(in) esquecível

16 Sobre como você era a surpresa


Notas iniciais
Olá, gente sedução, *.* como vão vocês? Tudo sucesso? Eu quero agradecer do fundo do meu coração a quem comentou, favoritou e está lendo a fic! s2 Esse capítulo estava pronto desde de quinta-feira, mas a autora meio esquisita teve umas ideias meio erradas que incluíam bebidas alcoólicas, facas afiadas e falta de saca-rolhas e acabou sem condições físicas de revisar o capítulo e postá-lo. Mas está tudo certinho! Tudo foi resolvido com faixa gaze e alguns chororos. =D (se você for menor de idade, não beba vinhos. Se for maior de idade, não tente abri-los com facas. Sério, péssima ideia.) Por mais que não goste da ordem dos rolês assim, portanto, vou postar primeiro o capítulo e responder em seguida os comentários. Termino de responder tudo até amanhã no máximo e mil desculpas pela inversão! Beijo,beijo, gente =* Espero que gostem do capítulo! Yuki



Sobre como você era a surpresa



Heiwajima Shizuo era a pintura exata do extremo. De tal absurda e contraditória forma que, mesmo se não escondido dos olhos atentos de outros e encoberto pela escuridão do cômodo de janelas e cortinas fechadas, mesmo se posto em praça pública e iluminado por luzes solares de um dia claro de verão, ainda não conseguiria para si a compreensão de quem o fitasse. Olhos abertos demais, lábios graciosos de menos, pupilas dilatadas demais, músculos relaxados de menos: não havia lugar no mundo para Heiwajima Shizuo e seus excessos. Não havia lugar nem mesmo dentro dele. E, portanto, ainda que sempre fosse da mesma forma – absolutamente sempre – quando a pessoa diante dele era Orihara Izaya, o homem mais forte de Ikebukuro sempre deixava-se prostrar em surpresa diante de si mesmo.

“Seu corpo tem reações bastante intensas, Shizuo”, lhe dissera mais de uma vez um Shinra de sorrisos perturbadores nos lábios. E ele nunca seria, quando esta a afirmação, capaz de negar o que lhe dizia o amigo, mas também nunca negaria o quão desnecessário era tal apontamento. Ele, melhor do que ninguém – ainda que fossem sempre novas surpresas a ele – conhecia as reações de seu corpo. Não que as compreendesse, ou as amasse ou as odiasse de todo, não que tivesse orgulho delas ou que um dia fosse parar de tentar mantê-las sobre controle, mas nunca tivera o direito de dizer que não as conhecia, ou que um dia já tenha precisado de alguém para afirmá-las extremas. Ele compreendia que lutava com mais frequência do que outros para manter-se longe de problemas e sabia que o tempo que sua paciência demorava a esgotar-se estava longe de enquadrar-se nos parâmetros aceitos como normais. E entendia, perfeitamente bem, que “intensas” era o mais próximo de um elogio que ouviria em relação às reações que tantas vezes ouvira nomeadas como monstruosas.

O homem que ainda sentia o casaco grosso de início de inverno pesar em seus ombros enquanto deixava-se ficar no limiar da porta de seu quarto sabia, portanto, que era comum a suas reações inspirar mais ar do que o normal pelas narinas mais abertas do que o normal, assim como sabia que era automático a seu peito inflar-se e a suas sobrancelhas unirem-se, e sabia que os dedos que mantinham-se longe do interruptor da luz tomavam o caminho usual ao voltarem-se endurecidos em direção a palma de sua mão e quase cravarem-se ali. Mas ele sabia, também, que por mais que aquelas fossem as intensas reações ironicamente normais de seu corpo, mostravam-se a ele ainda mais intensas do que usualmente o faziam. E, quanto a isso, ele também sabia a razão.

Mesmo sabendo, entretanto, ele definitivamente não deixaria de fazer as pupilas já dilatadas pela falta de luz do quarto abrirem-se ainda maiores ao perceber que seu padrão de intensidade sempre elevava-se quando a pessoa diante dele era Orihara Izaya. Ainda mais ar em seus pulmões, ainda mais adrenalina em suas veias, ainda mais saliva em sua boca, ainda mais força em seus músculos, ainda mais batidas em seu coração. Talvez ele sequer refutasse se alguém trocasse o quase elogio “intensas” pelo claro repúdio que carregava o adjetivo “monstruosas”. Talvez suas reações a Orihara Izaya realmente merecessem um nome mais forte. Sempre. Desde o início.

Era incrivelmente irônico, entretanto, como as reações exageradas de Shizuo ganhavam como alvo a pessoa que menos precisava delas. O guarda-costas, afinal, nunca precisou de todos os seus sentidos para perceber Izaya. Ele nunca precisou de tudo o que entregava ao sentir a presença do informante para, realmente, nota-lo. Izaya não exigia dele suas respirações profundas ou todas as forças de seus músculos para fazer-se presente como se grudado a sua pele.

Ele não precisou, portanto, de todas as inspirações pesadas que escaparam por entre os lábios que até poucos momentos considerava encaixar entre outros quaisquer para notar o cheiro de Izaya preenchendo casa mínimo centímetro de seu quarto.

E se o cheiro não fosse o bastante ou se as pupilas extremamente dilatadas não captassem com exatidão a forma entre seus lençóis, o ressonar baixinho que se fazia ouvir apesar das batidas fortes e aceleradas do coração do guarda-costas acabaria por tornar inegável a constatação de que era Izaya aquele entre seus lençóis.

E ele poderia ter ido adiante e concluído suas reações exageradas entregues apenas a Orihara Izaya. Poderia ter levado sua explosão até o fim e a deixado estourar na forma do nome do homem que jurava possuir a maior parcela de seu ódio. E não soube explicar, por fim, o que o impediu de fazê-lo. Talvez o silêncio, talvez o cheiro, talvez o escuro. Ele poderia entregar a culpa a tudo o que desejasse sem que nada alterasse suas seguintes ações. Fosse qual fosse o culpado, afinal, nada mudaria o fato de que Shizuo, após largar o casaco em seus ombros em um canto qualquer, aproximou-se da cama o suficiente para perceber Izaya abraçado a seu travesseiro. E por pouco se importar com o que o levava a fazê-lo, não forçou-se a pensar em justificativas quando sentou-se na beirada da cama e, com um suspiro, retirou seus sapatos.

Os sapatos apertavam-no um pouco os pés, provável resultado da extra camada de meias e das horas seguidas de caminhada. Nada grave, não grave o suficiente, ao menos, para justificar o suspiro. O que justificava o suspiro, e o que justificou o que se seguiu a ele, ainda mais alto, foi o cansaço. Heiwajima Shizuo estava, verdadeiramente, cansado. Não pelas horas de trabalho que faziam seu sapato apertado, mas pelas semanas andando em círculos com aquele que agora moldava seus cobertores.

Um riso baixinho ecoou em sua garganta.

Ele ouvira não só uma vez dos lábios que agora ressoavam baixinho às suas costas que era imprevisível. Não que ele considerasse a si mesmo uma pessoa de fácil interação. Ele sabia que não o era e sequer desejava sê-lo. Mas não podia evitar sentir-se frustrado e um pouco bravo por ouvir isso do homem que se manteve em quase perfeito silêncio durante três dias completos para então, ao fim deles, enfiar-se em sua cama como se fosse algo natural.

Shizuo não sabia qual era a definição de Izaya para “imprevisível”, mas tinha certeza de que pessoa alguma no mundo hesitaria em encaixar as últimas atitudes do informante na categoria. “Três dias em silêncio” e “invasão da cama alheia” seriam, afinal, perfeitas representantes de algo inesperado. E Shizuo soube, no momento no qual sentiu a cama mexer-se e ouviu o som de tecido deslizando sobre tecido, que o que aconteceria em seguida certamente mereceria igual classificação. Mesmo que soubesse, entretanto, que algo inesperado viria do homem que sentia aproximar-se às suas costas, não moveu-se sequer um centímetro até o último instante. Somente ao sentir um par de braços envolver seu pescoço, talvez numa tentativa absurda de limpar a consciência e dizer a si mesmo que tentara escapar, moveu-se minimamente. Já era tarde, entretanto, e ele sabia disso, ele estava, irremediavelmente, preso entre os braços pálidos de Orihara Izaya. E ele poderia, certamente poderia e ninguém o culparia, julgar aquele aperto um ataque, mas não teve dúvidas nem por um segundo, por mais que estranhasse receber tal gesto de Izaya, que aquele era um abraço.

Izaya era pesado, bem mais pesado do que o casaco que livrara-se instantes antes e infinitamente mais quente. Era claro a Shizuo, mesmo antes de sentir o bocejar ao lado de sua orelha, que o informante estava sonolento e, assim sonolento, jogava-se contra ele. Não havia dúvidas, entretanto, que o peso em suas costas estava desperto, mesmo que ele tenha pensado por um tempo antes de concluir isso e só tenha-o feito ao sentir o aperto afrouxar-se e toques gelados e esporádicos substituírem os braços quentes que até então enlaçavam seu pescoço. Só a estranheza pelo inesperado toque gelado o fez demorar considerável tempo a perceber que era cheirado por Izaya que, em seu trabalho, encostava nele quando em quando a ponta do nariz frio.

– O que está fazendo, pulga? – mesmo que sua voz soasse rude e sua postura mantivesse-se dura, Shizuo viu sua raiva vacilar e sua postura tensa ganhar outras razões quando, ao invés de uma resposta, uma série de pequenas inspirações alcançou suas orelhas – Hey, pulga, para com isso! O que acha que está fazendo?

Mesmo que não fosse uma pessoa conhecida por respostas completas e eficientes, Heiwajima Shizuo odiava não ter respostas a suas perguntas, qualquer reclamação, entretanto, que o homem mais forte de Ikebukuro preparava-se para gritar ao separar os lábios e unir as sobrancelhas, ficou presa em sua garganta ao sentir o peso que até então aquecia suas costas mudar-se para seu colo. As sobrancelhas que se juntavam em raiva repeliram-se com imãs de polos iguais e dos lábios entreabertos escapou uma exclamação de surpresa, falha por um puxão súbito do colarinho da camisa social branca.

As denominações anteriores de “imprevisível” pululariam agora como absurdas na mente do guarda-costas se ela não estivesse plenamente ocupada com a surpresa de receber Izaya, aquele que se calara por três dias, novamente em seu colo e tê-lo colado a seu pescoço, o rosto perdido nas dobras do colarinho de sua camisa e os dedos no trabalho quase desesperado de desatar o nó de sua gravata borboleta que sequer possuía um nó verdadeiro. E Shizuo, mesmo que nunca fosse admitir, teria suspirado satisfeito ao notar que o peso do homem em seu colo era o mesmo da tarde de quarta-feira e, consequentemente, o mesmo que imaginara naquela mesma cama desde então.

Antes, porém, de poder continuar a simetria entre sua realidade e os devaneios dos últimos dias e firmar seus dedos na cintura estranhamente fina, ou corrê-los pelos cabelos negros ou pela pele macia e quente escondida por baixo do que agora era um moletom escuro, sentiu as mãos que forçavam o nó de sua gravata e as inspirações em seu pescoço cessarem de súbito. Qualquer recordação que pudesse ter da quarta-feira anterior morreu no instante no qual encarou os olhos castanho-avermelhados que o fitavam sérios. Sérios como o fitaram no dia anterior e nos dias antes deste. Olhos que não davam opção alguma a não ser afastar as mãos que direcionava ao seu dono e retribuir a seriedade lançando a eles um olhar de igual força.

– Você chegou tarde. – a voz de Izaya, sempre limpa e sonora, soava rouca – Ontem também. – Shizuo não sabia se Izaya esperava por uma resposta, mas, independente das expectativas do informante, manteve-se calado, os olhos fixos nos olhos sérios – Você comeu? – Izaya claramente esperava, desta vez, por uma resposta, mas, mais uma vez, o guarda-costas não a entregaria. E esperou que, como na noite anterior, Izaya o contasse sobre algum prato já frio na mesa de sua cozinha que, diferente do informante, esperava por ele para uma refeição. Izaya não o fez e no lugar da voz baixa e levemente rouca a oferecer comida e desculpas, o homem mais forte de Ikubukuro recebeu um apertar de olhos e um tom que, se não estivesse tão desacostumado a ouvir, identificaria como raivoso – Vai ficar calado, Shizu-chan?

E provavelmente não era a intenção de Izaya – e Shizuo deduziu isso no instante no qual os olhos até então sério baixaram-se – que as palavras que receberia como resposta a sua pergunta que muito tinha de afronta fossem as exatas:

– O que estava fazendo comigo até agora?

E Shizuo quase – quase – arrependeu-se de dizê-las quando percebeu sumir, pouco a pouco, o peso em seu colo. Mesmo antes de virar-se para o homem que novamente deitava-se na cama e cobria-se com os pesados cobertores escuros já sabia que lá encontraria os olhos sérios que o fitavam há dias. Não só não se enganou, como, por fim, os olhos sérios fizeram-se quase a única parte visível do homem em sua cama. Os olhos sérios, cabelos negros que pareciam ainda mais escuros no quarto sem iluminação, dedos que seguraram o cobertor até a altura do nariz e sobrancelhas franzidas.

– O que estava fazendo, Izaya? – perguntou novamente ao virar-se mais um tanto e apoiar todo o peso do corpo na cama. Ainda que estivessem plenamente cobertos, Shizuo tinha certeza de que os lábios de Izaya sequer ameaçaram abrirem-se em resposta – Vai ficar calado, Izaya-chan?

Havia ironia e irritação em sua voz, e mesmo Shizuo sentiu-se desconfortável ao ouvi-la. Ele não era o tipo de homem que molda o tom na forma de brincadeiras ou provocações, e não era, em definitivo, o tipo de homem que adiciona honoríficos inadequados ao nome de pessoas com as quais está irritado. Ao fazê-lo, portanto, não pode evitar comparar a si mesmo com a pessoa que normalmente agia daquela forma. Provocações e apelidos odiosos eram nuances da voz de Orihara Izaya, não da sua. Agir daquela forma o deixava enojado. E, considerou, possivelmente causava a mesma reação no dono original de tal modus operandi, que o observava ainda mais sério e franzia suas sobrancelhas até criar entre elas um vinco que nem de longe seria considerado charmoso.

– Te cheirando. – a voz abafada pelos cobertores, mas perfeitamente reconhecível como a de Orihara Izaya, soava menos rouca do que instantes antes, provável denúncia de que o homem entre os lençóis já afastara ao menos um pouco seu sono. Shizuo, entretanto, não teria compreendido as palavras, tamanha a estranheza de recebê-las, se não ouvisse a repetição em seguida, desta vez sem o cobertor para abafá-la – Estava te cheirando.

Izaya continuava sério, o que, para Shizuo, fazia a situação bizarra o suficiente para que ele acabasse por espelhar as sobrancelhas franzidas de Izaya e cravar em sua testa rugas de desconforto.

– E por que diabos você faria isso?

A resposta não veio, mesmo que Shizuo pudesse jurar ter visto os lábios de Izaya se mexerem e seu nariz se retorcer como o de uma criança em birra.

Ainda que odiasse a situação, Shizuo acostumara-se o suficiente com a falta de respostas de Izaya para conseguir controlar seu primeiro impulso de fazê-lo falar sob tortura física. Mas, tão bem quanto sabia ser absurdo espancar um Orihara Izaya de nariz torcido em sua própria cama à uma hora da madrugada de um domingo, sabia que nunca conseguiria chegar a uma resposta sozinho. Ele não conseguia sequer imaginar, afinal, o motivo que levaria um Izaya recém-desperto e extremamente sonolento a jogar-se em seu colo e pôr-se a cheirar sua camisa após invadir sua cama depois de três dias de silêncio quase absoluto. E fazia ainda menos sentido quando ele adicionava à questão o fato de que aquele era o primeiro contato físico entre eles depois do desastroso desenrolar do beijo, desenrolar que incluía dias sem conversas e o afastamento de Izaya na noite anterior, quando o guarda-costas mais uma vez pegara-se a acarinhá-lo sem perceber. Não conseguia conciliar o fato de que o homem que desviara de seus carinhos na noite anterior era o mesmo que se metera em sua cama e jogara-se em seu colo.

Em algum momento, entretanto, da sua busca por explicações, o já imensamente confuso guarda-costas acabou por perder-se ainda mais e tocar caminhos que provavelmente fariam o homem na cama rir caso pudesse ler mentes. E foi por tomar tais caminhos estranhos que Heiwajima Shizuo acabou por, irritado, levantar-se e gritar:

– Eu fiquei o dia todo na rua trabalhando, pulga maldita. E esta é a minha cama. Eu posso sentar nela suado e você não tem nada com isso. Desgraçado! Claro que eu estarei fedendo. Você acorda no meio da madrugada só para rir de mim! Maldito! Isso é bem típico de você! A cidade está com uma infestação de malditos devedores por sua causa, idiota, e mesmo que esteja frio, se eu correr, suarei! Merda! Você é um maldito, Izaya!

E se não estivesse tão irritado com a conclusão do porquê do comportamento anormal de Izaya, Shizuo talvez tivesse percebido como a expressão dura de Izaya se transformou primeiro em surpresa, depois em diversão. Shizuo, entretanto, vasculhando de forma barulhenta e dura em seu pequeno guarda-roupas, não notou como, às suas costas, Izaya ria baixinho. Ria como há três dias não o via fazer. E, marchando a passos pesados até seu banheiro para trancar-se nele, o homem mais forte de Ikebukuro perdeu o momento no qual Izaya resmungou um “você não está fedendo, Shizu-chan”.

E o próprio Shizuo chegaria a conclusão de que não havia cheiro desagradável algum em sua camisa se, ao tirá-la em seu pequeno banheiro e cheirá-la, não sentisse apenas o cheiro de Izaya.

– Izaya maldito! Ficou se esfregando na blusa igual a merda de uma pulga e agora está tudo fedendo a ele.

E mesmo Shizuo, que nunca se apegava aos significados profundos das próprias palavras, percebeu como o “tudo” dito com a voz alterada não se referia só à blusa. Cheirava a Izaya também a calça que juntou-se à camisa social branca no cesto de roupas sujas, assim como cheiravam a Izaya as roupas que lá já estavam, ou a toalha com a qual se secou depois do banho, ou mesmo, estranhamente, as roupas que colocou em seguida. Cheirava a Izaya também a pequena sala-de-estar-corredor e o corredor que cruzou antes de adentrar o quarto que também cheirava a Izaya.

Shizuo não esperava encontrar o dono do cheiro que tomava cada centímetro da sua casa em outra posição que não metido novamente entre seus cobertores, ainda assim, não conseguiu segurar um suspiro insatisfeito. Por mais bobo que soasse até mesmo quando o fazia apenas em pensamentos, ele tinha uma pequena esperança de não encontrar Izaya em sua cama, como se durante seu banho o informante pudesse ter desaparecido e o poupado do desconforto de lidar com a atual situação. Os cabelos negros que via espalharem-se por um de seus travesseiros deram cabo, entretanto, de suas já infundadas esperanças. Izaya ainda estava ali. Ele ainda tinha, portanto, com o que lidar.

Não foi como se a ideia não tivesse brilhado – mesmo que por poucos segundos – na mente de Shizuo, mas ele nunca considerou seriamente simplesmente jogar para longe a toalha com a qual secava seus ainda úmidos cabelos e deitar-se na cama ao lado de Izaya para uma noite de sono tranquilo. A ideia soava tão absurda que ele pegava-se pensando em como, há poucos dias, isso fora possível. Ele não era ingênuo, lembrava-se que Izaya já se metera entre seus lençóis sem sua aprovação e dormira a seu lado. Ele sabia, portanto, que a possibilidade não era tão absurda quanto os arrepios em sua pele sugeriam a ele. Mesmo que não fosse de todo absurdo, ele não conseguia ignorar – por mais que quisesse, verdadeiramente, deitar-se o mais rápido possível nos cobertores quentinhos – que havia uma grande distância entre dormir ao lado de Izaya sem saber, vítima de uma sorrateira invasão noturna, e deitar-se espontaneamente ao lado daquele que até poucos dias gritava a plenos pulmões ser seu pior inimigo.

E ele sabia que ainda que fosse capaz de ignorar que aquele com o qual dividiria o cobertor seria Orihara Izaya, ainda havia o fundamental problema de dividir o cobertor com alguém. Shizuo não era uma criança. Ele acumulava em seus ombros anos o suficiente para saber o que significava dividir a cama com outra pessoa. E, acima de todos os pensamentos e sensações despertadas por eles, ele não conseguia deixar de sentir-se extremamente estúpido por pegar-se pensando no assunto, estúpido por, ao invés de expulsar Izaya de sua cama, estar pensando no que significaria deitar-se ao seu lado.

E ele poderia, realmente poderia, fazer-se de bobo e deitar-se, usando a desculpa “é minha cama, eu faço o que quiser, eu deito onde quiser”. Mas o homem mais forte de Ikebukuro nunca fora bom na sutil arte de fazer-se de bobo. Ele sabia tudo o que estaria ignorando caso fizesse-se teimoso e infantil, e, por sabê-lo, não poderia agir de tal forma.

Mas ele sabia, também, que ao fazer o que fazia enquanto dirigia-se a cama e pegava de lá um dos travesseiros, não estava a ser totalmente honesto consigo mesmo. Ele sabia que não precisava de um travesseiro. Sabia que, a partir do momento que decidira dormir em seu pequeno sofá, encontraria lá tudo o que precisava. Sabia que se sua intenção fosse somente dormir longe, ele giraria os calcanhares e dirigiria-se até a pequena sala-de-estar-corredor sem dizer palavra. Ele sabia, portanto, que a partir do momento no qual trocasse uma saída silenciosa por um “pulga maldita, me dá um travesseiro”, ele daria a Izaya o direito de manifestar-se.

– Aonde você vai?

E ele sabia, verdadeiramente sabia, que quando respondesse, daria permissão a Izaya para continuar a falar.

– Sala. – e ele sabia, sabia com a mesma força absurda de seus músculos, que sua afirmação pareceria piada quando a fizesse enquanto sentava-se novamente na cama.

– Pretende dormir lá? – limitou-se a acenar positivamente com a cabeça, certo de que o escuro não seria capaz de impedir que os olhos castanho-avermelhados sérios vissem seu gesto – Por minha causa? – desta vez, não entregou sequer aceno. Ambos conheciam a resposta a tal pergunta – Eu vou, então...

Mesmo que tais últimas palavras pudessem sugerir isso, Shizuo nunca acreditou realmente que Izaya se levantaria. E, por não acreditar, ele entendia que deveria ter sido ele mesmo a afastar-se. Ambos, o homem de cabelos loiros úmidos sentado na ponta da cama e o homem parcialmente coberto por cobertores escuros e grossos, entretanto, não moveram sequer um músculo. Os olhos castanhos-mel se abriram até o limite na tentativa de entender como o homem mais forte de Ikebukuro podia sentir-se tão inexoravelmente puxado de encontro à cama se ambas as mãos de Orihara Izaya permaneciam em repouso debaixo das cobertas. E da mesma forma como não sabia explicar como se sentiu tragado, também não pode explicar o que o fez deitar na cama ou o que o levou seus dedos a encontrarem uma das pontas do cobertor e arrastá-lo para si.

E ele procurou, verdadeiramente procurou, por algo em Izaya que justificasse como seu corpo parecia mover-se por conta própria. E, em sua procura, manteve seus olhos demasiadamente abertos o tempo todo no rosto do homem ao seu lado, e, inevitavelmente, capturou todas as nuances dele.

Os olhos castanho-avermelhados mantinham a mesma seriedade que mantiveram desde o momento no qual os encontrara em sua cama, os lábios entreabertos, entretanto, não pareciam espelhar sequer traço de certezas ou sobriedade, e, ainda que se dedicassem somente a deixar escapar uma respiração pesada, Shizuo tinha certeza de que gostariam de dizer algo. Viu-os tremerem um pouco, repuxarem-se e ganharem uma pequena mordida antes de por fim optar por fazê-lo.

– Fique aqui.

Shizuo nunca, absolutamente nunca, mesmo quando considerava aquele que batera a sua porta há algumas semanas, ouvira a voz de Izaya tão baixa e insegura, como se liberá-la arranhasse dolorosamente a garganta. E com toda sua atenção presa no informante, ele assistiu enquanto a nuance dolorida em sua voz espalhava-se por todo o rosto pálido que mal deixava-se ver no quarto escuro. Todo ele exceto os olhos. E por ver estampada insegurança na expressão do homem ao seu lado, não estranhou sequer minimamente ao senti-lo recuar quando ganhou mais território na cama e capturou para si o travesseiro que ainda mantinha-se firme nos braços dele.

Quando por fim acomodou-se, travesseiro sob seus cabelos úmidos e cobertor já aquecido pelo calor de Izaya a cobri-lo, virou-se na direção do informante e já não encontrou a insegurança de antes. Os olhos opressivamente sérios figuravam em um rosto de expressão nula.

Um sorriso nasal, sequer minimamente divertido, escapou quase como suspiro.

– Eu não entendo você, pulga.

E ele realmente acreditou que seria difícil dormir. Que ser vítima dos estranhos e atentos olhos de Izaya impediria seus próprios olhos de cerrarem-se. Fosse pelo cansaço, pela escuridão, ou pela respiração já controlada que soava ao seu lado, Shizuo mal sentiu, contudo, quando seus músculos pesaram relaxadamente nos lençóis que cheiravam a Izaya e o sono o acolheu como carinho.

Se suas previsões tivessem se concretizado e o homem mais forte de Ikebukuro tivesse demorado nem que poucos minutos a mais para dormir, ele sentiria quando os dedos finos, pálidos e cobertos de cicatrizes afastaram uma mecha do cabelo ainda parcialmente molhado que caia em seu rosto e ouviria quando os lábios que há pouco se faziam tão inseguros sussurram cheios de segurança um “eu também não entendo, Shizu-chan”. E Shizuo verdadeiramente teria se forçado a manter seus olhos abertos por mais um tempo e se obrigado, mesmo que soubesse que não receberia resposta, a interrogar novamente os olhos sérios de Izaya se soubesse que não teria novamente a chance no dia seguinte.

Não seria, entretanto, somente a ausência dos olhos sérios o que o intrigaria na manhã seguinte. Shizuo, amparado pela sonolência que o quarto parcialmente iluminado pelos raios solares que a cortina escura não era capaz de conter não deixava dissipar, questionaria a possibilidade de absolutamente tudo o que ocorrera nos quatro dias anteriores a aquela manhã fria de domingo ter sido somente um engano seu. Silêncio e ausência de toques pareciam a ele realidades quase impossíveis em relações com Orihara Izaya quando via-se subitamente atacado pelas palavras e pelos apertos do homem que até poucas horas ignorava-o.

E Shizuo considerou, mesmo que por poucos segundos, que estava louco e que sua mente cansada estava a pregar-lhe peças. Por mais que sua mente o afirmasse que havia algo de errado com o peso em suas costas, entretanto, ele não tinha dúvidas de que ele pertencia a Izaya. E por mais que ele não conseguisse conciliar sua atual situação com os silêncios e olhares sérios dos dias anteriores, não tinha dúvida alguma de que Izaya deitava-se sobre suas costas, em sua cama, com ambos os braços numa luta para envolverem seu peito preso ao colchão e os lábios que pareciam tentar encaixarem-se na curva de pescoço a declararem num tom mais alto do que Shizuo consideraria saudável para um domingo de manhã:

– Acorda, Shizu-chan, é domingo. Vamos passear! Fiz café da manhã! Está com fome? Fiz panquecas. Doces. E juro que não vou te olhar torto se você colocar pudim em cima delas. Mesmo que seja meio nojento e eu prefira que você use geleia. É meio estranho colocar coisas geladas em cima de coisas quentes. A não ser salada. Tudo bem comer salada fria com comida quente. Mas isso não significa que tudo bem colocar salada na panqueca. É ainda pior que pudim. Bem pior... De toda forma, o que vamos fazer hoje? Vamos ver minha família? Você disse antes que eu tenho duas irmãs... e gêmeas! Elas devem ser adoráveis! Vamos, Shizu-chan. Por mais quentinho que você fique dormindo, não podemos ficar o dia todo na cam-

E por mais que Shizuo tenha jurado a si mesmo que a voz irritante a soar em seu ouvido tenha sida a responsável por fazê-lo levantar de súbito e derrubar o peso em suas costas no colchão, as mãos geladas que, desistindo de abraçarem seu peito, começavam a esgueirar-se por debaixo de sua camiseta e tocarem suas costas foram as verdadeiras culpadas pelos arrepios em sua espinha que o colocaram de pé num só pulo. E, ainda que ele, atacado como fora pelo Izaya de palavras fáceis e desgovernadas, não devesse ter se surpreendido, não conseguiu evitar quando seus sonolentos olhos castanhos-mel abriram-se ao limite ao encontrarem no homem que se contorcia em risos fáceis enquanto rolava sobre seus já bagunçados cobertores o Izaya que não via há quatro dias, o Izaya que sumira magicamente depois de beijado. Por fim, ainda que uma parte sua soubesse que de nada adiantaria, ele não conseguiu evitar que fúria queimasse suas bochechas e franzisse seu cenho.

– Hei, pulga, o que diabos acha que está fazend-

E ele, por mais acostumado que devesse estar com o Izaya de riso solto e palavras impensadas, realmente não esperava que, após a atenção inicial recebida com seus gritos raivosos e desnecessariamente altos, os olhos castanho-avermelhados que inicialmente estampavam surpresa brilhassem em risos ainda mais intensos do que os anteriores.

– Shi-Shizu-chan! Você dormiu com o cabelo molhado, né?! Tá tudo bagunçado. Parece um leão rugindo. Que gracinha!

O homem mais forte de Ikebukuro realmente gostaria que sua reação fosse outra que não levar ambas as mãos até os cabelos descoloridos e meter seus dedos entre eles. Mesmo sem vê-los, não hesitaria nem por um minuto antes de declará-los ondulados e amassados. Não a ondulação bonita, natural, mas a moldada por horas de sono provavelmente agitado. E Shizuo realmente desejou poder gritar todos os xingamentos presos em sua garganta, mas sentia-se de tal forma constrangido que até mesmo a possibilidade de abrir seus lábios deixava-o desconfortável. E ele não era, em definitivo, uma pessoa que se sentia desconfortável com facilidade. Deixá-lo desconfortável parecia ser uma habilidade especial daquele novo Orihara Izaya e suas estranhas formas de elogio, sua risada divertida e seus olhos brilhando de empolgação.

– Vem aqui, Shizu-chan!

E, por mais que o homem que sorria para ele sentado sobre os joelhos dobrados parecesse pensar em seus braços abertos estendidos como uma opção viável de direção para Shizuo, as rugas que nasciam em meio as sobrancelhas castanhas não suportavam de forma alguma tal suposição.

– Cala a boca, pulga!

– Vem, Shizu-chan! Eu arrumo para você!

– Não preciso que você faça nada, pulga! Eu vou tomar um banho e-

– Eu posso te dar um banho de gato! Já que você está tipo um leão... Sabe? Com a minha líng- É brincadeira! Brincadeira, Shizu-chan! Não me olha assim! Mas banho agora não! Panqueca, lembra? Vamos comer primeiro! Estão quentinhas! Comer! Comer!

E enquanto assistia o homem sorridente marchar em pequenos pulos para fora do quarto, Shizuo só conseguia pensar no quanto ele não fazia ideia de quem era Orihara Izaya ou como lidar com ele.

Não que ele tenha sido forçado a reagir de muitas formas ao informante. O silêncio, quando decretado apenas por ele, era muito mais descomplicado do que quando compartilhado por Izaya. Seu silêncio de quem sondava e desconfiava não parecia, também, incomodar muito o homem que só silenciava-se para enfiar uma nova garfada de panquecas com geleia e mastigar.

Enquanto compartilhava a mesa com Izaya e com pilhas de panquecas que pareciam aguardar por um batalhão, Shizuo não teve sequer chance de lembrar-se que suas refeições nos dias anteriores não eram compartilhadas com ninguém. E sem se dar conta, Shizuo trocou os questionamentos pelo comportamento estranho dos dias anteriores por reclamações acerca da liberdade de cada cidadão de cobrir suas panquecas com o que desejar, independente da opinião de pulgas quanta a estranheza da combinação.

Ele não sabia se aquela era a forma natural de interagir com Orihara Izaya, mas, por não saber direito o que seria a forma estranha, acabou por, inconscientemente, optar pela maneira mais confortável. E ao Shizuo com a boca cheia de panquecas com pudim era mais confortável enraivecer-se com o riso de Izaya do que preocupar-se com o olhar sério de Izaya.

– Vamos vê-las, então?

E, ainda que devesse tê-lo feito, Shizuo não estranhou quando a demora na resposta foi causada não por sua relutância em prolongar uma conversa, mas por ter ambas as bochechas preenchidas por comida. A careta do rosto do Shizuo, por outro lado, relação alguma tinha com o conteúdo em sua boca. Ele verdadeiramente desejava adiar um pouco mais o encontro com Mairu e Kururi. Não que não gostasse das garotas. Ao considerar a relação de parentesco que ambas possuíam com seu pior inimigo, ele gostava mais delas, inegavelmente, do que era esperado. Ainda que gostasse, não lhe agradava sequer minimamente a fixação que ambas tinham por seu irmão mais novo. Não era ciúmes, nem superproteção de irmão mais velho. Kasuka era famoso e ter fãs era parte de sua fama, Shizuo sentiria-se ridículo caso encarasse algum grau de fixação como um problema. O problema era, verdadeiramente, o arrepio que corria-lhe a espinha ao imaginar qualquer pessoa que carregasse o sobrenome “Orihara” com algum grau de fixação por alguém. Se ele pudesse evitar, gostaria de não manter-se a mercê das perguntas das gêmeas sobre seu irmão mais novo, e, se pudesse escolher, manteria nula qualquer relação entre um “Orihara” e um “Heiwajima”. Não que, em sua atual situação, comendo panquecas com o pior dos representantes do sobrenome, ele tivesse alguma moral para opinar sobre os fãs de Hanejima Yuuhei.

– Eu não tenho o número delas. Tá com seu celular ai?

– Shinra já me perguntou sobre meu celular... talvez eu tivesse um antes de acordar no beco... Mas, sinceramente, não encontrei nadinha, Shizu-chan.

– Eu devo ter em algum lugar... histórico de mensagem ou algo assim... Sempre me perguntando do Kasuka, aquelas duas.

– Não fala de boca cheia, Shizu-chan! Será que seu irmão não tem o número delas, então? Eles são amigos?

– Eu espero que não.

– Por quê?

Um suspiro fez-se ouvir por entre os lábios que há pouco se haviam aberto para a última garfada. Shizuo não podia evitar sentir-se frustrado diante da quantidade de informações desnecessárias que entregava ao informante sem se dar conta.

– Porque não.

– Elas não são legais?

O guarda-costas não pode evitar sorrir, ainda que sequer rastro de diversão tenha alcançado seus lábios.

– Gente como eu, ou como você, nunca tem moral pra dizer se alguém é legal ou não, pulga. Mas elas são ok, eu acho. Mesmo que as perguntas delas sobre Kasuka me tragam arrepios às vezes. Certas coisas nem eu mesmo quero saber sobre ele.

– Perguntas? Oh! Elas gostam dele, talvez? – Shizuo limitou-se a acenar desleixadamente, levando o último gole de seu leite aos lábios – Shizu-chan, isso faz de nós dois família? Tem nome pra um grau assim de parentesco? Cunhado seria o que seu irmão significaria pra mim...

– Cala a boca, pulga, Kasuka não é seu cunhado!

– Ele deve ser bonito igual a você, Shizu-chan! Mairu e Kururi são parecidas comigo?

– Hum... – Shizuo, involuntariamente, viu-se percorrendo sua mente em busca de imagens das gêmeas e comparando-as com o homem que sorria largamente na cadeira a sua frente – O cabelo delas é um pouco mais claro. Mas não são de todo diferentes. O normal para irmãos, eu acho. Sei lá.

– E a gente se dá bem?

Os olhos de Izaya ainda o fitavam interessados, esperando por uma resposta. Shizuo, entretanto, manteve-se calado. Desta vez, entretanto, não era raiva, panquecas ou mesmo a falta de vontade o que o mantinha calado. Ele, verdadeiramente, começara a responder à pergunta tão logo a recebera, mas optara por calar-se ao notar que a resposta seria um “na verdade não. Elas já me ofereceram entregar você em troca de informações sobre Kasuka”. Medir palavras ou preocupar-se com o impacto delas em seu receptor não era algo que Shizuo, normalmente, faria. Entretanto, sob o ainda mais curioso olhar castanho-avermelhado, Shizuo pegou-se franzindo a sobrancelhas e considerando se seria melhor dizer que a relação entre os irmãos Orihara era longe de ser fraternalmente adequada ou deixar Izaya descobrir por ele mesmo quando encontrasse as irmãs.

– Vocês são irmãos. Irmãos sempre brigam. E você não é bem o modelo ideal de irmão mais velho. E aquelas duas também não são muito fáceis. – Shizuo não sabia se o desconforto em seu peito era causado pelo tom de sua voz, quase apaziguadora, ou se pela clara decepção no rosto de Izaya. Fosse qual fosse o motivo, entretanto, ele procurou rapidamente por algo que afastasse o nó que se formava em sua garganta – De toda forma você as encontra hoje. É domingo, elas não têm aulas. Vou ligar pro Shinra, ele com certeza tem o número delas.

– O Shinra?

– Médico. Ele tem o telefone de todo mundo. Seria impossível não ter justo o das suas irmãs.

Alguns xingamentos soaram altos pelo apartamento até que Shizuo encontrasse o celular no bolso da calça que usara no dia anterior – jogada dentro do cesto de roupa sujas – e ligasse para Shinra.

Ao telefone, Shinra falou mais do que o necessário e perguntou muito mais do que o guarda-costas desejava responder. Não que Shizuo não esperasse por isso, ele conhecia o amigo bem demais para saber que uma conversa prática e unicamente informativa seria impossível. Mesmo que soubesse, entretanto, foi pego de surpresa pela forma como o amigo, após finalmente tê-lo ouvido explicar a razão da ligação e tê-lo permitido registrar o número das gêmeas na agenda de seu celular, impediu-o de desligar e inundou-o com uma avalanche de observações inquestionavelmente aleatórias que se estendiam para muito além das usuais perguntas acerca da condição física do informante. Em clara confusão e algo de raiva, Shizuo viu-se preso no meio de explicações sobre o funcionamento do corpo masculino. Ele não tinha qualquer palpite do porquê de o médico clandestino considera-lo ignorante quanto a constituição dos corpos de homens (“Homens não têm vaginas, Shizuo”) ou mesmo da razão que o levava a incluir estas considerações no meio de conversas sobre a saúde física de Izaya (“Shizuo, não bata na cabeça dele. Ainda não sabemos direito como foi o trauma. E, a propósito, homens têm pênis”). Nunca fora plano seu, entretanto, compreender o funcionamento da cabeça de Shinra e ele, verdadeiramente, tinha problemas maiores naquele momento do que a loucura do amigo.

Quando finalmente largou-se na poltrona em sua sala-de-estar-corredor e discou o número de uma das gêmeas, Shizuo já não tinha ideia se encontrar qualquer pessoa naquele dia seria uma opção saudável.

– Mairu? É o Shizuo. O quê? Kasuka está bem. Sério. – e foi revirando os olhos castanhos-mel que Shizuo notou Izaya sentado no sofá ao seu lado, olhando-o atentamente. Acenou para ele, pedindo para que se mantivesse quieto, antes de suspirar e cortar as declarações que Mairu fazia a seu irmão mais novo – É sobre seu irmão. Seu. Sim. Você tem outro irmão além dele? Não. Não é isso. Kasuka não tem nada a ve- Enfim, você e Kururi têm algum plano para hoje à tarde? Ótimo. Às três. Ok. Até lá.

– Vamos encontrá-las às três n-... – conforme, entretanto, desviava os olhos do celular em suas mãos e direcionava-os ao homem ao seu lado, Shizuo percebia que não havia necessidade alguma de explicações. O informante, provavelmente, sequer o ouviria. Os olhos castanho-avermelhados, fixos na televisão desligada, pareciam totalmente alheios a ele. Mesmo que soubesse, entretanto, da possibilidade de não ser ouvido, continuou – Não faz essa cara de idiota, pulga. Não é como se você não as conhecesse...

E Shizuo soube, por mais que não soubesse muitas coisas acerca de Izaya, que o sorriso que recebeu em troca de suas palavras, por mais que parecesse esforçar-se para isso, não era capaz de esconder a preocupação latente nas sobrancelhas negras firmemente franzidas.

Notas finais
Olá de novo, ^^ Tudo bem até aqui? Espero que tenham gostado do capítulo. *.* Beijo, beijo, =* Yuki ps. Eu confesso que estava com saudadinhas de escrever sobre o Izaya pimpão! ( XD)