(in) esquecível

28 Sobre como você se tornou meu lar


Notas iniciais
Olá, gente sucessante, tudo certo? capítulo 28 se apresentando! (meu número da sorte! iei!) E, como não poderia deixar de ser, agradeço muito todo mundo que está lendo, comentando e acompanhando a história! ♥ Obrigada, gente! O apoio de vocês me faz bastante feliz! Fora isso, tenho algumas coisinhas mais para dizer, mas nos vemos de novo nas notas finais, pode ser? Boa leitura! Espero que gostem! beijo, beijo, =* Yuki



Sobre como você se tornou meu lar

Inspirou fundo, o ar frio gelando-lhe a ponta do nariz, a expiração escapando-lhe em pequena névoa.

Devia se acalmar. Sabia disso. Saberia ainda que as vozes de Tom e Kadota não gritassem-lhe que devia. Sabia tão bem quanto sabia que se arrependeria por não fazê-lo. Acalmar-se não era possibilidade, entretanto, e isso era outra das coisas que sabia com cada mínimo centímetro de seu corpo arrepiado em ira.

Estaria mentindo, contudo, se dissesse que não amava a sensação. Amava o corpo aquecido. Amava o peso da barra nas mãos. Amava a adrenalina a correr por seus músculos. Amava do jeito errado, do jeito escondidinho. Amava com sorrisos disfarçados e fôlegos perdidos. Amava apesar da culpa que pesaria em seu travesseiro no fim daquele dia e o bastante para que, por hora, a ignorasse por completo. Não havia espaço para pesos quando tão leve parecia o metal em suas mãos, afinal. Não quando tão mais suave era entregar-se de uma vez.

Foi, portanto, o que fez.

Apertou com força os olhos, levantou o queixo e sentiu a barra de metal ceder sob seus dedos, moldando-se a eles, recebendo seu aperto quase como carinho.

Em choque com sua respiração, Ikebukuro já não lhe parecia tão fria.

Por trás de suas pálpebras, os olhares repreensivos já não mais pareciam presentes.

Encrustado em seu sorriso discreto, o desconforto que supostamente devia sentir parecia pesar-lhe como pluma.

Mais uma inspiração profunda e, então, estava pronto a entregar-se com furor digno do amante furtivo que era, girando com paixão o metal entre os dedos e pisando o chão até trincá-lo.

Ainda havia público, via-os todos por trás de suas pálpebras semicerradas. Sem seus sorrisos, agora, sem seus olhares surpresos. ‘Importar-se com eles’ era outra das considerações que devia fazer entre tantas as que tentavam pesar seus ombros. Importar-se, contudo, tanto quanto conter-se, era coisa que não podia fazer. E, ainda que nunca a fosse assumir, havia uma parte sua que amava mesmo isso. O pequeno, bastante breve, instante entre a tentativa de contenção e a culpa pela incapacidade de controle no qual simplesmente não se importava, no qual uma voz sussurrante segredava-lhe que se haviam-no trancafiado atrás das grades, deviam estar preparados, todos os que olhavam-no, para quando ele as arrancasse e soltasse-se em fúria.

Ainda ouvia suas vozes, também. Bem baixas por trás das pulsações em seus tímpanos e dos murmúrios do caos. Já não eram risadinhas nem suspiros surpresos nem cochichos sussurrados. Um pouco de receio, um pouco de desespero, um pouco de apaziguamento, um pouco de surpresa, um pouco de medo. Ouvia Tom, Kadota, até mesmo Chikage no meio delas. E, ainda que agora incapaz de discernir o que lhe diziam, sabia exatamente o que o pediam. Calma, uma inspiração mais profunda, que soltasse a barra, talvez. Aos seus ouvidos surdos pelo descontrole, pediam-no para que sentasse-se passivamente como bom animal de zoológico que era para que todos pudessem encará-lo sem medo através das grades, seguros.

Não o faria.

Não quando a sensação da barra de metal contra seus dedos era tão melhor do que o sensação de sentar-se em silêncio por trás dela. Não quando tão melhor era fazer com que o mundo se moldasse a sua volta como moldava-se a placa de trânsito sob seu aperto. Alargou, portanto, o sorriso no rosto ao girá-la outra vez, de uma mão a outra, as digitais de todos os dedos já nela marcados, ansiedade correndo sua espinha da mesma forma como supunha que fazia seu pior inimigo por Ikebukuro. Ziguezagueando pelas ruas cheias, esgueirando-se por becos, escondendo-se em vielas, já quarteirões distante.

Só a distância, afinal, explicaria o silêncio absoluto que ouvia do por trás de todas as vozes.

Orihara Izaya, como inseto que era, já escorregara para longe de seu alcance, não tinha dúvidas. O que, indiscutivelmente, tornava seu avanço ainda mais prazeroso. Prazeroso o bastante para que mantivesse os olhos fechados em caminhada cega. Não precisava, afinal, de seus olhos abertos para saber que direção tomar. Apenas uma inspiração. Uma única, mesmo que curta, denunciaria qual o caminho que Izaya impregnava com seu cheiro.

Foi com pequeno sorriso nos lábios, portanto, que inspirou fundo, inalando e expirando rápido o bastante para gelar seus pulmões.

De imediato, os olhos castanhos-mel se abriram largos.

Não a quilômetros de distância, não espalhando seu cheiro como doença pelo distrito: Orihara Izaya estava parado diretamente à sua frente, encarando-o nos olhos.

— Não vou a lugar nenhum.

Sem vocativos, sem provocações, sem medos, sem receios: a voz de Izaya era limpa e direta. Limpa e direta como era também sua postura. Os olhos firmes, os braços relaxados, os pés firmados, o queixo travado.

Um sobressalto, como se choque percorresse-lhe o corpo, forçou o homem mais forte de Ikebukuro a afrouxar os dedos em volta da barra de metal e a piscar repetidas vezes antes de firmá-la novamente. Mesmo que por Izaya, seu pior inimigo, não era acostumado a ser encarado, não de frente, não sem hesitação, não de mãos limpas, não sem lâminas empunhadas. Asco alojou-se no fim de seu estômago, travando-lhe a garganta em incômodo puro. Fossem os olhos tão fixos nos seus ou a postura tão altiva, não tinha dúvidas de que o rapaz que encarava-o através dos olhos castanhos-avermelhados ignorava sua raiva, a expressão carregada pela certeza de que não seria atacado.

Encarou-o de volta mesmo que não soubesse razão para fazê-lo. Talvez para convencê-lo do ataque e pô-lo a correr, talvez por recusa à sua presença, ou talvez – talvez – para deixar-se convencer por ele, para espelhar também em seus olhos ao menos esperança de que não abraçaria o descontrole. Não disse palavra, contudo, à espera do primeiro movimento do outro.

A movimentação, entretanto, fez-se longe dos olhares cruzados.

Alguns metros distante e com ambos os braços levantados, Tom aproximou-se três passos, o rosto imerso em preocupação e os lábios separados prontos a dizer algo. O homem mais forte de Ikebukuro, contudo, não chegou a ouvi-lo, os ouvidos tornando-se, no instante seguinte, surdos a tudo o que não fosse o som engasgado que escapava da garganta de Orihara Izaya suspenso pela gola do casaco.

Um involuntário suspiro de alívio escapou de seus lábios até então crispados quando, assim tão próximos, os olhos castanho-avermelhados fecharam-se. Não havia mais altivez alguma no rapaz de olhos apertados e lábios trêmulos. Ou, ao menos, foi o que pensou até senti-lo mover-se, engolir seco contra seus dedos e levantar uma das mãos em direção a Tom, a palma exposta, o cotovelo flexionado de leve. Não era pedido de ajuda. Mesmo com os olhos fechados, lábios presos e pontas dos pés no chão, Izaya pedia para que o cobrador não se aproximasse mais. Ainda que também por ele não fosse desejada aproximação alguma, não pode evitar que surpresa juntasse-se ao nó em sua garganta. Izaya deixava claro que lidaria sozinho com ele, livre de qualquer interferência que, todos ali sabiam, agiria a seu favor. Se Tom interferisse, se Kadota se aproximasse, se Chikage o desafiasse, se a pedante mão abaixasse-se e pedisse por ajuda... as condicionais se acumulavam sem que nada impedisse, verdadeiramente, o aperto dos dedos de Shizuo agora a marcar firme a pele pálida do pescoço de Orihara Izaya.

— Não vou para lugar algum, Shizu-chan – agora tomada por vocativo, a voz de Izaya pareceu deixar-se tomar por algo que não certezas. Rouca, um pouco fraca e trêmula. Não medo, contudo, e Shizuo soube mesmo antes de os olhos de coloração tão atípica abrirem-se para encará-lo novamente, um pouco tímidos, receosos talvez – Não para te provocar. E não porque não quero. Gosto de brincar assim com você, Shizu-chan, correr por aí... como daquela vez na Raira... mas... – a voz, já baixa, desceu outro tom, transformando-se em quase sussurro ao mesmo tempo em que as pontas geladas dos dedos cobertos de cicatrizes tocaram de leve a mão que ainda mantinha-se firme no pescoço alvo – Eu acho que não consigo hoje. D-dói um pouco... Dói um pouco se me movo. Minha bun-meu quadril... Acho que não consigo correr muito. – os olhos castanhos-mel abriram-se ao limite, fitando surpresos as bochechas pálidas colorirem-se de vermelho. Involuntariamente, desprendeu da pele de Izaya os dedos, afastando-os dos dedos frios – E... não sei se quero brincar quando você está assim bravo de verdade... É diferente... de antes... não quero assim... E-eu sei que é culpa minha por estar bravo. E eu sinto muito, Shizu-chan. – agora com ambos os pés pousados no chão, Izaya recuou um passo, tossindo um pouco e afastando-se o suficiente para que não mais suas respirações se cruzassem. Não mais o olhava diretamente, os olhos rubros fixos em algum ponto no chão – Eu não queria... Não queria ter te marcado assim... Não sabia que ia te marcar... Claro que ia, né?! Não sei no que estava pensando... – trêmulos, os dedos longos e cobertos de cicatrizes desenrolaram lentos o cachecol que envolviam-no o pescoço, revelando no colo pálido mais marcas roxas e avermelhadas do que contara no seu próprio – Eu entendo se quiser me bater... M-mas, se eu puder escolher, preferia que não o fizesse... Doeu, daquela vez quando nos conhecemos... Não quero que o Shizu-chan me machuque de novo. Não depois de ontem... Vai doer. Aqui também.

Segurando firmes o cachecol, ambas as mãos rumaram para o centro do peito, mantendo-se ali até o momento no qual os olhos castanho-avermelhados mais uma vez encararam os seus. Então, com as sobrancelhas franzidas, Izaya estendeu em sua direção o cachecol.

— Não preciso mais... – anunciou baixinho – Você pode usar... Assim ninguém mais vai ficar te olhando.

Estático, o guarda-costas fitou as mãos estendidas em sua direção, e mesmo que não precisasse de novo olhar para o pescoço de Izaya para entender que a função da peça que agora ele tentava entregar era esconder as inúmeras marcas lá presentes, não pode evitar que seus olhos prendessem-se ali. Eram muitas. Algumas bastante fortes, outras apenas manchinha, outras intensificadas pelo recente aperto.

Engoliu em seco.

Ainda que involuntariamente, lembrava-se com perfeição do momento no qual fizera algumas delas.

A do canto esquerdo, escondendo-se na curva do pescoço, fora a primeira, tinha certeza. Deixara-a ao se debruçar sobre ele quando, ainda tremendo de frio, Izaya abriu-lhe o cobertor. Uma no centro, quase a perder-se na gola do casaco, arrancara de Izaya o primeiro gemido, bem baixinho, vibrando em seus lábios. No canto direito, a mais forte de todas, as marcas de seus dentes quase ainda perfeitamente visíveis, entregara ao penetrá-lo pela primeira vez, tentativa, ele lembrava-se, de controlar-se o bastante para poder seguir adiante sem ceder ao clímax.

Cerrou momentaneamente os olhos, o gosto salgado do suor de Izaya invadindo sua língua como se mais uma vez o tocasse. Quando voltou a abri-los, não pode evitar piscar de leve para o rapaz ainda a estender-lhe o cachecol.

Não era a primeira vez que o olhava, dedicara bastante atenção a ele, afinal, instantes antes. Não podia, contudo, evitar a sensação de que apenas agora estivesse verdadeiramente vendo-o.

Piscou outra vez.

Izaya ficava bonito daquela forma, marcado por seus lábios. O casaco a cair-lhe desarrumado pelos ombros, a franja comprida bagunçada pelo frio, as bochechas coradas. Bonito o bastante para que não pudesse evitar se aproximar dele, a mão estendida ansiando por tocá-lo.

Um passo para trás e um tapa.

Os olhos arregalados de Izaya prenderam-se aos seus, surpresos, antes mesmo que percebesse que o sonoro estalo ouvido tivera como alvo a mão que estendia em direção a ele. Olhou-o confuso, arrependendo-se do olhar ao notar os olhos castanho-avermelhados enxerem-se de algo que estranhamente reconheceu como pesar.

— Ah, desculpe, não queria... – sussurrou o informante, baixinho – Só... pega esse, tudo bem?

O cachecol foi outra vez estendido em sua direção e, desta vez, o homem mais forte de Ikebukuro não teve outra alternativa que não pegá-lo. Ainda que tardia, a percepção de que Izaya provavelmente afastara-se por medo de seu toque falhou em seu peito um fôlego.

Com o cachecol vermelho em uma das mãos e a barra de ferro na outra, Heiwajima Shizuo sentia-se desconfortável até o último fio de cabelo.

Era acostumado, sem dúvidas, ao pesar que sempre acompanhava um acesso de fúria. Era acostumado a repetir, para cada soco desferido, dezenas de vezes em voz alta o quanto odiava se descontrolar. Era acostumado a fazer promessas de calma e culpar-se por cada dano causado. Era comum a ele, portanto, sentir-se mal pela própria fúria.

O que sentia ao fitar o olhar receoso de um Izaya ao mesmo tempo marcado por seus beijos e por seus dedos, contudo, era diferente da culpa a qual estava acostumado.

Ao invés de resmungos contra violência, o que mal podia conter dentro de seus lábios era um pedido de desculpas. Ainda que, a sentir em seus músculos ainda resquícios da ira, não soubesse dizer com precisão quais seriam as palavras escolhidas para seus pedidos.

— Tá tudo bem. Eu não vou ficar com frio. É só eu fazer assim... olha... e tudo quentinho.

Com o cenho franzido, viu-o fechar o zíper do casaco até o fim dos trilhos e cobrir os cabelos com o capuz. As marcas avermelhadas e os olhos rubros: ambos escondiam-se quase por completo daquela forma. Não pode, contudo, seguir o pedido feito, permanecendo com o cachecol nas mãos, estático, sem movimento algum no sentido de colocá-lo em volta do próprio pescoço.

Por um instante, acreditou que se assim se mantivesse, Izaya se adiantaria e, com um sorriso tão bobo quanto o que tinha quando o abraçou pelas costas minutos antes, o envolveria no tecido. E, mesmo que não pudesse reconhecer com perfeição os sentimentos que ainda se chocavam agitados dentro de seu peito, assumiu esperar que assim fizesse o informante.

Apesar de seus conflituosos desejos, contudo, Izaya permaneceu longe, os olhos e o desejado sorriso escondidos. E enquanto mais forte decidia querer receber dele ambos, mais para longe ele ia, agora caminhando até Kadota e dizendo a ele algo que, daquela distância, não podia ouvir, balançando entre dedos uma sacola plástica que até aquele momento não tinha visto.

Com receio que não lhe era característico, pousou a barra de ferro no chão após tentativa inútil de encaixá-la exatamente no lugar do qual a havia arrancado.

Queria poder sair de lá.

Se saísse, talvez pudesse respirar fundo, acalmar-se o suficiente para entender por que o cachecol vermelho parecia tão mais pesado que a barra que acabara de soltar. Talvez longe das dezenas de olhos que mais uma vez sentia em suas costas o novo nó preso a sua garganta tornasse-se mais suave.

Ao mesmo tempo, contudo, afastar-se parecia uma tarefa impossível, tão difícil quanto até poucos minutos era a tarefa de controlar sua raiva. Se não impossível, ao menos, uma que exigia mais de suas forças do que poderia entregar. Manter os olhos no balançar da pequena sacola plástica que Izaya carregava entre os dedos parecia, ainda que sem propósito, a única ação que podia convencer-se a fazer. E, exatamente por dedicar-se a ela com atenção desproporcional, não pode notar quando Tom postou-se a seu lado até o momento no qual ouviu sua voz:

— Tá tudo bem, Shizuo.

Era um consolo. E Shizuo poderia ter corado ao imaginar a expressão que mostrava em seu rosto para merecer de Tom um não fosse o já excesso de conflitos a alojarem-se no fundo do seu estômago. O amigo, afinal, pouquíssimas vezes já usara com ele aquele tom. (a mais recente quando espalhara-se o boato sobre o sequestro de Kasuka). Para que, naquele instante, o usasse, o guarda-costas provavelmente não tinha no rosto a mais esclarecida e feliz das expressões.

Exatamente por saber que era aquele um consolo, quando uma mão pesada pousou em suas costas quase sorriu diante de perspectiva de ganhar do amigo alguns tapinhas amigáveis. Tom, afinal, era capaz de fazê-lo – o único, provavelmente, capaz, assim como também o único capaz de pedir dele calma antes de uma explosão ou de aproximar-se apaziguador durante uma briga entre ele e Izaya. Surpreendeu-se, entretanto, involuntariamente relaxando as sobrancelhas franzidas ao extremo, ao perceber-se conduzido por empurrão sutil nas costas até o lugar onde Izaya, Kadota e Chikage conversavam. O impulso de perguntar a Tom o porquê do gesto engasgou-se em sua garganta, preso pelo orgulho e pelo receio da resposta.

— Unhum. A Celty. – a voz de Izaya, mais uma vez alta e animada, forçou seu peito a uma batida mais alta. Mesmo que não direcionada a ele, sentia certo alívio ao ouvi-la sem traços de receio.

— Celty? – a surpresa na voz de Kadota era palpável – Bem... se é ela, deve ficar tudo bem.

— Sim... Ela disse que sempre faz para o Shinra, mas não consegui decidir se isso é um ponto positivo ou negativo.

— Bom... Eu faço pra mim mesmo e nunca deu muito problema, então acho que não será estrago tão grande assim se der errado. Cresce rápido, ao menos.

— É... vai dar tudo certo. Celty é boa com essas coisas... – agora a pouco mais de um metro de distância do informante, o guarda-costas não pode evitar sentir-se tenso. Sensação que aumentou ainda mais quando teve novamente fixos em si os olhos castanho-avermelhados – Ela fez pãezinho... pra mim... esses dias... eu trouxe... até... para comer com...

Involuntariamente, sentiu sua respiração suspender-se enquanto, receosos, os olhos de Izaya procuravam pelos seus. Apenas alguns segundos, contudo, foi o que durou o contato. No instante seguinte, um relincho característico denunciou a aproximação de Celty e, ainda que os olhos castanhos-mel tenham perdido mais alguns segundos no rosto de Izaya, os olhos castanho-avermelhados correram sem hesitação para a motoqueira toda vestida de negro que estacionava a poucos metros dali.

Quando finalmente desviou o olhar para ela, encontrou um capacete decorado com orelhinhas de gato voltado exatamente para seu rosto, denunciando que, dentre todos ali, a atenção de Celty era apenas sua. Mas, ainda que fosse extremamente grato à capacidade de percepção e empatia incomparáveis da amiga, preferia que, naquele momento, ela nada perguntasse. Não saberia o que dizer caso o fizesse.

— Celty. – cumprimentou, acenando desajeitado à espera de que, então, a atenção dela voltasse-se aos outros e ela fizesse fosse lá o que fosse que Kadota e Izaya discutiam que ela faria. Não era, afinal, para encará-lo enquanto digitava e apagava textos em seu palmtop que ela percorrera o distrito até ali. Pelo que entendera do pouco o que ouvira, ela tinha algum compromisso com Izaya, e, esperava ele, esse compromisso não envolvia fita-lo até que seu constrangimento atingisse a estratosfera.

Como se, então, finalmente ciente de que toda a atenção estava a botá-lo eufórico, a entregadora desviou a atenção até Izaya, andou até ele e, carinhosamente, escorregou para longe dos cabelos negros o capuz, substituindo-o por um capacete negro. O palmtop, que até então sofria com consecutivos textos apagados, desta vez encontrou destino diante dos olhos do informante, recebendo um sonoro “ooook, você que manda, Celty” e uma continência sorridente como resposta.

Shizuo travou a mandíbula. Ainda que não fosse o mais curioso dos homens, desejava perguntar qual era o motivo do encontro entre a amiga e o homem que supostamente queria matar até alguns minutos atrás. A mesma força, contudo, que o mantinha inerte até pouco tempo, prendia-o estático ao lugar mesmo quando Izaya virara-se para olhá-lo e acenava timidamente em sua direção.

Talvez pela diferença entre o calor da recepção e a frieza da despedida. Talvez porque, ainda que não assumisse totalmente, sentisse-se culpado pela injustiça de ter ameaçado o informante por erro que também era seu. Talvez porque, sem capuz, as marcas de beijos e de aperto mais uma vez faziam-se visíveis. Ou talvez porque o cachecol pesasse tanto entre seus dedos. Antes de poder conter-se, tinha preso entre seus dedos o pulso fino de Izaya, parando-o antes que pudesse afastar-se mais.

— A chave.

A voz tremida quase fez com que corasse, mas não o impediu de jogar desleixadamente por sobre os ombros o cachecol para deixar livre a mão que agora corria afoita até um dos bolsos da calça, derrubando dele um isqueiro novo enquanto arrancava de lá a chave de seu apartamento, presa ao chaveiro da torre de Tóquio que ganhara de Kasuka há algum tempo.

Susteve a respiração enquanto Izaya o encarava de olhos arregalados, visivelmente surpreso. Tinha perfeita noção da contradição em seus atos, da promessa de assassinato até o claro convite para uma visita. Noção que, contudo, não tocava-o o bastante para que também a entendesse. Havia, ele sabia, algo de extremamente desconfortável percorrendo cada centímetro de seu corpo como choque elétrico, fosse o que fosse, contudo, não era importante naquele momento, não como era o olhar a atenuar-se no rosto de Izaya, relaxando até um contido sorriso.

O ar que até então mantinha preso em seus pulmões escapou de uma só vez quando Izaya pegou de sua mão o pequeno molho de chaves, voltando a prender-se quando, sorrindo mais aberto, o informante arrancou de seu ombro o cachecol e o passou em volta de seu pescoço, arrumando-o com uma piscadela.

— Até mais tarde, Shizu-chan. – a voz, abafada pelo capacete, soou-lhe divertida e, como já há algum tempo acontecia, Shizuo não pode deixar de aliviar-se com a diversão do informante.

O alívio durou o bastante para que assistisse Izaya acomodar-se na moto, segurar com receio a cintura de Celty, acenar outra vez em sua direção e afastar-se conforme a motoqueira manobrava pela rua larga. No instante, contudo, no qual a moto dobrou a esquina e ambos os ocupantes dela já não mais visíveis faziam-se, tudo pareceu desmoronar sobre sua cabeça.

Ele exibira durante toda aquela manhã marcas de beijos em seu pescoço e rosto. Ganhara olhares surpresos e sorrisos indiscretos por horas a fio. Descobrira que o culpado era Izaya. Ameaçara matar Izaya e partira descontrolado para cumprir a promessa quando teve a chance. Ouvira de Izaya pedidos de desculpas enquanto encarava marcas de beijos que, independente de qual ângulo olhasse, estavam piores que as dele. Soltara-o e assistira-o afastar-se para, em seguida, ser arrastado novamente para perto dele e, então, como se não fosse o suficiente ficar quieto como se nada houvesse acontecido, entregara-o a chave do próprio apartamento quando ele fez menção de afastar-se em definitivo.

— O que diabos eu tô fazendo?

O sussurro escapou-lhe baixo, mas alto o bastante para, mais uma vez, trazer às suas costas as mãos largas de Tom. Dois tapinhas foram recebidos antes de virar-se para olhá-lo no rosto, encontrando lá um sorriso discreto. Outros dois tapinhas foram recibos quando levantou a ele ambas as sobrancelhas.

— Vai dar tudo certo, Shizuo. É um pouco confuso... mas é assim mesmo.

Acenou contrariado, reprimindo na garganta o impulso de perguntar o que exatamente daria certo, travando mais uma vez diante da possibilidade de ouvir do amigo resposta que não gostaria. Tom não insistiu, também, entregando-lhe uma última batidinha no ombro antes de voltar-lhe as costas e pôr-se a caminhar, silenciosa indicação de que o horário de almoço mais atribulado que o usual havia terminado e deviam voltar ao trabalho.

Shizuo não se sentia, verdadeiramente, inclinado ao trabalho. A recente onda de ira esgotara-o ainda mais do que normalmente fazia e, mesmo que negasse, não conseguia afastar dos pensamentos o arrependimento por não ter perguntado a Izaya o porquê do encontro com Celty. Nada disso, contudo, o impediu de seguir o cobrador, a cabeça mais pesada do que normalmente estaria em uma tarde de segunda.

Arriscou um último olhar a Kadota. O amigo olhava-o de volta e acenou em sua direção. A expressão esfíngica não mostrava se o moreno via ou não tanta estranheza na recente cena quanto ele mesmo via. O sorrisinho, contudo, que ostentava o rapaz de chapéu denunciava que o membro dos dollars provavelmente dava o seu melhor para não transpassar pensamento algum ao rosto e irritar Shizuo. Tal percepção o fez descartar instantaneamente a repentina ideia que tivera de perguntar a ele o que Izaya faria com Celty. Não queria envolver Kadota em sua turbulenta relação com o informante mais do que ele já estava envolvido, e, acima disso, assumia não saber lidar com o sorriso de Chikage. Não podia evitar pensar que o líder da gangue dos motoqueiros sabia mais sobre o que acabara de acontecer do que ele próprio e isso, em definitivo, não o agradava sequer minimamente.

Ainda que não processo simples, contudo, os próprio conturbados pensamentos que quando em quando franziam suas sobrancelhas acabaram para afastar para longe qualquer suposição que fizesse sobre os pensamentos de Tom, Kadota, Chikage ou qualquer outro que presenciara a cena a pouco. Não importava, afinal, e ele não poderia, por mais que tentasse, obrigar-se a importar-se. Não havia, no fim, pensamentos quaisquer sobre suposições quaisquer que afastassem para longe o cheiro forte do cachecol em volta de seu pescoço. Não havia, consequentemente, pensamento algum sobre suposição alguma capaz de impedi-lo de repetidamente desviar as preocupações para Izaya.

O restante da tarde oscilou entre rápida demais e lenta demais e, se não mantivesse o nariz metido no tecido que cobria-lhe o colo, Shizuo teria percebido que a relativa calmaria era regalia que seu empregador lhe entregava. Em silêncio ainda mais marcado do que normalmente, tudo o que Shizuo percebia com o passar das horas era como os seus serviços de guarda-costas não estavam sendo, nem de perto, necessários e como, estranhamente, a rota daquele tarde era recheada de passagens por parques e praças.

Às sete horas em ponto um chocolate quente foi pousado entre suas mãos e uma nova batidinha depositada em suas costas. O término de suas atividades havia se dado estranhamente próximo a seu apartamento e Tom recusou enfaticamente as ofertas de que o acompanhasse até o escritório e então até em casa. Teria insistido, normalmente, mas apoiou-se no semblante relaxado e sorriso discreto do amigo para aceitar a oferta e pôr-se em caminhada que duraria menos de vinte minutos.

“Izaya e eu temos algo”.

“Algo estranho.”

“Mas ele está mentindo com tudo...”

“Apesar disso... Ontem...”

“Ele não devia ter me marcado. Eu não devia ter marcado ele.”

“Ele não faria aquela cara se estivesse mentindo, faria?”

“É impossível mentir em tudo o que ele fez ontem... mesmo ele sendo uma pulga...”

“Eu não podia ter me descontrolado!”

“Eu odeio como ele sempre arranca a raiva de dentro de mim! Desgraçado!”

“Ele não devia ter se aproximado daquele jeito, no meio de todo mundo... Não devia ter me contado o que era enquanto ria da minha cara!”

“Mas parecia tão chateado quando se afastou. Bateu na minha mão.”

“Eu não devia ter gritado.”

“A Celty devia ter aparecido antes...”

“Foi só porque o Tom se aproximou... eu não teria partido pra cima dele... ele estava parado...”

“Devia ter perguntado para o Kadota o que era...”

“Aquele maldito do Chikage deve saber de algo...”

“O cheiro é forte no cachecol...”

“E ainda continuam olhando... esses malditos. Mesmo com as marcas escondidas.”

“Preciso perguntar para a Celty sobre os fóruns.”

“Espero que Kasuka não esteja lendo nada de estranho...”

As aproximadamente cinco horas que tivera para pensar sobre Izaya não pareceram fazer diferença alguma quando ambos os seus pés pousaram no batedor de seu apartamento e sua mão cobriu a maçaneta. A proximidade entre seu nariz e o cachecol não o permitia discernir se o cheiro que sentia vinha de dentro de seu apartamento ou se não, não tinha dúvidas, contudo, de que Izaya estava lá dentro.

Respirou fundo uma, duas, três vezes antes de girar o metal. A porta estava destrancada como suspeitava e empurrá-la pouco centímetros foi o bastante para que, de uma só vez, a presença de Izaya o invadisse.

O cheiro era suave – algum caldo e arroz, talvez – e, acima de tudo, quente. Quente o bastante para que as janelas de seu pequeno apartamento embaçassem-se e sua pequena sala-de-estar-corredor tornasse-se aconchegante como há semanas não ficava.

Inspirou fundo, parado ainda na entrada, a porta às suas costas, o cenho franzido relaxando-se e os olhos fechando-se momentaneamente.

Para além do cachecol, para além do cheiro em seu próprio corpo ou suas próprias memórias, lá estava, de volta, o cheiro de Izaya a seu apartamento.

Soltou devagar o ar dos pulmões.

Não lembrava-se de quando o cheiro de Izaya deixara de irritá-lo profundamente. De quando, ao mesmo tempo em que aguçava todos os seus sentidos o cheiro passara a pô-los contraditoriamente quase como dormentes. Não lembrava-se em qual momento o cheiro confundiu-se com o cheiro de sua própria casa e associou-se a ele. Não se lembrava quando, de forma estranhamente harmônica, o cheiro de Izaya passou a representar tanto “pulga maldita” quanto “estou em casa”. A única coisa que, naquele momento, podia lembrar-se era como, progressivamente, ao longo das duas semanas anteriores, sua casa esfriara tanto mais do que os termômetros espalhados pelas ruas enquanto, pouco a pouco, a presença de Izaya desaparecia de seus lençóis e do desconforto que sentira.

O chaveiro tilintou suave na fechadura quando o girou para trancá-la e, pela primeira vez em anos, Shizuo anunciou baixinho um “cheguei em casa” ao pendurar a chave no discreto porta-chaves pregado ao lado da porta. Quando virou-se, Izaya estava a pouco passos de distância, a sua frente, no limiar entre a entrada e a sala-de-estar.

Um avental creme, as mangas da blusa comprida dobradas até a altura do cotovelo, as mãos a torcerem uma concha comprida e os cabelos presos por uma presilha expondo toda a testa: Izaya encarava-o com um sorrisinho provocador nos lábios e um pé recuado. Estava prestes a correr, o guarda-costas sabia, esperando dele alguma reação que denunciasse que nas poucas horas entre o momento que entregou em suas mãos o molho de chaves e o momento no qual pendurou-o no porta-chaves algo havia mudado e sua presença ali não mais bem-vinda era.

Algo havia mudado, era fato. E Shizuo soube disso no momento no qual inspirou fundo outra vez e devolveu o sorriso que recebia. A mudança, contudo, ainda que sem nome escolhido, longe de fazer o homem mais forte de Ikebukuro levantar o punho e a voz, o fez aproximar-se de seu suposto pior inimigo, aconchega-lo firme em seus braços e soprar um pequeno beijo em seus lábios.

“Desculpe por hoje”, “Estou feliz que esteja aqui”, “Obrigado por ter me esperado”: talvez ainda mais estranho do que dizê-las em voz alta era ter, ainda que por pouco tempo, pensado em tais palavras. Desculpas, agradecimentos, declarações: nada disso pertencia a Heiwajima Shizuo. Ainda que não pertencesse, contudo, eram estas as palavras que mantinha contidas ao cobrir os lábios de Izaya com os seus. Não dizê-las não fazia-as menos verdadeiras e isso, mais até mesmo do que a possibilidade de zombaria por parte do informante se as ouvisse, o metia medo. Ele sabia. Heiwajima Shizuo sabia que eram esses os sabores de seus beijos e isso, acima de qualquer outra coisa, assustava-o como o inferno.

Não havia meios termos, afinal. Os lábios de Izaya, ainda que não mais cuspissem injúrias, estavam por elas inexoravelmente machados. Não era tolo o bastante para acreditar que o rapaz que agora prensava com força contra a parede era diferente do rapaz que jurava odiar. As coxas que envolviam seu quadril eram as mesmas que impulsionavam saltos por seu distrito. Os gemidos baixinhos arranhavam a mesma voz que insultava-o. O fôlego que escapava truncado era o mesmo que escaparia se, ao invés de sentá-lo sobre seu colo em seu pequeno sofá, socasse lhe o estômago com toda sua força. As mãos que emaranhavam-se em seus cabelos eram as mesmas que lhe apontavam lâminas. O cheiro que queimava-o o peito seria o mesmo se Izaya se esfregasse em êxtase em seu corpo ou se zombasse de sua monstruosidade.

Não era tolo o bastante para pensar que os sorrisos maliciosos que via ao entreabrir os olhos eram resultado apenas das mãos ávidas que escorregava por entre a camisa negra.

E, ainda que justificasse-se afirmando exatamente o quanto não era tolo, provava-se o maior tolo de tolos. E, sim, essa era outras das coisas que sabia. Sabia que era um tolo. Só um tolo, afinal, continuaria em frente sabendo todas as coisas que sabia. Quando beijava o rapaz em seu colo sabia perfeitamente, afinal, que beijava Orihara Izaya. Assim como sabia perfeitamente que, se já não tivesse suas memórias de volta, as recuperaria em algum momento e, como sabia que, mesmo nesse momento, o beijaria se pudesse.

O beijaria para calar seus sorrisos inocentes, o beijaria para calar seus sorrisos maliciosos, o beijaria para calar seus elogios e o beijaria para calar seus xingamentos. O beijaria se o recebesse se braços abertos e o beijaria se lhe chamasse com lâminas nas mãos.

Sabendo tudo o que sabia, foi de um só fôlego que rosnou por entre os dentes que prendiam com força os lábios de suposto pior inimigo:

— Eu odeio você, Orihara Izaya. Odeio.

Notas finais
Olá de novo, ^^ tudo certo até aqui? obrigada por terem lido! Neste capítulo encerrei uma parte importante da história e apresento, com todo o prazer do mundo, um Heiwajima Shizuo apaixonado! Voilà! Hehehhe... foi um processo árduo e bastante truncado, mas fiquei feliz com o resultado final! Então é isso: Shizuo está perdidinho. ♥ E, bom, em questões práticas da história, isso significa um processo completo e o início de um novo. Se, portanto, os capítulos estavam sendo um pouquinhos mais centrados em emoções, agora eles se agitarão um pouco mais. *.* (sim, tô mó ansiosa!) Agora o recado: eu fiquei mais velha! Iei! ^^ E, como presente de aniversário fabuloso, ganhei da minha mamis ♥ Rose ♥ uma história linda e amável. (se estiver lendo isso daqui, mamis, sim! a última frase do capítulo é totalmente influência sua, =D) O nome da história é "Sobre pétalas e espinhos" e o link é: https://fanfiction.com.br/historia/694019/Sobre_Petalas_E_Espinhos/ Mais do que uma recomendação de leitura, é uma dica de shipper louca de Shizaya: leiam, gente, vale muito a pena! ♥ Bom, acho que é isso, nos vemos no próximo capítulo? Mais uma vez: obrigada por terem lido! beijo, beijo, =* Yuki ps. não sei se alguém tem curiosidade disso, mas acabei de fazer 25 anos! =O E sou uma geminiana com ascendente em gêmeos. *.* (sim, eu não calo a boca. sim, eu sou agitada demais e excessivamente animada. sim, eu sou curiosa pra caramba. mas não, não mudo de humor com frequência, e não, não faço fofocas, na verdade, sou bastante boa guardando segredos =D)