito nu colado ao seu ainda molhado.

O quinto enquanto livrava-se com um só puxão da última peça de roupa que o cobria.

O sexto enquanto prendia as duas pernas desnudas e o quadril recém-despido à sua cintura.

O sétimo enquanto aninhava-se em seu pequeno sofá de dois lugares com o informante em seu colo.

A partir de então, não havia mais lugar para números inteiros, para começos e fins exatos, para definições, contenções ou quantificações. Izaya, apenas Izaya, importava.

A língua de Izaya. As mãos de Izaya. A voz de Izaya. O cheiro de Izaya. A pele de Izaya. Os suspiros de Izaya. A cintura de Izaya. O calor de Izaya. Os olhos que abriam-se quando afastava-se de um beijo. O riso baixinho que soava quando beijava-o o colo. Os espasmos curtos quando apertava-lhe as coxas. Os gemidos baixinhos quando mordia-o o pescoço. O deslizar incontido do quadril quando abraçava-o mais perto. O apelido sussurrado lento quando procurava por seus olhos.

E exatamente por, vergonhosamente, ser naquele momento tão de Izaya, não pode evitar que ele tornasse-se absoluto e, que ao alcançar seus ouvidos o pedido “espera, Shizu-chan” o acatasse como ordem e estancasse de imediato.

E esperasse.

Esperasse apesar dos beijos impudicos em suas têmporas e do quadril esfregando-se tão malicioso às suas coxas. E deixasse de esperar apenas quando um beijo nos lábios risse de sua espera, debochando de sua apatia. E então, só então, com uma devolução impudica do beijo nos lábios ainda sorridentes, reiniciando tudo como se não tivesse qualquer outra escolha que não entregar-se, as mãos a deslizar pela pequena trilha de pelos negros entre o umbigo e o baixo ventre, a procurarem com quase desespero o pênis ereto a esfregar-se em sua barriga, os lábios a correrem do pescoço já tão cheio de mordidas suas até os mamilos já molhados por sua saliva, a sorrirem divertidos para o ventre que contraia-se a cada toque seu. Sua sanidade a perder-se na loucura de Orihara Izaya.

Até estancar outra vez, o cenho franzido dolorosamente, os lábios trêmulos em desespero, ao ouvir baixinho, bem baixinho, apenas sussurro, um “não”.

— Nã-? – tentou perguntar, os lábios, contudo, foram calados por um novo beijo, a língua de Izaya a sorver seu fôlego até mais uma vez fazê-lo esquecer o que diria, até mais uma vez entregar-se sem embaraços ou hesitações, agarrando firme as coxas sobre as suas e jogando contra as almofadas o rapaz em seu colo para, em êxtase, pôr-se sobre ele, rindo junto ao riso dele ao afundar a ambos no pequeno sofá com seu peso, encaixando-os tão juntos que o riso não teve escolha que não mais uma vez transformar-se em beijos.

Quando as pernas de Izaya enlaçaram-se firmes em seu quadril, puxando-os para mais perto e unindo juntas as duas ereções, Shizuo já nem mais se sentia capaz de distinguir vocábulos, sejam eles quais fossem...

...até, pelo menos, que ouvisse, mais uma vez, com todas as letras:

— Nãão, Shizu-chan.

Aquele vocábulo, ainda que dito em sussurro arrastado caprichosamente entrecortado por beijos, ele não podia ignorar.

— Não? – esforçou-se a perguntar, umedecendo os lábios secos e enterrando o rosto na curva do pescoço tão avermelhado.

Um expirar sonoro foi sua resposta e, involuntariamente, um arrepio correu por sua espinha quando Izaya remexeu-se tão sutil debaixo de seu corpo, exibindo em pedido silencioso o pescoço e enterrando as mãos em seus cabelos. Não esqueceu a negação, desta vez, contudo, nem quando plantou um beijo na pele exposta, nem quando o quadril estreito esfregou-se com mais força no seu, nem quando um gemido abafado foi entregue em seus lábios.

E, exatamente por não ter sido capaz de esquecê-la, seu cenho franziu-se ainda mais profundo quando ouviu-a outra vez:

— Não, Shizu-chan... não quero...

Inspirou fundo, o ar quente batendo contra a pele de Izaya também tão quente. Uma, duas, três vezes, antes de prender firme a respiração, apertando bem juntos os lábios e os olhos, o corpo a enrijecer-se como pedra.

— Tá. – sussurrou, baixinho, apenas para si mesmo, a boca seca e os dentes travados juntos em firme mordida – Tá.

O peso de levantar-se e colocar-se sentado só não foi maior do que o caiu-lhe sobre o peito quando os olhos castanho-avermelhados o fitaram confusos, arregalados até os limites. E Heiwajima Shizuo quase sorriu, um daqueles sorrisos resignados que pareciam ter-se acostumado a seus lábios, ao notar o quão difícil tornara-se manter-se afastado do homem que até pouco tempo expulsava aos berros de seu distrito.

“Acalme-se”, pensou em súplica. “Acalme-se”, quase sussurrou com suspiro fundo. “Acalme-se’, repetiu como mantra, a mandíbula travada e os olhos fixos no próprio pênis ainda ereto.

Devia afastar-se, sabia. Permanecer ao lado de Izaya, ainda que com os olhos longe da nudez ainda tão marcada por seus toques, acabaria por enlouquecê-lo. Um olhar, contudo, apenas um, na direção do rosto do suposto mais temido informante de Tóquio, foi o bastante para mantê-lo firme em sua decisão de não sucumbir à frustração que espalhava-se como doença por cada célula de seu corpo. Os olhos castanho-avermelhados fitavam-no tão abertos que desejo algum, independentemente do quão grande fosse, o permitiria ignorar a negação e mais uma vez aproximar-se.

— Tá tudo bem, pulga. – resmungou, afastando de Izaya os olhos e torcendo o cenho ao notar que sua frustração parcialmente afetava voz, um pouco mais rouca e raivosa – Não vou fazer nada.

— Não vai? – o tom alto e perplexo arrastou de volta ao rosto de Izaya seus olhos, foi a vez, então, de seus próprios olhos abrirem-se largos: Izaya avermelhava-se por completo, algo que o guarda-costas estranhamente reconhecia como indignação preenchendo cada centímetro da expressão outrora tão deleitosa.

— Não vou. – murmurou, incapaz de lidar com a explosão que via o informante armar em suas sobrancelhas tão juntas e nos lábios tão apertados.

— E posso saber por que?

— Por quê? Mas foi você q-

— Não fode, Shizu-chan. Você joga aquilo... aquelas coisas na minha cara e daí, quando tento fazer do jeito que te agrada, você age assim?! – a voz, tão carregada em raiva, colocou-o em alerta, antes, contudo, que pudesse retrucar, Izaya continuou: – Eu os vi quando cheguei, Shizu-chan. Espalhados pelo seu quarto. As paginazinhas marcadinhas...

— ‘Aquelas coisas’? Isso de novo, Izaya! Do que droga tá falando? – o nojo palpável na voz de Izaya agitava-o algo também em seu estômago, transformando o arrepio prazeroso que até instantes antes percorria seu corpo em desconforto.

— Daqueles livros, Shizu-chan...daqueles que estava lendo...

— Livros? Que diabos de liv- – calou-se, incapaz de entender qual era a acusação que agora lhe era feita e incapaz de impedir que a exaltação de Izaya envenenasse também seu ânimo. Com um suspiro desesperado agarrou-se a toda calma que ainda não extinguira-se e buscou na memória alguma justificativa para o inesperado rumo dos acontecimentos entre ele e o informante. Com um franzir ainda mais profundo do cenho, a memória da caixa de mangás acomodada em seu quarto, esperando pela devolução à dona, invadiu-o de supetão – Os mangás?

— Os mangás. – repetiu Izaya, bufando alto – Eu os li. É assim que você quer?

— Quero o quê?!

— Que eu peça pra parar... Por isso me rejeitou na cozinha. Você não gosta quando sou eu quem vai pra cima, não é? Gosta quando dizem não...

— Quê?

Um riso baixinho ressoou frio pela pequena sala-de-estar-corredor, e o arrepio que antes era desconforto transmutou-se em incômodo gelado que colocou cada um dos pelos do corpo do homem forte de Ikebukuro em pé. Havia um lado dentro dele que entendia perfeitamente o que afirmava o informante, todos os outros lados, contudo, recusavam-se irredutivelmente a aceitar a acusação sendo feita.

— Gosta mais do prazerzinho da persuasão, não é, Shizu-chan?! Da fragilidade e indecisão que você não teria problema algum em pôr abaixo com sua força. Uma conquista, né, Shiz-?!

O homem mais forte de Ikebukuro percebeu primeiro o recuo rápido do rapaz sentando ao seu lado, depois os olhos castanho-avermelhados enormes fixos em seu rosto e, só então, com a boca seca e os músculos tensos até a dor, percebeu que fora um soco seu, forte o bastante para afrouxar o braço do pequeno sofá, a causar as reações de Izaya. Não se importou, contudo, não dedicando à recém-destruição sequer olhar, mantendo toda a atenção no rapaz cuja fúria assistia abrandar e assumir nuances de dúvida.

— Que merda é essa? Que caralhos você tá aí falando?! Não, Izaya!

— Não?

— Não! – rugiu em ira. Ira que, contudo, suavizou-se um pouco ao perceber que, ainda que mantivesse os olhos bem firmes nos seus, Izaya estremecia a cada novo movimento seu.

— Mas seus livros...

— Não são meus! – defendeu-se, as imagens em sua mente oscilando entre as cenas preto-branco-cinza desenhadas nos pequenos volumes, o encontro com o sorriso largo de Karisawa Erika na livraria e as anotações e marcações coloridas deixadas pela garota nas páginas – Me emprestaram... Eu... Eu só queria achar sua próstata... Não são meus.

— Minha próst-?

— Quê? – perguntou, progressivamente mais confuso, condenando-se por ter dito mais do que gostaria. Frustração preenchendo-o quanto mais incapaz via-se de encontrar forma para justificar a Izaya as cenas lidas nos quadrinhos que não dizer a verdade. – Não acredito que vou ter que... não acredit- É culpa do Shinra, Izaya, merda! Ele me mandou pesquisar pra... Pra não te machucar... Daí eu encontrei numa livraria aquela garota que te mandou aqui e ela me emprestou... Não são meus...

— Você brochou, Shizu-chan? – a pergunta, tão carregada em surpresa quanto os olhos que fitavam seu baixo ventre, o botou ainda mais nervoso.

— Pro inferno, Izaya. Claro que sim! Você me mandou parar, caralho! E agora tá falando essas drogas de eu gostar de... tsc... Pra mim... Dizendo essas coisas pra mim! Que merda, Izaya! Queria o quê?

— Você não gosta então?

— Não gosto... droga!... Eu não gosto disso, Izaya. Quem diabos gostaria? Eu não quero se me mandar parar... Não quero machucar. – a voz, tão sonora no início, tornara-se apenas um sussurro quando por fim calou-se o guarda-costas.

— Mas nas histórias... – os olhos castanho-avermelhados ainda olhavam-no intensos, não precisa de esforço, contudo, para notar que havia mais dúvida do que acusação na voz melodiosa – Achei estranho... Não combina com você... mas você é sempre tão... q-

— Também achei.

— Quê?

— Estranho.

‘não’, ‘espere’, ‘não quero’ – as memórias das páginas que traziam cada uma dessas palavras em pequenos balões invadiram-no de uma só vez, intensificando a aflição que preenchia-o o estômago e, em reflexo, os olhos castanhos-mel correram rápidos em direção a seu quarto.

Começara com um pequeno desconforto, ele lembrava-se, uma torção sutil do cenho e os lábios a separarem-se em estranhamento, as mãos virando rápidas as páginas e a atenção fugindo das figuras. Havia, contudo, alguma coisa dentro dele que impedia que o incômodo o abandonasse, que a sensação desagradável fosse embora junto à página virada. Algo que crescia dentro dele a cada nova imagem. Algo que, agora, apesar do esclarecimento do mal-entendido, ainda enroscava-se com força a seu peito. Algo que o fazia arrependido por não ter certificado-se de olhar Izaya diretamente nos olhos enquanto o possuía na tarde anterior.

Fechou os olhos firme, inspirando com força na tentativa de impedir que seus fantasmas mais uma vez assombrassem-no.

— Você está tomando caminhos estranhos de novo, não é, Shizu-chan? – a voz abafada alcançou seus ouvidos e, com surpresa, o homem mais forte de Ikebukuro percebeu que Izaya colocara-se outra vez em seu colo e afundava em seu pescoço o rosto – Para com isso. Isso tudo é medo? Assim você me ofende, Shizu-chan... Eu me lembro ainda hoje do golpe incrível que você me deu quando me encontrou pela primeira vez. – um riso alto, perfeitamente falso, ecoou pela pequena sala-de-estar-corredor.

— É diferente.

— Sei que é. – os olhos castanho-avermelhados fitaram-no mais uma vez diretamente e, pela segunda vez naquele dia, Shizuo sentiu neles algo parecido com surpresa e admiração – Fiz aquilo porque achei que queria assim... Ridículo, não é? Principalmente levando em conta tudo o que aconteceu ontem. É realmente ridículo.

— Não é ridículo. – retrucou, sério. Porque, mesmo que ainda em choque, assistir Izaya admitir que faria algo só para agradá-lo aquecia um pouco suas bochechas, arrastando para longe um pouquinho do desconforto que ainda corria por sua espinha.

— Não é... Você quem é, certo, Shizu-chan?! Ridículo. Ainda pior do que achei que seria. – a confissão, tão séria e baixinha, arrancou do homem mais forte de Ikebukuro um enorme franzir de sobrancelhas, profundo ao ponto de formar pequenas rugas ao redor de seus olhos onde, exatamente onde, Izaya depositou uma série de pequenos beijos – Então para de fazer essa cara de quem está prestes a sair correndo e me carrega até seu quarto porque este sofá é uma merda de pequeno. Essas preliminares definitivamente já deram tudo o que tinha pra dar e foram, você tem que concordar comigo, as piores do mundo. De longe as piores. A gente pode só esquecer essa parte e partir pra próxima fase, então.

Engoliu em seco, incapaz de acreditar no que ouvia, a confusão cravando-se cada vez mais fundo nas curvas de suas sobrancelhas mesmo com os esforços de Izaya para mantê-las distensas.

— Quê?

— Quê para o quê, Shizu-chan? Para a cara feia que está fazendo enquanto me olha, para me carregar pro quarto ou para minha crítica às preliminares?

— Espera pulga, que merda! – pediu, incapaz de lidar com a quantidade inesperada de informações que Izaya vomitava sobre si, os olhos arregalados na direção dele, fixos no sorriso que mais uma vez emoldurava seus lábios – Você quer continuar?

— Você não?

— Você sim? – insistiu.

Os olhos castanho-avermelhados apertaram-se em sua direção e, por um breve momento, Shizuo pode jurar que Izaya diria algo. Não disse, contudo. E em silêncio absoluto levantou-se do seu colo devagar, parando a sua frente com esfíngica expressão e tomando entre as mãos sua mão direita. Não o seguiria por conta própria, nem tinha convicção de que era aquele o caminho correto a tomar, mas nada fez para impedir que o informante o guiasse em direção ao quarto, as mãos entrelaçadas à sua e os lábios mudos.

O beijo plantado em seus lábios ainda na soleira da porta era um velho conhecido seu. Incerto, atento, furtivo, rápido: dos beijos que Izaya o entregava quando o testava. Os olhos ainda abertos e a língua escondida no céu da boca em perfeito sinal de que, ainda que entrelaçasse os dedos de uma mãos aos seus e os da outra nos cabelos curtos de sua nuca, Izaya esperava reação sua para ir em frente.

— Eu sim. – sussurrou baixinho contra seus lábios antes de pressioná-los em mais um beijo, fitando firme seu rosto. Os olhos castanho-avermelhados tão decididos que sequer cogitou impedir os passos que empurraram-no em direção à cama – Não vou pedir desculpas por antes, mas quero que você me toque de novo. Quero me toque mesmo sem que a gente esclareça direito e quero não ser o único a querer. Quero que você queria tanto que esqueça de qualquer outra coisa. Então esquece, tá? Porque não quero parecer mais ridículo que você.

As mãos em seus cabelos, as nádegas mais uma vez sobre suas coxas, os lábios colados à seu pescoço, a respiração descompassada, a ereção firme de encontro a seu ventre, os desejos sussurrados baixinhos tão diferentes das negações anteriores: Shizuo não teve escolha que não dar a Izaya mais uma vez tudo o que era exigido, que não deseja-lo independente dos títulos que viessem junto a seu desejo. Porque aquele – aquele sim! – com todo o egoísmo e orgulho infundado, com toda a malícia e descomedida sinceridade, parecia mais com Izaya do que fragilidade e indecisões.

Quando o olhou, contudo, os olhos bem abertos para o rapaz que agora de olhos fechados procurava seus lábios, percebeu que, desta vez, queria-o de forma diferente. Mesmo que seu pulso disparasse como louco, mesmo que a respiração queimasse-o a garganta, mesmo que os músculos tremessem em expectativa, não havia, naquele momento, em Heiwajima Shizuo o desespero que parecia sempre haver.

Quando o olhou, portanto, o fez verdadeiramente. E quando o tocou o fez sem que medo manchasse seus dedos. E quando o abraçou mais próximo, deslizando ambas as mãos pelas costas estreitas e encaixando o rosto entre o pescoço pálido e o ombro ossudo, o fez entendendo como era tocar Izaya quando era o informante, e não ele mesmo, quem estava próximo à explosão.

O arrependimento sobre a tarde anterior que invadiu-o foi, então, um diferente do que antes o tomava. Agora não mais receio de tê-lo machucado, ou aflição por não tê-lo amparado nas dores. Agora não mais remorso por tê-lo tomado encaixado ao seu peito, por não tê-lo fitado no rosto enquanto investia contra ele. O arrependimento que agora invadia-o era leve, suave remorso que mais aquecia-o do que gelava-o, sutil frustração por não ter sorvido para si as expressões que Izaya fazia quando tocado, as expressões que teria visto se o tivesse fitado no rosto quando ele aproximava-se do orgasmo.

Não se culpava de todo, entretanto. Conhecia bem a dificuldade de manter os olhos no rosto de Izaya quando tão próximo à sua pele estava seu corpo. A dificuldade de manter os olhos abertos quando era tocado por ele. A dificuldade de não fitar em êxtase o quadril tão próximo ao seu. A dificuldade de não ceder à tentação de beijá-lo e entregar-se cego às mãos cobertas de cicatrizes de cortes. Resistiu, contudo, inspirando fundo e controlando os próprios gemidos, lutando contra a loucura que Izaya espalhava por seus lençóis, mantendo-se atento mesmo quando o informante crispou apertado o cenho e gemeu seu nome, mesmo quando encaixou nas palmas de ambas as mãos seu pênis junto ao dele e moveu-os juntos, quentes e úmidos.

Porque ele era lindo, e, ainda que já soubesse disso, ainda que já tantas vezes no dia anterior o tivesse dito, ele era lindo o bastante para surpreender-se de novo e esforçar-se para manter abertos os olhos. Bem abertos a fitarem os olhos apertados bem juntinhos, as sobrancelhas franzidas, os lábios separados, os cabelos negros agora soltos da presilha colados à testa pelo suor que envolvia-o apesar do frio, o pescoço a avermelhar-se quanto mais rápido subia e descia o peito liso.

Absolutamente lindo. Ainda mais por parecer querê-lo tanto, ainda mais por mover as mãos tão empenhado, ainda mais por gemer tão sem controle, ainda mais por aconchegar-se tão entregue em seus braços.

Tão lindo que soube que cederia, soube que não teria escolha além de cerrar também seus olhos para buscar os lábios firmemente presos entre os dentes brancos alinhadinhos e juntar-se a ele, levando também ambas as mãos para as ereções tão juntas para aumentar a velocidade da masturbação até que enlouquecessem juntos. Estancou, contudo, enroscando as mãos firmemente no lençol branco e abrindo tão mais seus olhos, ao perceber que, enquanto permanecia apenas olhando, Izaya enlouquecia por ambos.

Não havia forma, contudo, apesar da promessa feita, de que seus olhos agora excessivamente abertos mantivessem-se apenas no rosto tão corado de Orihara Izaya, limitando-se a sorver suas expressões. E, portanto, ainda que suas mãos tenham permanecido quietas, sequer tentou evitar que seus olhos – apenas seus olhos – corressem até seu baixo ventre e prendessem-se sem culpa a forma como agora o polegar de Izaya circulava a ponta de seu pênis. Bem lento, friccionando de leve, contornando-a com fissurada dedicação. E ele soube que, sem dúvidas, apesar de seus esforços, deixaria-se então tragar pela loucura de Izaya, e soube mesmo antes de um estalo sonoro de sucção partir dos lábios de Izaya, que, adiante de seus olhos atentos, agora recebiam o polegar que até então acarinhava-o.

Um arfar sonoro, quase dolorido, escapou-lhe dos lábios. Teria-o segurado, contudo, mantido preso em seus pulmões todo o ar, se soubesse que ele seria o responsável por trazer a seu rosto um par de olhos castanho-avermelhados confusos.

Quase sorriu diante da expressão perfeitamente perdida que assumiu o rosto tão bonito de Izaya enquanto tentava compreender o que havia arrancado de seu peito todo o fôlego de uma só vez. Com um estalo sonoro, contudo, tão mais alto do que o que recebera o polegar, os lábios do informante se afastaram do dedo, abrindo-se largos em choque antes de tremerem de leve. E, por mais que Shizuo tantas outras reações tenha desejado ver, a última coisa que percebeu antes do informante afundar o rosto em seu peito era como as bochechas já coradas tingiam-se em vermelho ainda mais intenso.

— Não fica olhando, Shizu-chan...

A voz, arrastada e baixinha, bateu quente de encontro a sua pele e, se de alguma forma Shizuo ainda tivesse dúvidas do que levara tal reação ao informante, ela seria sanada naquele instante.

— Envergonhado, pulga? – a pergunta, por mais que não fosse seu intento, saiu muito mais provocadora do que esperava.

O silêncio do rapaz agora a levar ambas as mãos à sua nuca em um abraço apertado arrancou de seu peito um riso. Ainda que soubesse já antes tê-lo visto assim e que não raras vezes o desmemoriado informante tingisse-se rubro, aquela era a primeira vez que o assistia em tão claro acanhamento. A surpresa por ver o sempre tão impetuoso homem encolher em seu peito com as pontas das orelhas queimando rubras acabou por levar seus lábios aos cabelos negros em um beijo discreto.

— Cala a boca, Shizu-chan! Eu não imaginei que você ia estar parado que nem um bobão me olhando enquanto eu fazia o trabalho todo! Só fiquei surpreso!... Eu só... – até então alta demais, levemente irritada, a voz de Izaya cedeu um pouco, baixando a apenas sussurro –... só queria saber seu gosto.

Os olhos castanhos-mel arregalaram-se e foi, então, a vez do homem mais forte de Ikebukuro encolher os ombros e corar. Havia um lado seu que já não mais se importava com o quão decidido Izaya era quando despiam-se, esse lado, contudo, ainda não se acostumara com o quão direto o informante dizia o que pensava. Uma coisa era assistir Izaya deslizar o polegar por seu pênis e prová-lo, outra totalmente diferente era ouvi-lo explicar o porquê de tê-lo feito.

— Quem é que está envergonhado agora, hein, Shizu-chan? – o sorriso enorme no rosto de Izaya era toda a prova que precisava para saber que não fora o único a perceber o aumento de temperatura em seu rosto – Mas foi minha culpa... – a voz maliciosa, o rosto não mais imerso em acanhamento, as mãos a deslizarem através de seu pescoço e peito até suas coxas, a piscadela divertida: Shizuo sentiu cada centímetro de seu corpo colocar-se em alerta enquanto um ofego sôfrego escapava-lhe do peito – Pra que ficar provando assim indiretamente, não é?!

E aquele sorriso.

Ele conhecia sem sequer sombra de dúvida aquele sorriso.

As sobrancelhas levantadas leves, os olhos apertados bem juntinhos, as bochechas em curvas sinuosas e os lábios separados expondo os dentes branquinhos.

Prenúncio do caos, ele sabia. Do seu caos. Do caos que as mãos de Izaya carregavam através de suas coxas. Do caos que os lábios de Izaya espalhava por seu peito. Do caos que envenenava cada centímetro de seu corpo enquanto o sorriso se fechava em volta de seu pênis.

E ele prometeu, prometeu ao ponto de acreditar na própria promessa, que não cerraria os olhos, que os manteria bem atentos na língua de Izaya, nas mãos de Izaya, nos olhos de Izaya. E verdadeiramente esforçou-se, mantendo-os abertos mesmo quando o calor em seu rosto os semicerrava, mesmo quando umedeceram-se de leve, mesmo quando um cedeu rendido ao calor dos lábios do informante. A promessa, contudo, ruiu no instante no qual Izaya o recebeu por completo entre os lábios, não mais apenas beijos e lambidas, não mais apenas a ponta da língua provando-o tímida, mas verdadeiramente, acomodando-o quase por completo, os olhos castanho-avermelhados maliciosos fixos em seu rosto como se planejassem devorarem-no e a expiração pesada em sua virilha.

E, ainda que não de todo se orgulhasse do caminho que tomavam seus pensamentos, pela primeira vez em seus breves anos de vida, Heiwajima Shizuo agradeceu baixinho por Orihara Izaya ser tão pouco discreto. Por ser barulhento ao ponto de conseguir saber exatamente o que faziam os lábios rubros mesmo através de suas pálpebras cerradas.

E ele sabia que o informante o fazia de propósito, que todo estalo molhado entregue em seu pênis tinha como objetivo fazê-lo arrepiar-se e apertar ainda mais firme os olhos, que cada movimento sinuoso da língua sempre tão afiada tinha como objetivo sua ruína. O que o homem mais forte de Ikebukuro não sabia era que sucumbiria tão fácil. Que bastaria uma mão correr firme por suas coxas e outra massageá-lo nos testículos enquanto acomodava suas mãos nos cabelos negros tão macios para não importar-se que a boca em volta de seu pênis pertencesse ao – teoricamente – seu pior inimigo.

Não era a primeira vez que chupavam-no, de fato, mas era, inegavelmente, a primeira vez que sentia sua sanidade equilibrar-se na ponta de uma língua.

— Você tá fazendo uma cara incrível agora, Shizu-chan... Tá gostoso?

Os olhos castanhos-mel abriram-se de leve, involuntariamente, famintos a procurarem pelo dono do sussurro baixinho e, como se por regra, forçaram também os lábios até então firmemente cerrados a abrirem-se.

— Tá. – gemeu baixo, o primeiro gemido de tantos outros que seguiriam-no pelos lábios agora separados. Tantos e tão altos que impediram-no de ouvir o riso discreto a escapar dos lábios tão próximos a seu baixo ventre.

— Você respondeu, Shizu-chan. Nunca me responde quando preciso, mas agora, que não precisava, responde! Que gracinha! Você vai responder mais coisas se eu perguntar?

Ainda que não atento o suficiente às palavras de Izaya para por completo entender a provocação, o beijo pequeno e molhado entregue à ponta de sua ereção foi algo que Shizuo, por mais comprometido que estivesse seu juízo, compreendeu perfeitamente.

— Tá brincando comigo, pulga.

— Eu? Brincando contigo? – a voz, ainda baixinha, parecia verdadeiramente ofendida, ou, pelo menos, ofendida o bastante para que os lábios afastassem-se e relegassem aos dedos longos a tarefa de estimulá-lo – Eu, Shizu-chan? Você não faz ideia de como está agora, faz? Isso, vindo de você, é quase um insulto.

Fitou-o confuso, piscando pesado para manter-se firme e estalando os lábios secos. Não era simplório o bastante para ignorar o elogio escondido por trás das palavras de Izaya, não esperava, contudo, que o informante quisesse dele alguma forma de solidariedade quando ele mesmo tanto perdia-se nos olhos castanho-avermelhados e nas mãos quentes a moverem-se devagar por seu falo.

Ainda que nada dissesse, contudo, Izaya, com um riso alto e um estalo sonoro da língua, pareceu entendê-lo perfeitamente. A última coisa que viu antes de fechar outra vez os olhos e contrair as costas até quase curvar-se sobre o rapaz tão próximo foi uma fileira de dentes perfeitamente alinhados correrem suaves por seu pênis e uma das mãos que tocavam-no deslizar rápida em direção ao baixo ventre do informante, até então esquecido.

O gemido que, então, escapou de seus lábios seria o suficiente para que nunca mais Shizuo atravesse-se a reclamar do quão escandaloso era Orihara Izaya. Se Izaya, contudo, planejava de alguma forma dele debochar, – o que, provavelmente, planejava – calou-se no instante no qual, em um só movimento, sua cintura foi agarrados e seu corpo forçado a virar-se.

Diferente da sensação de hálito quente em seu baixo ventre, aquilo era, sim, algo que o homem mais forte de Ikebukuro fazia pela primeira vez. Não que, de alguma forma, ele prendesse-se a pensar em estreias quando tinha a ecoar pelo quarto o riso misto de surpresa e diversão de Orihara Izaya e diante de seus olhos uma ereção perfeitamente em riste. E não, definitivamente, quando o riso transmutou-se em novos estalos molhados tão parecidos com os que seus próprios lábios faziam ao encaixarem-se firmes no pênis diante de seu rosto.

Havia o problema de concentração. E ele, definitivamente, por mais que devesse, não havia contado com ele (mangás não explicavam-no). O problema em distrair-se quando a língua de Izaya movia-se e deixar de mover sua própria. O problema em focar-se demais em sua própria boca cheia e esquecer-se da atenção que tão diligentemente recebia sua ereção. O problema em ter tão próximas a seus olhos as nádegas perfeitamente modeladas de seu pior inimigo e o problema de não ter mãos o suficiente para tocar Izaya de todas as formas que gostaria.

Os problemas, contudo, dissipavam-se a cada novo gemido que sem dono ecoava pelo quarto. A cada vez que percebia que não lidava sozinho com eles. A cada vez que os lábios de Izaya estancavam para abrirem-se em gemidos e a cada vez que voltavam a suga-lo com desespero.

Um pedido baixinho, contudo, tão baixinho que quase não o ouviu, devolveu ao homem mais forte de Ikebukuro toda a atenção que sentia esvair-se de seu corpo e, pela primeira vez desde que Izaya inclinara-se em direção a suas coxas, Shizuo sentiu recobrar um pouco da consciência que nem mais acreditava ter. Só um instante, contudo, permaneceu com ela. Apenas o bastante para que atendesse ao pedido, deslizando as mãos ansiosamente pela cama atrás de um lubrificante que sabia ter guardado na primeira gaveta do pequeno criado-mudo creme – resmungando baixinho ao ter que afastar-se dos lábios de Izaya ao mover-se – e lambuzando o dedo indicador com ele. Quando com uma pequena contração Izaya reagiu ao seu toque, Shizuo não seria capaz de lembrar-se sequer o próprio nome.

— Só um, Shizu-chan. – o sussurro arfante arrancou de seu peito uma batida e, por um instante, ainda que breve, Shizuo mergulhou novamente em infundada culpa. Culpa que desviou seus lábios do pênis do informante e os juntou a seu dedo, um único, prova de que, ainda que dissesse que não, o informante ainda sentia os efeitos da tarde anterior.

A culpa esvaiu-se, contudo, junto ao ar que escapou dos pulmões de Izaya quando tocou-o pela primeira a próstata e, sem ela, não hesitou em levar de volta ao pênis agora a melá-lo agora o pescoço a boca. Izaya gozou no instante no qual seus lábios acomodaram-no novamente e o homem mais forte de Ikebukuro, ainda que naquele momento tivesse sua própria ereção esquecida, pensou que poderia de bom grado acompanhá-lo no gemido longo e rouco.

No momento no qual, contudo, sentiu mais uma vez a língua de Izaya em sua ereção, já não havia espaço em sua mente para pensamento algum que não a sensação do calor do hálito do informante. E, pela segunda vez no dia, deixou-se mergulhar na agradável surpresa de recordar-se de coisas que já conhecia. Porque, ainda que já ontem o tivesse reconhecido, não se importou nem um pouco em perceber outra vez o quanto mais incríveis eram os lábios de Izaya depois de um orgasmo. Ainda mais quentes, um pouco preguiçosos, menos apressados, como se guardassem escondidinho dentro deles todo o tempo do mundo.

Todo o tempo que, naquele exato momento, parecia escapar de Heiwajima Shizuo junto aos sonoros gemidos, mergulhando-o num misto de urgência e atemporalidade que dividia-o entre a explosão e a expectativa, como se saltasse de um precipício cujo fim não alcançava.

Enganava-se, contudo, e, longe de estar preso em atemporalidade sem fim, e independentemente do quanto estivesse ele preparado ou não para encontrar o chão, encontrou-o com um gemido alto, o corpo a convulsionar com o baque, cada mínimo pelo de seu corpo em pé, o nome de Izaya engasgado em sua garganta e ambos os braços firmes em volta das coxas pálidas.

“Você é incrível, Shizu-chan”, um beijo discreto nos lábios e um abraço aconchegante foi o que recebeu quando sua respiração normalizou-se. Retribuir o abraço, apertando mais junto ao peito o rapaz que nele deitara-se, e apoiar a cabeça no topo da cabeça coberta pelos cabelos negros cheirando a seu shampoo foi tudo o que conseguiu fazer antes de cerrar mais uma vez os olhos, desta vez sem cenho franzido algum sem urgência alguma sem culpa alguma sem peso algum.

Heiwajima Shizuo, no fim, só perceberia que cedera ao sono quando, meia hora depois, o barulho de um arquejo sonoro e de uma porta sendo fechada com demasiada força o acordasse.

E, talvez – talvez – o homem mais forte de Ikebukuro percebesse que nem sempre era escolha sensata deixar destrancadas as portas. Não quando Orihara Izaya não era o único capaz de descobri-las.

Notas finais
Olá de novo! tudo certo até aqui? Já fazia um tempinho que eu queria escrever sobre o assunto, ainda mais porque, apesar de tudo, nunca deixei clara minha posição e acho importante fazer isso... enfim: eu não apoio nenhuma forma de envolvimento não consensual, seja em histórias ou fora delas. =) Sendo Shizaya meu OTP, eu entendo completamente a importância da relação entre amor e ódio, da brutalidade, do envolvimento nem sempre tão saudável (rs!), mas, ainda assim, encaro isso de forma completamente diferente de uma relação sem consentimento de uma das partes. Izaya e Shizuo se fodem de formas que o mundo nem pode acreditar, se machucam, se magoam, mas, ainda assim, eles estão/estarão juntos porque querem estar. E isso é importante pra caraleo. E, bem, acho que é bobagem eu estar escrevendo isso aqui já que todo mundo tá careca de saber, maaaaaaaaaaas, mesmo assim, achei importante me posicionar de forma direta, ainda mais porque isso será um ponto importante para o desenvolvimento da história. =) Beeeeeeeem, é isso! Deixando de lado um pouco as tagarelices yukisticas, quem vocês acham que abriu a tal porta no finalzinho? XD Obrigada por ler! Se gostou, me deixe saber. Ficaria super feliz em ler sua opinião! ♥ Beijo, beijo, =* Yuki ps. sim, foi um 69. ps2. sexo oral também é sexo. XD