(in) esquecível
29 Sobre como você desproporcionava todas as proporções
Notas iniciais
Sobre como você desproporcionava todas as proporções
Abafado, sufocado, embargado. Um arquejo profundo escapou alto como um soluço dos lábios de Orihara Izaya e, por um instante, breve instante que arregalou ao máximo os olhos castanhos-mel, Heiwajima Shizuo pode jurar ouvir junto a ele um sussurro:
“Izaya é diferente de você, Shizuo”
— apenas, breve e sério o bastante para que pudesse duvidar ter ouvido, breve o bastante para que permanecesse a fitar, pupilas dilatadas e boca seca, os lábios há pouco tão sonoramente separados e tão próximos aos seus próprios a espera de mais.
Não se moveram, contudo, novamente. Não, ao menos, para além de um novo arfar, mais sôfrego e mais baixo que o primeiro.
Ainda assim, pode ouvir mais uma vez com perfeição:
“Izaya é diferente de você, Shizuo”
A voz etérea misturando-se com a sua própria dentro de sua cabeça antes de perceber que era apenas ali que ela podia ser ouvida, mesclando-se à declaração de ódio há pouco liberta, enroscando-se a ela tão assustadoramente harmônica e contraditoriamente discrepante.
“Eu odeio você, Orihara Izaya”
“Izaya é diferente de você, Shizuo”
“Eu odeio você, Orihara Izaya”
“Izaya é diferente de você, Shizuo”
— intercalando-se em sequência rítmica, pulsando de encontro à sua testa até que finalmente pudesse reconhecer nela a voz de Kishitani Shinra, assumindo a cada repetição uma nuance diferente.
“Izaya é diferente de você, Shizuo”, voz tão séria que quase fazia-o duvidar algum dia já tê-la ouvido.
“Izaya é diferente de você, Shizuo”, voz concentrada a suturar pontos em seus ombros.
“Izaya é diferente de você, Shizuo”, voz risonha a entregar em suas mãos uma bolsa térmica.
“Izaya é diferente de você, Shizuo”, voz ecoante por trás de palavras estáticas em um palmtop negro.
“Izaya é diferente de você, Shizuo”, voz repreensora entrecortada pelo som de água e sangue a gotejar no chão do consultório branco.
“Izaya é diferente de você, Shizuo” – repetia incansavelmente a voz, de tantas formas diferentes, forçando dolorosamente sua memória, apertando seu cenho e quase escapando através de seus lábios.
A voz que, inegavelmente, tinha razão. A tinha independente de que tom escolhesse para reafirmar-se.
Diferentes, verdadeiramente sabia, eram ele e Izaya. Tão diferentes que saberia mesmo que nunca voz alguma, séria ou divertida, concentrada ou repreensora, o tivesse dito. Essa diferença, afinal, era para ele um dos poucos motivos para orgulho dentre todos os motivos para vergonha que carregava em seu peito explosivo. Diferença tão bem conhecida que nunca precisou de explicações, que nunca o obrigou a perguntar, em momento algum, a si mesmo ou a Shinra o que, precisamente, significava, ou o que, pontualmente, era.
Naquele momento, entretanto, naquele pequeno instante no qual de olhos arregalados e cenho franzido sorvia nos pulmões o fôlego tão sonoramente perdido por seu pior inimigo, Heiwajima Shizuo não pode evitar que, desconfortavelmente, aquela diferença sem significado fixo ou pontos enumerados preenchesse dolorosamente cada centímetro de sua mente.
Ao menos, contudo, até outra afirmação de Shinra arrancá-la à força e fixar-se, absoluta, em seu lugar.
“Apesar de tudo uma pessoa bastante sensível”.
Simples. Sem nome, sem explicação, sem eco, sem imagem. Apenas frase solta, resposta à pergunta que nunca sequer se lembrava de já ter feito. Provável mais uma dentre tantas as milhares de caracterizações que Kishitani Shinra já o havia desnecessariamente entregue sobre Izaya e que ele, sem hesitação alguma, havia desconsiderado.
Era quase engraçado – ou ao menos, engraçado o bastante para levar aos seus lábios recém-libertos dos de Izaya um meio sorriso – que só naquele momento, enquanto sentado em seu colo encarava-o um Orihara Izaya de pupilas enormes, lábios separados, mãos trêmulas, narinas dilatadas e tez pálida, tenha, pela primeira vez, dado às palavras de Shinra atenção.
“Sensível”, repetiu, movendo os lábios sem som ao fitar de sobrancelhas franzidos o rosto que o fitava de volta em tão perfeita personificação do choque.
Se tivesse que admitir tê-lo ouvido, assumiria que “apesar de tudo” fora a única parte do discurso de Shinra que levara a sério, sem qualquer consideração pela caracterização que a seguiu. Era, afinal, o “apesar de” “um tudo” que incluía uma década de perseguições, centenas de ataques e provocações para além do que podia contar. Com tantos números exorbitantes em sua soma, sempre fora mais confortável – e, sem dúvidas, mais sensato – refutar qualquer sensibilidade em Izaya e atribuir a ele o sangue gelado dos insetos. De uma pulga.
Agora, contudo, com Izaya encarando-o tão desconfortavelmente após ouvir de seus lábios uma declaração de ódio enquanto a palavra “sensível” coçava-lhe a língua, era inútil esquivar-se e negar que, apesar dos xingamentos e da soma descomunal de ódio, em algum lugar bem escondidinho havia guardado a informação que tão à contra gosto recebera de Shinra.
Sensível.
Mesmo que atrasada, agora conhecida não se deixava mais ignorar. E, talvez principalmente por ser assim, tardia, pesava-lhe os ombros mais do que Heiwajima Shizuo gostaria de admitir.
Sensível.
Não leve. Não despreocupado. Não espontâneo.
Sensível. Definição tão pesada que embrulhava-lhe o estômago.
Izaya era, ele tardiamente percebia, todo moldado em excessos. Pensava demais. Falava demais. Guardava segredos demais. Prestava atenção demais. Ouvia-o sempre sério demais. Vivia constantemente em proporções desproporcionais.
Izaya era exatamente o tipo de pessoa que ele nunca seria.
Diferentes – e o peso dessa diferença, agora tão pesada que não mais se deixava relevar, era exatamente o que o impedia de ignorar os olhos arregalados, os lábios entreabertos, as mãos trêmulas e a feição pálida que tão desconfortavelmente encaravam-no. Era, afinal, aquele o exato peso que arrancara o rapaz de seus braços há duas semanas e o exato peso, ele sabia, que arrancaria-o mais uma vez, o peso que gritava-lhe que a declaração de ódio que sem querer escapulira por entre seus lábios alcançava em Izaya todas as reflexões que não teve ao soltá-la. E, consequentemente, precisamente o peso que, naquela noite de segunda-feira em que tudo o que mais desejava era mais uma vez plantar nos lábios ainda entreabertos outro de seus beijos, inundava sua expressão com preocupação e a do rapaz em seu colo com uma seriedade que nunca ainda vira em Orihara Izaya.
E Shizuo, com sua simplicidade despreocupada, se pudesse admitir, diria que não era aquela a expressão que esperava encontrar nele.
Ele esperava, mesmo que não sem certa irritação, um riso debochado. Uma provocação sorridente daquelas que o supostamente desmemoriado informante recentemente tão frequente lhe entregava. Um “sim, claro, me odeia, agora pode voltar a me beijar, Shizu-chan” dito bem alto, um sorriso torto que não se desfaria nem quando o xingasse em resposta.
Uma retaliação, talvez, também era esperada. Uma daquelas que o antigo Orihara Izaya não hesitaria em cuspir em seu rosto. Um “não tanto quanto eu te odeio, te garanto, Shizu-chan” carregado de malícia e diversão incontida que o colocaria arrepiado em fúria.
Esperada era, também, a cara fechada em um bico chateado, olhos tristes que perguntariam baixinho o porquê do ódio e devolveriam algum elogio constrangedor que o colocaria em misto de nojo e culpa.
Esperava, ele admitia, até mesmo um afastamento brusco. Um xingamento. Um discurso carregado de indisfarçada repulsa sobre seu coração inumano ser capaz apenas de sentimentos como aquele. Sobre sua monstruosidade sendo usada apenas para o que fazia de melhor: destruir.
Esperava qualquer coisa.
Qualquer coisa.
Qualquer coisa exceto os olhos abertos demais, o silêncio desconfortável, a atenção fixa e as mãos trêmulas em seu pescoço.
Porque, ele sabia, sabia com cada milímetro de sua pele, que os olhos abertos demais, o silêncio desconfortável, a atenção fixa e as mãos trêmulas sorviam cada uma de suas palavras com mais seriedade do que jamais fariam as provocações, os xingamentos, os deboches e as retaliações. Com seriedade que era tão infinitamente maior do que era a sua própria quando o ódio escapara rosnado entre seus dentes. E, ainda que ingênuo o suficiente para tê-lo feito, não era simplório o bastante para desconhecer que, encarando suas palavras com desproporcional seriedade, eram apenas dois os caminhos possíveis para o informante: levá-lo a sério e acreditar em seu ódio ou levá-lo a sério e entender que o ódio não era tão verdadeiro quanto se supunha ser.
Nenhuma das possibilidades, em absoluto, agradava o homem mais forte de Ikebukuro. Porque, ele reconhecia, não o agradava sequer minimamente o peso de toda aquela atenção. Não o agradava nem um pouco ser levado a sério.
Seria tão mais fácil, terrivelmente mais fácil, ignorar o que dissera e sorver de Izaya os lábios. Era o que faria caso fosse Izaya a declarar por ele ódio ao beijá-lo. Era um beijo, afinal. E beijos não exigem términos bruscos em arquejos sôfregos nem olhos arregalados em surpresa. Limitaria-se a rir alto, apenas, enquanto resmungaria uma ordem de silêncio e escorregava as mãos através das costas até o traseiro firme sobre suas coxas. Fecharia, também, os olhos e sem hesitação meteria os dedos por debaixo do casaco negro. Iria adiante sem preocupações e tomaria-o ali, em seu pequeno sofá, acomodando-se trêmulo dentro dele até que o frio que congelava Ikebukuro já não fizesse parte sequer de suas memórias.
Simples. Sem pesos. Porque, mesmo que não fosse aquele o momento adequado para tais pensamentos e mesmo que não conseguisse encontrar lugar para eles na distância que o informante impusera entre eles ao ouvir sua declaração de ódio, ainda desejava Izaya, talvez mais do que já o havia desejado antes, mais até do que o desejara no dia anterior.
Ele precisou, contudo, ganhar de Izaya um esquivo de um beijo e vergonhosamente pousar os lábios em perfeito bico em uma das bochechas pálidas para finalmente perceber que, com o informante, nada era como desejava. Tudo, absolutamente tudo, sempre parecia ir além dos seus desejos, tão mais pesado que seus impulsos crus. Nada era relevado, nada era ignorado e, com as bochechas quase coradas em vergonha por ter seu beijo negado, Shizuo finalmente entendia que a reação de Izaya era sempre apenas uma: apegar-se com unhas e dentes a cada uma das palavras e cada um dos gestos que tanto lhe agradaria esquecer e prender-se a elas até a exaustão. O que, até ele mesmo reconhecia, era ironia sem tamanho diante da atual circunstância de ambos.
Um amnésico que lembrava-se de tudo.
Outro perfeitamente são que desejava profundamente esquecer tudo.
Fora assim há duas semanas e seria assim agora se de novo mantivesse-se em silêncio e não retirasse a declaração feita sem pensar. O que, contudo, escapou de seus lábios quando os separou sequer chegou perto de uma explicação para a involuntária declaração de ódio:
— Você é difícil demais, Izaya.
Porque Shizuo, verdadeiramente, nunca aprendera a recuar. E porque Shizuo, inegavelmente, não era bom com mentiras.
Desejou sê-lo, entretanto, e desejou ser capaz de lidar melhor com suas palavras quando, de olhos bem abertos, encarou mais uma vez o rapaz em choque em seu colo.
Os olhos castanho-avermelhados e os lábios entreabertos abriram-se largos antes de cerrarem-se de supetão, ambos apertados firmes enquanto o peito ainda coberto pelo avental inflava-se de leve, e, trêmula, a pele sob seus dedos aquecia-se para além do esperado para um dia frio como aquele. Sem nada o que pudesse dizer, o homem mais forte de Ikebukuro limitou-se a assistir impassível Izaya pintar-se a exata expressão do caos. E, ainda que desejasse assim acreditar, não precisava sequer de segundos olhares ou de mais atenção para entender que, tão mais do que parecera ao desmoronar em sua pequena sala-de-estar-corredor quando rugiu a ele que a relação entre eles não era próxima, tão mais do que parecera ao ouvir o comentário que o manteve afastado por duas semanas, Izaya parecia, naquele momento, mais frágil e perdido do que jamais antes o vira.
Tão rápido, contudo, quanto fecharam-se, os olhos castanho-avermelhados voltaram a abrir-se e, no instante seguinte, Heiwajima Shizuo, incerto sobre a veracidade do caos que acabara de presenciar, encarava atordoado o pequeno sorriso brando que nascia discreto nos lábios de Orihara Izaya.
— Aham, claro, me odeia. Já que é assim então, Shizu-chan, pode tratar de acalmar essa mãozinha escorregando pelas minhas pernas.
O tom divertido, levemente agudo, tanto combinava com o sorriso doce que coloria os lábios que até então empalideciam-se que Shizuo tão teve escolha que não assumir para si a expressão que até pouco tempo Izaya exibia no rosto: choque.
A piadinha infame, o sorrisinho maroto alongando-se lateralmente, os olhos brilhando malícia, os dedos longos e cobertos de cicatrizes seguindo o exato caminho contrário das palavras ditas e deslizando impudicos por suas costas: diante de seu choque e apesar dele, Izaya lentamente moldava-se na exata reação que desde o começo desejara, rebolando devagar em seu colo e plantando um beijo suave em seus lábios, ignorando o ódio que declarara, ignorando a reação que tivera a ele, ignorando os olhos sérios, o rosto pálido, a pele trêmula e os lábios entreabertos que até segundos atrás estampavam-lhe o rosto. Ignorando absolutamente tudo o que Shizuo adoraria também ignorar e mostrando-o a exata reação – exata reação! – que levaria ao chão suas roupas e à sua pele a pele de Izaya. Que levaria a mais dos beijos que queria, a mais do calor que queria. Que levaria a seus ouvidos suspiros sôfregos, e à sua garganta gemidos. Que levaria ao desvario cada célula de seu corpo. Que levaria...
Levaria.
Levaria, se alguns minutos antes.
Ainda queria-o, irrefutavelmente. Queria o rapaz em seu colo a beirar o ridículo, a loucura. E queria-o, talvez, ainda mais por sentir que, naquele momento, naquela reação tão desejada quanto atrasada, não era querido de volta com a mesma intensidade.
Porque, mesmo preenchido pelo próprio desejo, não era capaz de ignorar que, apesar de carregados de malícia, os olhos castanho-avermelhados não fecharam-se entregues quando fechou os seus, que, apesar de impudicos, os toques em suas costas arrastavam-se imprecisos, e que, apesar de sorridentes, os beijos plantados em seus lábios permaneciam mornos.
Heiwajima Shizuo, entretanto, não era Orihara Izaya.
Não era peso nem obscuridade nem densidade. Heiwajima Shizuo era a transparência luminosa de uma inspirada funda, de olhos cerrados suaves, de braços enlaçados com paixão e de beijos de lábios separados. Ele poderia, sem sombra de dúvidas, relevar.
E, portanto, por mais que soubesse que os olhos castanho-avermelhados ainda olhavam-no fixos, que soubesse que os breves selares de lábios muito mais curiosos do que desejosos eram, e que soubesse que mais cautela que desejo guiava as mãos por sua pele, por mais que soubesse de tudo o que mesmo de olhos fechados sabia, não tornou-se capaz de segurar dentro dos pulmões o ar ou inertes ambas as mãos. Ainda que desproporcional aos pesos de Izaya, não conseguiu evitar entregar-se a ele com quase violência, deslizando ambas as mãos firmemente através das coxas macias e apertando-as forte enquanto atacava os lábios indecisos com os dentes.
Queria-o, e isso bastava. Queria-o tanto que nem se importava se os lábios colados ao seus recusavam sua língua para fecharem-se em sorrisos que não queria. Tanto que nem importava-se se, com seus desejos, não fizesse o que devia fazer. Se com os lábios fechados para beijos não pudesse abri-los nem para pedir por nem para entregar explicações.
Porque, inegavelmente, haviam muitas delas. Tantas quanto havia de coisas que não entendia. Uma para o sorrisinho dócil, uma para o beijo indeciso, uma para a facilidade com a qual eles substituíram os olhos surpresos, os lábios separados e as mãos trêmulas. E tantas quanto havia coisas que precisava dizer. Uma para as coisas que não entendia em si mesmo, outra para suas reações que agora tanto pareciam condicionadas às reações do rapaz em seu colo, outra para retificar cada um das palavras trocadas.
Heiwajima Shizuo, contudo, não precisava verdadeiramente de explicações. Não dedicaria a elas mais do um suspiro frustrado. Não se importava se viessem mais tarde ou se nunca viessem. Não quando, mesmo sem elas, Izaya passava a correspondê-lo. Tudo o que importava, naquele momento, era o quadril a apertar-se de encontro ao seu e a mordida devolvida tão forte em seus lábios. Para isso, definitivamente, não precisava de explicação alguma.
Era desespero, ele sabia, o que movia o rapaz em seu colo, dos beijos eufóricos e às mãos arranhando seu peito. E sabia tão bem porque era também o que sentia. Urgência desesperada que percorria como choque seu corpo e que só sossegaria quando pousasse, nu e satisfeito, sobre o corpo do rapaz que agora impudicamente rebolava sobre suas coxas, as mãos metidas entre seus cabelos e os lábios dolorosamente apertados nos seus. Essa era, contudo, outra das coisas com as quais não se importava. Se era desespero o que Izaya sentia, que assim fosse. Se era desespero o que ele mesmo sentia, que assim continuasse.
Não se importou, portanto, quando um arfar pesado – tão mais pesado do que ouvira dele quando surpreendeu-se com sua declaração de ódio – escapou profundo dos lábios de Izaya. Ainda que, contrariando seus próprios desejos, tenha forçado seus olhos a abrirem-se para o informante.
Transtorno – não o mesmo que vira nele brevemente momentos antes, mas, ainda assim, transtorno. Izaya não parecia nem frágil nem perdido como antes, mas, trêmulo e avermelhado, as sobrancelhas franzidas tão fortes ao procurar eufórico por seus lábios enquanto tão louco movia-se em seu colo, o informante parecia, mais uma vez, prestes a desmoronar.
Era, agora, Heiwajima Shizuo quem mantinha os olhos bem abertos para um Orihara Izaya de olhos bem fechados.
Devia se importar, sabia que devia. Pará-lo e beijar suave o encontro entre suas sobrancelhas até que nele não restasse mais nada daquela coisa tão estranha que sentia. Conversar com ele, então. Dizer o que nem sabia o que era. Mentir, provavelmente, enquanto desmentia todas as mentiras em seguida. Colocar de novo ou o sorriso alegremente afetado, ou o malicioso, ou o debochados nos lábios dele e arrancar dele nem que elogios, nem que provocações, nem que xingamentos. Não pode, contudo, se convencer a ir adiante e fazer o que devia.
Apertou-o em seu colo ainda mais firme do que ele apertava-se e sem qualquer hesitação arrancou dele o cinto das calças, somando ao desespero dele o seu próprio enquanto deitava-se no sofá e puxava-o para cima de si, atacando sem qualquer sombra de arrependimento ou culpa o pescoço já tão avermelhado.
Se pudesse, de alguma forma, olhar para si mesmo, Shizuo perceberia-se, no fim, tão transtornado quanto julgava Izaya.
Tornou a fechar os olhos, contudo, e, assim de olhos fechados, não se importava sequer minimamente em fazer-se de cego.
— Izaya.
O gemido escapou-lhe rouco, dolorido, trêmulo. Envergonharia-se dele, normalmente. Estava, contudo, tomado demais por ele para poder fazê-lo. Entregue demais ao próprio desespero para poder evitar que outros tão vergonhosos quanto o primeiro seguissem-no, inteligíveis, enquanto levava ambas as mãos até o quadril de Izaya e apertava-o com força. Tão submerso que sequer fazia-se capaz de perceber que, do outro lado dele, do lado de quem o recebeu, um arquejo surpreso escapava sonoro dos lábios do dono do nome pela qual chamara. As duas mãos a espalmarem-se em seu peito, contudo, foi algo que Shizuo, por mais entregue e desesperado que inegavelmente estivesse, não pode dar-se ao luxo de fingir não perceber.
— A comida está no fogo, Shizuo.
“Shizuo”.
Se para Izaya todas as palavras eram levadas a sério, para Shizuo, tão acostumado à momentaneidade das explosões, havia apenas uma – uma! – que arrancava de seu peito todo o ar e de seus olhos toda a atenção.
“Shizuo”. Sem pronomes de tratamento. Sem reduções. Sem malícia. Sem diversão.
“Shizuo”. Cru. Frio. Direto. Como se a sua respiração fosse a única a descontrolar-se e seu corpo fosse o único a ferver.
Estancou de súbito, as mãos espalmadas desconfortavelmente nos quadris de Izaya e os olhos, abertos ao máximo, a piscarem incertos enquanto encaravam o rosto que progressivamente afastava-se do seu.
Ora brincadeira. Ora provocação. Ora surpresa. Ora distância. Ora calmaria. Ora desespero. Ora afastamento.
A ideia de que Izaya estava brincando com ele, testando-o, forçando-o à beira de um precipício nublou sua mente sem que a ele fosse dada chance alguma de defesa.
— Não ligo pra merda de comida nenhuma. – rosnou, frustração preenchendo cada mínima nota de sua voz.
— Problema seu. Eu ligo. – a voz fria e direta só não o pegou mais de surpresa do que a rapidez com a qual Izaya deixou seu colo, desviando de seu aperto com desenvoltura e levantando-se tão leve que Shizuo quase teve certeza de que todo o peso do informante ficara em seu colo, pregando-o, inerte e excitado, no pequeno sofá de dois lugares.
O fôlego prendeu-se em sua garganta mais uma vez, como engasgo, e não pode evitar que os lábios recém-abandonados tremessem de leve.
O que diabos estava acontecendo?
— Você não entende nada, Izaya! Merda! – rosnou entredentes, a mandíbula travada e a mão involuntariamente correndo para dentro da roupa íntima em busca nada pudica por conforto.
Não era ira a carregar sua voz, não pode evitar, contudo, que assim ela soasse, raspando de leve na garganta apertada e tornando sua acusação ainda mais infundada e injusta. Ira sempre era, afinal, sua primeira escolha para situações como aquelas, adversas, fora de seu controle, reflexo natural do corpo tão acostumado a arrepiar-se de raiva. Se atentasse-se, contudo, para além do desconforto, Heiwajima Shizuo perceberia que a última coisa que gostaria de fazer naquele momento era socar Izaya. Frustração: esse era, sim, o nome que o homem mais forte de Ikebukuro buscava. Forte o bastante para que a mão demorasse-se mais do que o necessário a realocar seu pênis semiereto na roupa íntima e seus dentes rangessem uns contra os outros. A mandíbula travada e a mão intrusa deixaram, contudo, de ser o centro de suas preocupação no instante no qual, junto ao ruído de metal contra metal, ouviu Izaya rebater, voz limpa:
— Não, Shizuo, é você quem não entende nada.
Os olhos castanhos-mel se arregalaram ao máximo, voltando-se de imediato para a cozinha e fitando Izaya para além do balcão que a separava da pequena sala-de-estar corredor. De costas, o informante parecia mexer tranquilamente o conteúdo de uma panela, o metal da colher a ressoar quando em quando com o da panela, sem emitir indício algum de que diria mais alguma coisa. O silêncio, contudo, apenas botava o guarda-costas ainda mais desconfortável.
Ele não mentira quando acusara Izaya de não entender nada. Izaya não entendia. Tampouco, contudo, ele mesmo podia dizer entender e tão livremente acusar o informante. Não entendia as costas rígidas, o quadril a chacoalhar-se de leve com os movimentos das mãos, o laço torto que prendia a ele o avental, a presença tão forte em sua casa, o beijo recente, os olhos surpresos, a súbita separação... Havia centenas de coisas sobre ele que não entendia. Nenhuma dessas coisas, entretanto, pareceu impedi-lo de saltar em desespero para fora do sofá e rumar desajeitado para a cozinha, o coração batendo mais rápido do que organizavam-se em sua cabeça os pensamentos.
Tinha que perguntar. Tinha que confirmar. Tinha que esclarecer. Tinha que toma-lo ali. Tinha que beijá-lo de novo e arrastá-lo de volta ao sofá. Tinha tanto, mas tanto, a fazer, que não pode fazer nada além de aproximar-se dele até quase tocá-lo e encará-lo com a carranca mais feia que Ikebukuro já poderia ter visto no rosto do homem mais forte do distrito.
“Eu te odeio de verdade, Izaya!”
“Você é difícil demais.”
“Eu não te odeio tanto assim, Izaya.”
“Eu escolhi as palavras erradas.”
“Você me deve explicações, seu maldito!”
“Você tem que me ouvir, pulga... entender o que digo...”
“Você não pode me largar daquele jeito no sofá depois de provocar!”
“Por que você me largou daquele jeito?... Eu te queria tanto!”
A menos de um metro e meio de distância de seu pior inimigo, Shizuo não era capaz de escolher qual era a postura que deveria assumir com ele. Sua frustração queria arrancar dele a colher de metal e expulsá-lo de seu apartamento o mais rápido possível, rosnando que nunca mais queria vê-lo. Ao mesmo tempo, contudo, a ideia de que havia sido ele, mais uma vez, a arrancar de Izaya aquele tipo de reação o mantinha calado, trocando o peso de uma perna a outra e olhando-o estático por mais tempo do que seria esperado do homem que sempre agia por impulsos.
E foi estático, calado e olhando-o em espera que percebeu em Orihara Izaya algo de diferente para além do postura rígida que tanto parecia incomodada com sua proximidade.
— Oe, Izaya, o que aconteceu com sua cabeça? – perguntou, surpreso, aproximando-se do rapaz em frente ao fogão e tocando-o na testa como se até instantes atrás não fosse esta exata aproximação tão impossível para ele.
Os olhos castanho-avermelhados encararam-no confusos, piscando algumas vezes e, se não demasiadamente ocupado deslizando os dedos pela testa exposta até as bochechas pálidas, Shizuo entenderia que era apenas o choque pela aproximação súbita e pergunta inesperada o que mantinha Orihara Izaya no lugar e a colher de metal fervente longe de seu rosto.
— Nada aconteceu com minha cabeç- – começou, a voz baixa, levemente rouca enquanto afastava-se devagar do toque em seu queixo e prendia ao cabo da panela a colher. Estancou, entretanto, de súbito, levando a mão agora livre até a própria testa e, progressivamente, relaxando o rosto tenso até moldá-lo em diversão. O que quer que diria foi imediatamente substituído por uma gargalhada alta, surpreendentemente sonora – Eu não acredito em você! Só percebeu agora? Estava me agarrando até pouco e só agora percebeu? Por que estava me olhando daquele jeito estranho antes, então? E, sério, Shizu-chan, que tipo de pessoa faz uma pergunta dessas pra alguém que cortou o cabelo? – o riso, tão animado a entrecortar as palavras, acabou por involuntariamente levar também sorriso aos lábios de Shizuo – ‘Oe, Izaya, o que aconteceu com sua cabeça?’... Sério, Shizu-chan, que tipo de pergunta estranha é essa?
“Shizu-chan”
“Shizu-chan”
“Shizu-chan” – ecoou sua mente, alivio descomedido inundando seus pulmões.
— Cortou o cabelo?
— Claro que sim! O que tinha pensado? Que minha cabeça encolheu?! Você mesmo que disse que estava comprido demais.
— Disse? – como resposta, ganhou uma careta e um dar de língua que apenas fez crescer ainda mais o sorriso em seus olhos. Mais confiante, aproximou-se e mais uma vez tocou a testa descoberta, percebendo, então sim, que a franja que normalmente a cobria permanecia presa por um par de grampos no topo da cabeça cheia dos cabelos que, inegavelmente, estavam mais curtos do que estavam da última vez que os vira – E sua testa?
— Está no mesmo lugar de sempre, Shizu-chan. – a resposta mal-humorada arrancou do homem mais forte de Ikebukuro um riso sonoro, era evidente que a exposição daquele pedaço de pele em específico não agradava sequer minimamente o informante – Celty cortou demais...
— Celty cortou?
“Era isso, então!” – pesou, quase constrangido ao perceber que não fora para encontrá-lo ou para provocá-lo que, daquela vez, Izaya botara os pés em Ikebukuro. O informante realmente tinha um encontro com a entregadora.
— Cortou. Ela me disse que sempre faz para o Shinra, então achei que estava tudo bem quando ela se ofereceu para cortar... Mas o corte do Shinra é o oposto do meu. Os redemoinhos são diferentes, os lados são diferentes... Enfim, ela achou que eram iguais e cortou como corta para ele. Mas não era. Daí tentou consertar, com medo que eu ficasse bravo, e piorou ainda mais... No fim, minha franja está estranha e por isso está pres- tira a merda da mão, Shizu-chan, não vai ver não! Nem pensar!
Se seu sorriso divertido já não estivesse tão largo, Shizuo certamente acabaria por rir ainda mais diante do absurdo da cena que desenrolava-se entre ele e Izaya. Não era, afinal, todos os dias que os dois homens mais fortes de Ikebukuro engatavam uma briguinha preguiçosa cheias de tapas nas mãos e resmungos pela posse de dois grampos de cabelo. A possibilidade, contudo, de que tal absurda briga terminasse mal – reconhecida após um esbarro sonoro do quadril de Izaya contra o fogão ainda aceso – fez com que desistisse e contentasse-se com a inesperada visão da testa tão branca de seu pior inimigo.
Era o bastante. Era mais do que o bastante para ele.
— Brigou com ela? – perguntou, por fim, afastando-se mais uma vez e apoiando displicentemente o quadril na pequena mesa de jantar.
Izaya pareceu confuso com sua pergunta, encarando-o de cenho cerrado – tão perfeitamente reconhecível na testa exposta – antes de piscar firme e desviar os olhos, umedecendo de leve os lábios antes de virar-se em direção ao fogão e tomar mais uma vez a colher entre os dedos.
— Como poderia? – a voz, tão baixa, obrigou o guarda-costas a inclinar-se em direção a ele na tentativa de ouvi-lo, não precisa, contudo, de muito esforço para perceber que Izaya falava mais para si mesmo – Celty é tão... eu nem sei mais... é estranho... só... não é justo... com ela...
Um arquejo surpreso escapou sonoro dos lábios de Izaya quando o abraçou pelas costas e enlaçou com ambos os braços sua cintura, Shizuo, contudo, sentiu-se aliviado ao confirmar que esta seria a única reação dele, sem movimento algum no sentido de afastá-lo. Não saberia como agir se ele o fizesse, não tinha, afinal, um bom motivo para justificar as duas mãos espalmadas na barriga lisa, o nariz a empurrar parte da blusa negra até descobrir parcialmente um dos ombros e o beijo que plantou lá. Ele apenas sabia que devia fazê-lo ao ver as costas de Izaya mais uma vez tencionarem-se e a voz mais uma vez perder a diversão. E, de forma como não sabia explicar, inegavelmente entendia-o. Ao menos um pouco, entendia-o. Tinha, também, sentimentos confusos em relação à entregadora e à doçura sem explicações dela. E, por mais que soubesse que não eram os motivos dos dois aos mesmos, e por mais que sequer soubesse quais eram os motivos de Izaya, entendia a confusão nele.
Quando, contudo, sentiu o rapaz em seus braços apoiar o peso em seu peito e relaxar com um suspiro fundo, voltando a ritmicamente remexer o conteúdo da panela, soube que a escolha de abraça-lo não fora a errada.
Inspirou fundo, tranquilidade desconhecida preenchendo lentamente cada um de seus pulmões.
Era confortável, daquela forma. O cheiro suave do caldo na panela. A cabeça apoiada nos cabelos macios. As palmas das mãos a aquecerem-se na barriga lisa e as costas das mãos na chama constante do fogão. O silêncio suave quebrado apenas ora pelo ressoar do metal, ora pelo borbulhar do caldo.
Não seria difícil permanecer para sempre daquela forma, quieto, a respiração suave de Izaya embalando-se em seu peito. Sem palavras a serem ditas ou explicações a serem pedidas.
Apreciava o silêncio. Verdadeiramente apreciava. Era sempre, indubitavelmente, Izaya a quebra-lo. Tagarelando sobre qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa. As promoções nos mercados, o discurso etéreo do político no jornal, a habilidade de Celty na cozinha, o programa novo no TV, as histórias engraçadas de Kadota, o novo filme de Kasuka, a decoração das lojas para o Natal, a previsão do tempo, os frascos suspeitos no apartamento do Shinra, alguém que o havia cumprimentado na rua, as gavetas trancadas no apartamento grande demais, as sensações de memórias... Quase podia, se esforçasse-se, imaginar Izaya preenchendo o silêncio confortável com a voz melodiosa e levemente maliciosa.
E, exatamente por saber que, normalmente, aquele silêncio confortável seria todo da voz de Izaya, sabia que precisava falar algo. Sabia que seria ingenuidade achar que toda a estranheza entre eles se dissipara só porque agora Izaya aceitava seu abraço. Era, afinal, tudo o que mais desejava e, por assim ser, sabia que não era como as coisas seriam para Izaya. Sabia que, independente do quanto suas palavras parecessem antes piorar do que ajudar, se ficasse mais uma vez calado e deixasse-se convencer de que estava tudo bem acabaria por estragar tudo de vez. Não cometeria este erro. Não de novo. Não quando o resultado de um mal entendido afastara Izaya durante duas semanas. Não quando o silêncio do informante tanto tinha de permanente. Precisava falar, independentemente do que fosse.
— É sopa isso?
“Você é ridículo, Shizuo”
— Uhum. Por quê? Não quer? Tarde demais.
— Você gosta de batatas, né? – trincou os dentes, desconfortável. “Não é isso! Merda!” – Mas não de cenouras cozidas. Como é que você pode gostar delas cruas mas não cozidas, Izaya-kun?
— Não quero ouvir isso de um cara que torce o nariz só de ver propaganda de legumes na TV. – retrucou o informante, inegável diversão embalando os movimentos da colher entre seus dedos.
Shizuo não pode evitar franzir o cenho. Aquela conversa, definitivamente, não estava tomando o rumo adequado.
— Espero que não tenha cogumelos ai.
— Não tem... Mas agora que comentou, acho uma boa colocar. Meu plano inicial era legumes e carne, mas cogumelos são bem melhores, não são?
— Não são. – resmungou contra o pescoço pálido, o desconforto em seu peito aliviando-se um pouco ao notar a pele tão aproxima arrepiar-se e corpo colado ao seu remexer-se.
A ideia de desistir do que precisava dizer e trocar todas as necessárias desconfortáveis conversas por beijos no pescoço exposto até que Izaya arrastasse-se com ele de volta ao pequeno sofá de dois lugares surgiu-lhe tão forte que por pouco, muito pouco, não desligou o fogão e puxou para seu colo o informante. Não precisaria de muito, ele sabia. Dois, talvez três beijos bastariam. Até mesmo um fosse o suficiente para convencer o esquivo rapaz, se junto a ele sua mão ainda tão confortavelmente espalmada no ventre liso descesse um pouco mais.
Havia algo contudo, e até mesmo Heiwajima Shizuo reconhecia que esse algo estava muito mais dentro dele do que dentro de Izaya, que o impedia de ir adiante.
‘Porque é errado’, esse algo gritava. E, ainda que não pudesse de todo decidir o que haveria de tão errado em seguir adiante ou que cada centímetro de sua pele sussurrasse que tocar Izaya não poderia nunca ser errado, sua mão permanecia estancada e sua língua coçando em desconforto.
Inspirou fundo uma, duas, três vezes e afastou devagar o corpo, distanciando-se o bastante para que sua respiração voltasse ao normal.
Tomara sua decisão.
— Izaya, escuta, eu m- nós dois e- você entend-
Um golpe. Não muito forte, mas forte o bastante para fazê-lo calar-se. As costas de Izaya encontraram com considerável força mais uma vez seu peito, aconchegando-se ali com mais agressividade do que era esperada de uma aproximação como aquela.
— Tudo bem, Shizu-chan. – a voz, livre de qualquer diversão, sibilou em sua direção sem que os olhos castanho-avermelhados virassem-se para olhá-lo – Tudo bem... Eu sei...
“Sabe?”
— Mas, pulg-
— Tudo bem, eu disse. – ainda que tranquila, a voz aumentou um tom, alargando em surpresa os olhos cor de avelã – É só que... fica quieto. Não quero falar agora. Nem ouvir nada.
— Oe, Izay-
— Cala a boca, Shizu-chan. Só um pouco. Só vai estragar. – os olhos castanhos-mel, agora abertos aos limites, fitaram confusos Izaya a girar o botão do fogão, cessar de imediato o fogo e soltar a colher sonoramente dentro da panela – Quer transar? É isso? Vamos transar, então.
Claro que queria, fazer sexo com Izaya era exatamente o que desejava desde o momento no qual encontrara-o ao abrir a porta de seu pequeno apartamento. Sua resposta era simples. As mãos tão presas na cintura fina escorregariam até as coxas e as enlaçaria em volta de seu quadril enquanto levava o informante até seu quarto. O resto resolveria depois. Poderia perguntar, depois, por que a proposta fora feita e por que havia tanto de estranheza nela. Depois. Não agora. Agora poderia facilmente dizer sim e deixar de preocupar-se.
As mãos, contudo, estancaram, pousando suaves no cós da calça negra enquanto Heiwajima Shizuo percebia que seria impossível para ele seguir adiante.
— Não quer? – a voz, levemente surpresa, serviu como prenúncio de como estariam os olhos castanho-avermelhados quando o informante finalmente afastasse-se do fogão e virasse-se para olhá-lo. Mesmo que, contudo, estivesse preparado para o par de íris surpresas, piscou confuso diante do pequeno bico que Izaya ostentava nos lábios entreabertos – Tudo bem, então. Entendi.
Um bico, olhos baixos, voz hesitante: não havia, para um Heiwajima Shizuo a fitar com inquestionável confusão o rapaz a sua frente, um verbo mais inadequado para descrever sua atual situação do que “entender”. Ele, verdadeiramente, não entendia sequer centímetro de Orihara Izaya.
— Entendeu? – piscou, confuso – Entendeu o quê?
Olhos confusos, tão confusos quanto os seus próprios estavam, fitaram-no firme, os lábios em bico apertando-se cada vez mais juntos e o cenho a franzir-se em evidente desconforto.
— Eu achei que você queria... É por causa daquilo, não é? Não devia ficar se esfregando em mim, então, se não é assim que gosta... O que queria que eu fizesse?! Que ficasse quieto?! Mas, tudo bem. Eu entendi, Shizu-chan, entendi perfeitamente.
O tom acusatório, a respiração descompassada, a indignação quase palpável, antes mesmo de poder conter-se, um grunhido de pura frustração escapou dos lábios do homem mais forte de Ikebukuro. Heiwajima Shizuo não se lembrava de alguma vez em sua breve vida sentir-se tão perdido.
— Não, Izaya! – rugiu, incapaz de controlar a altura da voz – Você não entendeu. E nem eu, na verdade. Não faço sequer ideia do que caralho tá falando ou do que merda seja “aquilo”. Não entendo nada do que você está fazendo desde que entrei nesse caralho desse apartamento! – respirou fundo, apertando de leve o rapaz que o encarava em choque em um abraço sutil e afundando o nariz brevemente nos cabelos negros tão finos – Eu achei que você não queria de verdade, que era errado... Mas não sei de mais nada. Claro que eu quero você. Só não tô entendendo porra nenhuma. Você quer? Agora?
Izaya não o afastou, não o respondeu e não se moveu. Não correspondeu, contudo, também e tampouco fez qualquer menção de abraçá-lo de volta. Permaneceu estático, parado, até o momento no qual o momento mais forte de Ikebukuro o soltou e encarou-o nos olhos. Então, com expressão oscilando entre neutra e surpresa, virou-se outra vez de costas, ligou o fogão e, pescando do caldo a colher, continuou a remexer o conteúdo da panela, ignorando o olhar incrédulo no rosto do guarda-costas e, mais uma vez, preenchendo com o som do metal a ressoar contra metal o silêncio entre eles.
Shizuo permaneceu quieto, os olhos presos às costas de Izaya e o peito a progressivamente inflar-se em fúria enquanto lentamente assimilava as reações do informante.
— Não acredito em você! – rugiu, indignação preenchendo cada tom de sua voz – O que diabos tá acontecendo com você, caralho?! Não fode comigo, Izaya. Sério... Eu...
Balançando a cabeça em negação, Heiwajima Shizuo rumou com passos firmes para fora da cozinha.
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