(in) esquecível
9 Sobre como você foi e voltou, e foi novamente apenas para voltar outra vez
Notas iniciais
Sobre como você foi e voltou, e foi novamente apenas para voltar outra vez
Um botão do elevador do prédio de Shinra, uma catraca do metrô, um muro e a porta do apartamento de Izaya: este foi o saldo de destruição que Shizuo deixou para trás antes de sentar-se no sofá do apartamento daquele que era, mesmo que possivelmente não se lembrasse disso, o informante mais perigoso de Ikebukuro e Shinjuku. A contagem ainda não chegara ao fim, entretanto, e o saldo estava a poucos passos de aumentar. Só não o fizera ainda porque Shizuo não entendera por completo o sentido por trás das palavras que proferia um Izaya parado a frente do largo e confortável sofá no qual se sentava e que o encarava com a expressão fechada, quase raivosa. Isso não duraria, entretanto, não quando Izaya limpou a garganta e repetiu com a voz alta o suficiente para soar impolido:
– Não quero ficar aqui! Não moro aqui!
Mal as palavras terminaram de deixar a língua sempre afiada do informante e uma luminária de canto juntou-se ao saldo de destruição. Este teria sido também o destino de Izaya se não fosse rápido o suficiente para desviar.
– Cala a boca, maldito! Claro que mora aqui! Não consegue sentir o cheiro insuportável de pulga que tem este apartamento?!
– Eu não tenho cheiro de pulga! – a voz soava visivelmente ofendida, tão alta quanto antes, sequer minimamente afetada pelo destino final da pobre luminária – Eu perguntei pro Shinra e ele disse que não tem nada de estranho com meu cheiro! E a Celty disse que cheiro como um “humano normal”!
– Você fez o que? – apertou os olhos na direção do homem que ainda permanecia em pé a sua frente, o corpo inclinado na direção da porta, como se recusasse-se até mesmo a insinuar que ficaria ali.
– Perguntei para os dois, ué. Você sempre me diz isso de cheiro de pulga. E eu nem sei que é um “cheiro de pulga” – o moreno retribuiu o olhar, apertando também os olhos castanho-avermelhados e simulando aspas com os dedos longos – Deve ter algo de errado com seu nariz, Shizu-chan! – acusou.
– O quão idiota você é, pulga? Quem pergunta esse tipo de coisa? Babaca...
Bufou alto, levantando-se de súbito do sofá. Sabia que estava perdendo-se naquela discussão sem sentido.
Quando deixou o apartamento de Shinra, tinha plena convicção de que começaria a ajudar Izaya ainda naquela noite, procurando no apartamento do informante pistas que poderiam desencadear memórias. Seu propósito ruiu, porém, no instante que pôs os pés em Shinjuku e perdeu ainda mais força conforme se aproximava do prédio no qual morava Izaya. Ele, verdadeiramente, sequer compreendia o porquê de ter-se largado no sofá e ouvido as reclamações sem fundamento do homem que ainda o encarava rancoroso, esperando sua resposta. E, mesmo que soubesse que já não lhe restava muito tempo daquele dia, – e o sabia porque fora ele mesmo a acender as luzes do apartamento ao arrombar a porta minutos antes – inegavelmente não fazia parte de seus planos gasta-lo com Izaya, ainda que isso significasse apenas algumas horas. Tudo o que desejava era tomar um banho, fumar alguns cigarros e dormir. E, acima de tudo, queria poder fazer isso sem que Izaya estivesse no cômodo ao lado.
Olhou através das janelas largas que ocupavam uma das paredes do apartamento apenas para confirmar sua teoria de que já era noite. Talvez se corresse ainda poderia encontrar aberto o Russia Sushi.
Foi com a mente presa na possibilidade de comprar alguns sushis que comeria sentado confortavelmente em seu próprio sofá enquanto assistia a algum programa após um relaxante e necessário banho que se impulsionou a passos largos, rápidos e duros, até a porta, disposto a sair e deixar para trás tanto o apartamento quanto seu dono o mais rápido possível. Seus pés mal encontraram o chão pela quarta vez, entretanto, quando percebeu Izaya barrar seu caminho, os enormes olhos castanho-avermelhados o fitando expectantes.
– Eu não falo mais nada... Prometo que não... Fica mais um pouco, sim? Não quero ficar aqui. É grande demais...
Shizuo, pela primeira vez desde que entrara no apartamento do moreno, correu os olhos pela espaçosa sala de estar. Não era a primeira vez que a via, mas, definitivamente, era a primeira vez que a olhava, de verdade, com atenção. Quase feria seu orgulho admitir que o cômodo era, provavelmente, do tamanho de seu apartamento, todo ele. E tinha que admitir que o informante era mais organizado do que pensava, mesmo que, de certa forma, livros metodicamente dispostos em estantes e papéis perfeitamente empilhados numa secretária ao lado de um computador milimetricamente alinhado combinassem com ele. Ainda que soasse contraditório pensar em Izaya, o dono de uma personalidade toda distorcida, como uma pessoa organizada. De toda forma, ao fitar seu arredor, mal podia entender como Izaya podia dizer não se reconhecer ali. Tudo ali, do cheiro à decoração, lembrava o informante. E talvez por este exato motivo absolutamente tudo ali o deixava desconfortável, como se prisioneiro em território inimigo.
Recomeçou seus passos até a porta, ignorando plenamente as palavras de Izaya. O moreno, entretanto, não parecia disposto a render-se tão facilmente:
– Me conta mais. Me conta quem eu sou, por exemplo. Você disse que ia me ajudar. – mesmo que o tom fosse levemente acusatório, Shizuo sabia que aquele era um pedido. Um peso tomou conta de seu peito. Mesmo que sua profissão exigisse e sua personalidade o impusesse, a verdade era que Shizuo nunca fora bom em negar pedidos, não, ao menos, quando estava calmo. E, estranhamente, mesmo que quisesse deixar o apartamento o quanto antes, ele não estava particularmente alterado. Por um momento, mesmo que pequeno, portanto, ele achou que trairia a si mesmo e cederia a aqueles olhos implorantes. A resposta que deixou seus lábios, dessa forma, surpreendeu até a ele mesmo:
– Não. – o tom era certeiro, não carregava sequer pingo de hesitação. E Shizuo repetiu a palavra satisfatoriamente algumas vezes em sua mente, aliviado por perceber o quão incrivelmente fácil era dizer não a Izaya e seus olhos suplicantes.
Ainda ouviu a voz de Izaya enquanto cruzava a porta e atravessava o corredor em direção ao elevador, e, mesmo dentro deste, podia jurar ter ouvido alguns gritos. Ao ganhar a rua, entretanto, e respirar aliviado, já não podia ouvir mais nada. Estava finalmente, livre de Izaya.
“Livre de Izaya” foi seu pensamento ao chegar a casa naquela noite. E “Livre de Izaya” foi o que repetiu enquanto tomava banho, comia e mudava os lençóis que pareciam trair seus pensamentos ao trazerem o cheiro do informante de forma quase opressiva.
“Livre de Izaya” foi também seu primeiro pensamento ao acordar no dia seguinte. E sentia verdadeiramente a liberdade em cada um de seus músculos, mesmo que admitisse que o que denominava como “cheiro insuportável de pulga” que ainda impregnava seu apartamento mesmo depois de ter-se livrado dos lençóis e cobertores o deixasse consideravelmente irritado. Nada demais. Nada além do normal. Nada que o impedisse de levantar cedo, tomar um banho rápido, um copo de leite, e, após vestir seu usual uniforme de trabalho que nada tinha relação com seu trabalho de fato, saísse para encontrar Tom, seu empregador, que o esperava com um sorriso que denunciava o quanto histórias sobre os acontecimentos no metrô no dia anterior já haviam corrido Ikebukuro.
Não foi tão complicado, também, quanto ele esperava. Um “não vou falar sobre isso” foi o suficiente para manter calado o cobrador de dívidas e alguns socos foram o suficiente para manter calado o resto de Ikebukuro. Nada além do normal. Talvez ele tivesse fumado mais do que costumava fumar em dias normais e talvez ele tivesse quebrado mais coisas do que quebrava em dias normais. Mas isso, de certa forma, também era normal.
O que não era normal era encontrar Izaya esperando-o do lado de fora de sua porta, sentado com os joelhos dobrados em encontro ao peito e a cabeça enfiada entre eles, de forma que apenas os cabelos incrivelmente negros e rebeldes fizessem-se visíveis. Também não era normal que Izaya sorrisse ao levantar o rosto e encará-lo e muito menos era normal que ele apenas bufasse irritado ao encarar o sorriso do outro.
Pelas contas do relógio, seu aliviado último pensamento do dia anterior, o glorioso “Livre de Izaya”, havia durado quase exatas vinte e uma horas, alguns minutos a menos apenas. Não que ele se importasse com isso. Sua única preocupação com relógios, se ele tivesse alguma, seria sobre o quão complicado poderia ser correr até a cozinha, onde pendurara um relógio de tamanho médio ganho em uma promoção de um mercado, arrancá-lo da parede e enfiá-lo na cabeça de Izaya.
Mas ele, claro, não faria isso. O relógio estava, afinal, verdadeiramente longe. Diferente, por exemplo, do sofá. O sofá sim, devido ao diminuto tamanho de sua sala-de-estar-corredor, estava terrivelmente perto. O móvel foi, portanto, o eleito pelas mãos do guarda-costas para ser aquele que derrubaria o homem sorridente em entrava logo atrás de si em seu apartamento. E ele o teria feito, verdadeiramente o teria, se o homem sorridente não tivesse corrido até o sofá e se jogado nele, afundando pesadamente nas almofadas macias enquanto ria a riso solto.
– Você ia jogar o sofá em mim, não é, Shizu-chan? Você não vai mais me pegar de surpresa, você sabe?!
– Eu posso jogar a poltrona em você, pulga! – rosnou entredentes.
– Você não faria isso! Você ama esta poltrona! – e, por mais que Shizuo pudesse interpretar aquilo com uma provocação, a verdade era que o informante sorria divertido, como se ser ameaçado daquela forma não fosse nada demais e como se o fato de que não seria acertado por uma poltrona fosse só isso: apenas um fato. Shizuo, entretanto, não pode deixar de franzir o cenho diante de afirmação do outro.
– Como você sabe que gosto da poltrona? – perguntou, desconfiado.
– Você rosnou pra mim quando sentei nela terça passada e me olhou como se fosse me matar – o informante anunciou, o tom despreocupado e risonho – Quer dizer, você sempre rosna pra mim e me olha como se fosse me matar, mas foi diferente daquela vez... Foi um presente? Alguém especial pra você? Família?
“Acalme-se, Shizuo. Você sabia que seria assim”, pensou, levando uma das mãos até o bolso da calça, buscando dali seu maço de cigarros e retirando uma unidade com os dedos trêmulos. O cigarro, entretanto, nunca chegou a encostar seus lábios, lançado como foi ao chão e pisado em seguida. “Foda-se”.
Agarrou Izaya pela touca do moletom que reconheceu como sendo sua e arrastou-o porta afora, lançando-o no corredor e fechando-a em seguida. Ele sabia que Izaya não iria embora, e sabia disso muito antes de ouvir as batidinhas ocas na madeira, mas não podia aceitar que o outro pensasse que ajuda-lo seria, de alguma forma, suportá-lo dizer o que bem entendesse debaixo de seu teto. E algum lado seu até mesmo entendia que era infantil expulsar Izaya daquela maneira quando sabia que isso não resolveria nada. Mas ele sentia que havia duas opções: expulsá-lo e respirar aliviado alguns minutos o ar quase livre do cheiro do outro ou provar a Izaya que no fundo a poltrona não era tão importante assim quanto ele sugeria enquanto usava a cabeça repleta pelos fios negros para rasgar o estofado num só golpe. E ele, verdadeiramente, não queria levar a tal cruel destino a poltrona que ganhara de seu precioso irmão.
– Mais uma gracinha e você sai pela janela. – anunciou ao abrir a porta ao homem de cabeça baixa que desajeitado entrou novamente no apartamento e sentou-se desconfortável no sofá do qual fora arrancado segundos antes.
– Não foi uma gracinha. Eu estou curioso. Não sei nada sobre você. Não estava te provocando... – ele ficou em silencio por um tempo antes de levantar os olhos e fitar Shizuo diretamente – Me diz, Shizu-chan, eu te provoco? Digo, você disse que eu estou sempre fodendo sua vida e que a gente está sempre brigando... Isso significa que eu te provocava o tempo todo? Por isso você acha que tudo que digo é provocação?
Shizuo encarou os olhos castanho-avermelhados por um tempo, resistindo ao primeiro impulso que tivera em cumprir sua promessa e arremessar janela afora o dono deles. Por fim, bufou e sentou-se na poltrona ao lado do sofá no qual se sentara Izaya. Era irritante admitir, mas a pergunta era séria.
– Vá se foder, Izaya! – xingou, por mais que sua postura fosse a de quem desse uma resposta satisfatória. Mas quase acabou por desmanchar sua carranca e rir quando viu que o informante ria de sua resposta, outro daqueles sorrisos soltos e fáceis. Quase.
– Acho que isso é um sim, né?! – Shizuo não respondeu, deixando que o silêncio inundasse a sala de estar enquanto levava a mão novamente ao bolso da calça e pescava um cigarro que desta vez alcançou seu lábios – Shizu-chan, você trabalha em um bar?
– Não. – respondeu simplesmente, tragando profundamente.
– Você trabalha com o que? Nos conhecemos no trabalho? – o informante parou, pensando por um tempo, e enfim acrescentou – Você é famoso, Shizu-chan? Um ator?
Shizuo engasgou com a fumaça, surpreso pelas palavras ouvidas.
– Eu? Não, eu não, idiota! De onde tirou esta ideia?!
– No metrô um monte de gente sabia o seu nome. E você é bonito o bastante para ser um... E usa estes óculos legais. – o informante baixou a voz antes de continuar – Mesmo que seja meio estranho usar dentro de casa e durante a noite...
– Cala a boca, pulga. – Shizuo rosnou, irritado, mas acabou por retirar os óculos de lentes escuras que sequer percebera ainda usar.
– Seus olhos são bonitos também. Tem este tom meio mel meio dourado. Os do Shinra são mais escuros e a Celty não tem olhos. Hehehe. Ela não tem cabeça, Shizu-chan. Difícil acreditar assim de primeira, não é?! Fiquei assustado da primeira vez, mas agora já acostumei. O Shinra é bem mais assust-
– Qual é o caralho do seu problema, pulga?! – Shizuo rosnou, interrompendo-o. Ele tinha quase certeza que Izaya falava aquelas coisas para vencê-lo pelo cansaço. Porque tinha certeza que qualquer diria exatamente o que ele queria saber apenas para que ele se calasse. Mesmo que desconfiasse que fosse este seu método e soubesse o quão irritante era ceder, acabou por fazê-lo, entretanto, num suspiro exasperado – Eu trabalhava em um bar. Ganhei estas roupas do meu irmão mais novo quando comecei a trabalhar lá, por isso as uso. E foi ele, também, quem me deu a poltrona. Foi um incentivo... – um sorriso discreto e involuntário tomou os lábios de Shizuo, daqueles que o guarda-costas mostrava apenas quando falava de seu irmão mais novo. O sorriso, entretanto, não permaneceu em seu rosto, logo se transmutando em uma carranca desgostosa – Mas, no fim, perdi o emprego por sua culpa. – foi interrompido por um baixo “desculpe”, mas ignorou-o por completo. Não se daria ao trabalho se considerar sincero o pedido de desculpas, ou mesmo de considerar aceita-lo – Trabalho como guarda-costas. Não te conheci no trabalho. Na escola. Academia Raira. – não acrescentou que o fato de ser conhecido na cidade fosse resultado de sua força monstruosa. Isto não era algo, afinal, que precisasse ser explicado.
– Entendi. – Izaya resmungou, calando-se em seguida, os olhos fixos em Shizuo, como se receosos quanto a dizer o que queriam – E eu? Com o que eu trabalho? – ele baixou os olhos para o colo, esfregando as mãos uma no outra, e Shizuo pode perceber que concentrava os toques nas cicatrizes que marcavam a pele – Eu trabalho em... um açougue ou algo assim?
Shizuo levantou os olhos que acompanhavam os movimentos das mãos do informante e o fitou, olhos abertos em palpável surpresa. Ele podia jurar ter entendido mal.
– Que? – perguntou, visivelmente confuso.
– Na minha casa... – começou o informante, fitando-o atento antes de balançar levemente a cabeça e voltar a fitar os dedos sobre o colo –.... Ontem, depois que me deixou onde disse ser minha casa, eu comecei a procurar por coisas que pudessem me ajudar a lembrar... E eu encontrei muitas facas, muitas, muitas mesmo! De todos os tamanhos. A maior parte pequenas lâminas, na verdade. E dai eu tenho estas cicatrizes de corte nos meus dedos... e, – os olhos castanhos-mel fitaram surpresos enquanto os dedos até então cruzados sobre o colo do informante correram até o bolso do moletom e tiraram dali o tão conhecido canivete de Orihara Izaya –... e eu percebi desde que acordei no beco que carrego isso no meu bolso... Com o que eu trabalho, Shizu-chan?
Shizuo nunca fora um homem de muitas palavras. Não que ele não conhecesse muitas ou não fosse capaz de articulá-las com perfeição. Longe disso. Ele era, verdadeiramente, um homem econômico. E até poderia dizer que era mais um homem de ações do que de palavras, mas não se orgulhava da rapidez com que seu corpo às vezes se sobrepunha a seus pensamentos. De toda forma, ainda que optasse muitas vezes por manter-se calado, Shizuo não era um homem de poucos vocábulos. Naquela hora, entretanto, não seria exagero dizer que ele absolutamente não sabia como reagir, fosse com suas palavras ou suas ações.
Talvez o mais correto fosse afirmar que ele não tinha sequer noção de qual era a resposta que Izaya esperava dele. Ou mesmo que ele não tinha sequer noção do que Izaya queria dizer com “trabalhar em um açougue ou algo assim”. Os olhos castanho-avermelhados que o encaravam expectantes, entretanto, garantiam a ele que havia alguma resposta possível a aquele absurdo, e era exatamente esta resposta que eles esperavam.
– Não. – foi o que acabou por optar a responder. Essa era sempre a resposta que entregava a questões que não sabia direito o que significavam. Era sempre melhor, ele aprendeu com o tempo, dizer um não do que um sim.
– Não o que? – o informante fitou-o confuso – Eu não trabalho em um açougue?
– Não trabalha. – confirmou, já que, por mais que não entendesse direito qual era o ponto de Izaya, tinha certeza que no açougue ele não trabalhava.
– Nem em algo assim? – perguntou-o novamente, ansioso.
–Não.
– Com o que eu trabalho, então? Por que eu tenho facas e cicatrizes de cortes nos dedos? E porque tenho isso comigo?
Shizuo olhou-o novamente. Havia algo de extremamente desconfortável em mirar o informante com sua tão conhecida arma entre os dedos, mesmo que ela estivesse fechada. Condição esta, porém, que não durou mais que poucos segundos.
Os olhos castanhos-mel arregalaram-se até seu limite quando os dedos finos e longos giraram habilmente o canivete antes de abrirem-no num só rápido momento e apontarem-no em sua direção. Cada célula de seu corpo gritou em repulsa e só naquele momento ele percebeu o quanto estivera relaxado sentado em sua poltrona com Izaya sentado no sofá a seu lado. E todo o sinal que precisou de que estava com a guarda-baixa o invadiu no momento que sua cabeça sobrepôs-se a seu corpo e gritou a ele que Izaya lhe apontava uma arma. Aquilo era algo verdadeiramente inédito a ele, nunca antes lhe ocorrera ter tempo o suficiente para pensar antes de partir para cima do informante. Em situações normais, ele sabia, já teria se lançado em direção ao outro em um ataque que teria de tudo, menos racionalidade. Mas lá estava ele, encarando a lâmina perfeitamente afiada apontada a si, com cada centímetro de sua mente gritando o quanto isso era errado e com cada centímetro de seu corpo preso à poltrona macia.
A primeira parte de seu corpo a reagir foram seus olhos, que se se nublaram e desfocaram-se pela raiva. Piscou fortemente e abriu novamente os olhos. E foi neste exato momento que observou o corte afiado da lâmina ascender ao sorriso de seu portador, tornando-o tão ameaçador quanto ela. Aquele sorriso que, tanto quanto a arma, era velho conhecido seu. E aquele sorriso que, tal qual a arma, como se também recolhido a uma bainha, sumiu num instante. Foi apenas o intervalo de uma nova piscada, desta vez mais forte, com o intuito de afastar a loucura que se insinuava a suas pálpebras, e tudo havia sumido.
Um arrepio gelado correu seu corpo todo enquanto Shizuo observava os dedos longos meterem-se dentro do bolso do moletom para ali deixarem o canivete agora fechado. E sob o olhar castanho-mel intenso os dedos longos, após deixarem o canivete seguro no bolso, migraram diretamente aos lábios que instantes antes sustentavam o malicioso sorriso, acariciando-nos sutilmente até que ali nascesse um sorriso inocente. Um sorriso inocente igual ao que o recebera na porta mais cedo.
E o sorriso não oscilou nem por um segundo, permanecendo ali, direcionado a ele, como se sempre tivesse lá estado, como se fosse o único que conhecia aqueles lábios finos. E ele esperou que ele hesitasse, que ele mudasse de forma ao menos um pouco, nem que um milímetro, que acabasse por denunciar que era capaz de sorrir de outra forma. Quando o sorriso desmanchou-se, porém, deu lugar a palavras que fizeram Shizuo ainda mais confuso:
– E, então, com o que eu trabalho?
As palavras foram ditas de forma simples, como se fossem apenas a continuação da pergunta anterior, e como se esta nunca tivesse sido interrompida por uma arma apontada para seu peito e por um sorriso que Shizuo já nem tinha certeza de ter existido.
Franziu o cenho. Aquela não era a primeira vez que algo assim acontecia. Ele tinha um vislumbre, apenas um pequeno, do antigo informante e de repente ele se perdia em meio a sorrisos leves e palavras fáceis. Ele tinha certeza que não fora sua imaginação, tinha certeza que o sorriso ocorrera, mas, definitivamente, não sabia onde ele teria ido parar, em qual curva daquele sorriso novo e inocente ele tinha, estranhamente, se perdido.
– Você é um informante. – foi o que respondeu ao olhar expectante que lhe era lançado. E teria dito mais se isso significasse quebrar aquele silêncio horrível que parecia apenas reforçar que imaginara tudo.
– Um informante?
– Não sei direito o que você faz. Não tenho interesse. Tudo o que sei é que onde você se enfia algo dá errado. – ainda olhava desconfiado para o informante, mas seus lábios continuavam a moverem-se, como se capazes de fazer isso sem sua supervisão – E onde algo acontece de errado você está enfiado.
– E o porquê disso? – perguntou, após alguns minutos de silêncio, mostrando as palmas das mãos.
– Isso no seu bolso é a merda da sua arma.
– Minha arma?
Shizuo estreitou os olhos. Respirando fundo. Ele não entendia aquela pessoa sentada no sofá diante dele. Não entendia o canivete em seu bolso. Não entendia o sorriso fácil e as palavras calmas. Não entendia como tudo poderia estar ali ao mesmo tempo, coexistindo naquela pessoa contraditória.
– Sai daqui, Izaya. – declarou por fim – Sai daqui antes que eu te mate.
Izaya o olhou confuso e abriu os lábios algumas vezes como se ensaiasse dizer algo. No fim, levantou-se em silêncio e resmungou baixinho antes de dirigir-se a porta e cruzá-la:
– Obrigado por me explicar as coisas. Boa noite, Shizu-chan.
O desejo de Izaya, por mais questionável que fosse diante das circunstâncias, não chegou sequer perto de concretizar-se. A noite não foi boa. Mesmo que Shizuo tivesse se esforçado neste sentido, repetindo o mantra “Livre de Izaya” que repetira para si mesmo na noite anterior e na manhã daquele dia que já chegava ao fim. Não que as palavras do mantra não fossem mais verdadeiras, ele não tinha dúvidas que Izaya fora embora de seu apartamento e de Ikebukuro. Era inegável: por mais que o cheiro impregnado às paredes de seu apartamento estivesse inegavelmente vivo, seu dono já não estava por perto. Mas a verdade, e agora Shizuo percebia, era que aquelas palavras traziam dois lados e que a presença ou ausência do informante não pareciam fatores assim tão importantes: Izaya não estar ali não significava que estivesse livre dele.
Izaya pareceu acompanha-lo enquanto livrou-se das roupas suadas pelo dia de trabalho e meteu-se debaixo da água morna. Izaya pareceu estar parado às suas costas enquanto escolhia um moletom confortável em seu guarda-roupa. Pareceu estar ao seu lado enquanto comia alguma porcaria e enquanto escovava os dentes. E, tal qual na manhã anterior, Izaya parecia deitado ao seu lado na cama. E ele sabia, tinha certeza disso, que deveria estar enlouquecendo com tudo aquilo. Enlouquecendo ao ponto de intercambiar em sua mente sorrisos maliciosos e sorrisos inocentes. E quase estava certo de que acabaria ele mesmo por se perder enquanto tentava encontrar dentro daquele homem anormal o antigo Orihara Izaya.
A imagem de um Izaya sorrindo malicioso enquanto lhe apontava desleixadamente uma lâmina foi a penúltima a ocupar seus pensamentos naquela noite. A última foi, para repulsa de sua cansada mente, o sorriso malicioso transmutando-se em um sorriso leve que esperava por sua chegada como se esperasse por um presente no Natal.
E por mais que estivesse cansado das certezas que acordavam com ele em forma de resoluções, não conseguiu evitar que acordasse no dia seguinte com a absoluta convicção que Izaya mentia a ele, que o verdadeiro sorriso do informante era o malicioso e que a sua verdadeira natureza era aquela que lhe apontava o canivete. E, por mais que já estivesse cansado de desfazer suas certezas e reformular suas decisões, fraquejou mais uma vez quando, ao chegar do trabalho, encontro mais uma vez aquele sorriso a espera-lo com se nada significasse.
Neste segundo dia de visita o sorriso malicioso não fez aparição alguma. No dia seguinte a este ele voltou a desfigurar o rosto pálido e preencher os olhos castanho-avermelhados e Shizuo até mesmo ganhou um corte no braço quando perdeu o controle. Era quase saudosa a forma como a lâmina deslizava por sua pele enquanto se jogava para cima de Izaya. E então, como se natural, o homem que segurava a lâmina coberta de sangue se desfez em desculpas excessivas e reverências que pressionavam a testa agora corada de aparente vergonha contra o chão.
E toda noite ele tinha uma desculpa nova para espera-lo em frente a seu apartamento.
Toda noite uma história nova.
Um dia ele lhe contava sobre os papéis que encontrara em sua mesa e que não podia entender. Outro dia lhe contava do computador cuja senha não conseguia se lembrar. E no outro parecia desesperado enquanto lhe contava do susto ao encontrar uma mulher que jurava não conhecer em sua casa ao acordar. E todas as desculpas e juras desnecessárias sobre não sentir nada por aquela mulher que se disse chamar-se Yagiri Namie se estenderam por irritantes minutos até a confirmação absolutamente dispensável de que a mulher fizera algumas perguntas apenas e logo saíra do apartamento dizendo algo sobre “férias”, “não tenho saco pra isso” e “e quem é que vai me pagar?”.
E, de alguma forma, ele descobria gradualmente, dia pós dia, que tinha mais histórias para contar do que imaginava. Mesmo que sua disposição para conta-las fosse absurdamente menor do que a de Izaya para ouvi-las. E mesmo que, por fim, sempre acabasse por irritar-se e expulsar o informante, às vezes após algumas horas e longas frases trocadas, às vezes no instante que o encontrava parado do lado de fora de sua porta com o já tão conhecido sorriso.
Ele jurava a si mesmo dia após dia que aguentar as histórias de Izaya sobre sua infrutífera busca por respostas entre os cômodos de sua casa e contar como encontrara o informante pela primeira vez na Academia Raira ao serem apresentados por Shinra, como fora demitido por sua culpa, como fora preso por seu capricho e sobre algumas das vezes que eles brigaram por Ikebukuro era, de alguma forma, fazer algum progresso, mesmo que até então Izaya garantisse ainda não lembrar-se de nada e na maior parte das vezes saísse fugido de seu apartamento diante de um novo acesso de fúria.
Ele sabia o que precisasse fazer.
Shinra dissera que imagens, sons e cheiros – e não histórias inúteis e conversas enervantes – eram os estímulos mais efetivos para trazerem de volta as memórias de Izaya. Ele devia, portanto, sair com Izaya por Ikebukuro em busca de estímulos concretos. Ele sabia que devia.
Não foi fácil a ele, porém, tomar a decisão de que o faria.
Foi somente na noite da sexta-feira, após uma semana inteira abrindo a porta para o informante e recebendo-o em seu sofá para conversas claramente inúteis, que deixou escapar de seus lábios as palavras “iremos juntos até a Academia Raira, venha aqui amanhã pela manhã” ao assistir Izaya cruzar a soleira de sua porta.
E ele respirou fundo, num gesto que já se tornara quase parte de si, ao ver-se sozinho novamente. Ele sabia que precisaria por em prática toda a sua concentração para suportar o que viria a seguir. Ele só não sabia, entretanto, que seu esforço seria necessário tão cedo. Exatamente duas horas após Izaya ter deixado seu apartamento.
E ele poderia ter pensado que seu irmãozinho lhe fazia uma visita. E, verdadeiramente, gostaria de ter-se deixado pensar nesta possibilidade nem que por apenas um segundo. Entretanto, era impossível pensar nisso com aquele cheiro invadindo suas narinas, mesmo que ele já devesse ter se acostumado a ele após visitas diárias por uma semana inteira.
De toda forma, após ouvir as típicas três batidinhas na porta, tornou-se ainda mais impossível pensar que seu visitante era alguém além de Orihara Izaya.
Orihara Izaya. Novamente. Pela segunda vez naquela noite.
E ele poderia ter fingido que dormia. Afinal de contas, duas horas já haviam se passado deste a última visita e a lua já alcançara há tempos o centro do céu, numa clara mensagem de que ele, Heiwajima Shizuo, já deveria estar dormindo. O problema é que ele, Heiwajima Shizuo, era incapaz de ignorar uma visita daquele visitante em especial, Orihara Izaya.
Seu cenho mal teve tempo de franzir-se em indignação antes que ele abrisse a porta com fervor e encarasse em fúria o homem parado diante da sua porta. Ele se acostumara, ainda que a duras penas, com uma visita diária, mais do que isso era forçar a paciência que ele sabia não ter. Como se soubesse a crítica situação na qual se metia ao bater pela segunda vez naquela porta, entretanto, o homem parado na soleira de seu apartamento disse, tão logo se viu sobre o olhar castanho-mel raivoso, as três palavras mais surpreendentes que poderia ter dito:
– Estou com fome.
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