(in) esquecível

26 Sobre como você era um parque de diversões


Notas iniciais
Olá, olá, pessoal mais sucesso do universo das histórias escritas por fans! Como vão vocês? Espero que bem! Primeiro de tudo, quero agradecer do fundo do meu coraçãozinho que sofre por Shizaya por todos os comentários lindos e favoritos! E, também, a quem está lendo! Obrigada, gente. ♥ Segundo, eu demorei. Demorei tipo mais do que um pouquinho só. E peço imensas desculpas por isso. Explicarei meus motivos um pouquinho melhor nas notas finais, nos vemos lá? Espero que gostem do capítulo e se divirtam com ele! Beijo, beijo, =* Yuki



Sobre como você era um parque de diversões

— Seu cabelo tá grande demais.

O sorriso invadiu seus lábios tão logo os cerrou em silêncio, cessando de imediato os pequenos redemoinhos que seu hálito moldava nos fios negros a acarinharem suavemente seu rosto. Era um pensamento bobo, ele sabia, pensamento embalado pelo riso baixinho que escapava do rapaz aconchegado em seu peito e pela letargia que tomava cada mínimo músculo de seu corpo, mas não pode evitar pensar que os fios finos a deslizarem por sua pele dançavam especialmente para sua voz.

— O que aconteceu com o lindo, hein, Shizu-chan?

O sorriso extrapolou-o os lábios, desta vez, soando baixo, nasalado, um quase pequeno suspiro. Não era sua intenção prolongá-lo e deixá-lo ecoar alto pelo cômodo, mas não pode evitar fazê-lo apenas para que mais uma vez os fios lisos movessem-se sobre seu rosto.

Quando deu por si, estava afundado neles, os lábios mais uma vez silenciosos, sem riso e sem resposta, a ponta do nariz a tocar leve o couro cabeludo.

Cereja, talvez. Algo doce, mas não demais. Algum perfume de flor, ou menta, ou alguma erva de chá a quebrar o doce da fruta, amenizando-o até que quase desaparecesse, restando para trás apenas o cheiro característico do homem em seus braços, este sim inconfundivelmente marcado. Um bom arranjo, ele assumia, mesmo que nunca fosse julgá-lo assim em voz alta. Um que – e não entendia direito o porquê de pensá-lo assim – combinava com Izaya.

— Continua comprido demais. – anunciou, fazendo-o talvez apenas para soprar mais uma vez os fios, afastando-os de sua boca e sentindo-os outra vez acarinhar em pequenas cócegas seu queixo e nariz.

— Mesmo que eu continue lindo, você diz?

O riso eclodiu em seu peito, balançando-o de leve e embalando para frente e para trás o corpo menor colado ao seu. Puxou-o mais perto, as pernas enlaçadas juntas e as mãos firmes, uma em volta da cintura pálida e outra a enfiar-se por entre os fios negros compridos demais. Sorriu de novo quando percebeu o rapaz a também rir, embalando-se por si mesmo em seu peito, o quadril encaixado ao seu e os dedos presos a seus braços. Demorou tempinho a perceber que o riso do outro, mais alto que o normal, era resposta ao resmungo que mal notara escapar de seus lábios. “Cala a boca, pulga”, baixinho como se por decreto, como se a nova única forma de falar a Izaya fosse suspirar em seus cabelos.

Deveria se importar, sabia disso, que o outro risse agora riso solto enquanto cravava as unhas curtas em seu antebraço e ondulava o quadril em seu baixo-ventre. Mandá-lo calar-se de novo ou perguntar o porquê de rir daquela forma tão aberta e infantil, o porquê de rir de seus xingamentos e suas bobas ordens sussurradas. Mas não se importava, verdadeiramente. Quase o entendia. Com compreensão de que, se o acompanhasse e começasse a rir, a letargia o largaria a rir o resto da noite toda, horas a fio, sem interrupções. Porque era, ele sabia disso, incrivelmente fácil entregar-se aos embalos do corpo quente colado ao seu e deixar-se conduzir com ele para frente e para trás como se em balanço de brinquedo.

Balanço.

Talvez fosse mesmo assim.

Pelos arrepiados. Voltas desgrenhadas nos fios loiros descoloridos. Respiração descompassada. Corpo suado. Olhos bem fechados. Comichão aflitivo no fim do estômago. Sorriso largo como se dois balões de ar amarrassem-se em cada canto de seus lábios.

Talvez Izaya fosse mais ou menos feito o parquinho que frequentava com Kasuka quando criança. E talvez fosse por isso que, ao arrastar a ponta do nariz até a nuca quente, tenha sentido na pele recém-descoberta o cheiro do verão. Sol, alguma flor, alguma árvore talvez. Alguma coisa totalmente diferente do cheiro neutro-algodão, suor e sêmen que sua própria pele emanava.

— Hum... isso é bom, Shizu-chan.

A voz mole e arrastada, o quadril jogando contra o seu e os dedos em pequenas carícias em seus braços: tudo no rapaz em seus braços gritava que ele definitivamente não gostaria de saber que acabara de ser associado à uma memória infantil. Sorriu mais uma vez, e, desta vez, sorriso daqueles que definitivamente não mostrara a Kasuka enquanto brincavam juntos.

A ponta do nariz deu lugar aos lábios e a mão que quase gentil enlaçava a cintura fina desceu brusca até uma das coxas desnudas. Com a ponta da língua sentiu um gemido prolongar-se na garganta de Izaya e, no instante seguinte, tinha-o de bruços na cama, as mãos espalmadas no colchão e o quadril arrebitado colado a sua virilha.

Foi seu pico e, exatamente por sê-lo, durou menos que segundo, apenas um olhar sendo-lhe permitido, uma breve sensação do calor em seu ventre e poucos instantes do riso divertido abafado pelo travesseiro. E, então, como era de se esperar de uma brincadeira no balanço, desceu, brusco, os dois pés no chão e o estômago gritando pela queda rápida demais.

Do chão onde estava, a vista não era nada gloriosa.

Recuou, os olhos bem abertos, o peito em solavancos e os joelhos enterrados com força no colchão macio. Devia ter desconfiado. Era um dever, uma obrigação que precisava ter sobreposto à calmaria e imposto a suas preocupações como sempre fazia em situações como aquela. Fora ingênuo, pego desprevenido pela letargia. Era nova a ele, afinal, a primeira vez que a conhecera. Ela e os cheiros. Ela e as carícias moles. Ela e o tom arrastado. Ela e as pernas enroscadas. Ela e os suspiros baixinhos. Ela e os risinhos embalados uns pelos outros. Nenhum deles já haviam pertencido a ele. Nunca.

A estranheza subiu em um bolo de ânsia e colou-se a sua garganta enquanto arrastava os olhos para longe do corpo nu a sua frente e os prendia nas paredes creme do quarto tão maior que o seu.

Os olhos afastados, os joelhos quase doloridos, a garganta engasgada, o desconforto: esses sim eram seus velhos conhecidos.

E, por assim serem, sabia exatamente o que deveria fazer.

Primeiro buscar o pacote no bolso da sua calça.

Primeiro encontrar sua calça.

Primeiro desviar os olhos da parede.

Primeiro engolir a ânsia e a covardia e encarar o corpo nu na cama.

Primeiro avaliar os danos.

Primeiro perguntar.

Primeiro desculpar-se.

As desculpas amargas e pesadas que sempre seguiam situações como aquela. Ainda que aquela fosse, verdadeiramente, uma situação diferente, o membro a repousar inerte, ainda úmido, em sua coxa esquerda como prova irrevogável de que descontrolara-se mais do que jamais fizera, que descontrolara-se ao ponto de satisfazer-se por completo.

— Shizu-chan, tudo bem? Tá começando a me deixar constrangido... Digo, ainda estou com a bunda pra cima e você tá ai ajoelhado em silêncio... É tipo uma oração antes da refeição? Não precisa, sério. Sei que é incrível, mas idolatria é demais, até mesmo quando o que está em questão é minha bela bunda.

— Oe, Izaya, eu... – estancou, incapaz de continuar ou mesmo desviar os olhos da parede.

O que poderia dizer? Que não fora sua intenção? Que não deveria ter se descontrolado? Como explicaria, então, o que estava prestes a fazer ao levantar-se e buscar no bolso da calça um pequeno embrulho de papelão para arrancar dele uma pomada analgésica? Ele viera, afinal, preparado para machucar e isso, inegavelmente, fazia qualquer desculpa inútil. Sabia que corria riscos. Se sabia, não podia fazer-se de inocente e desculpar-se como se acidental.

Não desculpou-se, portanto, mesmo que sentisse que devia fazê-lo ao ouvir o rapaz mover-se na cama e sentir os olhos castanho-avermelhados fixos em seu caminho para fora dela, até sua calça jogada ao pé do móvel. Não desculpou-se, também, ao virar-se e refazer caminho até ele, a atenção agora no sorriso que iluminava os olhos de coloração tão atípica a encararem o pacote pardo em sua mão.

Quase sorriu, um sorriso de vergonha e resignação, ao ver o sorriso nas orbes rubras ascender aos lábios avermelhados até soar, abafando com malícia o atrito que o corpo magro fez com o lençol ao virar-se de bruços e empinar mais uma vez o quadril.

— Uau. Você tem mais, Shizu-chan? É diferente ou é por que aquele acabou? Usamos tanto assim?

E, diferente de quando embalava nele sua letargia, aquele riso fácil incomodou-o, como veneno a continuamente comprimir-lhe a garganta. Soando sem interrupções, ainda que abafado pelo travesseiro, mesmo quando os olhos castanhos-mel, fixos nas intensas manchas vermelhas e roxas na pele branca, já não encontravam mais motivos para risos.

Continuando enquanto corria de leve os dedos pelas marcas. Uma a uma.

Continuando enquanto a ânsia sufocava-o.

E continuando enquanto seu próprio riso, dolorido, se juntava a ele.

Para, então, cessar de supetão, bruscamente cedendo lugar à voz desconfiada que não trazia em si sequer tom da empolgação anterior:

— Shizu-chan, o que está fazendo?

Ignorou-o.

Ambos sabiam o que fazia. Ambos sentiam o cheiro químico e nauseante que espalhava-se pelo quarto. Izaya entendia, tinha certeza. Entendia o porquê de seus dedos tremerem enquanto corriam por sua pele e entendia o porquê de correrem por lá. Ainda que não entendesse, contudo, não diria em voz alta, embora aquela fosse, possivelmente, sua única chance de fazê-lo, de explicar-se por si mesmo.

— Hey. Me responde. Shizu-chan, o que é isso que está passand-?

— Cala a boca, pulga!

Arrependeu-se no instante no qual as palavras escaparam, um rosnado através de sua ânsia. Arrependeu-se porque eram, apesar de tudo o que deveria dizer, exatamente aquelas as palavras que queria dizer. Sem pedidos de desculpas e sem perguntas sobre dores, tudo o que queria era que Izaya calasse-se e o deixasse terminar de cobrir com a pomada fria todas as marcas que causara no corpo que, assim nu e descoberto, parecia ainda menor e mais frágil que o seu.

Izaya não retrucou, como intimamente desejou que fizesse. Apenas um “Cala boca é o caralho, Shizu-chan. Me responde direito, merda”. Ou talvez nem tanto, talvez só um remexer insatisfeito, um estalo de língua, um riso debochado. O rapaz permaneceu, entretanto, imóvel e silencioso, não movendo-se nem quando deslizou um dos dedos por entre suas nádegas e espalhou por lá quantidade considerável do remédio.

— Terminou? – a voz alcançou seus ouvidos no momento no qual afastou-se para checar se todas as manchas estavam ou não escondidas pelo creme branco. Estavam. Contrariamente parecendo, assim ocultas, ainda mais numerosas do que quando as vira pela primeira vez, ainda do alto do balanço. Considerou cobri-las outra vez, aumentar quantidade, espalhar melhor, o rapaz de bruços na cama, entretanto, cortou seus pensamentos, insistindo: – Terminou, Shizu-chan?

Acenou positivamente mesmo que ciente de que não seria visto, e lançou de volta ao pé da cama o tubo consideravelmente mais leve em suas mãos. Não moveu-se além disso, contudo, permanecendo com os joelhos firmemente enterrados no colchão e os olhos presos nos pontos brancos nas costas, pernas e braços de Izaya.

— Você pode vir até aqui e conversar comigo ou terá que ficar aí vigiando até que tudo seja absorvido e desapareça? Ou será que daí, quando desaparecer, você terá que aplicar outra camada para garantir que eu não morra?

Os olhos castanhos-mel abriram-se aos limites, surpresos, antes de semicerrarem-se em confusão. Por mais que as palavras ouvidas sugerissem ironia, o tom soara perfeitamente calmo e tranquilo, como se aquela não fosse nada além de uma conversa casual sobre o tempo.

— A propósito, se você julgar que já foi o suficiente e resolver vir até aqui, será que pode me cobrir no caminho? Por mais consideravelmente grossa que tenha sido a camada que passou em mim, não é o suficiente para me manter aquecido, sabe? Ou você pode terminar de me cobrir com pomada, também. Tenho certeza que deixou algumas partes sem nada na sola do meu pé e no cantinho esquerdo da minha orelha direita. Isso sem nem citar que você só passou nas minhas costas, aposto que estou com montes de fraturas expostas do outro lado. Melhor verificar, não? Quer que me vire?

Piscou, confuso. Era sério o que ouvia? Se não, por que assim soava, tom sem nuance ou alteração alguma? Izaya devia estar brincando com ele, concluiu. E, assim concluindo, o natural seria responder como sempre fazia: o peito inflado de orgulho cedendo à raiva e à fúria. Naquele momento, contudo, tudo o que podia sentir preencher seus pulmões era misto entre confusão e culpa, ambas geladas o suficiente para não deixarem queimar seu sangue.

— Certo... – a voz séria tornou a insinuar-se – Vou perguntar de novo: vai ficar ai encarando minha bela bunda branca de pomada analgésica ou vai deitar aqui para que eu possa te culpar por ser o maior destruidor de momentos letárgicos pós-gozo do mundo? – os fios negros mexiam-se de um lado ao outro enquanto a voz lentamente transformava-se em paciente, como de quem explica algo a uma criança – Se não vier, terei que me levantar e, oh, Shizu-chan, você não sabe o estrago que um homem privado de seu entorpecimento pós-sexo E besuntado em pomada fedorenta pode fazer quando bravo. Não é nada bonito, te asseguro.

“Ele está bravo!”, pensou, os lábios franzidos em estranheza. Não lembrava-se de já algum dia tê-lo visto assim. Izaya sempre mantinha, afinal, sorriso no rosto, fosse o malicioso das perseguições de dez anos ou o relaxado das semanas em seu apartamento. O mais próximo de fúria que já arrancara dele fora aborrecimento: o sorriso a murchar e os olhos a comprimirem-se, a voz um pouco mais grave. Nunca completa, entretanto, a ira. Naquele momento, contudo, não apenas via-o furioso, como ouvia-o declarar-se assim por si mesmo, a voz límpida e calma.

Por outro lado, o que o Izaya de voz séria e ameaça calma pedia-lhe era para que se deitasse ao seu lado e, isso, em absoluto, não lhe soava compreensível.

— Quer que eu deite? – perguntou, sentindo-se um pouco bobo pelo vacilo em sua voz.

— Sim, gênio. Quero que deite. Bem aqui, olha.

Dois tapinhas ligeiros foram entregues ao travesseiro do lado direito da cama, tão próximos ao rapaz deitado que alguns de seus fios remexeram-se com o movimento. Dedicou um último olhar à pomada que lentamente era absorvida pela pele e fechou firme os olhos antes de deitar-se, arrastando com cuidado o cobertor para cima do informante. Remexeu-se desconfortável ao sentir às suas costas algo sólido, tão diferente do esperado macio colchão, não teve sequer chances de mover-se e arrancar dali o que quer que fosse, entretanto, não quando, mal deitara-se, Izaya jogara-se sobre seu peito.

Não fora o peso – consideravelmente inferior ao seu – o que arrancara de seus pulmões todo o ar que mantivera ao reunir coragem para deitar-se, tampouco a surpresa por ter Izaya a saltar contra si – considerara, afinal, a hipótese de ser atacado por ele –, o ar a escapar de seus pulmões como se puxado à força fora imediata reação à fileira de dentes a enterrar-se com firmeza em seu pescoço, ao par de mãos a jogarem seus braços para cima de sua cabeça e ao par de pernas a enroscarem-se com determinação nas suas. O suposto ataque, contudo, durou pouco mais que um instante. Os dentes, então, retraíram-se em um beijo, as mãos soltaram as suas e rumaram para seus fios descoloridos e as pernas relaxaram e encaixaram-se com calma. Mesmo que solto, entretanto, Shizuo manteve as mãos caídas próximas à cabeceira do móvel e as pernas inertes, movendo apenas o pescoço, inclinando-o suavemente, involuntária permissão para que Izaya tivesse maior acesso a ele.

Um gemido baixinho, quase um ronronar, raspou de leve sua garganta quando, em um sonoro estalar de lábios, o informante passou a sugar com força a pele sensível que há pouco mordera. Ora mordida, ora lambida, ora pequenos beijos em estalidos. Repetidos até que o homem mais forte de Ikebukuro visse-se rendido a direcionar ambas as mãos à cintura fina, prendendo-as ali com força, esquecido já de todas as preocupações que antes preenchiam-no, submerso agora nos movimentos dos lábios do rapaz sobre si.

— Dói, Shizu-chan? – a voz rouca soou como sussurro, colada à sua orelha – Hum? Dói? – acenou em negativo, incapaz de articular resposta – Nem um pouquinho? – negou outra vez, ainda em silêncio, ganhando como se por recompensa uma pequena mordidinha no lóbulo da orelha – Eu fiz mais forte do que você fez, sabia? – a voz, ainda que permanecesse baixa, já não era mais sussurro preguiçoso, mais firme, mais obstinada – Você nunca ficava em um lugar só. E usava sempre mais os lábios que os dentes. Assim...

Um risinho baixinho bateu contra seu rosto enquanto os dedos de Izaya afundavam-se em seus cabelos e forçavam sua cabeça para o lado contrário, expondo a lateral oposta de seu pescoço, ainda não marcada. O beijo que recebeu ali foi leve, molhado, a mordida que seguiu-se a ele consideravelmente mais suave que a anterior.

— Não doeu, doeu?

Os olhos castanho-avermelhados, agora fixos nos seus, fitava-os diretamente, sondando-os. Poderia acenar sua resposta, dizer que não, que não doera; não havia, entretanto, razão para isso. Izaya sabia, como sempre parecia saber das coisas antes mesmo que as dissesse.

Suas mãos recuaram até o quadril estreito conforme o informante afastava-se sutilmente de seu peito e apoiava-se nos cotovelos, impondo alguns centímetros de distância entre seus rostos e enquadrando a expressão neutra no seu campo de visão.

— Não doeu. – anunciou, a voz mais uma vez séria – Sei que pensa que sim. Mas não. Ardeu um pouco, para ser sincero, no começo, quando você entrou. Meio agudo e desconfortável, mas não doloroso, exatamente. E agora está tudo um pouco estranho, quando me movo principalmente, mas acho que isso é porque você gozou dentro. Era estranho, também, quando desencaixava e você colocava de novo. Aflição, um pouco. Mas depois ficava tudo bem. – Shizuo tinha absolutamente certeza de que estava corado e ainda mais certeza de que não gostaria de estar, não diante daqueles olhos tão sérios e voz tão sóbria, não podia, entretanto, deixar de olhá-lo – Você tinha meu pau na mão quase o tempo todo, Shizu-chan, isso ajudou bastante a esquecer a sensação estranha. Você tem bons pulsos, tenho que dizer, o que me faz pensar que foi um adolescente bastante ocupado. E meu pescoço é bastante sensível, minhas costas também... foi uma boa escolha fazer de lado... E... – a voz séria subiu um tom, tornando-se quase divertida – e... eu sei que escolheu de propósito. Você resmungava algumas coisas enquanto fazíamos. Agora eu sei, por exemplo, que você precisava se mover em direção à minha virilha para acertar minha próstata. Bastante educativo, Shizu-chan, obrigado pela informação. Terei isso em mente da próxima vez que você desaparecer durante duas semanas e eu tiver que me virar com minhas duas mãos. Quantos centímetros são mesmo, a propósito?

Fitou-o sério, as sobrancelhas franzidas mesmo que no fundo soubesse espelhar nos lábios o sorriso discreto que Izaya mantinha nos dele.

— Tá falando sério?

— Sim, mas não por agora. Por agora você pode só me olhar um pouquinho mais com essas bochechas coradas porque preciso dessa imagem mental para me divertir mais tarde e depois me beijar como deveria ter feito desde o início. Durante esse meio tempo, vou pensar um pouco mais se devo descrever com mais detalhes a sensação de ter seu pau em mim só para te deixar constrangido, ou se vou te morder um pouco mais para completar minha vingança contra toda essa pomada analgésica enfiada na minha bunda. Mas, sério, Shizu-chan, não vai parecer nem um pouco uma vingança se começar a inclinar o pescoço enquanto te ameaço.

Izaya ria, mais uma vez inclinando-se em sua direção e cravando os dentes em seu pescoço e Shizuo, quase – quase – ria junto a ele ao notar que, diferente do que anunciara, o informante parecia ter concluído que não havia motivos para limitar-se a apenas uma forma de provocação, dedicando-se, portanto, a simultaneamente mordê-lo e sussurrar detalhes sobre como sentira-se desde o instante no qual excitara-se até o instante no qual gozara.

E, ainda que sentisse que devia retrucar e acusar o informante de ser o homem mais odioso e irritante do mundo, não podia evitar a sensação de que então, ao invés de balanço, Izaya fosse agora gangorra que o mantinha constantemente do lado de cima. Os pés a balançarem suspensos e um meio sorriso afetado no rosto. Não era, verdadeiramente, sensação à qual estivesse acostumado, assim como nada ali, até aquele momento, fora. Sua resposta, portanto, como sempre era em situações estrangeiras, foi apenas o silêncio, reprimindo dentro do pulmão mesmo o sorrisinho que impunha-se prestes a escapar.

— Como era antes?

Não o quebraria por ele mesmo, mas não se importou quando Izaya o fez. Diferente dele, o informante parecia ter problemas com seu silêncio e ausência de respostas. Era novo também a ele, aquilo. Tantas e tantas palavras trocadas sobre o lençol bagunçado. E, exatamente por entender o quão novo era tudo aquilo, não demorou sequer segundo para entender o que perguntava o informante.

Apegando-se ao silêncio tão caro a si, limitou-se a correr com um pouco de pressa as mãos pelas costas nuas ainda cobertas de pomada. Não sabia que tipo de resposta entregava com o gesto, mas, certamente, a última coisa que desejava era que o rapaz insistisse na pergunta, como, de fato, fez, esfregando o nariz de leve em sua pele:

— Não era assim?

Acenou, resignado. Mantendo o silêncio na esperança de que Izaya passasse a desejá-lo também.

— Por isso o analgésico?

Não respondeu, desta vez, sequer aceno. Diferente de antes, não julgava que Izaya já conhecesse sua resposta. Agora, não a dizia porque não queria fazê-lo. Não quando ainda tinha no estômago a memória da aflição da queda e no nariz o forte cheiro químico e úmido da pomada.

Deslizou as mãos mais uma vez pelas costas do rapaz em seu colo, espalhando os resquícios do remédio pela pele macia, os dedos quando em quando esbarrando em alguma cicatriz que sabia, ainda que quisesse evitar o pensamento, possivelmente ter sido ele mesmo o causador. Talvez, no fim, as marcas recentes não fossem as únicas que deviam pesar em seu peito. Afundou com rapidez o nariz nos cabelos negros compridos demais, inspirando fundo o cheiro doce neles na tentativa de evitar que seu pensamento corresse para caminhos nos quais poderia voltar a perder-se.

— Hum... entendi. – a voz alongou-se em um suspiro de compreensão, Shizuo, entretanto, não teve tempo o suficiente para pensar sobre o que havia compreendido o outro. Duas mãos espalmaram-se em seu peito e, mais uma vez olhando-o de cima, Izaya continuou, os olhos brilhando em diversão: – Pegue um cigarro, Shizu-chan!

— O quê?

— Um cigarro! Eu sei que vou me arrepender disso, mas, sério, pegue um! Tá onde? No seu bolso? Cadê sua calça?

— Oe, pulga, espera. Que caramba!... Eu pego.

Não entendia em absoluto o que Izaya planejava sugerindo que buscasse um cigarro, não podia, entretanto, fazer nada que não acatar a sugestão, não quando o informante parecia tão decidido a encontrar sua calça mesmo que os movimentos para busca torcessem seu rosto em caretas.

Encontrou a roupa exatamente onde a havia jogado ao pescar de um dos bolsos o pacote pardo, amassada ao pé da cama.

— O isqueiro também e, ah, droga, não tenho um cinzeiro aqui. Sinto muito, Shizu-chan, a representação vai ser bem breve. – enrolado no cobertor, sentado sobre os joelhos, Izaya parecia divertir-se bastante observando-o – A propósito, tenho duas coisas a te dizer. Primeiro: estou neste exato momento sentindo seu gozo escorrer para fora de mim e isso é tão estranho e desconfortável que eu preciso te dizer para que eu não seja o único afetado e para que fique constrangido o suficiente ao ponto de nunca mais esquecer a camisinha. Segundo: o que mais tem nesse pacote aqui?

O informante desenrolou-se do cobertor apenas o suficiente para indicar com a pontinha do dedo o papel pardo sobre o colchão, exatamente onde Shizuo deitava-se instantes antes. Um careta de insatisfação moldou-se no rosto do homem mais forte de Ikebukuro ao fita-lo.

— Isso é seu.

— Diz que é outra pomada e é na sua bunda que ela vai parar dessa vez.

— Não é, idiota. Não é pomada.

— Não? O que é, então?

— Olha!

— Ah, Shizu-chan... Assim não tem graça. Me conta...

— Abre logo, pulga.

— Sem graça. Vou lembrar disso na próxima vez que vier cheio desses dedinhos sujos de pomada para cima de mim.

Torceu o cenho para ele, irritado. Izaya, contudo, já voltara toda a atenção para o pacote pequeno, abrindo-o com latente curiosidade.

— Um chocolate?

— De chá.

— Oh, sim! Um chocolate de chá verde, agora sim está claro! – exclamou, sorrindo enquanto girava o pequeno embrulho entre os dedos – Vai me explicar agora ou terei que decifrar seus monossílabos?

— Meu pai...

— Seu pai me deu um chocolate? Que amável da parte dele.

— Cala a boca, pulga. Quer que eu diga ou não, inferno? – rosnou, raivoso. A diversão clara estampada no rosto de Izaya fazia-o arrepender-se de todas as razões pelas quais havia comprado aquilo – Esquece. Só come, ok? É um chocolate. De chá.

— Que é um chocolate de chá eu entendi, Shizu-chan. O que não entendi é por que você o trouxe, por que está enrolando pra dizer e por que citou seu pai na conversa.

— Meu pai... merda... meu pai sempre comprava pra minha mãe.

— E...?

— E Kasuka sempre compra para a Ruri-chan...

— Ok... e?

— E Celty disse que eu devia comprar...

— Pra...?

— Eles sempre compram algo quando pedem desculpas... Mas eu não ia comprar flores para você, pulga, seu maldito! Então come a merda do chocolate e cala a merda da boca!

O riso começou baixinho, os ombros tremendo de leve por debaixo do cobertor grosso, como se Izaya lutasse para mantê-lo só para si. Aumentou, entretanto, gradualmente enquanto os olhos castanho-avermelhados fitavam com atenção a embalagem e os dedos cobertos de cicatrizes desembrulhavam-na. A primeira mordida, bem pequena, foi feita a riso solto. Shizuo sentia-se irritado, sempre sentia-se quando Izaya ria dele, sentia-se também, contudo, bastante aliviado, como se, finalmente, as desculpas estivessem completas.

— Shizu-chan, você é incrível! – afirmou entre uma mordida e outra – Incrível, de verdade. Não incrível do tipo: ‘uau, você é demais’. Mais como: ‘eu não consigo acreditar’. Você me trouxe um chocolate, que, acredito eu, é de chá-verde exatamente porque você sabe que não gosto de doces. Chocolate de chá-verde que, a julgar pelo lugar de onde o tirei, você comprou em uma farmácia junto com uma pomada analgésica que pretendia usar em mim depois de uma rodada de sexo selvagem... Uau, Shizu-chan, você é incrível de jeitos que nem sei explicar.

— Não brinca comigo, Izaya, seu merd-

— Não estou brincando, Shizu-chan! É sério. Você é incrível. Agora vem cá que quero te beijar com gosto do meu ‘chocolate-chá-verde-das-desculpas-barra-presente-pós-foda’. Você, afinal, gosta mais de doces do que eu, não é?

O chocolate era horrível. Amargo. Era um crime, Shizuo acreditava, nomear algo como aquilo como “chocolate”. Nunca o compraria para si próprio e, se pudesse, evitaria ao máximo experimentá-lo de novo. O gosto, contudo, não evitou que prolongasse o beijo para além do breve selar de lábios que, acreditava ele, Izaya pretendia ao estender para ele os braços. Assim como não impediu que roçasse com digna empolgação a língua na do informante e sugasse entre seus lábios os lábios dele, mordiscando-os como se para devorá-los.

— Parece que alguém aqui gostou do chocolate.

Riu baixinho entredentes, certo de que, se retrucasse expondo sua verdadeira opinião sobre o sabor do doce teria que aguentar nova indesejada sessão de risos do rapaz agora novamente aconchegado entre seus braços.

— Hum... eu gosto disso, sempre tão quentinho, Shizu-chan... – resmungou, os dedos acarinhando os fios em sua nuca – Mas... se afasta um pouquinho, deita ali, você ainda tem um cigarro para fumar.

— O quê, pulga? Não quero fumar agora.

— Não é questão de querer. Você precisa. E que diabos de fumante você é que não quer fumar? As grandes produtoras de câncer ficariam decepcionadas com você agora, Shizu-chan.

— Não fumo porque quero.

— Ah, não?

— Não.

Encarou-o irritado, certo de que ouviria dele nova pergunta ou provocação, os olhos castanho-avermelhados, entretanto, limitaram-se a olhá-lo de volta, curiosos.

— Tudo bem... você também não tem pelos no peito. – não fora uma provocação. Ou, ao menos, não parecera uma. Shizuo, entretanto, não conseguia determinar o que, exatamente, fora aquilo. Piscou uma, duas, três vezes à espera de um complemento para a afirmação, algo que desse a ela sentido, Izaya, contudo, permaneceu em silêncio, ainda em seu colo, alisando seu peito como se para confirmar o que declarara. – E, de toda forma, o momento já passou. – anunciou, por fim, como se desse por encerrado o assunto, deslizando os dedos de seu peito até sua nuca e cruzando-os ali, relaxadamente.

— Pulga, – chamou, ouvindo um pequeno resmungo em resposta – o que foi isso?

— Isso o que?

— O que disse... o que diabos foi isso tudo?

— Ah. Bom... eu queria te dar um clichê. Você disse, não disse? Que nunca foi assim antes... e estava com cara de quem estava chateado por conta disso... Nada melhor do que um clichê, então.

— Com-?

— Você fuma um cigarro enquanto me aninho no seu peito, fazendo caracóis em seus pelos. Os dois imersos no silêncio letárgico do pós-gozo. Trocando carícias quando em quando. Nunca viu isso em filmes, Shizu-chan?

Os olhos castanhos-avelã abriram-se surpresos conforme uma contínua série de cenas de filmes estrangeiros pululava em sua memória. A situação era sempre a mesma, exatamente como descrita por Izaya: dois amantes deixam-se ficar juntos depois do sexo, o silêncio preenchido apenas pelas respirações a regularizarem-se, a lenta passagem do tempo contada pela progressão da queima do cigarro nos lábios frouxos de um deles. A percepção de que era isso que Izaya queria reproduzir ao mandá-lo buscar seu maço de cigarros e isqueiro fez soar, finalmente, o riso que mantinha preso até então. Alto o suficiente para pregar em seu rosto um par de orbes avermelhadas confusas.

Era adorável. De forma estranha e perturbadora, mas, ainda assim, adorável o bastante para fazê-lo enlaçar firme o rapaz em seu colo sem sequer preocupar-se se era aquele o mesmo rapaz que normalmente arrancava dele adjetivos tão opostos ao que pensava no momento. Não que, de alguma maneira, lhe parecessem opostas as facetas de Izaya. Elas pareciam coexistir dentro do homem que o mandava fumar, debochava de seu vício e insultava a ausência de pelos em seu peito apenas para poder criar para eles uma cena clichê de filmes românticos. Encaixadas uma na outra como imãs de polos opostos.

— Você é incrível, pulga. – sentenciou com um estalo de língua, arrancando do rapaz sobre suas coxas um arquear suave de sobrancelhas.

— Do jeito ‘você é demais’ ou do jeito ‘não consigo acreditar em você’? – perguntou, estreitando os olhos em falso drama.

— Do jeito ‘cala a boca e não me enche’.

— Você não entende muito de semântica, não é, Shiz-?

Os lábios de Izaya receberam os seus com tanta naturalidade que Shizuo não pode evitar pensar que o rapaz esperava ser interrompido. Úmidos, ainda um tanto preguiçosos, o suficiente para que o homem mais forte de Ikebukuro desejasse tê-los beijado muito antes. Imediatamente após terem tombados juntos, ainda arfantes, lado a lado. Assim sentindo-os quando mal podiam mover-se direto, quentes e vagarosos. E, por mais que tentasse se convencer que os queria assim exatamente por serem o oposto da forma natural de Orihara Izaya, – atrevidos, afiados, gélidos, excessivamente ativos – queria-os assim apenas porque teria sido ele o responsável por deixá-los assim.

Por não ser aquele um daqueles momentos, não se surpreendeu quando a moleza deixou-os. O orgasmo, afinal, já se distanciara deles o bastante para que dele sentissem falta. E, por mais que dissesse a si mesmo que tudo o que queria, naquele momento, do rapaz em suas coxas eram beijos preguiçosos e o calor inofensivo de sua pele nua, sequer pensou em evitar o avanço do beijo a tornar-se afoito. Porque, indubitavelmente, não podia negar gostar da forma como Izaya parecia sempre tão decidido quando roçava a língua na sua, metia os dedos em seus cabelos e rebolava o quadril em seu colo. A forma como parecia desejá-lo, de verdade, mesmo quando o cheiro de pomada analgésica ainda espalhava-se forte por sua pele.

E, ainda que não fosse admitir gostar assim de tantas coisa nele, gostava também da forma como o rapaz ondulando sobre sua virilha parecia debochar de toda a estranheza que alojava-se em seu peito ao perceber-se querido, encaixando os lábios tão naturalmente nos seus como se sorrisse triunfante de todas as inseguranças por trás do cheiro de remédio. Gostava disso. Gostava também de como eram atrevidas as mãos que escorregavam por seu peito para colar bem juntas as duas ereções. Gostava tanto que quase não se importava por ser aquele o mesmo atrevimento que envenenara a língua do informante a xingá-lo e provocá-lo durante anos. E, exatamente por gostar tanto, demorou a perceber o ritmo quebrado por um som que também demorou a perceber. Um toque contínuo, ainda que baixo e discreto.

Os olhos castanhos-mel correram uma única vez pelo quarto antes de pousarem na expressão confusa de Izaya, a mesma que também devia trazer seu rosto. Assistindo as pupilas largas recuarem um pouco pela surpresa e as sobrancelhas negras e finas curvarem-se em dúvida. Continuou com os olhos fixos em Izaya mesmo quando tornou-se claro que o informante sabia tanto sobre o som ainda a soar quanto ele mesmo, desviando-os apenas quando a confusão de Izaya transformou-se em risonha indignação e na réplica “o que foi? Não me olha assim. Isso não está vindo de mim!”. Só então, como reflexo bobo, apressou os olhos até sua calça caída no chão, mesmo que soubesse não ser aquele o toque de seu celular.

— Ah! É meu!

Piscou confuso, os olhos mais uma vez fixos no rosto calmo do rapaz que agora saía de seu colo para acomodar-se no vão entre suas pernas. Por um momento, pensou ter ouvido errado, a forma, contudo, como os olhos castanho-avermelhados fixavam-se em algum ponto às suas costas e os lábios quase vermelhos crispavam-se em desagrado o fez compreender que não havia engano algum. Izaya, sem dúvidas, reivindicara o som – agora reconhecido toque de celular – a soar.

— Pelo momento extremamente oportuno dessa chamada, não tenho nem dúvida de quem seja. – o tom era divertido, ainda que um pouco irritado. Shizuo fixou-se apenas nele, incapaz de extrair significado das palavras ouvidas – Ele ficará ligando até que eu atenda. E depois serão as mensagens da Celty... Eu sei que ele só faz isso por conta dela e ela só faz isso porque se preocupa... mas não é exatamente divertido. Você entende, né, Shizu-chan?

O chamado de seu nome, um tom mais alto do que o restante das palavras, despertou-o do transe que sequer percebera tê-lo pego. Não respondeu, contudo, menos por não saber o que era perguntado do que pela intensa sensação de estranheza. Fixou atenção nos lábios de Izaya mesmo que eles não mais se movessem, buscando neles justificativa para o crescente desconforto no fim de seu estômago. A razão dele, entretanto, só o alcançou, correndo sua espinha como choque elétrico, quando o som que há pouco calara voltou a soar. Os olhos avelã então desviaram-se rapidamente para o criado mudo do lado direito da cama e prenderam-se semicerrados no pequeno aparelho preto a revolver-se em vibrações.

— Você pode pegar ele para mim, Shizu-chan? Está mais perto e seu braço é maior. Vou ter que atender. E... bem... pela careta que está fazendo agora, acho que nosso clima já acabou mesmo, não é?

O impulso até o móvel foi estimulado muito mais por desconfiança do que por solicitude. Mesmo impulso que o fez apertar firme o aparelho entre os dedos e checar o visor antes de entregá-lo a Izaya, demorando-se mais do que o necessário nos caracteres de Kishitani Shinra do que o preciso para lê-los.

— Sim. – a voz de Izaya alongou-se para o outro lado da linha, mas, ainda que apurasse os ouvidos e franzisse o cenho, Shizuo não pode ouvir a resposta recebida – Tudo mais do que bem. – o sorriso era visível por trás da resposta do informante, moldando-o os lábios e ascendendo também aos olhos, perdidos em algum ponto entre o ombro esquerdo de Shizuo e a parede creme – Ah, sim! Delicioso, de verdade. Me surpreendi porque esperava algo menos suave, sabe? Mas muito bom, muito bom mesmo. Estou nesse exato momento considerando ter um pouquinho mais daqui a pouco. Agradeça a Celty por mim, ok? Depois digo a ela pessoalmente. – os olhos castanho-avermelhados fixaram-se intensos em seu rosto antes de entregarem-lhe uma piscadela. Apertou o cenho mais firme, deixando nascer entre suas sobrancelhas uma ruga de inquietação – Shizu-chan? Veio sim. Está aqui. – a menção de seu nome o fez separar sonoramente os lábios antes franzidos em um bico, um estalo de língua a escapar por entre eles. O silêncio, então, do rapaz a sua frente, apenas a ouvir o outro lado, fez aumentar exponencialmente sua irritação – Sim. Sabia. Dotachin... hnhum, Kadota me disse. Quer falar com ele? – Izaya olhou-o divertido antes de escorregar uma das mãos até o microfone do celular – Shinra quer falar com você, quer falar com ele?

Não moveu-se. Não respondeu. Sequer aceno, sequer novo estalo de lábios, sequer aumento da ruga em seu cenho. Permaneceu a fitar o rapaz sentando entre suas pernas até que ele resmungasse alguma coisa qualquer para o outro lado da linha e baixasse o celular, pousando-o sobre o colchão, entre eles.

O silêncio só não o incomodava mais do que a ausência do sorriso no rosto de Izaya. Por mais que fosse aquela uma hipótese detestável, acreditou sinceramente que o informante riria e desataria a vomitar explicações aos montes, sobre o celular negro no colchão, sobre a nome de Kishitani Shinra nos contatos, sobre tudo o que fizera durante as duas semanas que passara naquele apartamento enorme, sobre seu comportamento de antes, sobre suas memórias, sobre qualquer coisa. Izaya, entretanto, permanecia em silêncio como se para provocá-lo por antes pensar que preferia-o calado, fitando-o com calma que era incapaz de espelhar. Odiosamente esperando por suas perguntas.

— Celty me mandou uns pãezinhos recheados de feijão doce, quer alguns? Estão muito bons... Ela ficou realmente boa nisso, você tinha que ver a fornada anterior... – os olhos castanho-avermelhados fitavam-no diretamente, novamente sérios. Trincou os dentes para eles, involuntariamente, trancando dentro da boca a vontade de interrompê-lo e rosnar que não tinha interesse em doce algum – Tenho leite, também, se quiser. Foi Dotachin quem trouxe.

— Kad-?

— Eles trouxeram um monte de coisas, esses dois, mesmo depois de eu dizer que não precisava. Celty, principalmente. Ela até mesmo veio aqui cozinhar, sabia?! Shinra ficou possesso de ciúmes e ficou dias me enviando ‘sem querer’ mensagens extremamente melosas direcionadas à ela. Como se enviasse errado, sabe? Dotachin era mais discreto. ‘Izaya, eu comprei demais e não quero ter que jogar fora’, ‘Estava passando por aqui e não quero comer sozinho’ ou algo assim. Ele esteve aqui na sexta, por sinal... Disse que você provavelmente viria para cá no fim de semana. Quando eu perguntei como ele sabia, ele corou feito um tomate e disse que só sabia e ponto. Então... sim... quando a campainha tocou, eu sabia que era você.

Um sorrisinho meio malicioso abriu-se nos lábios avermelhados do informante, ainda que as orbes rubras permanecessem graves. Um sorrisinho como o de quem se lembra de algo engraçado.

— Mas demorei porque estava no banho, naturalmente. – declarou, o sorriso alargando-se até revelar os dentes antes de fechar-se novamente, espelhando, então, a sobriedade dos olhos – Foram duas semanas, Shizu-chan.

Silêncio, mais uma vez.

Queria culpar Izaya por ele. Queria que dissesse de vez tudo o que tinha a dizer, que entregasse as respostas antes mesmo de feitas as perguntas, como sempre, de alguma forma, fazia. O rapaz, entretanto, parecia inflexível em seu silêncio, encarando-o até que sentisse-se pressionado o suficiente para quebrá-lo.

— Eu sei. – foi tudo o que pode dizer. Seria rude se dissesse mais, se já não o havia sido dizendo aquilo. Não sabia, afinal, lidar com Izaya sem sê-lo, ainda que quem agora o encarasse de volta fosse novamente aquele Izaya de riso solto e olhos brilhantes.

— Shizu-chan aparentemente não fará perguntas... não é?! Mas, o que posso fazer? Você fica tão bonito assim com esse rosto contrariado que, no fim, eu vou acabar falando de toda forma... Injusto, Shizu-chan... Só porque esse cabelo bagunçado te cai bem... A história é longa, tem certeza que não quer um copo de leite?

Acenou negativamente mesmo sabendo que aquela era uma provocação e teve certeza de que Izaya ria dele, ainda que o informante tenha baixado o rosto para o celular sobre o colchão ao fazê-lo. Não perdeu tempo, contudo, considerando se havia ou não provocação na oferta ou nos elogios recebidos, não havia tempo para isso quando o celular entre eles era afastado para o lado e o espaço ocupado por ele preenchido pelo informante.

Não afastou-se quando ambos os braços de Izaya envolveram-no pelo pescoço, tampouco tentou evitar que seus próprios braços envolvessem-no mais uma vez pela cintura. E, quando, por fim, ao afastar-se mais uma vez, o rapaz entrelaçou juntos seus dedos, o homem mais forte de Ikebukuro não moveu-se sequer milímetro para evitar que a conversa acontecesse com eles daquela forma, mãos dadas e pernas entrelaçadas.

— Dois dias depois de eu ter chegado aqui a Namie apareceu. Eu já tinha falado dela, não tinha? Já tínhamos nos encontrado antes, das outras vezes que vim até aqui. Daquela vez antes de você me convidar para ficar e quando vim buscar roupas. Supostamente minha secretária, o que é uma coisa bastante engraçada de pensar... Enfim, ela não vem sempre, me disse, mas vem de vez em quando para, segundo ela, ‘justificar o salário’. Com isso eu descobri que tinha colocado boa parte das minhas transações fixas no banco como automáticas... Namie me disse... O salário dela, o aluguel e contas da casa. Então, por mais que eu não tenha acesso a esse dinheiro, e não saiba nem qual é o banco ou quanto ainda tenho em conta, está sendo pago. – Shizuo podia sentir quase um tom de orgulho na voz de Izaya, além do usual divertimento – Mas, enfim... nem tudo... Eu levei uma bronca imensa dela, achei que ia me matar... Aparentemente, o número dela é meu contato para emergências, então, quando arrombamos aqui para entrar, lembra? Daquela vez? Então, quando destruímos a porta e eles não conseguiram entrar em contato comigo, fizeram o reparo e entraram em contato com ela e... bem... ela não conseguiu fazer com que isso fosse acrescido às minhas contas fixas e debitado de lá e... bom... ela pagou. Daí, quando ela me viu, não estava exatamente feliz. – o rosto sorridente franziu-se em uma careta desconfortável e Shizuo, involuntariamente, pegou-se acarinhando com o polegar os dedos ainda presos aos seus – De toda forma, agora tenho uma caderneta de dívidas, com direito a correção de juros, com a Namie. Por fim, ela concordou em me ajudar enquanto eu estiver... assim. Com isso, ela está fazendo compras pra mim... passa aqui umas duas vezes por semana. Bom...enfim, eu estou comendo, Shizu-chan, se isso te preocupa. Sou bom cozinhando, você sabe. E Namie parece estar se divertindo bastante me trazendo ingredientes aleatórios e caros para me mostrar o quanto minhas dívidas com ela engordam a uma velocidade considerável.

— Mas você emagreceu! – declarou, lembrando-se do peso que sentira ao segurá-lo para trazê-lo ao quarto.

— Disse que é a conta engordando, Shizu-chan, não eu. Mas... Sim. Eu sei. Shinra disse isso também. Por isso Celty fez os pãezinhos e, suspeito, por isso Dotachin sempre vem para cá nos horários de refeição. Não tenho uma explicação pra isso, se quer saber. Só... não tenho dormido muito bem... Talvez pelo frio, talvez porque não tenho nenhum Shizu-chan para meter o braço na minha cara durante a madrugada. Difícil saber.

O riso a escapar de seus lábios foi suprimido por um estalo de língua, não tomou, entretanto, verdadeiramente, o que ouviu como uma provocação, e Izaya provavelmente sabia disso tão bem quanto ele mesmo, visto que limitou-se apenas a sorrir para sua carranca e remexer os dedos entre os seus.

— Enfim, mesmo que eu tenha dito a eles que não era um problema, eles continuam a trazer coisas...

— Eles são...

— É, eu sei... são legais. Você tem sorte.

Torceu o cenho para ele, apertando-o levemente os polegares.

— Você também.

— Eu também. – um sorrisinho discreto ocupou por alguns instantes os lábios de Izaya enquanto apertava os polegares do guarda-costas de volta – Mal fiquei sozinho. Principalmente depois que arranjei isso – com os dedos ainda presos entre os seus, o informante apontou com o queixo o celular negro sobre o lençol.

— Namie?

— Não, não. Por favor, não. – acenou, divertido – Isso não foi obra dela, eu não teria mais um rim se fosse. Eu tive bastante tempo livre... Bastante... Então me dediquei a fuçar cada mínimo canto do apartamento. Encontrei ele ainda lacrado em uma gaveta da cozinha. Não faço a mínima ideia do porque teria um celular novinho em um gaveta na cozinha... mas, enfim, ele estava lá. Comprar um chip novo, sim, foi obra dela... e, acho, passar o número para o Shinra, também. A não ser que entre os poderes de Celty esteja identificar novos números de celular e mandar mensagens para eles... Não, né?

Sorriu baixinho pela pergunta que, apesar de absurda, parecia esperar por confirmação.

— Não... não é.

— E então Shinra passou para o Dotachin e... me passou seu número também. Está salvo na minha agenda, no meio dos meus incríveis sete contatos.

Contou mentalmente antes de franzir o cenho em dúvida.

— Sete?

— Você, – começou, soltando os dedos dos seus para enumerar – Celty, Shinra, Dotachin, Namie, Mairu e Kururi.

— Suas ir-

— Sim, elas me ligaram uma vez. Liguei para elas outra. Não vieram aqui, ainda. Supostamente viriam este final de semana, mas tive certeza que seriam planos adiados quando vi na TV que seu irmão gravaria um Ikebukuro.

— Kasuka?

— Hnhum. Um especial de natal na árvore grandona de um shopping novo. Não sabia?

Acenou negativamente. Lembrou-se de que recebera dele uma chamada na sexta à tarde, ainda durante o expediente. Provavelmente queria lhe dizer que estaria no distrito, propor um almoço, talvez. Uma careta invadiu seu rosto. Estivera tão sobrecarregado com o plano de desculpas que sequer retornara a ligação do irmão mais novo. Teria que desculpar-se com ele depois.

Um aperto um pouco mais forte em seus dedos, contudo, o arrancou dos pensamentos culpados sobre o Heiwajima mais novo. Os olhos castanho-avermelhados piscavam longos, distraídos a observar seus polegares esbranquiçarem-se e avermelharem-se conforme pressionava-os. O impulso de arrancar de dentre os dedos de Izaya sua mão e rosnar a ele alguma reclamação, contudo, ficou preso em sua garganta, algo na forma como o informante baixava a cabeça e encolhia os ombros a impedi-lo de irritar-se.

— Enfim, isso significa que agora posso te ligar sempre que quiser... se não se importar...

— E por que diabos me ligaria, pulga? – retrucou, a voz menos ameaçadora do que planejava fazê-la, amenizada pelo bolo de desconforto a formar-se em seu pescoço.

— E te mandar mensagens... s-se você quiser...

— Hey, Iz-

— Prometo tentar não incomodar muito... E podemos jantar de vez em quando... E você pode dormir aqui hoje, está tarde, perigoso... Podemos tentar o cigarro e os caracóis no seu peito, mesmo sem os pelos, logo mais... Mas teremos que fazer um pouco diferente dessa vez, Shizu-chan, não sei se aguento mais uma vez... Colocar esses pulsos flexíveis pra trabalhar, talvez...

A última palavra, sussurrada baixinha ao pé de sua orelha esquerda enquanto Izaya mais uma vez sentava-se sobre suas coxas, teve efeito oposto ao que tivera mais cedo naquele dia. A voz suave como sopro, ao invés de colocá-lo em fogo, gelou cada mínima parte do corpo.

— Não, pulga... – negou, sem saber com certeza o que negava – Vamos pra casa. Pra Ikebukuro.

— Eu estou em casa, Shizu-chan. – respondeu, apenas um murmuro, afastando-se o suficiente para olhá-lo outra vez, sério, nos olhos – Já estou em casa.

Notas finais
Olá de novo, *.* Tudo certo até aqui? Espero que tenham gostado do capítulo!! Foi uma gestação difícil, a dele. Rs! Mas gostei do resultado final, então espero que também tenham curtido. Normalmente, quando me atraso, é sempre por falta de tempo para escrever. Desta vez, entretanto, não foi isso. Tive tempo. Tive tanto tempo que escrevi, no mínimo, uns quatro capítulos 26 diferentes. Minha pasta de "(in)esquecível" virou uma bagunça: "Capítulo 26 - sobre como...", "Capítulo 26 - sobre como essa é sua segunda tentativa", "Capítulo 26 - sobre como você não conseguia escrever o capítulo" e, o que acabei de postar, originalmente chamado de "Capítulo 26 - sobre como agora vai". Rs! Eu simplesmente não conseguia escrever. Sério. Mesmo depois de seguir meu ritual de "não consigo escrever". (sim, tenho um ritual). Passo um, escrever um pouco por dia, mesmo que no fim nada seja produtivo (e passei dias escrevendo vários nadas). Passo dois, recomeçar (fiz isso quatro vezes! rs!). Passo três, escrever histórias paralelas para distanciar-se ( escrevi 5 - cinco! - originais neste meio tempo). Enfim, o negócio ficou tão feio que uma amiga minha (mora comigo) ameaçou invadir meu notebook e postar o que eu tivesse só para que eu parasse de, nas palavras dela, "miar para o word". Meu nível de ódio, neste meio tempo, alcançou tais proporções que eu assim defini para esta amiga: "minha vontade é pegar cada uma das palavras que escrevi, salvar em um arquivo do word, uma por uma, e deletar cada um deles"... Maaaas, ufa! No fim, saiu! E, enfim, eu só queria dar uma explicação do porquê para vocês! Desculpa, gente! =S Até o próximo? beijo, beijo, =* Yuki