(in) esquecível

6 Sobre como você precisou de mim e eu, estranhamente, disse sim


Notas iniciais
Olá, pessoal mais seduzente deste site, (sério!, existe fandom mais lindo que fandom Shizaya?! Impossível!) Como estão? Eu agradeço sinceramente todo mundo que comentou tão fofamente o capítulo anterior, todo mundo que favoritou ou está acompanhando e todo mundo que está lendo! Obrigada por dedicarem tempo lendo minha história! *.* Sem mais delongas, vamos ao capítulo! Espero que gostem dele! Beijo, beijo, =* Yuki



Sobre como você precisou de mim e eu, estranhamente, disse sim

Heiwajima Shizuo não era um homem paciente. Nunca fora. Também não era um homem demasiadamente atencioso ou um homem com um imenso coração capaz de receber a todos nele, sem distinções e sem barreiras. Isso ele definitivamente nunca fora. Mas havia algo que Heiwajima Shizuo, inegavelmente, era: um irmão mais velho. E, como se não bastasse ser um irmão mais velho, ele era o irmão mais velho de um jovem consideravelmente difícil. Heiwajima Kasuka fizera, ao longo de anos, o homem mais forte de Ikebukuro alguém muito sensível às dores alheias, sendo capaz de lê-las mesmo nos mais inexpressivos rostos. Esta não era, entretanto, uma habilidade que o guarda-costas usasse com frequência, não porque não quisesse, mas porque normalmente mal tinha tempo para ela, não antes que, pelo menos, a dor alheia lhe enchesse a paciência e acabasse ele mesmo pondo um fim nela.

Com seus punhos.

Naquele momento, contudo, Shizuo não precisou usar o talento moldado por anos de convivência com Heiwajima Kasuka para notar que o homem que arfava pesado em seu sofá e cujas bochechas mostravam-se tão vermelhas como se prestes a queimar estava mal. Não havia segredo nenhum ali, o que era um fato verdadeiramente inédito em sua relação com Orihara Izaya.

Mas mesmo que não precisasse de confirmações, abaixou-se na altura do sofá e pousou com menos delicadeza do que exigia a situação a mão direita na testa de seu pior inimigo, resvalando inevitavelmente as pontas dos dedos nos fios negros. Ainda que a faixa de gaze impedisse contato direto, Shizuo pode perceber que a pele pálida queimava em febre.

Os lábios finos que geralmente cuspiam sem qualquer consideração palavras de escárnio abriram-se em um gemido ressentido de reclamação. Shizuo sabia que suas mãos, ainda que sempre quentes, estavam geladas em comparação à temperatura do outro, mas nem mesmo o segundo gemido que escapou por entre os venenosos lábios o fez se afastar, descendo as costas das mãos pelo contorno do rosto, pressionando as bochechas avermelhadas e enfim sentindo a temperatura do pescoço pálido que ainda apresentava aqui e ali algumas marcas roxas. Em contato direto com a pele do outro, sem intervenções do curativo, Shizuo não pode evitar que seus olhos abrissem-se em demasia. O informante estava mais quente do que ele pensara de início.

– Você está com febre... – por mais que as falasse em voz alta, as palavras não tinham como alvo outros ouvidos que não os seus próprios.

A consciência de que em seu sofá alguém queimava em febre acendeu algo dentro dele e no instante seguinte ele fez-se cego, totalmente cego, ao fato de que os cabelos lisos bagunçados sobre almofada eram negros e não castanhos escuros, cego ao fato de que os olhos que espaçadamente o fitavam eram agudos olhos castanho-avermelhados e não entediados olhos castanhos médios. Mas como se contagiado pela febre do outro, Heiwajima Shizuo tornou-se aéreo demais para notar nuances de cores, os cabelos escuros demais ou os olhos peculiares demais. E num segundo aquele homem arfante no sofá já não era mais o pior inimigo do homem mais forte de Ikebukuro, mas a extensão do irmão mais novo que às vezes adoecia e precisava de cuidados.

Ele sabia exatamente o que deveria fazer e não hesitou sequer um segundo antes de fazê-lo.

Levantou-se num salto e dirigiu-se a passos largos até seu guarda-roupa, pescando da porta mais alta um pesado cobertor, aquele que normalmente só seria usado semanas mais tarde, quando o inverno se fixasse com força em Ikebukuro. Com a delicadeza que destinava apenas a seu precioso Kasuka pousou o tecido sob o corpo encolhido no sofá e envolveu-o com ele. Assim envolvido no cobertor e com apenas seus cabelos negros visíveis, a ilusão de que quem precisava de sua ajuda era não Izaya mas seu querido irmão fazia-se ainda mais forte, de forma que Shizuo acabou por franzir o cenho e crispar os lábios, olhando ao redor claramente incomodado com algo. Quando finalmente percebeu o que o fazia desconfortável, correu até o seu próprio quarto e ligou o aquecedor no máximo, silenciosamente pedindo para que o cômodo se aquecesse rápido.

Dirigiu-se novamente até a sala e envolveu o leve corpo que jazia no sofá com os braços, trazendo-o para seu colo sem qualquer dificuldade. Se naquele momento não estivesse tão preso na ilusão criada por sua mente, teria percebido que o cheiro que o cercou quando trouxe para seu peito o rapaz no sofá não era sequer parecido com o perfume amadeirado que usava o ator Hanejima Yuhei. Da mesma forma, se não estivesse tão submerso em manter firme o doente em seu colo enquanto desfazia sua cama, puxando para longe a colcha e arrumando os travesseiros com a única mão livre, teria percebido que não era do feitio de seu irmão mais novo, mesmo enquanto doente, aconchegar a cabeça em seu peito. Mas, de toda forma, isso também não o teria feito desconfiar que aquele que agora deitava delicadamente em sua cama era Orihara Izaya.

Com a mesma pressa com a qual agira desde o momento que se percebeu responsável por cuidar de seu irmão mais novo, dirigiu-se até a cozinha e apanhou do armário central sua caixa de remédios. Não que Shizuo os tivesse em demasia ou precisasse constantemente deles, pelo contrário, ele quase nunca os usava, e exatamente por isso se preocupava agora com a possibilidade de que o remédio que Kasuka normalmente tomava quando tinha febre estava ou não no prazo de validade.

Apenas após ter encontrado o termómetro e suspirar aliviado ao checar que o remédio necessário estava em perfeitas condições de uso deu-se conta de que havia algo de muito errado no que fazia. Franziu o cenho e apertou a cartela do medicamento com força entre os dedos.

Aquele remédio não era o certo.

Aquela preocupação não era adequada.

Aquele que arfava em sua cama não era Kasuka.

E pela primeira vez desde que pousou os olhos no homem doente em seu sofá, permitiu-se respirar fundo, recebendo satisfeito o ar fresco da noite e desejando que ele acalmasse o frenesi no qual havia se colocado.

Esmigalhou com força entre os dedos a cartela de remédios, transformando-os todos em pó. Não podia simplesmente entrega-los a Izaya.

Os últimos quatro dias haviam-no ensinado o quão mal ele conhecia seu pior inimigo, mas agora ele tinha entre seus dedos que se apertavam firmemente contra seu punho outra prova irrefutável do quanto ele não fazia ideia de quem era Orihara Izaya. Era algo idiota para preocupar-se, ele sabia, mas não podia deixar de pensar que não tinha sequer sombra de conhecimentos sobre o que afetava ou não o informante mais perigoso que já colocara os pés em Ikebukuro. Por outro lado, entretanto, experimentava um sentimento abominável de auto repulsa por estar preocupando-se com o outro ao ponto de considerar relevante não saber qual remédio poderia ou não deixa-lo tomar. Entre todas as coisas que deveria preocupar-se, como, por exemplo, sobre estar sendo ou não enganado pelo homem febril em sua casa, Shizuo agora focava suas preocupações na possibilidade de que o homem que tinha quase certeza estar a enganá-lo fosse alérgico ao remédio que já virara pó em suas mãos.

– É ridículo! – exclamou alto, acreditando piamente que ao fazê-lo poderia, então, agir de outra forma.

Não pode, entretanto.

A única certeza que ganhou como resultado de todas as suas dúvidas foi a de que não devia arriscar-se a dar o remédio ao homem febril. E isso o fazia sentir-se patético.

Quando caminhou de volta para o quarto com o termômetro, o cenho franzido, uma jarra com água e uma caneca, já não tinha mais dúvidas de que aquele de quem cuidaria aquela noite não era Kasuka. Mas nem mesmo esta certeza o impediu de pousar os objetos que trazia consigo no criado mudo, sentar-se na beirada da cama, puxar o homem firmemente enrolado nos cobertores contra si, e, afastando os cobertores mesmo sob protestos chorosos, tirar o casaco negro e a camisa de mesma cor e meter o termômetro na axila direita da pessoa que agora ele sabia ser Orihara Izaya, seu pior inimigo. Este seu pior inimigo que agora tremia em seus braços e buscava aconchegar-se no calor de seu peito enquanto esperava pelo apito que o diria o quão complicada seria sua noite.

Quando o marcador anunciou em dígitos vermelhos que seu problema naquela noite tinha 39 graus, Shizuo teve que reprimir um xingamento teimoso que insistiu por deixar seus lábios. Kasuka nunca tivera febres acima de 38,5ºC e ele sempre tivera medicamentos para ajuda-lo a lidar com o irmão.

– Você é idiota ou o que? Estava todo fodido há menos de uma semana e dai fica pulando por ai como uma pulga maldita!

A única resposta que recebeu foi um resmungo baixo e um olhar perdido.

Bufou alto enquanto deitava novamente Izaya em seus travesseiros, ouvindo um suspiro satisfeito ao cobri-lo novamente e vendo-o encolher-se. Pescou no bolso de sua calça social seu celular e discou o número de Shinra. Um toque, dois, três. Sua paciência diminuindo a cada novo toque ouvido.

– Atende, Shinra, caralho!

A única resposta a sua irritação, entretanto, foi um sussurrado “Shizu-chan é tão boca suja...” e um riso baixo e inconsistente do homem na cama. Manteve o celular nos ouvidos até que ele parasse de soar, trazendo-o então novamente a altura dos olhos e rediscando o número, disposto a tentar outra vez.

– Se eu sou pulga... pulg-pulga maldita... o Shizu-chan é o Shizu-chan... Shizu-chan... Pulga... Hehehe... Pulga…

– Desgraçado! – rosnou, interrompendo a chamada não sucedida.

Sempre tivera problemas para livrar-se de Shinra, nunca fora de seu feitio, portanto, ser aquele que procura pelo médico. Esta era, porem, a primeira vez que se sentia tão irritado por não conseguir contatar o amigo. E como se isto não fosse o suficiente para enraivecê-lo, Izaya agora murmurava incongruências com a cabeça afundada dentro do cobertor. Bufou, tentando ao máximo controlar sua vontade de jogar seu celular contra a parede e vê-lo despedaçar-se, ou jogá-lo em Izaya e assistir enquanto ambos, seu aparelho e seu problema, quebravam de vez.

– Você está delirando, idiota! – berrou ao outro, buscando descontar toda sua frustração através de sua garganta.

Os olhos castanho-avermelhados olharam-no assustados antes de preencherem-se de diversão, diversão esta que se espalhou pelo rosto corado e alcançou os lábios finos que tremiam levemente.

– Você é bonito bravo, Shizu-chan...

Seus dedos moveram-se até o bolso de sua calça dispostos a preencher seus pulmões com nicotina até que as palavras de Izaya não lhe fizessem querer mata-lo, mas pararam em seu caminho e seguiram vazios até os lábios do guarda-costas, onde se encontram com os dentes perfeitamente brancos numa clara tentativa de contenção à força. Os olhos castanhos com estranhos tons rubros que o fitavam aéreos abriram-se um pouco mais, como se preenchidos por uma luz, ainda que pequena, de lucidez.

– Muito... bonito... Eu também quer-... – o que quer que o informante pretendesse dizer, entretanto, nunca chegou a alcançar os ouvidos irritados de Shizuo, interrompidas como as palavras foram por um acesso de tosse que acabou por derrubar os olhos arregalados e quase lúcidos.

– Merda, Izaya! – foi tudo o que pode dizer ao ver que independente do quanto aquele homem o irritasse e da quantidade de vontade que tinha de acertá-lo, ele estava doente em sua cama, coberto por seus cobertores, a cabeça em seus travesseiros e os olhos aéreos em seu rosto. Ou seja, independente do quanto não desejasse aquela responsabilidade ela era, inegavelmente, sua.

Como não podia contar com a ajuda de Shinra, não tinha nenhuma outra opção a não ser utilizar os seus próprios métodos contra febre, mesmo que tivesse suas dúvidas quanto a eficiência deles sem um remédio para sustenta-los. E foi com este pensamento em mente que segurou um dos braços do informante e o forçou a sentar-se, empurrando para ele a caneca cheia de água da jarra que deixara no criado mudo.

– Beba tudo, verme. – rosnou, a voz tão rude quanto o aperto que mantinha Izaya sentado, enquanto forçava a ele uma segunda caneca com água, ignorando seus protestos. Protestos que continuou ignorando ao descobrir o informante e puxá-lo para fora da cama em direção ao banheiro.

Sabia que era de fundamental importância baixar a temperatura absurda que sentia sob seus dedos ao segurar com força um dos pulsos e a cintura do moreno. Izaya não parecia, entretanto, compartilhar do mesmo pensamento, resistindo com mais força do que Shizuo acreditava possuir alguém em seu estado febril. Não, claro, que alguma força fosse capaz de parar Heiwajima Shizuo.

– Shizu-chan, eu não quero. Por favor, eu não quero. Me solta, Shizu-chan... Está frio... – a voz do informante soava baixa, oscilante e grave enquanto Shizuo lutava por desvencilhar-se dos dedos que tentavam impedi-lo de livrar-se dos botões das calças negras que ainda vestiam o implorante homem febril. – Me deixe só... Minha cueca... Por favor, Shizu-chan... Não tire... Não quero... Fic-

– Vai se foder, Izaya. Estou tentando te ajudar, caralho! Cala essa boca! – gritou a ele, prendendo com a mão direita ambas as mãos do outro e com a esquerda terminando de despi-lo – Não vai entrar vestido na merda do chuveiro e depois ficar essa bosta desmaiando por ai.

Os olhos surpresos e ofendidos que o fitavam não o impediram de segurar Izaya pela cintura e levantá-lo até que a cueca negra escorregasse por suas pernas e caísse no chão sob o tapete. E o olhar envergonhado não o impediu de colocá-lo no chão apenas quando alcançou a válvula do chuveiro e ajustou a temperatura morna, mais para fria do que para quente. E, por fim, os gemidos chorosos e os ombros que tremiam não o impediram de manter a força o moreno debaixo do chuveiro.

Não era necessário um banho completo, por isso limitou-se a tentar mantê-lo sob a água por alguns minutos.

– Frio, Shizu-chan...

– Aguenta ai, pulga... Só mais um pouquinho. – pegou-se sussurrando no tom que destinava apenas a crianças e não pode evitar espelhar em seu rosto a vermelhidão do rosto do outro, envergonhado pelas palavras ditas quase docemente.

As mãos trêmulas apoiavam-se em seus ombros com toda a firmeza que lhes era permitida, como se manter-se em pé fosse um trabalho maior do que Izaya podia enfrentar sozinho, o que acabou por fazer Shizuo arrepiar-se levemente de frio enquanto suas roupas eram molhadas pela água que escorria pelos braços pálidos. Por fim, acabou sendo obrigado a dar um passo adiante e entrar parcialmente na zona do chuveiro quando os braços do outro cederam, fazendo-o tombar de encontro ao peito do guarda-costas.

– Shizu-chan... – ouvira perfeitamente o chamado com a voz fraca, mas não respondeu, limitando-se a um rosnar baixinho com a garganta –... Eu estou pelado.

Shizuo poderia ter-se irritado e é exatamente o que teria feito em qualquer outra circunstância. Entretanto, naquela situação, com suas roupas totalmente molhadas, as noites de sono mal dormidas, todo o stress acumulado e um Izaya amnésico, febril, nu e molhado apoiado em seu peito, tudo o que pode fazer foi rir. E Shizuo não era, verdadeiramente, um homem que ria com facilidade, principalmente um daqueles risos resignados de quem olha ao seu redor e nem consegue acreditar no que se meteu, mas daquela vez não foi capaz de controlar o riso que escapou de seus lábios.

– Eu notei. – respondeu entre risos, incapaz de controlar a diversão amarga que se apossava de seu peito. Izaya parecia-lhe, de alguma forma, uma criança ao falar daquela forma.

– É a segunda vez que f-fico pelado na sua frente... em menos de uma s-semana. – os dentes de Izaya batiam em protesto contra a água fria que ainda lhe batia nas costas, mas era claro a Shizuo que ele também sorria.

– Bom... não é como se fosse grande coisa... – um soco fraco em seu peito despertou um novo riso, desta vez mais alto e mais divertido do que amargo.

– Shizu-chan! – acusou – Eu e-estava sangrando d-da prim-meira vez... e ag-gora a água e-está fria! – a reclamação do outro perdia toda a força quando acompanhada por hesitações e truncamentos, mas ele não parecia se importar, mantendo seu tom queixoso até a última palavra.

– Unhum... – foi a única resposta de Shizuo após um novo riso.

– V-você vai me tirar daqui a-agora o-ou vai ficar r-rindo de mim?!

– Você já me parece bem melhor, pulga. Acho que aguenta um pouco mais.

As palavras que deixaram os lábios de Shizuo, entretanto, caminhavam em exata direção contrária às suas ações. Acabou por segurar o moreno pelos ombros e o afastou de si, inclinando-se em seguida na direção da válvula do chuveiro e fechando-o. Com uma das mãos espalmada no peito do informante, amparando-o, inclinou-se na direção contrária e pescou do toalheiro uma toalha seca, passando-a através dos ombros do moreno e a esfregando minimamente nele, parando apenas ao receber um sorriso agradecido em retribuição.

“Ele não é uma criança, Shizuo”, repreendeu-se duramente enquanto afastava-se daquele sorriso, envergonhado por mais de uma vez naquele dia por ter direcionado a Izaya o olhar doce que reservava apenas a inocentes.

– Shizu-chan, – o chamado era tímido e baixo, mas não o suficiente para que Shizuo pudesse ignorá-lo – você pode me ajudar?

Voltou-se para trás, focando seus olhos castanho-mel primeiro na mão que se estendia em sua direção e depois no rosto incerto que o encarava, talvez envergonhado por precisar de ajuda. Shizuo poderia negar, mas reconhecia que aquele homem que sequer podia manter-se em pé sem apoiar um dos braços nos azulejos do banheiro e fitava-o com desfocados olhos castanho-avermelhados marejados e que parecia usar tudo o que tinha para manter um braço estendido em sua direção nunca poderia alcançar sozinho o quarto. Isso não evitou, entretanto, que antes de fechar as mãos em volta do cotovelo do braço que pedia por sua ajuda e enlaça-lo em seu ombro para dar-lhe suporte, não tenha fechado a expressão em irritação e um sonoro “tsc” não tenha deixado seus lábios.

Diferente de quando levou o moreno em seu colo até o banheiro, entretanto, desta vez, no retorno para o quarto, manteve o outro o mais distante possível de si e de suas roupas molhadas. Mesmo com a distância, porém, ele sentia a pele quente do braço ao redor de sua nuca e da cintura firmemente segura sob seus dedos.

“Parece que a febre baixou um pouco”, foi o que concluiu ao perceber que a pele do outro, mesmo que ainda quente, esfriara-se um pouco e a respiração que soava próxima a seu pescoço não parecia tão difícil quanto antes.

– Ainda não idiota! – foi tudo o que conseguiu rosnar ao outro quando ao colocá-lo na cama viu-o fazer menção de enfiar-se debaixo das cobertas. “Você está pelado, retardado”, foi o que quis acrescentar, “Do que caralho adianta baixar sua febre se você continuar agindo como uma pulga desgraçada”. Não forneceu, entretanto, maiores informações aos olhos confusos e aéreos que o fitaram em interrogação do que deveria, portanto, fazer. Foi obrigado, porém, a romper seu silêncio quando o informante fez menção de levantar-se, os braços estendidos na direção de sua camisa que jazia no chão ao lado do criado mudo: – Fica quieto um pouco pulga.

Virou as costas ao homem que se sentara novamente na cama, ignorando os olhos que sabia ainda estarem confusos e voltando a dirigir-se a seu guarda-roupa. Não havia absolutamente nenhuma roupa lá que servisse ao corpo menor e mais magro do homem em sua cama, Shizuo, portanto, não pensou por um segundo sequer antes de puxar de lá o primeiro conjunto de moletom que encontrou.

– Vista isso. – ordenou, lançando de onde estava ambas as peças em direção a cama e assistindo o moreno arrastar-se até elas e olhá-lo confuso. – Foda-se que não vão servir, pulga. – rosnou ao ver os olhos confusos que oscilavam das roupas agora em suas mãos e seu rosto.

– Não é isso... – os fios negros parcialmente molhados chacoalharam-se levemente enquanto Izaya acenava negativamente – Mi-minha cueca está no banheiro.

– Você não vai vestir ela de novo. – ralhou raivoso, achava ridículo ter que dizer isso ao outro. Estreitou os olhos ao ver que mesmo após a afirmação o moreno ainda não começara a vestir-se – E eu não te darei uma minha. – acrescentou, não conseguindo controlar a indignação em sua voz.

– E-eu não quero uma sua!

– Pelo que caralho tá esperando então? Se está querendo piorar, idiota, te asseguro que posso fazer isso por você rapidinho!

– Não é isso! – respondeu nervoso depois de controlar seu rosto chocado diante da ameaça – Vo-você vai ficar me olhando?

Seus olhos se arregalaram mesmo contra sua vontade. Ele não conseguia acreditar no que ouvia e preferia não acreditar que o tom rosado nas bochechas do outro significavam o que ele pensava. Ele esperava por muitas coisas quando o assunto era Izaya, mas nada o prepararia para o evidente problema que o moreno tinha com nudez. Ao menos um terço das palavras que trocaram nos últimos dias relacionava-se direta ou indiretamente ao desconforto de Izaya quanto a manter suas roupas fora de seu corpo. Não que Shizuo se importasse, ele preferia, definitivamente, que Izaya mantivesse-se vestido, mas isso não significava que compartilhava do desconforto de Izaya. Seu desconforto em estar perto de Izaya não estava diretamente relacionado com roupas ou ausência delas: era desconfortável estar perto de Izaya, estando ele coberto ou não. Entretanto, diante do claro desconforto do outro, não conseguia evitar espelha-lo.

“Você está fazendo isso de proposto, não é?!” foi o que quis acusar, mas tudo o que deixou seus lábios enquanto saia do quarto e deixava o outro sozinho foi uma série de palavrões e xingamentos.

Ele sabia o que devia fazer agora, mas diferente de antes quando isso era o suficiente para impulsioná-lo a fazê-lo, não sentia vontade alguma de continuar a ajudar Izaya. Mas isso não o impediu, claro, de acabar por pescar no armário da cozinha um panela, enchê-la com água e colocá-la sobre o fogão enquanto encontrava os poucos legumes escondidos em sua geladeira. Não havia nada demais, mas as duas batatas, a cenoura, alguns ramos de cebolinha e o pedaço de alho-poró encontrados seriam mais do que o suficiente para encorparem o missoshiro que faria.

Shizuo não era grande cozinheiro e não se importava que parte de suas refeições fossem feitas fora ou de maneira inadequada, mas era, de toda forma, um adulto que morava sozinho. Tinha, portanto, conhecimentos o suficiente para conseguir cozinhar algo que pudesse ser considerado bom quando se dispunha a fazê-lo. Um missoshiro acrescido de legumes, por mais que não fosse um prato que soasse de todo agradável a seu paladar, não lhe oferecia grandes desafios.

Picou os legumes com todo o cuidado que sua escassa paciência permitiu enquanto ouvia a água borbulhar, em seguida colocando-os na panela com menos cuidado do que deveria ter ao lidar com altas temperaturas.

Hesitou por um instante, ainda que pequeno, antes de entrar no quarto e suspirou aliviado – ainda que fosse negar caso lhe fosse apontado – ao encontrar um Izaya já provavelmente vestido debaixo das cobertas.

– Hey, pulga, não durma. – ralhou, aproximando-se da cama e descobrindo a cabeça do informante até que pudesse ver mais do que apenas seus cabelos negros, recebendo um olhar cansado – Beba mais água e enfia isso debaixo do braço. – acrescentou fitando firme os olhos castanho-avermelhados e empurrando em sua direção a caneca recém-cheia e o termômetro. – E tem que refazer o curativo e tirar daí a faixa... está meio molhada.

Um “tsc” irritado deixou seus lábios quando se viu obrigado a ajudar o outro a sentar-se, ajeitando um travesseiro na cabeceira da cama para que ele pudesse recostar-se. Sentado, o informante fez mecanicamente o que lhe foi ordenado, os movimentos lentos e preguiçosos irritando o ex-barman.

O silêncio não era agradável, mas também não era de todo desconfortável. Shizuo ensaiou algumas vezes dizer que o outro devia manter-se acordado para comer, mas como Izaya não fez menção de deitar-se de novo nem quando estendeu o termômetro de volta ao guarda-costas após o apito, manteve-se calado, limitando-se apenas a um aceno orgulhoso ao ver que os números marcados em vermelho agora sequer alcançavam os 38ºC, pela primeira vez na vida satisfeito por Izaya ser mais resistente do que sugeriam seus braços finos e corpo magro.

– Eu não quero, Shizu-chan.

Arregalou os olhos, surpreso ao ouvir a voz do outro e confuso com a declaração sem contexto. Izaya desenrolava a faixa em sua cabeça e claramente evitava olhá-lo.

– Não quer o que?

– Comer.

Seus olhos abriram-se ainda mais surpresos, mas a pergunta sobre como o outro sabia que ele estava cozinhando ficou presa em sua garganta, substituída em poucos segundos pela raiva:

– Foda-se que não quer.

– Mas não estou com fome...

– E você é o que?! A porra de uma criança, Izaya?! Que doente teimoso de merda você é?! Acha que eu queria estar cuidando de você?

E foi a vez dos olhos castanho-rubros arregalarem-se.

– Descul-

– Ah, cala a boca, Izaya. Não vem com desculpinhas, só come a merda da comida, bebe a porra da água e me dá este caralho logo!

Os olhos castanhos avermelhados arregalaram-se, fitando surpresos a mão que Shizuo estendia em sua direção.

– Te dar o que? – havia medo naquela voz, isso era inegável, mas o guarda-costas não pode deixar de sentir que havia algo mais ali.

– O que mais? A faixa de gaze, idiota. Me dá ela!

– Ah...

“Frustração... parece...”, pensava Shizuo enquanto observava Izaya terminar de retirar o tecido branco e pousá-lo na palma de sua mão desajeitadamente. Ao perceber o que o outro fizera, não pode evitar franzir o cenho e afastar a mão rapidamente, em nojo.

– Não essa, idiota. A extra. Não pode ficar com a merda da faixa úmida no machucado, vai piorar.

– N-não tenho uma... – a voz oscilava, como se receosa pela reação do outro ao admitir, novamente, que chegara até ali fugido e não tinha absolutamente nada do que deveria ter para manter limpa sua feriada em processo de cicatrização.

“Claro que não, né?!”, pensou contrariado e irritado. Um rastro de xingamentos acompanhou seu caminho da ponta da cama que estivera sentado até a porta do quarto e então até a cozinha, só parando quando ele buscava novamente a caixa de remédios na porta mais alta do armário da cozinha e retirava dali um novo rolo de gaze. Os xingamentos recomeçaram, baixinhos como rosnados, enquanto ele pousava o tecido na pequena mesa de jantar e terminava a sopa, acrescentando o misso e os talos picados de alho-poró. E tornaram-se mais altos enquanto ele servia um prato e equilibrava-o em uma mão para que a outra segurasse livremente o rolo novo de gaze.

Dois olhos castanho-avermelhados fitaram-no aéreos quando entrou no quarto, acompanhando seu percurso até o criado-mudo ao lado da cama, onde pousou o prato, e então se desviaram para o rolo de faixa jogado desleixadamente em seu colo.

– Primeiro isso. Depois comida.

A imparcialidade e silêncio de Shizuo não duraram, entretanto, nem um minuto. Os lábios torcidos em desgosto separaram-se com ímpeto enquanto sua mão direita tomava dos dedos finos o tecido.

– Deixa que eu faço esta merda. Vai ficar um ano ai e não vai terminar!

Os olhos preenchidos por estranhos tons avermelhados se arregalaram em sua direção, para então suavizarem e encararem os dedos que haviam desistido da faixa e agora jaziam cruzados sobre seu colo. Como se isso não fosse o suficiente para despertar os instintos de Shizuo na direção de algum possível problema, os lábios avermelhados repuxaram-se em um pequeno e discreto sorriso.

– O que foi agora? – perguntou, ríspido, terminando o curativo e oferecendo rudemente o prato – Você vai comer sim, desgraçado! Teimoso do caralho!

– Você está preocupado comigo.

– Não estou. – respondeu por reflexo, sua voz levemente ofendida. Mas se arrependeu por tê-lo feito no momento em que viu o sorriso discreto alargar-se até transformar-se em um inquestionável sorriso alegre e os olhos deixarem de fitar firmemente os dedos finos e fitarem seus olhos, o sorriso dançando através das nuances castanhas e vermelhas das íris.

– Está si-... – mas o que quer que Izaya pretendesse dizer foi cortado por seus próprios lábios, que sorriram mais uma vez e calaram-se.

Shizuo franziu o cenho, desconfiado, algo na forma como Izaya havia se calado despertou nele um sentimento com o qual não estava acostumado a lidar. Mas só ao ver Izaya fechar os olhos lentamente e balançar a cabeça em sinal negativo enquanto dois pequenos estalos deixavam seus lábios, percebeu que estava sendo repreendido. Repreendido como uma criança pequena é repreendida. Repreendido da forma como nunca era repreendido enquanto criança. Dois estalos e um aceno de cabeça seguido de um sorrisinho resignado nunca fora o suficiente para repreender uma criança capaz de levantar uma geladeira ou destruir uma loja comercial. Mas ali estavam eles: o aceno, os estalos e o sorriso resignado-divertido. E como se não fossem o suficiente para fazerem Shizuo transmutar seu cenho franzido de desconfiado para surpreso, Izaya voltou a se manifestar:

– Eu vou comer, vou comer. Mas o teimoso é você, Shizu-chan. Hehehe... bobo!

“Mostro”.

“Abominação”.

“Absurdo”.

“Assustador”.

Shizuo já fora chamado de muitas coisas na vida. Mas era a primeira, primeiríssima, que era chamado de “bobo” por lábios que sorriam.

Apertou os olhos até quase fechá-los enquanto observava o sorriso desfazer-se para dar lugar a lábios separados a espera da colher transbordando a sopa que àquela altura já esfriara. Ganhou um olhar satisfeito de aprovação quando a colher tocou mais uma vez o prato e voltou a sumir por entre os lábios finos. Não soube por quanto tempo ficou a observar o caminho percorrido pela colher até perceber que aquilo era tudo, que Izaya não diria mais nada, que aquele “bobo” encerrara tudo o que o informante tinha a dizer.

– Só isso? – não pode evitar perguntar, a voz transbordando indignação, quase raiva.

Os olhos castanho-avermelhados que encaravam o prato desviaram-se até ele, primeiramente surpresos, depois envergonhados.

– Desculpe... Obrigado pela comida, Shizu-chan. Está gostoso. Eu gosto de batatas.

Suas sobrancelhas se juntaram, confusas, encarando por alguns segundos a reverência leve do outro antes de entender o motivo por trás dela. Não pode evitar que seus olhos abrissem-se surpresos e seus lábios se separassem minimamente ao entendê-lo. Os olhos de coloração tão peculiar lhe encaravam intensamente, mas por mais que isso normalmente fosse o suficiente para fazê-lo enlouquecer de raiva ele agora se mantinha quieto, dedicando ao homem a sua frente a mesma atenção que lhe era direcionada.

Se não estivesse tão concentrado reconhecendo a estranheza naquele homem que lhe dedicava xingamentos infantis e agradecia pela comida, perceberia que era a primeira vez em sua vida que verdadeiramente olhava para Orihara Izaya, seu pior inimigo. Olhar de verdade, notando a curta e irregular franja negra a cobrir parcialmente sua testa, os olhos agudos, marcantes e afiados mesmo quando lhe olhavam grandes e surpresos, as sobrancelhas finas que contrastavam imensamente com os olhos afiados, suavizando-os, assim como seu o nariz pequeno, a ausência de barba e os lábios que pareciam estranhamente delicados quando não estavam cuspindo absurdos. De alguma forma, quando visto de perto, calado e com um sorriso nos olhos, aquele não parecia ser o homem que odiava. Não que ele, de toda forma, tivesse alguma vez olhado de perto o homem que odiava para saber como ele se pareceria. Nunca se aproximara o suficiente para tal. Ou, se se aproximara, definitivamente não tivera chance de olhá-lo assim.

– Tem certeza que me odeia, Shizu-chan?

A pergunta soou clara e limpa. As palavras não se confundiram nem se atropelaram nem se truncaram. Tudo soou inconfundível. Shizuo, entretanto, teve que se concentrar nelas e provar a si mesmo que os lábios que encarava haviam se mexido, divertidos, para ter certeza de que ouvira corretamente. E não soube se palavras como aquelas assumiam automaticamente o tom debochado e insinuante ao deixar os lábios de seu pior inimigo como se por obrigação ou se aqueles olhos divertidos que o encaravam verdadeiramente debochavam dele e de sua confusão.

Ele sabia que devia pensar em uma resposta, mesmo que ela envolvesse acertar seu inquisidor com seu punho, mas mal podia se prender à pergunta tempo o suficiente para entendê-la plenamente. Havia algo de errado na forma como o sorriso que brilhava nos olhos migrara para os lábios finos, que foram umedecidos pela ponta da língua avermelhada antes de revelarem os dentes brancos em um sorriso lateral. E de alguma forma foi neste sorriso levemente umedecido por saliva que Shizuo prendeu erroneamente sua atenção. E ela teria lá ficado, mesmo que seu dono fosse se arrepender depois, se o sorriso não tivesse se desmanchado para que novas palavras deixassem os lábios finos. As novas palavras não soaram provocadoras ou debochadas, ou altas e claras. Soaram baixas, envergonhadas, um pedido de desculpa.

– Desculpe... Acho que ainda estou com febre. Não consegui evitar... eu realmente, realmente, te acho bonito, Shizu-chan...

E lá estava, novamente, o elogio. Dito por alguém com o rosto tão próximo ao seu. Dito por olhos baixos e bochechas coradas. Dito, estranhamente, pelo seu pior inimigo. E, ridiculamente, não pela primeira vez.

E só Shizuo sabe como nunca foi bom em lidar com elogios. Não que ele fosse especialmente bom para lidar com algo em especial. Acabava sempre, independente da situação, com o punho enterrado em algum lugar. Mas com elogios ele era particularmente ruim. Não que por falta de costume, por ter recebido poucos em sua vida. Mesmo que ele nunca fosse dizer em voz alta e fosse negar caso alguém lhe perguntasse, ele sabia que era atraente. Atraente ao ponto de nem mesmo sua fama impedir que alguém lhe dissesse isso vez em quando. Reações a elogios, entretanto, diferente de arremessos de máquinas de venda automática, não é algo cuja prática cria a perfeição.

Ele não soube, contudo, o que havia acontecido até ver pequenos pedaços de batata e cenouras escorrendo pelos cabelos negros cortados irregularmente, olhos imensos encarando-o confusos e um prato em cacos próximo a parede. E mesmo após vê-los demorou um pouco a perceber que fora ele mesmo quem fizera aquilo, tendo como prova incontestável de sua culpa resquícios de sopa em seu braço direito. Não precisou de muito mais para perceber que havia acertado o prato de sopa e o lançado na parede oposta.

– Eu poderia dizer que você fica fofo tímido, mas tenho medo de que a próxima coisa na parede seja eu. – o olhar assustado dera lugar a olhos divertidos e um sorriso aberto que logo se transformou em uma gargalhada que quase – quase – poderia ser classificada como gostosa. Izaya parecia, de alguma forma, divertir-se muito enquanto girava a colher vazia entre os dedos e encarava um pedaço de batata que acabara de deslizar de seu cabelo para seu colo. – E eu já estava cheio mesmo, Shizu-chan. Só acho que preciso de outro banho... talvez... – e uma nova gargalhada ecoou quando um pedaço de cenoura juntou-se à batata em seu colo.

E Shizuo poderia ter rido. Poderia, de verdade. Havia algo em um Orihara Izaya rindo para um pedaço de batata que realmente o levava a beira de um riso. Mas no lado oposto a esta sensação havia outra que o fazia olhar sério para o homem em sua cama, franzindo o cenho.

– Desculpe... – foi o que ouviu dos lábios que pararam imediatamente de rir, claramente desconfortáveis diante do olhar duro.

Suspirou fundo, endireitando a coluna e olhando ao redor.

Como se não bastasse Orihara Izaya febril em sua cama, agora seu quarto cheirava a misso. Seus olhos se detiveram por último nos resquício de sopa em seu pulso direito e, mecanicamente, levou-o até seus lábios, experimentando pela primeira vez a sopa que ele mesmo fizera.

– O-o que está fazendo? – os olhos castanho-avermelhados o olhavam acusadores, excessivamente abertos.

– O que?

– Por que está fazendo isso?

– Isso o quê, pulga?

– Lam-lambendo seu pulso?

– Que caralho!?! Qual o problema?! Eu que fiz o caralho da sopa!

– T-tinha sopa?!

– Quê? – rugiu ao outro. Não conseguia entender qual era o ponto daqueles olhos que o olhavam tão abertos e isso o irritava. Suavizou um pouco a expressão em seguida, apenas para voltar a fechá-la enquanto direcionava a mão direita à testa coberta de sopa do outro – Sua febre piorou?! – perguntou mecanicamente, sem esperar por resposta. Sentiu sua paciência e preocupação esvair-se, entretanto, quando Izaya recuou a seu toque e o olhou chocado – Quê foi, pulga desgraçada? Qual o problema agora?

– Você está fazendo de propósito? Ou é sem querer? – a única resposta que Shizuo ofereceu, entretanto, foi um “tsc” irritado e o afastamento de sua mão – É vingança pelo que fiz antes?

– Do que caralho você tá falando, Izaya?

Para o aumento de sua irritação, entretanto, o outro não respondeu, levantando-se de um salto e resmungando que precisava de outro banho. Shizuo poderia tê-lo parado, mas sequer teve tempo para isso antes de encarar o homem vestido com suas roupas que deixava apressado o quarto.

Respirou fundo, puxando todo o ar que precisava para evitar que seu corpo o convencesse a ir atrás de Izaya e extrair à força uma explicação. Não foi difícil desviar sua atenção do desejo de sentir seu punho enfiar-se no rosto coberto de sopa quando o cheiro de misso voltou a invadir suas narinas. Ele precisava trocar o lençol e a fronha antes que a sopa comprometesse seu colchão e travesseiros. Isto, somado ao tempo que levou recolhendo do chão os cacos do prato e limpando a mancha na parede e chão foram mais do que o bastante para que Izaya saísse do banho, vestido novamente, apenas a sua calça de moletom e uma toalha cobrindo desleixadamente seus cabelos e metesse-se debaixo das cobertas, cobrindo-se até a altura das orelhas e não dizendo palavra.

Shizuo pensou por um instante em medir novamente a temperatura do informante ou jogar para longe a toalha úmida que ele tinha sobre a cabeça, mas declinou rapidamente. Independente de estar ou não melhor, ele estava farto de lidar com Izaya e, de toda forma, tudo o que podia fazer agora era deixa-lo descansar. Não havia medicamentos, ele havia comido, havia tomado dois banhos e toda a água que Shizuo o havia conseguido convence-lo a por para dentro. Fizera por ele tudo o que poderia ter feito e, definitivamente, muito mais do que ele merecia. Dessa forma, portanto, tudo o que fez foi apagar a luz e fechar a porta ao sair.

Ao menos para um deles, aquela noite havia acabado.

Notas finais
OIá de novo! ^^ Tudo certo até aqui? Eu espero, do fundo do meu coração, que tenham gostado do capítulo! E que me acompanhem até o próximo também! Beijo, beijo, =* Yuki