(in) esquecível
15 Sobre como tudo o que você é me é estranho
Notas iniciais
Sobre como tudo o que você é me é estranho
Postes arremessados, máquinas de venda automática voadoras, lâminas afiadas, insultos, perseguições, prisões infundadas, empregos perdidos, ameaças de morte. Era um fato: Heiwajima Shizuo não sabia como era uma relação normal com Orihara Izaya. Nunca soubera. E exatamente por não saber o que era uma relação normal, também não poderia precisar o que era seu oposto, o que representaria a eles uma interação estranha. Assim, ele não sabia dizer exatamente o que o fazia sentir coceiras de irritação pelo corpo e intercalar imprudentemente pudins gelados de baunilha a cigarros amargos na função de manter seus lábios em constante trabalho e impedi-los de enlouquecer em xingamentos e lançarem-no ao homem que há dias não trocava com ele mais do que algumas palavras e alguns olhares.
Doce. Amargo. Doce. Amargo. Doce. Às vezes duas doses de amargura seguidas uma a outra. Para um homem conhecido pela imprevisibilidade, Heiwajima Shizuo seguia com uma fidelidade invejável o ritual que desenvolvera desde a noite da quarta-feira na qual convidara o que na teoria era seu pior inimigo para permanecer em sua casa sem sequer estipular quaisquer restrições temporais.
Nos dois dias que precederam sua atual sexta-feira, o guarda-costas descobriu como por entre a desagradável mescla de pudim de baunilha e nicotina não havia espaço algum para o sabor de Orihara Izaya. E descobriu que ao intercalar assim os sabores em sua boca quase podia se convencer a acreditar que um beijo entre ele e o informante mais perigoso de Ikebukuro nunca acontecera. Isso não evitava, entretanto, que a cada vez que levasse uma colher aos lábios ou pousasse-os em um filtro de papel fizesse-o pensando em se livrar do gosto de um beijo que já sequer acreditava ter provado. Assim como isso não evitava que após escovar os dentes e meter-se por entre cobertores e lençóis todas as sensações que evitara com alguma margem de sucesso durante o dia invadissem-no impiedosamente.
O sabor de Izaya não era menta, certamente, o peso de Izaya era em definitivo superior ao de uns pares de cobertores e o cheiro de Izaya não era o de amaciante de lavanda, mas nada disso parecia impedir Shizuo de sentir-se ao término de todas as noites exatamente como na tarde na qual trouxera Izaya ao seu colo e provara-o.
Se não estivesse tão fora de si com a estranha sensação de desconforto que preenchia seu corpo a cada vez que sentia necessidade de manter sua boca ocupada, Shizuo talvez visse ironia na forma como era agora um prisioneiro de memórias. E ele talvez sorrisse resignadamente ao perceber o quão cruel o destino era ao colocá-lo a correr atrás de memórias de Orihara Izaya e fazê-lo começar a correr de suas próprias. Correndo atrás de lugares que trouxessem de volta a Izaya suas memórias e correndo de lugares que trouxessem a ele memórias de Izaya. Correndo atrás de cheiros e sabores que trouxessem de volta Izaya e fugindo vergonhosamente de cheiros e sabores que trouxessem de volta, a ele, Izaya. E talvez ele não conseguisse evitar que ao sorriso resignado juntasse-se também um acenar incrédulo ao perceber que, diferente das memórias do informante, que pareciam fugir obstinadamente dele, as memórias de Shizuo não hesitavam em invadir sua mente a cada mínima distração.
Os suspiros. O peso em seu colo. Os dedos em seus cabelos. Aos braços em volta de seu pescoço. Aos lábios sob seus. A língua entrelaçada a sua. O hálito quente. A cintura magra. O calor da pele por baixo da camisa negra. Os pelos arrepiados sob seus dedos. Shizuo não podia evitar se perguntar como o próprio dono de tanto do que atormentava suas memórias era capaz de não se lembrar. E ele quase invejou Izaya por ser capaz de esquecer-se de si mesmo. Shizuo percebeu, relutantemente, que não era capaz de fazer o mesmo.
Ele nunca fora bom procurando desculpas para o que em sua vida saia de seu controle. Ele, inconsequentemente, sempre culpou a Izaya por toda e qualquer irregularidade. Não seria diferente desta vez. Ele culpou Izaya por sua cama não parecer confortável como deveria. Culpou Izaya por seu sono interrompido com frequência. Culpou Izaya pela falta de sabor do café da manhã. Culpou Izaya pelas broncas recebidas de Tom. Culpou Izaya pela ineficiência que os socos desferidos tiveram em acalmar seu peito. E culpou Izaya pela constantemente em crescimento sensação de desconforto que preenchia seus pensamentos em todos os momentos do dia. Mas talvez, ainda que tantas vezes acusado inocentemente, Izaya fosse o real culpado pelo desconforto de Shizuo naquele momento. O guarda-costas, afinal, por mais que não soubesse exatamente como era o comportamento normal de Orihara Izaya, sabia que não era normal a ele agir como agira nos últimos dois dias.
E ainda que Shizuo se esforçasse neste sentido, era impossível considerar o silêncio de Izaya algo normal quando ele já durava tanto.
Não era, claro, um silêncio total, seria impossível sê-lo enquanto Izaya se mantivesse em sua casa e fizesse todas as atividades que se dispôs a fazer desde que dissera aceitar ficar como seu convidado. Localização de produtos de limpeza e cardápio do dia, entretanto, não eram exatamente o que Shizuo esperava como tópicos representativos de conversa. Não que ele se incomodasse de todo com o silêncio de Izaya, era fácil chegar do trabalho e encontra-lo cozinhando, sentar-se para comer em silêncio enquanto ele tomava banho e tomar seu próprio banho enquanto ele comia. Era fácil meter-se entre as cobertas e largar outras tantas no sofá onde tinha certeza que Izaya permaneceria a noite toda. E era, principalmente, fácil tentar esquecer-se de que perdera os lábios por entre os de Izaya quando os lábios do informante mantinham-se tão firmemente cerrados.
Se o informante pretendia manter consigo o que pensava sobre o beijo, não seria Shizuo a pressioná-lo a abrir a boca. Ele não falaria sobre nada, portanto, mas estava além de suas forças – independente do quão imensas elas fossem – controlar o desconforto que crescia em seu peito ao não ouvir de Izaya palavra alguma. Ele sabia, afinal, que Izaya não era o tipo de homem que se calava. Nem o que se dedicara anos a atormentá-lo, nem o que batera a sua porta numa terça-feira chuvosa semanas atrás.
Controlar seus lábios mostrava-se, porém, gradualmente mais complicado conforme a semana avançava e dobrava impiedosamente as horas silenciosas. Ele considerou – e o fez como apenas homens que não dormem bem há dois dias fazem – que controlá-los mostrava-se difícil exatamente por ter neles – apesar do pudim, da nicotina e da pasta de dente – ainda algum traço de Izaya. Talvez o informante tivesse soprado por entre seus lábios a indesejável e incontrolável necessidade de falar. E exatamente por considerar isso considerou também aceitar um dos convites que recebia com certa frequência e que recebeu também na noite daquela sexta-feira pouco tempo após adentrar, com Tom em seu encalço, um pequeno bar que ousava anunciar-se na pequena placa em sua entrada como um “restaurante familiar”. Seria exagero dizer que ele recebia sempre convites daquela forma, mas recebia convites o suficiente para entender que a garota que devia acumular na pele por baixo da pesada maquiagem não mais do que duas décadas e meia oferecia a ele a chance de controlar os lábios que a cada dia mostravam-se mais nervosos ao colá-los em outros.
Fora Tom que o apontara o olhar nada discreto que a mulher lançara a ele enquanto os dois comiam juntos após o fim das atividades do dia. Seu empregador e amigo sempre parecia divertir-se imensamente quando situações assim surgiam. As palavras “não, Shizuo, ela não está te encarando porque está com medo ou porque está querendo fofocar sobre você” seriam certamente entrecortadas por risos indiscretos caso o cobrador não fosse tão adepto da preservação de sua integridade física. Shizuo assumia, mesmo que nunca fosse admiti-lo a Tom ou a qualquer outro, que não era especialmente bom com aproximações do gênero. Aos olhos castanho-mel, o olhar “tudo bem se você me pagar uma cerveja e a conta de um quarto de hotel” era extremamente parecido com o olhar “olha lá, o monstro de Ikebukuro”.
Modéstia não fazia parte das características de Heiwajima Shizuo, ele não tinha problemas em assumir, portanto, ainda que apenas a si mesmo, que sabia ser um homem bonito. E mesmo que poucas vezes tivesse ouvido tal afirmação de alguém, sabia que tinha razão ao olhar seu reflexo no espelho e encontrar ali charme o suficiente para fazer alguém engolir o medo por sua reputação e aproximar-se dele.
A estranheza sentida diante do olhar da jovem, a oportunidade de preencher a necessidade de manter os lábios ocupados, o pensamento sobre substituir o gosto de Izaya pelo gosto de outra pessoa. No fim, Heiwajima Shizuo não pode explicar porque, dentre todas as possibilidades prontas a guiar seus pensamentos, ele acabaram-se por centrar-se em um único ponto e deixarem-se perder nele, esquecendo-se de todo o resto:
“Os cabelos... São bem escuros...Tanto quanto os dele...”
E dentre todas as conclusões que poderia ter chegado a partir da linha de seus pensamentos, Shizuo viu-se preso à constatação de que os cabelos de Izaya eram ainda mais negros do que os cabelos da mulher cujo sabor dos lábios deveria estar no momento a substituir o do Izaya. Negros como era também a noite que o esperava quando abandonou o bar junto a seu empregador, deixando para trás sem um segundo olhar sequer a mulher cujos cabelos não eram negros o suficiente para ganharem uma disputa contra Izaya.
Quando o ar frio invadiu seus pulmões, ele ainda pensou em virar-se e deixar-se aquecer por aquela que ele tinha certeza que abriria a ele os lábios. Ele não soube dizer, portanto, porque ao invés de girarem-se, seus calcanhares o levaram de volta a casa, onde foi recebido em total silêncio.
Não havia luz alguma acessa, mas não era necessário esforço para reconhecer no sofá uma figura escondida sob grossas camadas de cobertores. O apartamento estava tão frio quanto a noite que se insinuava fora dele, mas Shizuo estava enganado ao pensar em sua cor como a dos cabelos que agora via escapulir pelo cobertor e esparramar-se pela almofada creme de seu sofá. Apenas conforme caminhava em direção a janela de sua sala, e pousava uma das mãos na cortina escura no intuito de fechá-la ele percebia que era uma noite de lua-cheia e, portanto, mais iluminada do que pensara inicialmente.
Tóquio não era uma cidade conhecida por seu belo céu e nem Shizuo era um homem de importar-se com o que estava acima de sua cabeça, mas ele quase se sentiu mal ao cerrar de vez as cortinas e mergulhar na escuridão a sala. Se o perguntassem, ele não saberia dizer exatamente o porquê de tê-las fechado. E exatamente por não saber o que diria, não poderia negar a possibilidade de uma das razões ser a oportunidade de dizer-se cego ao que faria em seguida. Não que, no fim, não fosse uma desculpa ruim, já que podia ver exatamente o caminho que tomavam seus dedos enquanto afundava-os nos cabelos negros de Izaya.
A familiaridade do movimento poderia fazer pensar alguns desavisados que Shizuo estava acostumado a acarinhar Izaya. A maneira, entretanto, como os olhos castanhos-mel abriam-se em demasia e o guarda-costas passou a mudar com frequência desnecessária a distribuição de seu peso entre seus pés denunciava o quanto Heiwajima Shizuo sentia, desconfortavelmente, que aquela era a primeira vez que fazia isso. O que, de certa forma, não seria uma interpretação de toda errônea. Aquela era, afinal, a primeira vez na qual Shizuo tocava Izaya desde o beijo que ocorrera naquele mesmo sofá sobre o qual se inclinava progressivamente. Mesmo, portanto, que aquela não fosse a primeira vez que sentia a textura dos fios negros, era, inegavelmente, a primeira vez que o fazia tão conscientemente. Não havia despreocupação, movimentos involuntários, reflexos ou distração: os dedos que corriam pelos cabelos de Izaya sabiam exatamente o que faziam, e, por saber o que faziam, levavam seu dono a beira da loucura.
O dono dos fios acarinhados mantinha-se tão quieto quanto se mantivera nos últimos dias, a sensação que preenchia o peito de Shizuo era, entretanto, totalmente diferente da que o preencheu nos dias que o empurraram até aquele momento. Ele demorou, contudo, a perceber que o que principalmente diferia a sua atual situação do que sentia quando fitava Izaya nas últimas 48 horas não era a inquestionável proximidade física, mas a ausência dos olhos castanho-avermelhados a fitarem-no de volta. Só ao notar os olhos de cor tão característica cerrados, entregues totalmente ao sono, percebeu que o que mais o incomodou nos momentos que se seguiram ao beijo foi a forma como, ao fitar Izaya, era fitado de volta.
Diferente do silêncio, tão atípico ao informante mais perigoso de Ikebukuro, os olhos com singulares tons rubros permaneceram vivos como sempre. E talvez exatamente por mostrarem-se tão vivos faziam Shizuo tão desconfortável. Diferente dos lábios firmemente cerrados, afinal, os olhos que o fitavam faziam-no como Orihara Izaya faria.
Mesmo antes da quarta-feira fatídica, Shizuo algumas vezes já percebera sobre si o olhar atento de Izaya. Nada significativo, entretanto. Apenas raras vezes roubando sua atenção. Às vezes enquanto assistia TV, às vezes enquanto comia, às vezes enquanto falava... De quando em quando o olhar de Izaya fazia-se singularmente concentrado, formando não raras vezes uma pequena e certamente involuntária ruga entre as sobrancelhas finas e negras. Eram poucos instantes, apenas o tempo de Shizuo retribuir e deixar também uma ruga surgir em seu rosto, e então sumia magicamente, substituído imediatamente por um sorriso leve.
Nos últimos dias, entretanto, e agora Shizuo notava-se intrigado com isso, o olhar concentrado de Izaya fizera-se menos tímido e a ruga entre suas sobrancelhas fizera-se mais funda. Os lábios permaneciam irremediavelmente fechados, mas os olhos pareciam totalmente presos em indagações e análises, fitando Shizuo como se o quisessem obrigar a dizer as respostas para as perguntas que a língua recusava-se a fazer.
Shizuo percebeu imediatamente quando eles passaram a fazê-lo, mas, ainda assim, quando se viu sob a mira dos olhos que a pouco percebera como os reais culpados de parte considerável de seu desconforto, sentiu como se fosse observado desde o começo. Mesmo que soubesse ser impossível, a ideia de que, mesmo fechados, os olhos castanho-avermelhados estiveram observando seus passos todo o tempo desde que voltara a casa passou por sua mente e lá se firmou quase como certeza.
Não que ele pudesse de todo vê-los. Com a cortina fechada e a luz lunar quase que plenamente barrada, apenas dois pontinhos brilhantes deixavam-se ver. Ele não precisava, entretanto, ver a estranha cor rubra ou a firmeza analítica para saber que era observado tal como o fora ao longo dos últimos dois dias. Ainda que representassem a ele apenas dois pontos de brilho úmido, Shizuo entendia com cada célula de seu corpo que era observado com atenção.
– Hey, pulga. Está acordado?
Ainda que carregasse tom o suficiente para tal, era claro ao seu articulador que aquela não era uma pergunta. Não era necessário que fosse. Não havia dúvida alguma que os olhos que o fitavam bem abertos não estavam presos em sonhos. O alvo da desnecessária pergunta pareceu encarar da mesma forma as palavras, sequer tentando resposta. Shizuo não descartou a possibilidade, entretanto, de que o silêncio de Izaya fosse antes de tudo uma extensão do silêncio instaurado desde quarta-feira. Ambas as suposições mostraram-se falsas, contudo, quando os lábios que até então se abriam apenas para perguntar ingredientes ou localização de químicos de limpeza assumiram um tom que aos ouvidos desacostumados do homem mais forte de Ikebukuro soou estranhamente casual.
– Sim. Você chegou? – e Shizuo poderia ter rido da forma como a resposta entregue à sua pergunta desnecessária carregava consigo também uma pergunta sem sentido, mas manteve silêncio, esperando a continuação que os lábios ainda entreabertos anunciavam por vir – Desculpe, comi primeiro, mas deixei um prato para você na mesa. Você comeu? – talvez sentindo que não obteria resposta, Izaya continuou, a voz consideravelmente rouca, provavelmente pelo sono – Eu fiz curry. Quer que eu esquente pra você?
– Não estou com fome.
Por um momento, pensou que ouviria algum protesto, mas o dono dos olhos que o fitavam analiticamente frios apesar do discurso que poderia soar preocupado optou mais uma vez pelo silêncio que optara tantas vezes nos dias anteriores. Shizuo pensou que, caso Izaya escolhesse falar, ele também não se seguraria antes de carregar a voz de algum sentimento que ele não sabia dar nome e dizer “Como se você tivesse me esperado para comer ontem ou anteontem”, mesmo que isso soasse absurdamente infantil para os seus padrões. Sem repreensão que justificasse sua reclamação, escolheu também calar-se.
Silenciosos como ambos estavam, o som de Izaya movendo-se pareceu ecoar pelas paredes do apartamento. Com a denúncia do som, Shizuo não ficou totalmente surpreso quando viu escapar de seus dedos os fios negros. Não conseguiu evitar, entretanto, que seus olhos abrissem em demasia ao notar que os mantivera acariciando Izaya durante toda a conversa e também antes dela, por tempo que não saberia determinar.
Não recolheu de imediato a mão, mas também não fez movimento algum no sentindo de recuperar para si os fios negros. Com a mão estendida na direção do sofá, ainda podia sentir o calor da pele de Izaya, ainda que ele tivesse se movido o suficiente para não mais se deixar tocar. A outros, certamente, o afastamento de Izaya poderia trazer desconforto ou soar indelicado. Mesmo Shizuo, talvez em outras circunstância, ainda que já acostumado a assistir pessoas mantendo distância de si, teria se ofendido com o gesto que, mas, ele admitia, não era como se ele mesmo pretendesse continuar a tocar o informante. Se tivesse notado antes que os tocava, certamente teria sido ele mesmo a afastar os dedos dos fios negros. Foi quase com gratidão, portanto, que ele recebeu a distância imposta por aquele que deveria ser seu pior inimigo, e permitiu-se desejar brevemente que Izaya fosse mais abrangente no afastamento e afastasse dele também os olhos castanho-avermelhados. Não havia, afinal, distância o suficiente para fazer com que Shizuo se sentisse afastado quando percebia ainda em si fixos os olhos analisadores de Orihara Izaya.
Por fim, foi ele a afastar-se o suficiente para romper em definitivo o contato. Dois passos e não estava mais no campo de visão de Izaya, outros sete e Izaya não estava mais no seu. Sentir fome não o fez parar na cozinha, e o tempo gasto no banheiro foi também apenas o suficiente para uma ducha rápida e o escovar dos dentes.
O gosto em sua boca era o de menta. O peso em seu colo eram cobertores. O cheiro ao redor era amaciante de lavanda. Entretanto, aquela seria a terceira noite na qual se metia entre seus cobertores e sentiria Izaya como se grudado em sua pele, mesmo que seus lençóis frios denunciassem que estava sozinho. Difere das duas noites anteriores, contudo, após roçar a língua no céu da boca e quase poder sentir o gosto de Izaya, ele prometeu a si mesmo que no dia seguinte, sábado, encontraria algum sabor para arrancar de seus lábios o gosto de seu pior inimigo.
Era uma mentira. E, por mais que ele tentasse se convencer de que não o era desde o começo, que ao prometer a si mesmo que entraria em algum bar qualquer e provaria algum beijo qualquer realmente planejava fazê-lo, a forma como seus pensamentos sequer voltaram-se para sua promessa impedia qualquer afirmação neste sentido.
Não que ele tenha voltado diretamente a casa. Era sábado e as ruas estavam barulhentas, apinhadas de gente em trajes casuais. As conversas animadas, os risos, os rumores: no que dantes Shizuo só via desconforto, agora via a possibilidade de fugir do silêncio que o esperava quando girasse a chave que pesava em seu bolso, agarrada a um chaveiro que ganhara de Kasuka.
Tom o fez companhia. O cobrador, mesmo que por motivos diferentes dos de Shizuo, também parecia precisar relaxar. E o guarda-costas, mesmo que soubesse não estar em posição de sentir pena de alguém, sentia muito pelas olheiras e pela feição tensa que via em seu empregador. Sabia que os dias estavam sendo difíceis para ele. A empatia sentida pelo amigo aumentava ridicularmente ao considerar, também, que ainda que por razões diferentes, o que levava ambos a noites de sono mal dormidas tinha o mesmo nome: Orihara Izaya.
Tom não abrira a porta a um Izaya machucado há semanas atrás, não fora obrigado a cuidar de um Izaya possivelmente desmemoriado, não beijara Izaya e não estava a ter que lidar com um Izaya silencioso debaixo de seu teto, mas isso, infelizmente, não significava que o cobrador não era uma vítima da provável falta de memória e do silêncio do que até poucos dias era o informante mais perigoso de Ikebukuro. O sumiço de Izaya estava diretamente ligado ao aparecimento de tensão em Tom e Shizuo sabia disso.
Tom não dizia. Poucos eram os dias que fazia perguntas sobre Izaya. E mesmo quando as fazia, as perguntas eram sempre as mesmas. “Tudo bem?”, “Ele tirou os pontos?”, “Vocês têm brigado?”. Ele nunca perguntava o que Shizuo tinha certeza que mais queria saber. Era por gratidão ao amigo e empregador, portanto, que o mantinha informado de quando em quando sobre algum progresso de Izaya. Até mesmo a Shizuo, entretanto, por mais otimista que tentasse soar, era claro que o progresso de Izaya não era muito.
As poucas frases sobre o possível progresso de Izaya eram, contudo, tudo o que Shizuo compartilhava. Por mais, portanto, que sentisse que o cobrador sabia que algo acontecera naquela semana, não contara a ele sobre o beijo.
– Quer comer sushi? – ouviu-o perguntar ao seu lado quando Simon surgiu no campo de visão dos dois. Normalmente seria o Rússia Sushi a primeira opção ao saírem juntos para jantar. Shizuo, entretanto, silenciosamente arrastara Tom na direção de uma doceria cujo novo sabor de sorvete há dias desejava provar – Estou com um pouco de fome e preciso tirar esse gosto doce da minha boca... Pudim, manga e amora é uma mistura potente, não sei como você conseguiu comer tudo... E... bom, a última vez que andei por ai tomando sorvetes com alguém num sábado a noite eu estava em um encontro, Shizuo... Não me leve a mal, mas a ideia de uma comparação entre este dia e hoje não me agrada muito.
Shizuo riu, mais por saber que aquele era o intuito de Tom do que por realmente achar graça. Mais pela reclamação sobre o sabor do que pela insinuação do encontro. Ele sabia que Tom estava tentando animá-lo e sentia-se grato por isso, o cobrador, afinal, tinha os próprios problemas com que se preocupar e mesmo assim estava olhando por ele como sempre fizera.
– Você paga. – respondeu, o sorriso ainda no canto dos lábios.
– Pago a bebida e essa é minha oferta final.
Shizuo deu de ombros, recebendo como resposta um riso alto de Tom.
Poucos minutos depois estavam os dois confortavelmente sentados no balcão da casa de Sushi. Não agradava a Shizuo sentar-se ao balcão, mas sabia que em um sábado a noite este seria o máximo que conseguiriam caso não quisessem esperar por no mínimo meia hora. De alguma forma, entretanto, sentiu-se grato por poder manter as costas viradas ao mar de pessoas que sorvia missoshiro às suas costas. Normalmente o caldo não fazia parte do cardápio do restaurante, centrado em sushis exóticos, mas a ascensão do inverno e os prováveis pedidos por parte dos clientes provavelmente desencadearam a mudança. “Mudança bem-vinda”, escutou Tom afirmar ao olhar o papel entre seus dedos.
Shizuo arriscou um olhar sobre seus ombros. Ele tinha alguma esperança de que Kadota estivesse por lá, talvez junto a Erika. Mas não sabia precisar se esta esperança era algo bom ou não, ou se encontrá-los seria algo que o traria ao descontrole ou não. O acaso, entretanto, deixou-o permanecer com suas dúvidas: nem Kadota nem ninguém conhecido ocupava as mesinhas do restaurante. Ele surpreendeu-se, entretanto, com a quantidade de adolescentes que pareciam em idade escolar a ocuparem-nas. Não que isso importasse, mas ver adolescentes sempre o remetiam ao irmão – mesmo que o irmão já não fosse um – e ele perguntava-se se Kasuka não estaria trabalhando demais ou se alimentando errado.
A refeição foi silenciosa e ele atribuiu isso menos ao cansaço do homem que consigo compartilhava a refeição e mais ao fato de que Simon se mantinha fora do restaurante numa provável distribuição de panfletos. Já há dias Shizuo percebia o russo a tentar iniciar conversas. Sabia que seria questionado sobre o sábado anterior, quando caminhara com o possivelmente-desmemoriado Izaya em frente ao restaurante. E sabia que Simon não o deixaria em paz enquanto não conseguisse uma resposta, o que o fazia não pestanejar sequer um segundo antes de incluir o russo na lista de pessoas a serem evitadas. Cedo ou tarde, entretanto, teria de acrescentar uma visita ao restaurante na busca pelas memórias de Izaya e, consequentemente, responder as perguntas daquele que muitos tinham pelo segundo homem mais forte de Ikebukuro. Mesmo que soubesse não trazer nada adiantar o encontro, ficou feliz ao pousar o copo vazio na mesa e limpar as mãos em um guardanapo, plenamente satisfeito e pronto a deixar o balcão e o restaurante sem encontrar-se com Simon.
– Vai pra casa? Pra mim outro sorvete não é uma opção, mas se quiser te acompanho. – a voz de Tom alcançou-o tão logo saíra do restaurante para adentrar o frio da noite.
– Que horas são?
– Pouco pra meia-noite.
– Tarde.
– Amanhã é domingo.
– Tenho o que fazer.
– Izaya?
Shizuo não respondeu, limitando-se a pescar um cigarro no maço em um dos bolsos de sua calça social e leva-lo aos lábios. A resposta era positiva, ambos sabiam disso. Tom não precisava de uma confirmação e Shizuo não queria prolongar a conversa, não quando ela parecia seguir direto para o assunto que mais gostaria de evitar falar sobre.
– Te vejo na segunda, então?
Acenou desleixadamente com a mão que mantinha seguro o cigarro, deixando um pequeno rastro de fumaça formar sua despedida, girou os calcanhares e seguiu na direção de seu apartamento.
Não eram poucos os quarteirões que devia percorrer, mas, longe de sentir-se incomodado pelo frio que se insinuava por entre a barra e as mangas de seu casaco e disputava com seus cigarros a tarefa de esfumaçar seu hálito ou pelas pessoas que quando em quando barravam seu caminho, Shizuo sentiu-se quase grato pela caminhada. Percorrer caminhos a pé era um dos prazeres diários do homem mais forte de Ikebukuro. Não jogging ou caminhadas esportivas, apenas o caminhar tranquilo com um cigarro nos lábios.
Ele sentiu-se grato, também, por ter conseguido preencher sua mente com a indecisão do que faria no dia seguinte, se visitar Mairu e Kururi ou se enfiar na casa do Shinra e obrigá-lo a analisar mais uma vez Izaya. De toda forma, surpreendeu-se por ainda não saber se Shinra havia ou não, como Kadota, conversado com Izaya no sentindo de trazê-lo de volta memórias, ou se limitara-se a amedrontar o que na teoria era um dos homens mais perigosos de Ikebukuro com seringas e promessas de exames dolorosos.
Teria de perguntar a Izaya, mas quando chegou a esta conclusão já estava no corredor de seu andar e teve, portanto, pouco tempo para pensar no quão desagradável soava ter de perguntar algo a Izaya e vê-lo silenciar-se. E teve, consequentemente, pouco tempo para pensar que o que o esperava em casa era o silêncio. Não que ele precisasse de todo fazê-lo. A realidade, afinal, se imporia a ele no momento no qual girasse a chave em seu bolso no ferrolho prateado e antigo.
E o fez.
Silêncio, apenas silêncio, o esperava através da porta agora aberta.
Respirou fundo, sentindo o cheiro de Izaya invadir cada um dos centímetros de seu corpo e ganhou o apartamento, parando apenas momentaneamente para fechar a porta a suas costas antes de seguir em direção a sala-de-estar-corredor.
Como no dia anterior, cortina alguma cobria a janela. Entretanto, ainda que a noite fosse de lua-cheia, a sala não se mostrava iluminada como então. Sem o auxílio da luz lunar, provavelmente coberta por nuvens chuvosas, Shizuo tomou tempo a perceber que não havia silhueta alguma em seu sofá.
As cobertas continuavam lá, notou. Mas no lugar de aquecerem o rapaz cujo peso devia estar a moldar o estofado do sofá, encontravam-se dobradas sob a almofada na qual os cabelos negros e lisos deveriam espalhar-se como fizeram nas noites anteriores.
“Ele se foi!”, pulsou-lhe o peito. E o sangue bombeado rapidamente permitiu-lhe alguns instantes de latente agitação mesmo que soubesse desde o início que não tinha razão, que o peito lhe enganava ao sugerir que a ausência da silhueta do informante em seu pequeno sofá de dois lugares representava mais do que isso, mais do que apenas a ausência dele em seu sofá.
Não aquietou-se, contudo. Nunca poderia fazê-lo, afinal. Mas as inspirações profundas, diferente do que poderiam sugerir, não tinham o objetivo de fazê-lo. Ele também não precisava delas para o objetivo que as deu, entretanto. Ele nunca precisou, no fim das contas, inspirar tão profundamente para encontrar Izaya, não, ao menos, quando ele estava tão perto de si. Mas ele juraria precisar de todo o ar que entrava e deixava seu pulmão enquanto se encaminhava ao seu quarto. E talvez ele tivesse razão. Talvez mesmo todo o ar do mundo não seria o suficiente para fazê-lo equilibrado enquanto abria a porta de seu quarto e encontrava em sua cama a silhueta que no dia anterior encontrara no sofá.
As cortinas estavam fechadas e ele não acendeu a luz. Heiwajima Shizuo, entretanto, não precisava de iluminação alguma para reconhecer que dentre seus sempre frios lençóis e cobertores dormia Orihara Izaya.
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