(in) esquecível
2 Sobre como você bateu à minha porta
Notas iniciais
Sobre como você bateu à minha porta
Respirou fundo, preenchendo ambos os pulmões, e soltou todo o ar de uma só vez, rápido e fortemente. Repetiu o gesto outras duas vezes, cada vez uma delas mais profunda. Sua intenção era, sobretudo, parar o tremor em suas mãos e as batidas fortes em seu peito.
O ar que lhe invadia os pulmões era frio e úmido, resultado de um dia chuvoso de fim de outono.
Agradeceu silenciosamente por já estar em casa quando a chuva fez-se forte, caindo sobre Ikebukuro em grossas e frias gotas. Particularmente não gostava de frio e a chegada do inverno deixava-o impossivelmente mais mal-humorado do que o normal, o que não o agradava nem minimamente. Claro que ele, assim como os outros moradores do distrito, tinha vários motivos pra desgostar do frio e culpa-lo pelo crescente mau-humor. Os números nos marcadores dos termómetros relacionavam-se, por exemplo, de forma inversamente proporcional com a quantidade de roupas, e mesmo que estas se acumulassem e sobrepusessem umas sobre as outras, nada parecia capaz de frear a ascensão da coriza aos narizes e os pés constantemente gelados. Mas ele, desgostosamente, não poderia sequer dizer que era isso que o fazia torcer os lábios para a chuva que caia do lado de fora de sua janela. Sua aversão – e aqui ele diferia-se dos outros moradores de Ikebukuro – era principalmente resultado do fato de que seu mau-humor – que normalmente já o trazia problemas demais para que precisasse aumenta-los – atingia níveis estratosféricos na estação fria e fazia impossível a ele manter seus punhos longe de problemas. Não havia forma, portanto, como ser confortável a ele a ascensão da quarta estação, não quando o frio parecia, ironicamente, fazê-lo queimar.
Não foi a insatisfação com o prenúncio de inverno, entretanto, que o fez respirar fundo mais uma vez, desconfortável e frustrado. Poderia ter sido, claro, aquele dia, afinal, o tinha dado bastantes motivos para fazer ferver seu já sempre quente sangue. Ele perguntou-se mais de uma vez porque diabos as pessoas não podiam, simplesmente, comprar sapatos com solas antiderrapantes. Nunca aprendiam: as chuvas sempre se faziam presentes naqueles dias do ano, trazendo consigo inevitáveis pisos escorregadios. Ele sabia que o simples ato de permanecer de pé tornaria-se gradualmente mais árduo quando às chuvas juntasse-se também a neve. Não que ele mesmo tivesse comprado seus sapatos – Kasuka se encarregara de escolher bons pares: solas resistentes, antiderrapantes e combinados com seu uniforme de barman –, mas isso não diminuía sua raiva quando alguém esbarrava contra ele nas ruas ou usava-o como apoio após um escorregão. Era claro que em dias chuvosas as calçadas ficariam escorregadias. Isso acontecia todo ano! Todos sabiam isso! Porque então ele sempre era obrigado a enfiar o punho na cara de algum engraçadinho em todo santo início de inverno? Ninguém ali naquele distrito percebia o quão difícil era manter o punho longe de rostos alheios em dias frios e chuvosos?
Dessa forma, poderia ser, em absoluto, a irritação pelo tempo e pelo que ele inexoravelmente fazia aos estranhos moradores de Ikebukuro que o fazia procurar nervosamente no bolso da calça social negra por seu maço de cigarros e levar rapidamente um aos lábios.
Mas não era.
Heiwajima Shizuo sequer se lembrava de que recorrera à violência naquele dia chuvoso ao menos três vezes, sendo repreendido por Tom, seu empregador e amigo, em todas elas. Os dedos trêmulos que acendiam mecanicamente o cigarro não eram estimulados por recordações, eles pareciam, antes disso, expectantes.
A nicotina não surtiu o desejado efeito e mesmo depois de intensos tragos a adrenalina parecia correr por sua veia com contraditória mais intensidade que antes. Torceu as mãos juntas, inquieto. Seus instintos estavam em alerta como se preparados para uma luta e nada parecia ser capaz de convencê-los de que estava seguro em seu apartamento, sozinho, enquanto as escuras nuvens do lado de fora despejavam suas últimas gotas nas já encharcadas ruas de Ikebukuro.
Levantou-se, impaciente, da poltrona na qual se sentava e pôs-se a andar pela pequena sala. Como se realmente tivesse isso como objetivo claro desde o momento que se pôs de pé, caminhou diretamente para a janela, afastou a discreta cortina azul-escuro e olhou para além do vidro.
Nada. Não havia nada ali que merecesse sua atenção. O céu estava tediosamente negro e cinza, sem rastro algum de lua ou estrelas, as ruas estavam molhadas e vazias e o pequeno bar em frente a seu prédio mostrava-se tão deserto que parecia perfeitamente provável que rolasse ali uma pequena bola de feno. Nada, absolutamente nada ali, justificava sua apreensão e o segundo cigarro que levou aos lábios.
Voltou novamente a atenção para dentro, como se longe de sua supervisão algo em seu apartamento pudesse ter mudado e o perigo estivesse ali agora, a espreita. Correu os olhos rapidamente pelo pequeno cômodo. Não era algo que poderia ser realmente chamado de sala de estar, ali mal havia espaço para o pequeno sofá de dois lugares, a poltrona confortável que recebera de Kasuka no retrasado Natal e uma TV. Talvez o nome “sala de estar” que constava em seu contrato de aluguel era apenas uma desculpa de seu locador para cobrar mais caro por aquilo que parecia ser um corredor estranhamente posicionado no centro de seu apartamento. Ele poderia incomodar-se, mas estava bem com isso. Quanto menos espaço menos móveis e quanto menos móveis menos dinheiro gasto em consertos. De toda forma, aquele apartamento era uma pechincha e mesmo que desconfiasse que o motivo para tal baixo preço fosse sua reputação, não se sentia irritado.
Como esperado, não havia nada de errado em seu apartamento, nem na sala-de-estar-corredor nem no quarto, cozinha e banheiro visitados posteriormente. Afastou o cigarro dos lábios e inspirou fundo mais uma vez. Tudo ao redor cheirava chuva, não o confortável cheiro de terra-molhada, mas o estranho cheiro que mesclava humidade e poluição que apenas cidades grandes são capazes de criar.
Mas mesmo que nada na rua ou no cheiro do ar indicasse isso, ele estava certo de que havia algum problema ali. Ele apenas não sabia ainda qual era.
Ainda.
Ele precisou de cinquenta minutos, apenas cinquenta. Tempo o suficiente tomar um quente banho, espiar uma segunda vez pela janela – desta vez a diminuta de seu banheiro –, notar que a chuva parara novamente, trocar seu uniforme de barman por um conjunto antigo de moletom cinza claro e sacar da geladeira um pequeno copo de pudim industrializado sabor baunilha.
Cinquenta minutos e então duas batidas em sua porta de entrada. Bem suaves, como se incertas.
Segurou com força a colher em sua mão direita, parando-a no caminho entre o copo e seus lábios, e franziu o cenho, torcendo o nariz para a porta marrom escura que delimitava seu território pessoal.
Arriscou inspirar fundo pela sexta vez e sentiu correr por suas narinas a explicação por trás de todas as vezes nas quais repetira aquele gesto naquela noite: ele conhecia o cheiro que batia à sua porta.
Não se importou quando o desejado pudim deixou sua mão e encontrou o chão em um baque surdo, assim como não se importou quando a colher em seus dedos dobrou-se em duas como se feita de papel. Sequer ouviu quando duas novas batidas tão suaves e incertas quanto as anteriores ressoaram pelo apartamento. A próxima coisa que sentiu foi o tecido negro de uma camisa fina envolver-se em seus dedos e o odioso cheiro intensificar-se. Sentia como se uma sombra cobrisse todos os seus sentidos: estava cego ao olhar assustado que lhe foi lançado e surdo ao suspiro surpreso que escapou dolorido da garganta que apertava.
– I-ZA-YA! – o grito escapou num rosnado rouco. Ele desejava cuspir centenas de outras palavras: “Fora de Ikebukuro”, “Vou te matar”, “Pulga desgraçada”, ou mesmo a pergunta sobre o porquê de aquele homem bater à sua porta com tamanha naturalidade num noite de terça-feira, mas calou-se, mudo pela raiva.
Virou-se bruscamente, arrastando consigo o leve corpo sob seus dedos e prensando-o com força contra a parede do corredor de acesso a seu apartamento. Sorriu ao ouvir um gemido abafado, mas o sorriso se desfez imediatamente quando se lembrou de que não demoraria a ser atingido por um ataque agudo da rápida lâmina de um canivete. Afastou parcialmente o corpo, esticando o braço para manter presa sua vítima contra a parede branca e com a mão livre posicionou-se para impedir o golpe que sabia que viria. O golpe, entretanto, não veio, nem no instante imediato nem nos que se seguiram. Franziu o cenho e encarou o rosto do homem cuja garganta apertava.
– Mas que merda...? – exclamou, olhos arregalados.
Afrouxou rapidamente o aperto em repulsa, ouvindo o agora solto corpo chocar-se com força contra o chão, inerte.
Surpresa o fez relaxar a expressão, mas não demorou a cerrá-la novamente, desconfiado, enquanto esperava pelo momento que o homem inerte no chão, aos seus pés, ecoaria sua odiosa risada pelo corredor deserto e o tentaria acertar depois do sujo truque. Mas este momento não veio.
Shizuo não soube precisar quanto tempo ficou parado, em pé, encarando o homem desacordado a seus pés, mas foi tempo o suficiente para nota-lo ensopado e descobrir um rastro de sangue que escapava por entre seus negros cabelos e sujava o corredor cinza do prédio. Não soube, portanto, quanto tempo levou para que os lábios levemente arroxeados tremessem de leve e os olhos de coloração atipicamente maldosa abrissem-se devagar e o fitassem de baixo.
– Você é Heiwajima Shizuo?
Seus lábios poderiam ter-se abertos, surpresos, e seus olhos poderiam ter corridos pelos arredores, incertos. Qualquer uma destas ações seria justificada e perfeitamente compressível. Ele esperava, afinal, muitas coisas de Orihara Izaya, seu pior inimigo. Esperava provocações, golpes, cortes, prisões injustificadas, acusações de crimes, insultos; mas não esperava dele seu nome completo e, principalmente, não esperava a voz oscilante e olhos apavorados que agora mostrava. Ao contrário de surpresa pelo que presenciava, entretanto, o guarda-costas franziu o cenho com clara raiva e apertou os punhos, mantendo-se calado. O outro pareceu notar e desviou o olhar, recuando o corpo contra a parede. Vê-lo em tal posição defensiva fez com que Shizuo estreitasse ainda mais os olhos, desconfiado.
“Mas que caralho é isso? Ele está zoando minha cara, né?!”. Contudo, por mais que desejasse, seus punhos recusavam-se a refletir a indignação de sua mente e acertarem aquele homem – encolhido no canto entre sua porta e o corredor – que se recusava a encará-lo diretamente com aqueles grandes olhos castanho-avermelhados. Da mesma forma que seu punho recusava-se a baixar sobre o odioso rosto voltado para baixo, ele também não podia controlar o arrepio que corria por sua espinha, desconfortável, gelado, gritando a ele que havia algo errado naqueles olhos covardes.
Antes que pudesse perceber, enterrou os dedos no gorro do casaco negro, levantou o leve corpo encolhido e o lançou para longe, de encontro à parede oposta. Com o caminho desobstruído, entrou em seu apartamento e fechou a porta, recostando-se contra ela pelo lado de dentro e buscando em seu bolso um novo cigarro.
Não estava fugindo, sabia que não, mas também não sabia dizer o que o mantinha do lado de dentro do apartamento quando Orihara Izaya estava ao alcance de suas mãos, ameaçando seu território. Mas, como ao longo de toda a sua vida, não teve tempo para pensar no que fazia antes de ver-se encarando sua sala-de-estar com um cigarro pendendo de seus lábios retesados. Tudo o que sabia era que seu corpo todo gritava em repulsa, reagindo a aflição que sentia correr por suas veias ao ver-se na presença daquele homem e de seu olhar castanho rubro que conhecia há anos mas que lhe parecia estrangeiro.
Mal conseguira o primeiro trago, entretanto, quando ouviu novas batidas na porta seguidas por uma voz baixa, quase como um sussurro:
– Desculpe, mas... Disseram-me que eu devia te procurar. Você é Heiwajima Shizuo, não é? Este é o endereço certo, não é?
Não havia dúvidas, aquela era a voz de Izaya.
Impulsivamente abriu a porta, rápido e num só puxão. Arregalou os olhos ao sentir um choque contra seu corpo. “O maldito... o maldito... a pulga desgraçada...”. Mal podia orientar seus pensamentos. Estava em choque. Entretanto, por mais que sua mente recusasse-se a processar, seu corpo estava plenamente ciente do que acontecia, plenamente ciente da cabeça apoiada desajeitadamente em seu peito e das mãos que seguravam incertas ambos os seus braços. “O maldito caiu em mim”.
– Ah! Eu sinto muito. Eu realmente sinto muito... Eu estava apoiado, mas dai você abriu tão rápido a porta e... eu não sabia que você ia abrir assim... Desculpa-me. Sério, desculpa mesmo. Eu vou te soltar. Olha, já soltei! Viu? Tudo bem...
Encarou profundamente o homem que se inclinava excessivamente a sua frente em um exagerado pedido de desculpas e respirou fundo mais uma vez, sentindo o cheiro que ele emitia invadir novamente suas narinas. Ele fedia. Fedia a Izaya, mas, ainda assim, os olhos que o encararam receosos, ainda que odiosamente castanho-avermelhados, não pareciam pertencer ao informante.
– Fede.
– Fede? Eu? Eu estou fedendo? Desculpa... e eu encostei em você. Tem chuva e tem essa sensação estranha na minha cabeça. Acho que me machuquei de alguma forma. E, dai eu acordei e...
– Cala a boca. – Shizuo cortou-o, encarando os lábios abertos do outro como se dali a qualquer momento fosse escapar um riso malicioso e um deboche, os lábios, entretanto, apenas fecharam-se firmemente em obediência. Arqueou uma sobrancelha involuntariamente: Izaya havia se calado. Ele sentia, entretanto, que mesmo que aquela ordem tivesse sido proferida em voz alta e na direção dos olhos castanho-avermelhados, ela parecia pertencer mais a si mesmo do que a qualquer outro. “Cale-se, Shizuo. Pare com isso!”, era o que ele queria poder dizer a si mesmo. E ele daria qualquer coisa para poder cumprir a ordem com a mesma facilidade com a qual a cumprira aquele Orihara Izaya, mas não pode fazê-lo. A pergunta que gostaria de evitar fluiu sem barreias por sua língua, e nem mesmo a estupidez que sentia ao proferi-la ou a certeza de que aqueles olhos repugnantes que o encaravam e aquele cheiro insuportável que o cercava pertenciam a seu pior inimigo foi capaz de impedi-la – Quem caralho é você?
Os tais repugnantes olhos que o encaravam ansiosos pareceram escurecer-se levemente e baixaram. Torceu o lábio levemente e mesmo sem conhecer ao certo alguma expressão daquele rosto que não a desprezível malícia ou o deboche, Shizuo arriscou que era decepção o que ali via.
– Então você não me conhece? O endereço que me deram estava errado? Você não é Heiwajima Shizuo? – não pode evitar antes de acenar positivamente com a cabeça. Não que quisesse dar respostas, mas se sentia estranhamente pressionado por aqueles grandes olhos curiosos e confusos – Ufa, é você afinal, vim no lugar certo! Então... você conhece algum Orihara Izaya?
Crispou os lábios e apertou os punhos, seus pés deram um passo involuntário em direção ao outro, pisando com força o cigarro que caíra no chão quando abrira a porta repentinamente. “Mas que merda...?”. Antes que pudesse parar-se, entretanto, acenou positivamente para os olhos curiosos pela segunda vez.
– Certo. Então... Eu sou ele? Digo, eu sou Orihara Izaya?
– Que diabos!
– Não sou?
Os olhos que haviam se acendido agora se baixavam mais uma vez, e desta vez a decepção era clara. Os pés se moveram levemente como se o sapato lhe apertasse e os braços balançaram-se desajeitadamente antes de encontrarem morada nos bolsos do casaco. Shizuo pensou em recuar, sabia o que havia naqueles bolsos: um canivete e talvez algumas lâminas. Ele tinha certeza que agora os dedos do homem a sua frente resvalavam de leve em suas armas e ele sorria internamente pela cena que estava criando e pela clara confusão que certamente via no rosto de Shizuo. Ele tinha certeza disso, entretanto não recuou e nem tentou atacar antes de ser atingido, apenas permaneceu parado na soleira de sua porta encarando o topo da cabeça repleta de lisos cabelos negros que se abaixara levemente.
Shizuo já vira Izaya fazer várias coisas, mas era a primeira vez que o via olhando encabulado para os próprios pés, remexendo-se desconfortável e recusando-se a olha-lo no rosto com seu típico olhar desafiador e cheio de perversos segredos. Talvez fosse exatamente por isso que era incapaz de simplesmente esmurra-lo. Ele poderia, sem problema algum, apagar aquele homem estranhamente embaraçado na entrada de seu apartamento: bastava apenas levantar um punho, um só golpe e nem seria necessária toda a sua força. Ele poderia, sem dúvida, colocar aquele homem abaixo. Ele poderia com ridícula facilidade. E talvez fosse exatamente por saber o quão fácil seria, o quão insignificante ameaça aquele ser a sua frente representava que não o fez, mantendo seu punho fechado firmemente preso à lateral de seu corpo.
Mas isto, claro, não significava que não estava a ponto de explodir. Era uma fera esperando o momento certo. Apenas um movimento em falso e ele reagiria. E ele sabia que este movimento viria. Afinal, era uma brincadeira, era certo que era: Izaya batia à sua porta numa noite chuvosa de terça-feira, não revidava seu golpe, perguntava se era realmente Heiwajima Shizuo e depois perguntava se conhecia Orihara Izaya para em seguida questionar se não era ele mesmo o tal indivíduo de nome odioso. Claro que era uma brincadeira. O que mais seria? A qualquer momento uma risada alta preencheria o corredor deserto de seu prédio e ele seria atingido por lâminas. Contrariando suas expectativas, entretanto, tudo o que o atingiu foi um novo olhar curioso.
– Mas você disse quando me viu: “Izaya”! Meu nome, certo? Eu estava quase apagando, mas ouvi. Orihara Izaya sou eu, né?! E você é Heiwajima Shizuo! Aquela garota estava certa, você me conhece! – o rapaz falava muito rápido e com empolgação quase contagiante, seus olhos transbordavam uma felicidade que Shizuo nem sabia ser capaz de lá encontrar. Não pode evitar duvidar se, apesar do cheiro e da aparência, aquele era mesmo Izaya. Num segundo, entretanto, o olhar mudou de feliz para preocupado – Diga-me, Heiwajima-san, eu fiz alguma coisa? – o guarda-costas franziu o cenho, não sabia se o que atraia suas sobrancelhas uma a outra era ouvir seu nome com tal honorífico ou a estranheza naquela pergunta. Parecendo notar sua confusão, o provável-mas-ainda-incerto Izaya continuou – Digo, você me atacou quando me viu... Eu fiz algo? Nós brigamos?
E este o estopim, a fera soltou-se: todos os seus sentidos nublaram-se e tudo o que soube foi que seu punho encontrou com força o rosto curioso e preocupava que o fitava. Um golpe apenas, como esperado, e o homem de cabelos negros e cheiro de Orihara Izaya estava no chão pela segunda vez em menos de quinze minutos. Shizuo quase se sentiu frustrado. Quase. E quase tentou um segundo soco. Quase. Mas aquele corpo caído na soleira de sua porta não o fazia ter vontade de absolutamente nada, ele ficou, portanto, com seus “quases”.
Soltou todo o ar de seus pulmões e fitou aquela incógnita que barrava a caminho de saída. “A pulga teria desviado”, foi tudo o que conseguiu pensar. O que trazia imprecisão a sua conclusão, entretanto, era que ele não tinha dúvidas de que aquele era “a pulga”. Então, claro, havia algo extremante errado em alguma parte da história, ele só não sabia qual. O cheiro de problema era quase tão forte quanto o cheiro de Izaya.
Empurrou sem qualquer sutileza o homem desmaiado com seu pé esquerdo – exatamente como se faz a um animal morto –, fazendo-o alcançar o corredor e olhou-o apenas mais uma vez antes de entrar em seu apartamento e fechar a porta.
Ele não estava fugindo. Heiwajima Shizuo não fugia. Ele apenas estava decidindo manter-se longe daquele problema. Ele sabia tão bem quanto sabia seu nome que Orihara Izaya significava encrenca, mesmo quando, aparentemente, ele não era tão ele mesmo, mas um rapaz com olhos curiosos e capaz de usar os honoríficos certos.
Era óbvio, claro, que se desejasse tanto assim se manter longe daquele problema de olhos castanho-avermelhados e sorriso malicioso teria o afastado mais do que apenas um metro e meio da porta de entrada de seu apartamento. Ele o teria lançado para longe de Ikebukuro. Mas não foi isso o que fez. E, certamente, não é necessário dizer que ele se arrependeria de não tê-lo feito.
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