(in) esquecível
27 Sobre como você era o culpado
Notas iniciais
Sobre como você era o culpado
— Bom dia, Shiz-caramba, wow! O que é essa m-wow!
Os dreads balançavam-se de um lado a outro enquanto, com a expressão oscilando entre impressionada e sorridente, Tanaka Tom o cumprimentava naquela manhã de segunda-feira fria na pequena recepção do escritório para o qual trabalhavam.
Nevava do lado de fora, o bastante para que pequenos floquinhos de neve pontuassem os cabelos e casaco do recém-chegado e para que sua breve entrada espalhasse frio por todo o cômodo parcamente aquecido. O sorriso que, contudo, progressivamente iluminava o rosto de Tanaka Tom tanto remetia a verão que o homem mais forte de Ikebukuro não pode evitar fitá-lo confuso, pequena ruga a formar-se entre as sobrancelhas.
Não que fosse a ele estranho ser recebido por Tom com sorrisos. O amigo, desde os tempos do colégio, tinha o invejável dom de permanecer relaxado mesmo em manhãs de segundas-feiras e era sempre, inegavelmente, o responsável por trazer também a ele um pouco de calmaria mesmo quando diante de mais uma semana exaustiva de trabalho. Ainda que não sem feridas em seu orgulho – e mesmo ciente de que o sorriso morreria, sem exceções, no exato instante no qual alcançassem o primeiro devedor, então imediatamente substituído por intermináveis séries de suspiros cansados – Shizuo admitia contar com a leveza do amigo para controlar os constantes impulsos de transformar-se em caos.
O sorriso que, contudo, Tom o oferecia na pequena recepção do escritório daquela manhã gelada em nada parecia-lhe com o calmo, tranquilo e suave que normalmente dedicava-lhe o amigo. Aberto demais, malicioso demais, inflado por cumplicidade inesperada e, talvez, até mesmo um pouco jocoso: mesmo que desconsiderasse o cumprimento truncado e inteligível ao ponto de já tê-lo quase que por completo esquecido, o sorriso, ainda aceso e tão parecido com os responsáveis por tornar tão difícil a tarefa de manter sob controle sua raiva, botava-o a um triz de lançar-se porta afora e arremessar aos céus de Ikebukuro todos os que pareciam, naquela segunda-feira fria, querem-no louco.
Tudo começara no metro, algumas horas antes.
Inicialmente, pensara ser paranoia sua, daquelas de quem reconhece ter feito algo que não deveria e sente que todos ao redor farejam seu deslize. A sensação, entretanto, de que não era apenas impressão sua cresceu progressivamente conforme o trem cortava o caminho em direção a Ikebukuro e o vagão lotava-se de pares, dezenas, dúzias de olhos que fixavam-se com intensidade em seu rosto. Era acostumado a isso, verdadeiramente. Ainda que não desejasse a atenção, olhos temerosos, receosos, desconfiados estavam sempre a sondar e acompanhar seu passos. Os olhos, entretanto, que naquele começo de manhã no qual o sol ainda mal nascera observavam-no, em nada se pareciam com os que normalmente o faziam, fixando-se em seu rosto curiosos, envergonhados e, de forma que não conseguia entender, sutilmente maliciosos, como se cúmplices de algum segredo sujo – o exato olhar, admitia, que sentia por trás do sorriso aberto de Tom.
Queria fazê-lo aos berros, talvez girando entre os dedos uma das barras geladas de apoio que cortavam o vagão de piso a teto, mas não pode convencer-se a interpelar um dos que o fitavam. Não quando sentia-se tão absurdamente incomodado sentado no banco frio do trem vestindo as exatas mesmas roupas que usara no dia anterior e exalando a todos os que se dedicassem a uma inspiração mais profunda o cheiro de pulga de Orihara Izaya e não, principalmente, quando tinha absoluta certeza de que todos naquele trem sabiam que, ao invés de sentado no banco frio, desejava, naquele exato momento, estar debaixo das cobertas quentes de seu pior inimigo. Pior inimigo com quem, apesar dos resmungos e rosnados raivoso, aceitara dividir a cama na noite anterior, nudez contra nudez e que, poucos minutos antes do embarque, ao deixar o apartamento tão maior que o seu, considerara jogar sobre os ombros e arrastar para Ikebukuro apesar de todos os apesares que opunham-se e impunham-se à possibilidade.
Lutando contra a raiva a progressivamente instaurar-se em seus músculos, limitara-se a coçar os olhos e deslizar os cabelos entre os dedos. Sabia trazer sob os olhos prováveis bastante acentuadas olheiras. Izaya fizera um ótimo trabalho, afinal, pintando-as ali ao mantê-lo acordado por mais tempo do que normalmente mantinha-se em uma noite que precedia um dia de trabalho. Os cabelos, sabia também, não poderiam ser definidos como alinhados. Mesmo reconhecendo que precisavam ser limpos para que assumissem novamente o penteado usual e abandonassem a bagunça que haviam se tornado entre os dedos do informante, recusara-se a lavá-los durante a breve ducha tomada pela manhã. Ainda que assumisse, contudo, que aquela não era a melhor aparência para uma manhã de segunda-feira em um trem lotado, sabia não ser ela o suficiente para arrancar tanta atenção. Nem suas olheiras nem seus cabelos suspeitamente despenteados deveriam roubar tantos olhares em um trem tão cheio deles.
Não havia nada de estranho também, com suas roupas. As calças que vestiam eram, inegavelmente, suas e estavam, sem sombra de dúvida, no lugar correto. A roupa íntima, apesar do desconforto que trazia-lhe por ser a mesma do dia anterior, também não apresentava qualquer problema. Normais estavam também a camisa e o casaco, apesar de sutilmente amassados. Os sapatos, as meias e a gravata, checados um por um com as pontas dos dedos, eram também os mesmos de sempre, perfeitamente normais. Normais o bastante para, absolutamente, não justificarem os olhares que recebia.
Incapaz de encontrar em si o erro, optara, por fim, por ignorar a todos, ainda que não fosse escolha fácil. Jogara sobre os olhos os óculos escuros para então fechá-los, recusando-se a abri-los até o momento no qual ambos os seus pés estivessem firmes na plataforma de sua estação, em Ikebukuro.
O caminho até seu apartamento, o banho rápido, a troca de roupas limpa, o café da manhã devorado em pé e a caminhada apressada até o trabalho arrastaram para longe o desconforto sentido dentro do trem. O homem mais forte de Ikebukuro tinha muito o que pensar sobre o dia anterior, somar a suas preocupações a possibilidade de que mais uma vez o distrito discutisse em fóruns anônimos a existência de um relacionamento entre ele e Izaya e que naquele exato momento já espalhassem-se pela internet fotos suas no metro de Shinjuku até Ikebukuro não era uma possibilidade.
O escritório, contudo, longe de terminar de afastar o desconforto ao enfiá-lo até o último fio de cabelo em rotas de cobrança e números exorbitantes em uma planilha preenchida do topo ao pé com nomes e endereços desconhecidos, parecia ter-se tornado uma versão mais perturbadora e opressiva do trem da hora anterior. Talvez por serem conhecidos, os olhares surpresos de seus colegas de trabalho e os não raros rubores em suas bochechas e sorrisinhos metiam-no ainda mais desconfortável do que já estava.
A chegada de Tom – no exato momento no qual começara a arrepender-se de ter se adiantado para o expediente enquanto checava, pela segunda vez e sem qualquer motivo válido, suas roupas agora diferentes – não o ajudara em nada. O olhar recebido, sorridente e malicioso, jogara para longe toda a esperança que tinha de que o amigo e empregador, assim como fazia desde os tempos de colégio, acalmasse-o.
Por fim, ao correr os dedos pelo maço de cigarros a fim de sacar de lá um e ignorar com tragos profundos o aviso de proibição colado à parede enquanto torcia os lábios em careta que já há tempos não moldava seu rosto, foi obrigado a reconhecer que a única coisa que atualmente o impedia de descontrolar-se e transformar em pequenos pontos flutuantes no céu de Ikebukuro todos os que encaravam-no com olhares indiscretos era a quase absoluta certeza do motivo por trás da atenção recebida e, ainda que involuntariamente, sentir-se culpado.
Aparentemente, afinal, por algum meio que ele não compreendia, Ikebukuro parecia agora saber que ele transara com Orihara Izaya. E isto, mais do que todas as preocupações que tinha em relação ao informante e que já há algumas horas evitava com relativo sucesso pensar, botava-lhe receoso até a última célula do corpo.
— Shizuo... é... vamos indo? Sei que está frio, mas o dia hoje vai ser longo. O trabalho sempre aumenta nessa época do ano, né?! Natal e tudo mais. Você sabe como é? Lembra do ano passado?
A voz baixa de Tom e o leve suspiro que seguiu-a quase devolveram a Shizuo o pouco bom humor que deveria sentir naquela manhã e, mesmo que desconfiasse que por trás dos olhos caídos em resignação a observarem a folha repleta de nomes e números havia ainda curiosidade e diversão, agarrou-se com todas as forças à promessa de normalidade e à gratidão pela ausência de perguntas indiscretas do amigo. Se o que levava os olhos de Tom até ele fosse a mesma razão que acreditava levar todos os outros, e o amigo estivesse, portanto, a ponto de perguntar-lhe sobre Izaya enquanto citava algum fato absurdo publicado naquela manhã em fóruns na internet, contaria – com prováveis cigarros atrás de cigarros nos lábios e o cenho franzido em inquietação –, sem dúvidas, tudo o que quisesse saber, confirmando o que tinha a ser confirmado e negando o que havia a ser negado. Exatamente por saber que contaria e, acima disso, exatamente por reconhecer que Tom sabia que contaria, era grato ao amigo por não pressioná-lo a fazê-lo.
Sem discussões, portanto, acerca de seu próprio final de semana, a manhã de Shizuo progrediu preenchida apenas por resmungos sobre a neve fina, gemidos frustrados a cada devedor que recusava-se a quitar a dívida, suspiros de alívio quando alguma quantia era paga e comentários sobre um filme bom que o amigo assistira no sábado. A calmaria e a descrição suave de Tom tornando-se, como desejava desde o início o guarda-costas, as responsáveis por manter ambas as mãos do homem mais forte de Ikebukuro dentro dos bolsos apesar dos olhares que, quando em quando, ainda recaiam sobre ele.
Da mesma forma, contudo, como era notável a diferença na semblante de Shizuo e a redução da regularidade com que um cigarro era levado a seus lábios progressivamente mais relaxados, era também notável como Tom parecia seguir o exato sentido contrário, tornando-se visivelmente mais incomodado conforme as horas transcorriam cada segundo mais tranquilas. Por fim, ao sentarem-se juntos em umas das mesas coloridas de um pequeno restaurante de uma rede de fast-food com embrulhinhos de lanches distribuídos por uma bandeja e desejos de “bom almoço” da sorridente jovem no caixa, era incontestável, mesmo ao distraído Heiwajima Shizuo, que, diferente do tempo do lado de fora, que aquecera-se ao ponto de derreter em pequenas poças de água a outrora garoa de neve, o humor de Tanaka Tom tornara-se cinzento e gelado.
— Shizuo, me diz... Como andam as coisas com o Orihara?
O engasgo do homem mais forte de Ikebukuro fez-se audível por todo o estabelecimento já decorado para o Natal, arrastando para os dois amigos os olhares que ainda não estivessem neles dois. Os olhos castanhos-avelã, contudo, não os notaram, toda a atenção fixa no rosto a preencher-se de culpa e nos dedos envoltos por largos anéis dourados a apressarem em sua direção um copo grande de refrigerante.
Dentre todas as formas como via-se contando para Tom o atual incompreensível relacionamento que aparentemente desenvolvera com seu pior inimigo, uma pergunta casual como “como andam as coisas com o Orihara?” era a última possibilidade que consideraria. Como diabos Tom esperava que respondesse? Ou, mais do que isso, o que exatamente Tom desejava saber com escolha tão arbitrária e inespecífica de palavras como aquela?
“Bom, por onde começo?! O pulga perdeu a memória e foi morar comigo, isso você sabe. Nós nos pegamos há algumas semanas... Foi ele quem começou... Mas outras vezes fui eu... Mas daí a gente brigou. Brigou? Não sei bem se é essa a palavra certa. Quero dizer... a gente não correu Ikebukuro toda com ele jogando lâminas em mim enquanto eu gritava para ele sumir e morrer. Ele saiu de casa, na verdade, e eu deveria me sentir aliviado, não é?! Porque o cheiro de pulga insuportável até começou a sumir. E, ao mesmo tempo, eu tinha quase certeza de que ele tinha recuperado as memórias e estava zoando a minha cara. Mas, não, não tinha, e o caralho do mundo todo ficou me convencendo de que era culpa minha e que o pulga estava chateado e sozinho. O que era uma mentira, porque ao mesmo tempo que ficaram me convencendo ficaram confortando aquele maldito. Enfim, me convenceram e onde fui até Shinjuku e... bem... pela primeira vez, transamos. Não de primeira, porque ele, aparentemente, estava mesmo chateado, mas depois não estava mais e transamos. Foi... diferente. De como era antes, eu digo. Diferente de um jeito bom. Mas você não quer saber disso, né?! Não precisa fazer essa cara estranha. Mas, no fim, ele ficou bravo de novo porque eu achei que tinha machucado ele igual fiz com... enfim, você sabe. Ele falou um monte e fiquei tranquilo. Dá pra acreditar nisso? O pulga me tranquilizando, aquele merda? Mas depois não sei porque diabos falei sobre ele voltar pra Ikebukuro e ele não sei porque diabos ele falou que não, que não ia. Ficar fazendo o que lá, você se pergunta, não é, Tom-san? Mas eu não disse nada, claro, porque não ia pedir para ele voltar e, além disso, porque eu realmente não quero o pulga na minha casa pulgando todos os meus móveis. Não quero, mesmo. Mesmo que eu goste do café da manhã, e do jantar, e de ser recebido na porta quando chego em casa. Mas você acha que ele explicou o porquê de não querer? Não, ele não fez. Ele só desmanchou a cara de bunda que fazia e riu! Pronto, conversa encerrada. O pulga tem bons pulsos também, mesmo que fique debochando de mim enquanto me chama de ‘adolescente de banhos longos’. Aquele merda!” – não era como se, de alguma forma, Shizuo pudesse casualmente falar sobre Izaya e ele.
— Sinto muito, Shizuo. Sei que é um assunto delicado... Mas... – recomeçou o amigo, fitando-o ainda com culpa, alheio a seu conflito interno.
Acenou positivamente, dando de ombros e forçando para dentro de sua garganta o lanche com um grande gole de refrigerante. Tom não era o tipo de pessoa que faria perguntas por simples curiosidade, assim como não era, em definitivo, o tipo de pessoa que faria perguntas indiscretas. Devia a ele, portanto, o benefício da dúvida antes de lançar-se porta afora ou e mentir com um rosnado que “não há coisa alguma para andar entre mim e o pulga”.
— Pode falar, Tom.
— Há algum tempo... lembra? Quando estávamos tendo aquela quantidade absurda de problemas por conta de devedores que se recusavam a pagar as dívidas porque, supostamente, o Orihara não entregou as informações pela qual haviam pagado? Enfim... Quando isso aconteceu, você me contou o que tinha acontecido com o Orihara. Sobre a perda de memórias...
— Hnhum. – confirmou. Lembrava-se sobre como Tom ficara irritado como quase nunca antes já o havia visto, resmungando ininterruptamente sobre como nem eles nem a agência tinham relação com o sumiço de Izaya e como a quebra de contrato do informante não devia interferir nos negócios deles, ao mesmo tempo em que parecera verdadeiramente curioso e ansioso para pedir por mais informações sobre o estado do informante. Desde então, quando em quando, sentia que o amigo queria perguntar mais, sem nunca, contudo, verdadeiramente fazê-lo.
— Confesso que fiquei curioso... Como estão as coisas agora?
— O mesmo. – resmungou, engolindo em seco e desviando a atenção para canudo do copo já quase vazio.
Não era uma mentira. Ou, ao menos, não integralmente uma. Por mais que “o mesmo” fosse a aparente exata pior definição para seu envolvimento com Orihara Izaya, era inquestionável que não era sobre ele que Tom perguntava. Tom queria saber sobre a perda de memórias, não sobre a nova maneira que ele e Izaya haviam descoberto para manterem-se aquecidos no inverno. E, até onde sabia, “o mesmo” era a resposta mais adequada possível para a pergunta sobre a suposta amnésia do informante, visto que fora, sem palavras a mais ou a menos, a resposta que recebera do próprio Izaya no dia anterior.
Izaya garantira, afinal, enquanto aconchegava-se em seu colo já durante a madrugada, que apesar de procurar por todo o apartamento por qualquer mínima coisinha que o fizesse lembrar-se de quem era, não encontrara nada, nas duas semanas que ficara por lá com demasiado tempo livre para busca que jurara bastante detalhada, que o ajudasse a recuperar as memórias. Aos risos contara sobre algumas novas histórias que ouvira de Shinra e Kadota e de expressão pesada relatara baixinho sobre como a secretária, Namie, não havia poupado detalhes sobre como seu trabalho consistia em arruinar a vida de todos os que, segunda ela, “por azar cruzassem seu caminho”, incluindo a dela mesma. Nem as histórias por ele contadas risonhas nem as contatas com receio, contudo, pareciam dizer ao rapaz quem era, mantendo-o firme em sua resposta de “o mesmo”. Resposta que, não sem certo pesar de culpa, Shizuo reproduzia diante do olhar atento de seu empregado e amigo.
— Ele continua sem memórias, então? – acenou positivo, entregando ao lanche a última mordida – E... ele parece sincero quando diz isso?
— Parece o mesmo. – resmungou, mastigando.
— E o que “o mesmo” significa, Shizuo?
Fitou-o sério, franzindo de leve o cenho. O guarda-costas, verdadeiramente, não fazia ideia do que queria dizer com “o mesmo”. Assim como quando descrevia a situação de Izaya, definir o informante com aquelas duas palavras parecia, ao mesmo tempo, uma profunda mentira e uma inquestionável verdade. Izaya parecia verdadeiramente com Izaya enquanto lamentava a falta de memórias, enquanto provocava-o malicioso, enquanto abraçava-o bocejando de sono, enquanto sorria bobo de tudo o que dizia e enquanto desviava o olhar do seu com receio ao falar sobre seu trabalho. Era inegável, entretanto, que não deveria parecer. Não quando a imagem que tinha dele antes da terça-feira chuvosa na qual ouviu duas batidinhas suaves em sua porta era a da pessoa que carregava a maior parte de seu ódio e da pessoa que, sem dúvidas, a conquistara com mérito.
— Não sei. – respondeu, por fim, sincero, arriscando levar novamente os olhos até o rosto do amigo.
Tom estava preocupado. A pequena ruga escondida por trás de seus óculos e a sobrancelhas elevando-se para além deles enquanto encarava-o de volta. E Shizuo, indubitavelmente, não gostava de vê-lo daquela forma, não quando era ele o centro da preocupação. Preferia-o, ainda que a possibilidade provavelmente causasse-lhe problemas respiratórios e gastos além do que podia arcar com nicotina, o Tanaka Tom que olhava-o surpreso e sorria-lhe travesso como naquela manhã.
— Está tudo bem, Shizuo?
Pela terceira vez no dia, Shizuo não conseguiu pensar em resposta que não fosse verdade e mentira ao mesmo tempo. Sim e não. Contar tudo ou negar tudo. Desfazer-se a falar ou manter silêncio. Toda e qualquer reação parecia não ser a adequada diante dos pensamentos incapazes de equilibrarem-se quando o assunto era Orihara Izaya.
O olhar de Tom, atento e complacente, metia-o ainda pior.
Tom o ajudaria. Ajudaria como sempre, de alguma forma, ajudava. Ajudaria em silêncio, sem comentários excessivos, sem grandes poses, sem exigências e sem alarde. Contar ao amigo significaria, contudo, obrigar-se a organizar os pensamentos e, em voz alta, dizer que, apesar de toda a raiva que sentia de tudo o que acontecera desde o momento no qual pusera os pés para fora do apartamento de Izaya naquela manhã e de como sentia-se contrariado e um pouco traído por tê-lo feito sozinho, mal podia evitar a vontade que quando em quando impelia-o a sorrir. Sorriso quase envergonhado, doce como nenhum dos que encaravam-no tão atentamente esperavam ver, a cada vez que lembrava-se que, antes de finalmente pôr-se para fora, deslizara as mãos pelos cabelos negros compridos demais e, junto a um pequeno beijo na ponta dos dedos, ganhara um sussurro sonolento prometendo saudades.
— Se quiser conversar... – o cobrador declarou, pondo-se de pé e suspirando para o lado de lado de fora da larga janela. Shizuo, ainda que soubesse que não era visto, piscou grato. Gostava da forma como o amigo conhecia seus limites e respeitava-os, respeitava-os ao ponto de oferecer-lhe suporte para o caso de, alguma vez, precisar ultrapassá-los – De volta ao front, então... Ao menos não está mais nevand-Oe, Shizuo, aquele não é o K-?
Os olhos castanhos-mel encararam o lado de fora através da janela ao mesmo tempo em que, em um pulo, Shizuo botou-se de pé. No segundo seguinte a porta abria-se para sua saída e o vento frio de dezembro o punha arrepiado até o último fio de cabelo.
Não entendia qual urgência o compelia a encontrar Kadota, mas não pode evitar caminhar em linha reta até ele, atrasando-se apenas para buscar no bolso um cigarro e tragá-lo fundo, a ruga em sua testa tão profunda quanto estivera naquela manhã no metro e os olhos fixos na figura parada a poucos metros do restaurante.
Apenas quando aproximou-se o bastante para que a voz grave do amigo fizesse-se ouvir, notou que ele não estava sozinho. Franziu de leve as sobrancelhas, oscilando brevemente em sua determinação de interpelá-lo, girando suave entre os dedos um botão de seu casaco ao encarar o homem que acompanhava Kadota. Chapéu torto, gestos exagerados e sorriso fácil, beirando o predatório: tinha certeza de que conhecia de algum lugar.
O rapaz familiar foi o primeiro a vê-lo, torcendo confuso para ele o cenho antes de abrir novo sorriso, assustadoramente malicioso. Foi, provavelmente, a reação dele a responsável por fazer Kadota virar-se em sua direção.
Primeiro sorriso de reconhecimento, depois aceno e, então, quando o guarda-costas já quase considerava que o amigo seria o único a não dedicar a ele reações suspeitas, os olhos castanhos escuros desviaram-se dos seus visivelmente constrangidos enquanto as bochechas já coradas por frio avermelhavam-se outro tanto.
— Yo, Shizuo. – a voz, levemente trêmula, arrancou sorriso baixinho do rapaz de chapéu, Shizuo, contudo, não pode dedicar ao amigo reação que não o franzir dos lábios.
— Kadota. – cumprimentou, esforçando-se a não deixar escapar sua irritação.
O segundo olhar recebido, ainda mais constrangido que o anterior, contudo, afastou-o para longe da latente irritação, quase levando rubor também ao seu rosto. A percepção de que mesmo antes de Ikebukuro resolver botá-lo desconfortável encarando-o sem restrições já desconfiava que seu encontro com Kadota fosse ser complicado atingiu-o de súbito. Ainda que esse fato parecesse agora tão menor diante do possível problema que havia arranjado para si ao jogar ao pé da cama de Izaya suas roupas, ainda era inegável que Kadota fora o provável responsável por deixar os mangás em sua porta duas tardes antes. A hipótese de que o amigo estivesse a fita-lo constrangido não pelo mesmo motivo do restante de Ikebukuro, mas por saber que dedicara seu sábado a ler romance eróticos entre rapazes parecia-lhe ainda pior.
— Tudo bem com você? – acenou positivo para a pergunta, retrucando um “você?” e ganhando de volta também aceno positivo – Ah, sim! Chikage Rokujo, Heiwajima Shizuo. Heiwajima Shizuo, Chikage Rokujo.
— Já nos conhecemos. – o rapaz sorriu, oferecendo-lhe um aceno simpático.
Acenou de volta, involuntariamente levantando ambas as sobrancelhas em reconhecimento. Reconhecia-o, agora. Era o rapaz que o desafiara no intuito de vingar um conhecido e que acabara, impensadamente, socando mais forte do que planejara. Por fim, terminara a noite no apartamento de Shinra com o rapaz desacordado nos braços e pedindo ao médico o favor – outro, mais um à odiosa cota de favores que devia ao amigo de personalidade duvidosa – de ajudá-lo.
Encarou Kadota confuso. Não sabia que os dois se conheciam, se soubesse, talvez tivesse conseguido evitar socá-lo com tanta força.
— Vocês se conhecem? – perguntou o rapaz do chapéu, os olhos agora fixos em Kadota.
— Do colégio.
— Igual o médico?
— Sim, Shinra também.
Os lábios de Chikage arredondaram-se em compreensão e Shizuo não pode evitar remexer-se incomodado, tragando fundo o cigarro em seus lábios.
— E o pulga? – resmungou, soprando a fumaça.
— Uhnhum, Izaya também.
— Izaya? Orihara? O infor-?
— Não o colégio, Kadota. Izaya... como vão as coisas? – retrucou, sentindo-se estúpido diante do olhar confuso que recebeu em resposta. Aquela não era a pergunta que planejava fazer, assim como não era nada ali como antecipara em sua mente. Não era sua intenção, afinal, desde o princípio, ser aquele que traria o assunto “Izaya” à tona. Estava curioso, reconhecia, sobre o que Kadota e Izaya haviam conversado durante as duas semanas que o informante passara em Shinjuku e gostaria, sem sombras de dúvidas, de ouvir sobre de alguém que não fosse o próprio Izaya. Sua intenção era, contudo, que Kadota contasse casualmente ao decorrer da conversa, sem que ele, portanto, precisasse submeter-se a perguntar. Ser, portanto, não somente aquele que primeiro falava, como também fazê-lo repetindo a pergunta de Tom – que encarava-o a poucos metros de distância – trazia-lhe ainda mais forte a sensação de parvoíce.
— Ué, Shizuo. Você não estava com ele ontem?
— O informan-?
— É, o informante, Chikage. Estudou comigo e com Shizuo. Ele me escreveu uma mensagem hoje de manhã, Shizuo. Ele pareceu tão empolgad-
Kadota calou-se, corando mais uma vez e arrancando de Chikage um franzir de sobrancelhas e um sorriso suspeito. Shizuo, por sua vez, não pode evitar que ambos os seus olhos abrissem-se aos limites. Tinha certeza de que, o que quer que Izaya estivesse escrevendo por ai, coisa boa não podia ser. Com ou seu suas memórias, Izaya definitivamente sabia causar problemas com palavras.
Perdido no receio de que no exato momento o informante estivesse a enviar mensagens a Shinra, Celty e sabe-se-lá-mais-quem a piorar a já evidente ruim situação e que, por algum meio questionável, fosse o responsável por todos em Ikebukuro estarem a encararem-no, Shizuo perdeu no momento no qual os olhos de Kadota espelharam os seus, abrindo-se também aos limites.
Não seria aquele, verdadeiramente, o primeiro indício do que aconteceria a seguir.
Se durante o almoço não estivesse tão preocupado a contar mentiras verdadeiras a Tom, o homem mais forte de Ikebukuro teria notado que o cheiro que sabonete algum tinha sido capaz de afastar de sua pele aumentava progressivamente, ganhando cada uma das ruas de seu distrito e espalhando-se por todos os lugares. Se não tão constrangido e eufórico com o claramente estranho diálogo com Kadota e Chikage, teria notado a aproximação de uma quinta pessoa e teria, principalmente, ouvido o pequeno risinho e o ‘shiiu’ soprado entredentes às suas costas. Heiwajima Shizuo, entretanto, só percebeu a chegada do centro de suas preocupações no momento no qual teve suas costas abraçadas por ele.
— Shiiizu-chan! – a voz soava risonha e alta mesmo que abafada por seu grosso casaco. E, se até aquele momento ainda não soubesse quem era o responsável pelo abraço, o apelido, a voz e os dedos longos e cobertos de cicatrizes a entrelaçaram-se juntos na altura de seu peito denunciariam que, por mais absurda que fosse a possibilidade, havia, inegavelmente, um Orihara Izaya agarrado a suas costas.
Não moveu-se. Não respondeu. Não ralhou. Diante de dezenas de pares de olhos que abriam-se surpresos para ele, Heiwajima Shizuo permaneceu quieto, deixando-se envolver pelo braços de Izaya e, ainda que não totalmente ciente disso, relaxando sua expressão tensa para um pequeno sorriso discreto, escondido por trás do cigarro em seus lábios. Sorriso que, pouco a pouco, cresceu até transformar-se em suspiro surpreso enquanto Izaya apertava-o mais forte e esfregava o rosto em seu casaco resmungando sobre despedidas frias demais em manhãs já frias o bastante.
Quando, por fim, o abraço findou-se, o fez por iniciativa do informante e, mesmo que Shizuo nada tenha feito para impedir seu término, também nada fez para impedir que Izaya, então, tomasse uma de suas mãos e enlaçasse os dedos ao seus, postando-se, então, ao seu lado, a cabeça tombando suavemente em seu ombro.
— Oi, Dotachin! Como você está?
Os dedos presos aos seus pareciam ser a única coisa a impedir que o rapaz ao seu lado balançasse-se de um lado a outro. Os pés inquietos, o polegar apertando o seu e o sorriso tão aberto que parecia extrapolar os limites do rosto em perfeito prenuncio de que, se o soltasse, Izaya provavelmente correria eufórico Ikebukuro de uma ponta a outra.
Fitou-o com atenção, surpresa e receio correndo sua espinha.
Todo negro, com exceção das extremidades envoltas em pelo sintético branco: Shizuo reconhecia com mais familiaridade do que gostaria o casaco que vestia o rapaz ao seu lado, ainda que fosse aquele mais longo do que o que lembrava-se, cobrindo-o até quase os joelhos. Reprimiu o impulso de arrancar para longe os dedos presos juntos, a sensação do contato entre seu pulso e o casaco pondo-o subitamente enjoado. Um olhar e um sorriso exagerado, contudo, mantiveram-no no lugar como se atado. Izaya trazia ao redor do pescoço o cachecol vermelho que vestira da primeira vez na qual estiveram juntos no Russia Sushi e, por motivos que não conseguiria verbalizar nem se tentasse, aquilo era o bastante para manter seus dedos nos dele.
— Yo, Izaya! Você parece animado hoje.
O cumprimento de Kadota, tão sorridente quanto o de Izaya, obrigou-o a despregar os olhos do cachecol vermelho e olhar ao redor.
Tom o encarava estático, os lábios levemente separados e os olhos oscilando entre seu rosto, o de Izaya e as mãos entrelaçadas juntas. Ainda que soubesse ser despropositado, não pode evitar pensar que deveria ter contado ao amigo quando a chance lhe foi dada. Preferia, mesmo que não fosse situação confortável, tê-lo dito antes que Tom percebesse por si mesmo como, contrariando tudo o que provavelmente até então acreditava, sua relação com Izaya tornara-se diferente das perseguições de maneira bastante significativa. Em contraste à surpresa inocente e incrédula de Tom, Chikage encarava-os sem reservas, o sorriso prepotente nos lábios sugerindo que as sobrancelhas altas a quase esconderem-se debaixo do chapéu torto estavam muito mais impressionadas do que surpresas. Kadota mostrava-se, talvez, uma mistura de ambos: um pouco surpreso, um pouco envergonhado, um pouco divertido, sem nunca, contudo, oscilar no sorriso simpático que jogava aos dois de dedos entrelaçados.
— Uhnhum. Tive um bom final de semana...não é, Shizu-wow! Wow! Shizu-chan! Wow! Não achei qu-... mas... wow! Caramba! Isso é tão... wow!
Os olhos castanho-avermelhados encaravam-no tão abertos que pareciam prestes a saltarem e pregarem-se em seu corpo. Contrariando, contudo, o que os olhos pareciam à beira de fazer, Izaya afastou-se em um pulo, desfazendo o contato entre eles e levando ambas as mãos teatralmente primeiro à boca, depois ao peito e, então, enlaçadas à cintura, braços cruzados pouco abaixo das costelas.
Um riso. Discreto. Nasal. Apenas um pequeno salto no peito parcialmente coberto pelo cachecol vermelho.
— Shizu-chan! – a voz soava alta através dos lábios suavemente presos entre os dentes com divertida malícia – Eu não tinha visto... de manhã... antes de você sair! Wow! Sinto muito, de verdade, Shizu-chan. Sinto... Não era minha intenção... mas... – incapazes de deixarem-se prender, os lábios agora abriam-se em sonoras risadas – Não deixa de ser engraçado. Você estava todo preocupado comigo e, no fim... Não era bem em mim que a pomada deveria ter ficado, hein?!
Encarou-o, confuso, os punhos fechados em desgosto. O riso alto, a voz sonora e esganiçada, as mãos sobre o ventre como se prestes a desmoronar: Izaya debochava dele, sem dúvidas. E, acima do ódio que sentia do outro por fazê-lo, não podia evitar o receio que gelava o fim de estômago ao reconhecer, parcialmente, no olhar que recebia dele traços dos olhares que durante toda a manhã Ikebukuro jogara sobre ele.
Desviou a atenção de volta aos outros, buscando neles explicação para o que acontecia, encontrando, contudo, em seus olhos algum tipo de compreensão confusa da qual, definitivamente, não compartilhava.
— Shizu-chan! – Izaya chamou-o outra vez – O que está fazendo? Vai me dizer que não viu? Como não viu? Você foi pra casa, não foi? Seu casaco é diferente... E ninguém te disse? Nem Tom-san nem Dotachin? – os olhos castanho-avermelhados ainda fitavam-no perplexos, os risos exagerados, entretanto, deram lugar a riso contido, quase um pequeno bico – Aqui, Shizu-chan. – as mãos desenlaçaram-se da cintura e a ponta do indicador pousou com cuidado em uma das laterais do pescoço – Aqui. – rumou, então, para a outra lateral, um ponto pouco acima que o anterior – E aqui. – os dedo médio juntou-se ao indicador enquanto deslizava de leve até o queixo, entregando lá pequena carícia – E aqui também. – o polegar, então, pressionou de leve um canto do lábio superior – E, tenho que dizer, você parece incrível marcado assim... adorável e sexy ao mesmo tempo... deliciosamente bonito, no mínimo.
Tocou com as pontas dos próprios dedos todos os lugares indicados por Izaya enquanto, pouco a pouco, a compreensão alcançava-o, as últimas palavras do informante a pulsarem em sua cabeça. Antes, contudo, que por completo as assimilasse, os dedos longos e cobertos de cicatrizes substituíram os seus em carícias curtas, a respiração quente de Izaya afagando de leve seu rosto.
— Não fode comigo, pulga. – rosnou, incapaz de acreditar na conclusão que sua mente havia chegado diante da palavra “marcado”.
— Eu não faria isso, Shizu-chan, não aqui... tem muita gente olhando. – respondeu o informante em sussurro, plantando um beijo suave em seu queixo, no exato lugar onde, acabara de descobrir, havia uma marca de beijo, uma das quatro que, ao longo de toda aquela manhã, exibira sem impedimentos para Ikebukuro inteira.
Vergonha tomou cada centímetro de seu corpo, tornando suas bochechas tão quentes que involuntariamente cerrou de leve os olhos.
Nem fóruns na internet, nem roupas erradas, nem mensagens inadequadas de Izaya: a prova do crime estivera o tempo todo nele mesmo, marcada em sua pele a todos os que o olhassem.
E olhavam-no. Olharam-no durante todo o dia. Como um animal encarcerado no zoológico. Todos, exceto ele mesmo, a saberem o porquê dos olhares.
Silenciosos. Tecendo hipóteses. Sorrindo maliciosos. Chamando a outros para também olharem-no. Encarando-o como se soubessem de tudo. Como se conhecessem-no.
Incrédulos. Maliciosos. Surpresos. Impressionados. Envergonhados. Enojados.
— Shizu-chan? Tudo bem?
A voz, outrora tão alta e divertida, soou baixinha e preocupada, apenas um sussurro. Os dedos, antes maliciosos a tocarem suas marcas, agora acarinhavam suas bochechas protetoramente, com cuidado. Os lábios, até então torcidos em sorrisos, agora suavizavam-se para procurarem pelos seus.
— É sua culpa. – rosnou, também baixinho, antes que os lábios de Izaya pudessem tocá-lo.
Os lábios avermelhados moveram-se ainda outra vez diante de seus olhos, aproximando-se novamente em direção aos seus. Não os ouviu, contudo. As pulsações em suas têmporas altas demais para que pudesse ouvir algo que não elas. Piscou firme e, no instante seguinte, já sentia os dedos afundarem na barra de metal de uma placa de trânsito.
— Eu vou te matar, pulga.
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