(in) esquecível
7 Sobre como você acabou por ficar... por duas noites
Notas iniciais
Sobre como você acabou por ficar... por duas noites
ou
Sobre como você era a tempestade
Dormir em um sofá de dois lugares não era exatamente o que um homem de 1,85 de altura consideraria confortável. Mas aquele homem, em específico, tinha problemas maiores para se importar do que suas pernas a penderem para fora do braço do móvel estofado.
Seus dedos da mão direita que resvalavam no chão conforme seu braço movia-se pendularmente tocando irregularmente o aparelho celular que jazia sobre o piso sequer chegavam perto de denunciar o quão ansioso Heiwajima Shizuo estava. Sentia um gosto amargo em sua boca e algo a pesar-lhe no fundo do estômago, algo que o impedia de levantar-se mesmo que já há tempos estivesse acordado.
Diferente do esperado, não fora difícil a ele entregar-se ao sono. Não que sua noite tivesse acabado a partir do momento no qual apagou a luz de seu quarto e deixou para trás da porta fechada um Orihara Izaya já quase adormecido. Todos os passos a partir do primeiro dado para fora do cômodo foram pesados e inquietos, soando altos contra o piso. Inquietos eram também os dedos que discaram repetidas vezes o número de Kishitani Shinra. E inquietas as reclamações desencadeadas pelos repetidos fracassos em contatar o médico clandestino. Por fim, o único saldo de sua insistência foi uma gaveta quebrada na cozinha, vítima de sua frustração.
Quando finalmente redeu-se ao cansaço e jogou-se contra o pequeno sofá de dois lugares, não conseguiu evitar que, ao fechar as pálpebras, “Este é o sono dos justos” fosse seu último pensamento. Também não pode evitar que seu sono fosse embalado por este último pensamento, que preencheu seu peito com um orgulho caloroso.
Foi uma noite sem sonhos, ou, ao menos, nenhum do qual Shizuo pudesse se lembrar no dia seguinte. (E Shizuo sequer sabia o quanto devia agradecer por não se lembrar. Sonhos podem ser, afinal, poderosos norteadores de histórias.).
Mas o sol que aqueceu seu rosto pela manhã não trouxe consigo nenhuma das sensações calorosas da noite anterior.
Quando a luz que entrava sem reservas pela janela atingiu seu rosto naquela manhã de sábado, Shizuo soube que não haveria calor no mundo suficiente para afastar o frio pesado em seu estômago.
O orgulho ainda estava ali, disso não restavam dúvidas. Ele sabia que poderia sentir-se orgulhoso: Izaya passara a noite em sua casa e ele, na medida do possível, não fizera nada que comprometesse a saúde física ou mental do informante. Pelo contrário, ele se esforçara para ajuda-lo. Kasuka ficaria orgulhoso se soubesse. Mas, naquele momento, este já não era um sentimento caloroso e nem mesmo saber que seu irmão mais novo aprovaria sua capacidade de controle o ajudava a aquecer-se e livrar-se da sensação pesada e da certeza de que, ao contrário da saúde física e mental do informante, a sua estava aos pedaços.
Porque, tinha certeza, definitivamente havia algo de errado em seu corpo e algo de muito pior em sua cabeça. Só isso explicaria porque ele conseguira não apenas resistir ao impulso de socar Izaya, mas ajuda-lo, ajuda-lo seriamente, sem pensar se isso era o certo a se fazer ou se Kasuka ficaria orgulhoso. Pois, por mais que doesse em seu ego, ele admitia que ajudara Izaya sem pensar duas vezes.
Entretanto, mais do que o fato de que não o havia matado ou o fato de que o havia ajudado, o que mais pesava gelado no fundo do estômago de Shizuo e impulsionava seus movimentos pendulares com a mão que agora quase arranhava o piso era a forma como ele – e agora ele percebia – via este novo Izaya como uma criança. Uma criança inocente, boba e desajeitada que precisava de proteção. E isso, sobrepondo-se ao fato de ter ajudado Orihara Izaya, era o que o trazia o inverno para dentro de si.
A realização de que Izaya conseguira convencer sua mente a tratar como uma criança inocente um marmanjo de 25 anos que fodera sua vida desde que cruzara seu caminho pela primeira vez e que nada, absolutamente nada, do que pensasse ou fizesse mudaria isso o fazia se sentir na lama.
E ele tentara, tentara duramente durante todo o tempo no qual permanecia deitado no sofá com as pálpebras cerradas sendo invadidas pela luz solar e em busca de coragem para acender um cigarro, convencer-se de que ele poderia fazer alguma coisa para dissociar a imagem de Orihara Izaya à de uma pessoa corada de febre que ria solto e o chamava de bobo. Revivera em sua mente cada um dos sorrisos maliciosos e cada um dos xingamentos repletos de ódio, mas nada parecia o suficiente para convencer seu corpo a correr até o quarto e lançar janela afora a pessoa febril debaixo das cobertas.
“Você é tão passional”, Kasuka lhe diria se soubesse de sua situação. E mesmo que nunca lhe agradasse negar as acusações de Kasuka, desta vez, e apenas desta, ele gostaria de poder dizer a si mesmo que não o era.
E como se não fosse o bastante e como se precisasse de um, sabia que sua constatação tinha um agravante: aquele sentimento não se restringia à noite anterior. Isso trazia tempestade a seu estômago, fazendo-o dar voltas como um tornado.
Ele lembrava-se do cuidado no banho, da preocupação quando Shinra manteve-se quieto, do quase alívio ao ver Izaya bater novamente à sua porta, ele reconhecia até mesmo que os ataques desferidos contra o informante, mesmo os primeiros deles, não carregaram nem metade de sua força... O fato de perceber apenas agora o instinto de proteção que desenvolvera com Izaya não mudava a realidade de que aquele sentimento crescia nele desde o momento que abriu a porta à quase uma semana atrás para um Orihara Izaya que o fitava como se não o conhecesse.
Lançou um sorriso resignado ao sol que se tornava cada vez mais quente e presente conforme ascendia no céu.
Antes de Izaya bater à sua porta no dia anterior ele lembrava-se de ouvir na previsão da TV que o final de semana seria livre de chuvas e que os dias seriam os últimos — ele lembrava-se das palavras exatas — “para que todos aproveitem o belo sol de outono”. Ele lembrava-se exatamente das palavras porque naquele momento, quando até então tinha o plano de ir à casa do médico clandestino atrás de notícias de Izaya, pensou que suas intenções não chegavam sequer perto de serem consideradas “aproveitamento dos últimos raios calorosos do belo sol de outono”. E lembrar-se disso não trazia a ele nada além de outro sorriso desanimado e um novo peso em seu estômago.
Um final de semana no qual ele visitava Shinra atrás de informações sobre Izaya não podia ser considerado agradável, certamente, mas decisivamente não chegava sequer perto do quão desagradável seria um fim de semana que começara com Orihara Izaya dormindo em sua cama.
Resvalou a ponta dos dedos pelo celular, puxando-o para mais perto de si e apertando uma tecla qualquer para que se acendesse, mostrando o horário e a ausência de ligações do médico para o qual tentara ligar tantas vezes antes de deitar-se. Se a situação lhe permitisse cogitar isto, ele já teria certeza de que Izaya matara aquele que seria a testemunha final para sua condenação pela mentira e fugira até ele como um inocente. Mas mesmo que ele sempre atribuísse ao informante a culpa por tudo o que acontecia de ruim no distrito, sabia que seria impossível encostar um só dedo em Shinra quando sua amante eleita era a dullahan. Izaya nunca poderia fazer nada ao médico com Celty por perto e ele tinha certeza que a amiga não deixaria o lado de seu noivo por um segundo sequer a partir do instante no qual o informante desse o primeiro passo para dentro de seu apartamento. O que quer que fosse que impedia Shinra de atendê-lo ou retornar sua ligação não tinha, provavelmente, relação alguma com o homem que ainda dormia na cama de casal em seu quarto.
O pensamento de Izaya enfiado em seus cobertores acrescentou outro peso à massa revolta em seu estômago. Ele mal notara o que fazia quando voltou ao quarto após intensas tentativas frustradas de falar com Shinra, pescou um cobertor e uma troca limpa de roupas e após um banho rápido deitou-se no sofá, adormecendo quase imediatamente. Ao acordar pela manhã, entretanto, o fato que de que ele pendia desajeitado no móvel pequeno enquanto Orihara Izaya dormia em sua cama o atravessou como uma lança.
Na noite anterior pareceu natural a ele deitar-se no sofá enquanto seu pior inimigo dormia no conforto de seu colchão. Mas isso porque – e apenas porque – aquele não era seu inimigo, mas uma estranha criança febril que precisava de sua ajuda. Ou, se não isso, ao menos algo que se parecia muito com.
E mais uma vez ele via-se preso às memórias nas quais tratava Izaya com a dedicação destinada a crianças pequenas: o caminho percorrido até o banheiro com ele em seu colo, os risos e pequenas provocações no banho, a sopa com legumes, o curativo refeito. Tudo o que lhe parecera extremamente natural no momento que o fizera, mas que agora o pesava tanto que mesmo a ideia de levantar-se do sofá parecia trabalhosa demais. E este tipo específico de peso não era um com o qual Shizuo sabia lidar bem. Não quando ele não podia simplesmente segurá-lo entre os dedos e arremessá-lo para longe. De preferência sobre Orihara Izaya.
Sentia raiva de si mesmo. Sentia raiva de Izaya. Raiva da febre. Raiva por confundir aquele homem nojento com seu irmão mais novo e depois com uma criança indefesa. Mas, mais do que qualquer raiva, o homem mais forte de Ikebukuro sentia-se envergonhado, uma vergonha tão grande que ele sequer sabia como lidar com ela, ora remexendo-se desconfortavelmente, ora estancando no lugar, desejando poder parar até mesmo seus pensamentos.
Mas permanecendo quieto ou botando abaixo cada centímetro de seu apartamento, nada mudava o fato de que havia cuidado de Izaya e que havia, inegavelmente, rido com ele. Nada mudava o quanto não se sentira desconfortável mantendo seu pior inimigo por perto, mesmo que só o visse como uma criança a ser protegida. Porque, independente do quanto se apegasse a isso como justificativa, Izaya era um adulto. Quem arrancara risos seus durante o banho era, portanto, um adulto formado, completo, quase da sua altura, a voz grave e o rosto, mesmo que jovem, maduro o suficiente para que não restassem dúvidas quanto à idade que Shizuo sabia constar em sua carteira de identidade.
“Izaya não é uma criança” — ele obrigava-se a repetir em sua mente, colocando a afirmação no lugar das imagens de sorrisos leves que insistiam em preencher sua mente.
Sorrisos estes que impulsionaram nervosamente seu braço direito que pendia para fora do sofá e acabaram por fazê-lo empurrar para longe seu celular. Por fim, isto era tudo o que precisava para encorajar-se a, finalmente, levantar-se e tentar uma nova ligação para Shinra.
Seu coração pulou uma batida quando, mal tocara o celular, sentiu-o vibrou e ouviu-o soar alto. Atendeu num só impulso, sequer checando o nome anunciado no visor antes de liberar sua raiva na direção do pequeno aparelho.
– Shinra, seu desgraçado, vou te matar!
– Bom dia para você também, Shizuo-kun! – foi o que ouviu soar do outro lado da linha, a resposta mais animada do que esperava de um homem que tinha a vida tão perto de ser ceifada – Por que tem tantas chamadas suas para mim? Algo urgente?
Mesmo que não o houvesse feito antes, agora Shizuo afastava o celular e olhava curioso em seu visor. Precisava certificar-se que aquele do outro lado era mesmo Kishitani Shinra, mesmo que a voz pertencesse, inegavelmente, a ele. Ao notar que o nome que reluzia em branco na tela negra acima de uma vermelha figura de um telefone era exatamente aquele esperado, não pode evitar bufar irritado.
– Que caralho é isso? Você tá zoando comigo?
– Nããão – cantou o outro lado da linha, rindo como se a situação realmente fosse engraçada – Nunca faria isso com você, Shizuo-kun. Mas verdadeiramente não entendo o porquê da sua ligação. Ou você – um risinho metalizado soou baixo – quer notícias do Izaya-kun? Achei que você nem queria saber dele!
– Eu não queria! – defendeu-se, rápido, esquecendo-se momentaneamente o motivo de sua raiva e caindo na provocação do médico clandestino. – Eu não quero!
– Então por que está me ligando desesperadamente desde às... – a voz calara-se por um momento, retornando em seguida, ainda mais divertida –... onze da noite?
– Eu não estava ligando desesperadam-
– E me atendeu no primeiro toque! – gritou o outro lado da linha, interrompendo-o e intensificando a expressão de desgosto em seu rosto.
– Por que não me atendeu antes?
– Tsc tsc – com se possível, os estalos perfeitamente audíveis deixaram-no ainda mais irritado – Que pergunta indiscreta, Shizuo-kun...
–Vai se foder, Shinra! – gritou, mas teve certeza de que não foi ouvido ao perceber que a voz do outro soava distante um abafado “Ai, Celty, isso doeu!” antes de voltar a dirigir-se a ele.
– Meu belo laboratório foi atacado... – a voz do médico clandestino não soava satisfeita, mas não demorou a que voltasse ao usual tom divertido – Mas você não me ligou para saber sobre frascos destruídos e exames queimados, né?! Me ligou para saber do Izaya! Eu poderia jurar que você tinha dado a entender que não queria saber de nad-
– Hey, idiota! Espera! O que você disse? – a voz saíra num tom mais alto do que planejava o guarda-costas, mas ele sequer percebeu, preocupado como estava absorvendo as palavras de Shinra, seu semblante transmutando-se de irritado para confuso.
– Que você me ligou pra saber do Izay-
– Não isso, idiota! – cortou-o – Sobre seu laboratório.
– Ah... – a voz perdera alguns tons, voltando a soar desanimada – Tanta pesquisa perdida...
– Quando foi isso?
– Ontem à noite. Celty saiu para entregar uma encomenda e eu... bom... eu sai resolver uns assuntos e quando voltei tudo estava um caos... Terrível. Tanta coisa quebrada. E os papéis queimados? Praticamente tudo! Terrível a violência por aqui, né, Shizuo-kun?
Respirou fundo, tentando organizar os pensamentos que invadiam sua cabeça a uma velocidade absurda, e apertou com força os dedos trêmulos contra o celular.
– Izaya... – a voz era, agora, apenas um sussurro.
– Quê? – a voz do outro lado da linha soou confusa por um instante, mas logo se recuperou, voltando a soar livre da confusão ou do desânimo anteriores e carregada de malícia – Viu!? Eu sabia que queria saber sobre o Izaya-kun...
– O quê? – desta vez foi a voz de Shizuo a soar confusa, pega de surpresa pela mudança no tom do outro. O silêncio foi quebrado por um rosnado baixo e impaciente quando Shizuo entendeu o que Shinra insinuava – Vá à merda, Shinra! Você não vê? Foi ele quem fez isso!
– Ele quem?
– O Izaya!
– Ah!... não... eu sei já quem foi... Minha querida descobriu pra mim! É uma história longa sobre apagamento de digitais e... enfim... este homem não queria estes documentos comigo... hahaha... longa história...Mesmo que eu não saiba como ele descobriu que eu tinha tudo... – a voz do médico soava aérea, ressentida – De toda forma, ele conseguiu o que queria... queimou tudo o que tinha no meu laboratório....
– Tudo? – seu coração pulou uma batida, absorvendo as palavras de Shinra – Os exames de Iza-
– Ah! Isso? Tudo queimado também... Não só dele... Tem até uns seu-... quer dizer... muita coisa importante também. E quase que coloca fogo n-
– Shinra, me ouve! O Izaya... – mesmo cortando-o, foi impedido de continuar quando a voz de Shinra voltou a soar, alta e animada, do outro lado da linha.
– Ok. Já entendi, já entendi... você tá preocupado com ele... eu posso chama-lo se quiser, assim vocês podem conversar um pouquinho... Hein, hein, Shizuo-kun?
Bufou alto ao ouvir a voz do outro soar abafada enquanto chamava pelo nome do informante e levou o indicador à têmpora esquerda, pressionando-a com força. Ele sentia-se perdido, confuso com os pensamentos desorganizados em sua mente e com recusa do médico clandestino a ajudá-lo a organizá-los. Rosnou alto, seu coração batendo como louco no peito. Só ele via como era claro que tudo era um plano de Izaya? Shinra só podia estar brincando, certo?
– Desgraçado! – xingou.
– O que disse, Shizuo-kun? – mas antes que Shizuo pudesse pressioná-lo novamente por respostas, ouviu-o gritar novamente o nome do informante — Ele não me responde, Shizuo! E se ele...
O desespero era evidente na voz de Shinra, mas mais uma vez Shizuo não teve chance de fazer nada antes de ouvi-lo gritar repetidamente pelo outro. Afastou o celular do ouvido e encarou-o duramente, pressionando-o com força entre os dedos. Respirou fundo e apertou mais uma vez os dedos contra a têmpora esquerda antes de levar novamente o celular até a orelha direita. Por mais que não se sentisse disposto a ser aquele que o faria, sabia que precisava acalmar Shinra se quisesse continuar aquela conversa. Quase riu resignado quando percebeu a ironia em ser aquele que acalmaria alguém.
– A pulga não est-
– Acho que está no banheiro. – ao ouvir a voz desesperada chamar mais uma vez pelo nome de Izaya, perdeu a calma que se dispusera a manter. Recusava-se a acreditar que seu amigo podia ser tão inocente.
– Idiota! Há quanto tempo está em casa?
– Algumas horas... por que? Vai brigar que não te liguei ant-
– E ele estaria no banheiro este tempo todo?! – soou irritado ao interromper o outro. Ao obter apenas um “ahn?” confuso como resposta, acrescentou – Ele veio pra cá, idiota!
– Cá?
– Minha casa! Ele está aqui.
– Ufa! Por que não me disse antes?! Eu estava preocupado! – o suspiro aliviado foi perfeitamente audível através da linha, assim como um risinho que soou em seguida – E o que ele está fazendo ai, Shizu-kun?! Hum? Hum?
– Que caralho de “hum”?!... Ele teve febre e desmaiou no meu sofá. 39ºC.
– Uhhh... foi bem forte. Mas era esperado. Ele não estava totalmente bem da batida na cabeça ainda... Teve um pouco de febre aqui também... Ele não devia ter saído, sabe?!
“E era sua responsabilidade garantir que isso não acontecesse, idiota!”, foi o que pensou, mas limitou-se a bufar irritado, sentindo que perdia algo com aquela estranha conversa ao telefone.
– Eu não sabia que remédio dar pra ele...
– Por isso me ligou! Entendi, Shizuo-kun... Mas o Izaya não tem alergia a nada.
– Hum...
– Nenhum medicamento. Nem a ácaros ou pólen. Nem a picada de insetos.
– ...
– Não tem nenhuma doença também.
– Qu-?
– Nenhuma mesmo. Nem nenhuma venérea.
– Por q-?
– E não teve catapora quando criança. Surpreendente, né?!
– Por que caralho está me dizendo isso? Como caralho sabe disso?
– Como assim? Eu testei, claro!
A voz do outro soava orgulhosa, mas longe de fixar-se nas habilidades científico-medicinais de seu amigo, as palavras o trouxeram de volta ao ponto que realmente era importante.
– Os resultados do exame... Como? Não queimou?
– Como assim? – Shinra parecia confuso com o questionamento – Hum... Eu sei todos eles... Shizuo-kun, fui eu que fiz, claro que me lembraria!
– E sobre a batida, Shinra? – a urgência em sua voz era palpável.
– Ah, dei uns pontos e enfaixei. Talvez fique uma cicatriz, mas o cabelo a tampará.
– Quê? Não isso, idiota! Sobre ele ter perdido a memória.
– Ah! Isso... – a voz soou levemente decepcionada, como se a falta de interesse do amigo por suas habilidades em cuidar de ferimentos o machucasse – Sei lá, Shizuo.
– Quê?!
– E eu tenho que saber de tudo? – Shinra soava ofendido, mas isso não evitou que Shizuo apertasse o celular entre os dedos, irritado, e franzisse ainda mais o cenho.
– Você sabe que o desgraçado não teve catapora, Shinra, seu maldito!
– Ah! Mas isso foi fácil. Eu só precisei fazer uns testes!
Tentou controlar a vontade que sentia de desligar o celular que apertava entre os dedos e destinar sua raiva à coisa certa, correndo até o apartamento do amigo. Respirou fundo algumas vezes, ignorando o que julgava ser a descrição do procedimento usado para descobrir que Orihara Izaya não tivera catapora, e buscou um cigarro no maço sobre o pequeno rack que sustentava a televisão. Apenas após tragar profundamente e sentir que poderia controlar-se o suficiente para pressionar mais um pouco o amigo sem usar seus punhos, voltou a pronunciar-se:
– E não poderia ter feito o caralho de teste pra coisa certa?! Pra descobrir se aquela pulga está mentindo ou não?
– Eu fiz este também...
– E então...
– Não achei nada... Quer dizer... tem a batida, e foi forte o suficiente para causar danos... Mas não há dano nenhum. Não, ao menos, na primeira olhada... Olharia de novo agora, se não estivesse tudo queimado...
– Então ele está ment-
– Mas, claro, tem a possibilidade de ser outra forma de dano. Tive que pesquisar um pouco por não ser minha área... Enfim, pode ser um dano emocional.
– Dano emocional? Que caralho é isso? E o que dá pra fazer pra descobrir s-
– Não é tão simples quanto fazer exames, Shizuo-kun... E não tem muito que possa ser feito, pelo que li... Quer dizer, até tem uma coisa ou outra, mas... – o outro fez uma leve pausa, como se pensasse com cuidado no que diria – Mas, na verdade, eu não estou interessado nisso. Traumas emocionais são chatos e eu tenho um monte de pesquisa pra recuperar. Você sabe, meu interesse é pelo lado físico. Você pode fazer se quiser, passe aqui depois que te digo como.
E ali estava exposto, como se cuspido em seu rosto, o maior motivo pelo qual Heiwajima Shizuo odiava telefones celulares: eles possuíam a estranha capacidade de deixar vozes mais corajosas. Ele não podia simplesmente agarrar a gola do jaleco branco de Kishitani Shinra e obriga-lo a explicar exatamente o que quisera dizer com “trauma emocional”, “não tenho interesse” e “você pode fazer se quiser”, por que ele, definitivamente, se recusava a pensar que Shinra sugeria que ele encontrasse sozinho uma solução para um Orihara Izaya possivelmente desmemoriado só porque o médico só “tinha interesse pelo lado físico”.
Tragou novamente o cigarro que ficara esquecido entre seus dedos, ouvindo apenas o silêncio do outro lado da linha. Pensou em perguntar como tinha certeza que Izaya não fora o responsável pelos danos ao laboratório. Pensou em perguntar como poderia descobrir este tal “dano emocional” que provaria que Izaya mentia. Pensou, por fim, em perguntar o que deveria fazer. Mas tudo o que fez foi apertar com força o celular entre seus dedos e gritar apenas três palavras antes de cortar bruscamente a ligação:
– Vá à merda!
Conseguiu convencer-se a lançar com força o celular contra a almofada do sofá antes que acabasse por destruí-lo entre seus dedos. Empregou nisso a maior quantidade de força que permitiu seu bom senso, mas admitia que ele estava consideravelmente comprometido pela recentemente encerrada ligação. Nunca soubera lidar com Shinra. Nunca. Mesmo enquanto crianças sempre fora difícil entender aquele que seria o futuro médico clandestino. Não poucas vezes descontrolara-se com o amigo, mesmo que a amizade entre eles tivesse resistido a todas elas, e, em todas elas, sem exceção, o médico acabasse por olhar para ele com enormes olhos admirados e malucos e sugerisse alguns exames como compensação. Mas mesmo ao percorrer sua mente com toda a calma que a situação lhe permitia, não era capaz de encontrar uma vez na qual tenha ficado tão irritado com o amigo. Nem mesmo quando ele colhera seu sangue sem sua permissão ou escondera medicamentos suspeitos em sua comida durante um almoço. Nada do que Kishitani Shinra já fizera deixara Shizuo espumando de raiva como fazia agora. E ele se esforçava verdadeiramente, enquanto acendia mais um cigarro para controlar sua raiva, para entender como um homem que se interessava por históricos médicos que envolviam desde alergias até doenças infantis não se interessaria por uma perda de memória, sejam quais fossem os motivos por trás dela.
Três passos foram dados em direção a seu quarto antes que Shizuo percebesse o que fazia. Outro problema, além do desinteresse do médico clandestino, nublava seus pensamentos, cegando-o aos poucos.
Heiwajima Shizuo não fora convencido. Mesmo com a afirmação de Shinra e com a rejeição de suas acusações, ele tinha certeza que Izaya tinha culpa pela destruição do laboratório. E foi esta certeza que impulsionou seus passos, agora conscientes, a cortarem o caminho entre a pequena sala e o quarto no qual dormia Orihara Izaya.
O barulho soou baixo, e ele sequer o teria percebido se não tivesse insistido. Uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes. Soava cada vez mais baixo conforme ele se aproximava da porta e pousava a mão direita na maçaneta. E ele a teria girado, teria pressionado com força o dedo no metal prateado até que seus dedos o marcassem e em seguida empurrado com toda a força a madeira, revelando seu pior inimigo deitado em sua cama, como se esperando pacientemente por seu ataque. Mas ele não o fez. Ao invés disso deixou-se distrair pelo barulho que soava agora cada vez mais alto enquanto se aproximava do sofá e segurava entre os dedos o celular que tocava como louco.
O nome que se insinuava na tela acabou por arrancar de si um levantar de sobrancelhas enquanto rejeitava a chamada. Aquela chamada não era uma das quais devesse atender, ela tinha como intuito, ele sabia, apenas chamar sua atenção, fazê-lo parar o que quer que estivesse fazendo para dar atenção ao celular e, consequentemente, às mensagens que eram anunciadas no visor. Era o tipo de chamada que apenas Sturluson Celty fazia.
“Não foi ele, Shizuo” – era o que dizia a primeira mensagem. E ele sabia que a era assim, curta e direta, para roubar sua atenção para as próximas. “Shinra nunca fala o que importa... Ele disse ao Izaya que já havia te contado sobre os resultados dos exames, isso horas antes do laboratório ser atacado.” – e este era o fim da segunda mensagem que acabou por fazer Shizuo jogar-se no sofá, exatamente no lugar no qual minutos antes lançara o celular. “Shinra e eu, nós desconfiamos dele. Então ele disse ao Izaya que já havia te contado, assim ele não tentaria nada. Ele não tinha motivos pra queimar os exames.” – o fim da terceira mensagem o fez afundar-se com força contra o estofado e correr depressa os dedos para abrir a quarta e última mensagem enviada. “Não que ele tenha feito algo aqui para levantar suspeitas, mas é o Izaya, é sempre bom estar atento. Isso serve para você também... Mas desta vez não foi culpa dele.”. Quando se preparava para levantar-se após alguns minutos olhando para a tela do celular, recebeu uma quinta mensagem, tão curta quanto a primeira: “Pega leve com ele”.
E pela terceira vez em menos de uma semana, ele via Izaya ser jogado novamente em suas mãos. “Pega leve com ele”, “Procure-o, ele é alguém especial pra você”, e, a mais irritante delas “Você pode fazer se quiser”.
As palavras do amigo ecoavam em sua mente e já não se lembrava se eram assim que soavam quando deixaram os lábios do médico clandestino, mas agora lhe pareciam um desafio, quase como um “e eu sei que você irá”. A maneira como estas palavras e suas mensagens implícitas e explícitas rodavam em sua mente trazia uma careta a seu rosto, preenchendo-o novamente com raiva, mesmo que agora uma diferente da que sentia antes. A ira que agora sentia era por saber que, definitivamente, o faria. Definitivamente faria algo por Izaya. E por mais que tentasse se convencer de que não tinha escolhas quando o informante se metia sem qualquer convite e sem qualquer previsão de partida em sua vida, ele sabia que isso ia muito além de sua incapacidade de expulsar seu pior inimigo de seu apartamento e mantê-lo longe. Ele sabia que o faria porque sorrira para Orihara Izaya na noite anterior. O faria porque ao riso que lhe soava estranhamente inocente ele mesmo acabara por acrescentar o seu, alto e divertido. Este motivo, por mais ridículo que soasse aos ouvidos de qualquer um a quem Shizuo resolvesse explicar-se, foi exatamente o que o impulsionou a apagar o cigarro recém-acendido e dirigir-se ao quarto, decidido a descobrir o que havia de errado com o homem entre seus lençóis.
Não era só curiosidade que o movia, era um pulsar irritante em seu peito que lhe exigia uma explicação para a forma como ele agira com seu pior inimigo nos últimos dias. Algo como jogar-se na busca pelo motivo que daria carta de alforria à culpa que sentia. Porque se Izaya realmente não tivesse suas memórias, ele estaria livre do peso de ter ajudado alguém que o enganava, do peso de ter-lhe entregado seu riso.
Mas também não foi apenas curiosidade que moveu sua mão na direção dos cabelos negros desgrenhados sobre o travesseiro e os afastou com o máximo de sutileza que lhe era permitida do rosto adormecido, pousando por fim sua mão na testa pálida e sentindo a temperatura da pele do outro.
Seria um engano pensar que ele não sentia raiva daquele homem já não mais febril em sua cama. Ele a sentia. Sentia em cada uma das células de seu corpo, preenchendo-o por completo e quase o cegando. Mas havia nele mais do que raiva, assim como havia mais do que curiosidade.
Mal retirara a mão direita da testa quando os olhos castanho-avermelhando abriram-se e fixaram-se nele.
– Tudo bem?
Ele poderia tê-lo feito, mas não estranhou que a pergunta tenha deixado não os seus, mas, contraditoriamente, os lábios daquele que estivera doente horas antes. Ele sabia que o que quer que vissem aqueles olhos nos seus próprios, certamente mereceria a pergunta e o tom preocupado. Entretanto não procurou nem por um instante esconder o conflito que o tomava, e não só por saber que seria inútil tenta-lo.
A pergunta não voltou a soar, dando lugar a outra, feita quando os olhos castanho-avermelhados já não mais fitavam os seus:
– Com quem você falava?
Não pensou em perguntar desde quando o outro estivera acordado, mas também sequer cogitou responder a pergunta.
– Sua febre passou. – apesar de dizer o que disse, empurrou para o outro o termómetro que jazia desde a noite anterior no criado mudo.
Sob seu olhar atento, Izaya não hesitou antes de livrar-se parcialmente dos cobertores e, sentando-se recostado à cabeceira da cama, perder o termómetro por debaixo de seu braço esquerdo.
– Eu me sinto melhor.
E Shizuo percebeu que, em comparação com a noite anterior, a voz soava clara e ininterrupta. Denunciando o quão mal estivera seu dono na noite passada. Mas mesmo que agora pudesse reconhecer sem risco algum de erro que o informante estava melhor, esperou até que o termómetro anunciasse os tranquilizantes 36ºC.
– Isso foi um trovão?
E foi somente ao ouvir a indagação e fitar confuso os imensos olhos castanho-avermelhados que o olhavam num misto de surpresa e temeridade que passou a ouvir, sobrepondo-se a todos os sons das ruas, o barulho de gotas de chuva contra o asfalto. Bufou alto, desviando o olhar de seu detestável hóspede e dirigindo-o a janela antes de finalmente caminhar até ela e olhar por seu através.
O sol que o acordara mais cedo naquele dia, acariciando confortavelmente suas pálpebras, parecia sequer ter existido. Tudo o que via era um céu escuro como noite, cortado por raios com mais frequência do que parecia agradar o homem na cama. A previsão do tempo mentira: a chuva agora caia mais pesada do que caíra durante toda a semana, quase trazendo a seus lábios um sorriso irônico e resignado diante da quebra da promessa de um final de semana ensolarado.
Ele quase pensou – quase – que ao menos não desperdiçaria um belo final de semana com Izaya, não que isso, de toda forma, pudesse soar a ele como um consolo. O que evitou que este pensamento alcançasse sua mente foi um arrepio frio correndo sua coluna. Seu instinto o avisava sobre algo que demoraria ainda alguns segundos para elaborar-se em sua mente. Quando finalmente desviou os olhos novamente para o rapaz que voltara a afundar-se entre os lençóis, soube que desejava o sol mais do que poderia imaginar.
“Ele não pode ir pra casa nessa chuva”, era o que sentia gritarem a ele as gotas grossas e pesadas que fustigavam a janela a suas costas.
O rapaz, cujo apenas os olhos eram visíveis nos cobertores, olhava-o confuso, indagando-o silenciosamente.
– Uma chuva assim não pode demorar-se. – foi o que escapou seus lábios antes que pudesse controla-los, deixando sozinhos no quarto os olhos confusos e afundando-se novamente no sofá com um novo cigarro entre os dedos.
Entretanto, tal qual a previsão do tempo, ele estava enganado.
A chuva demorou-se.
Demorou tempo o suficiente para que Izaya fosse procura-lo na sala e sentasse a seu lado no sofá, mais próximo do que faria caso soubesse que o motivo pela raiva que via no rosto do outro era exatamente a perspectiva de sua proximidade. Mas Shizuo nada fez, nem mesmo quando o outro se cansou e tentou algumas palavras.
Demorou tempo o suficiente para que recebesse uma nova mensagem de Celty perguntando se tudo estava bem e, desculpando-se pelo comportamento do noivo, garantindo que o ajudaria – com ou sem Shinra – em tudo o que estivesse ao seu alcance. Demorou tempo o suficiente para que o homem a seu lado levantasse e resmungasse algo que ele não ouviu. Demorou tempo o suficiente para que um prato de omelete fosse pousado em seu colo, acompanhado pelo que acreditou ser um pedido de desculpas.
E Shizuo continuava a espera, acompanhando com interesse cada nuance da chuva. Focando-se nela o suficiente para que conseguisse manter-se em uma espera silenciosa. Sabia que se pensasse em qualquer coisa que não o som da chuva contra o asfalto acabaria por expulsar o homem que comia silenciosamente a seu lado, olhando-o de canto de olhos.
Todo seu esforço, entretanto, ruiu ao ouvir um riso solto, divertido, soar ao seu lado.
– Você não gosta de chuva, Shizu-chan?
E então todos os seus pensamentos saíram de seu controle como se algo se acendesse dentro dele, e acabaram por focar-se em uma lembrança. Não era uma grande lembrança, pelo contrário, era uma daquelas que não tinha importância alguma, daquelas que podem ser esquecidas sem qualquer perda. Ela, entretanto, não foi esquecida, inundando-o com força.
Era um dia de chuva como aquele. A companhia era a mesma, também. Mas naquele dia ela não estava confortavelmente sentada ao seu lado em seu sofá, mas correndo a sua frente em seu distrito. A chuva não era tão forte quanto a que caía agora do lado de fora de sua janela, mas era forte o suficiente para cegá-lo e frustrar todas as suas tentativas de acertar Orihara Izaya. “Não gosta de chuva, Shizu-chan?”, foram as exatas palavras que deixaram os lábios de seu pior inimigo naquele dia chuvoso, também precedidas por um riso divertido, mesmo que tão diferente daquele que ainda parecia ecoar em seus ouvidos.
E então ele se deu conta de uma coisa. Uma que ele deveria ter percebido antes e sequer sabia como não o tinha feito: “Shizu-chan” estava de volta.
E subitamente o peso em seu estômago voltou com força total, a culpa acrescentando toneladas a ele, corroendo-o. “Shizu-chan”, “Shizu-chan”, “Shizu-chan” – todas as vezes que fora chamado daquela forma desde a noite anterior voltaram com força total, sobrepondo-se confusamente umas as outras.
Olhou contrariado para o homem sentando a seu lado que parecia genuinamente curioso com a súbita mudança em seu semblante, de apático para desperto. Tinha certeza que da última vez que o vira ele o chamava apenas de Heiwajima-san, mesmo que mais de uma vez houvesse demonstrando seu desgosto por não poder chama-lo pelo apelido. O que havia mudado para que de repente, num intervalo tão pequeno de tempo, Izaya houvesse decidido que as formalidades ficariam de lado?
– O que você disse, Shizu-chan?
Foi apenas ao ouvir as palavras de Izaya e ver-se sob a mira de tão atentos olhos castanho-avermelhados que percebeu que rosnava baixos xingamentos, como se seu corpo preparasse-se para receber a conclusão a qual sua mente chegava. “Ele me chamou por este apelido odioso. Ele está brincando comigo. Ele está mentindo. Ele se lembra.” – a conclusão foi gradual, como se ele não pudesse suportá-la caso fosse feita de uma vez só.
Por fim sua voz escapou alta de sua garganta, um rosnado alto, aquele último grito que precedia seu ataque:
– Do que me chamou?
E então tudo se libertou dentro dele. Seus músculos reclamaram diante dos movimentos rápidos e intensos, feitos com toda a força que tinha dentro de si. E como se para refletir o que acontecia a seu controle, fez-se ecoar pelas paredes do apartamento o som de um prato partindo-se. E ele o teria feito, daquela vez realmente o teria, com toda sua força e sem qualquer noção do quão forte isso era. Ele teria matado Orihara Izaya naquele momento se os olhos castanho-avermelhados que o fitavam confusos não tivessem percebido o perigo com o qual se deparavam e o informante não tivesse pulado rapidamente do sofá, caindo desajeitadamente no chão, sobre os cacos do prato recém-quebrado.
Longe de afastar-se do guarda-costas, entretanto, ele aproximou-se ainda mais de sua raiva. Olhos castanho-dourados apertados em ira que fitavam o homem no chão e acresciam ao apelido a agilidade, ambos fatos tão característicos ao homem que pretendia acertar com seus punhos. Homem este que mais uma vez desviou de uma investida sua, escorregando para além de seu alcance e pondo-se de pé apenas após marcar a distância entre eles, o sofá pequeno como intermediário.
– Shizu-chan... – foi a resposta que recebeu à pergunta que sequer lembrava-se de ter feito, dada por uma voz dicotomicamente hesitante e segura – Eu não percebi antes.
E ele não duvidou, mesmo que suas sobrancelhas estivessem franzidas. Não duvidou porque a resposta espelhava a naturalidade com a qual recebera o apelido, não o percebendo imediatamente. Como se fosse a forma adequada de ser chamado, como se não fosse uma forma absolutamente odiosa de ser chamado.
– Desculpe... me pareceu... natural. Escapou.
E mesmo que seu punho tenha se apertado até que os nós de seus dedos ficassem brancos e cada célula de seu corpo tenha gritado para que ao invés de enterrá-lo com força no estofado macio do sofá o tivesse feito no rosto do homem que o olhava obliquamente, ele realmente não pensou em contestar as palavras que espelhavam de forma nauseante seus pensamentos. Demorou um tempo até se sua respiração rápida o permitisse usar o fôlego para algo além de manter-se sob controle, e quando por fim falou, sua voz era só um fio:
– Você se lembra?
E mesmo que ele soubesse que seriam mentiras, ele esperou por uma resposta.
– Não me lembro... Mas a-alguma coisa... em mim... parece se lembrar de que você é... pra mim... Shizu-chan. – ele não parecia certo sobre o que falava, mas contraditoriamente tudo nele, a forma como suas mãos se apertavam, seus lábios separavam-se duramente e seus olhos apertaram-se até fecharem-se, parecia indicar que ele falava a verdade, uma verdade que parecia lhe doer.
“Eu não sou nada para você”, foi o que pensou em cuspir nele. Mas as palavras não deixaram seus lábios, mesmo que estranhamente tenham recebido como resposta um Izaya que se lançou ao chão como alguém que desistiu, exausto, e levantou a ele os dois enormes olhos castanho-avermelhados.
– Você é! – o tom era acusatório – Você tem certeza... t-tem certeza de que é assim mesmo, Shizu-chan? – as palavras atropelavam-se enquanto mesclava sua acusação à incerteza e a uma estranha angústia – É assim mesmo e você me odeia. Mas... me diz... Shizu-chan... o que eu estou fazendo aqui? Por que eu quero ficar aqui? Você tem certeza que eu te odeio?
E, então, Shizuo percebeu como não só a previsão do tempo parecia totalmente errada, mas todas as outras também. Percebeu como a tempestade que caía do lado de fora parecia cair também dentro. Percebeu como Izaya, a cabeça agora abaixada, parecia chover-se sobre o piso.
E ele não teve certeza de mais nada. Quase nada.
Tudo o que sabia era que Izaya ficaria ali por mais uma noite.
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