(in) esquecível

21 Sobre como você era um homem


Notas iniciais
Oi, licença, é aqui que ficam os leitores seduzentes do fandom mais lindo que perdoam autores atrasados que têm uma super cara de pau de aparecer depois de quase um mês puxando o saco com elogios? Ufa, tô no lugar certo então! XD Desculpa, gente! Nunca planejo minhas demoras e absolutamente as detesto, mas, ainda assim, parece que me desculpo por elas com mais frequência do que deveria! =( As razões são as de sempre: trabalho. Muito trabalho. =( Períodos de férias são, eu descobri, os períodos nos quais eu mais trabalho!... De toda forma, cá estou eu com mais um capítulo. E, para compensar, um capítulo enorme!!!! O dobro do usual! *.* O capítulo de hoje é um presente atrasado (era para ter sido postado ontem, =( desculpa, Mizzu) de aniversário! Mizzu, sualinda, eu espero que goste do presente e desejo a você tudo de mais lindo do mundo. Muito amor, muito Shizaya, muita saúde pro coração para aguentar as sofrências dos shipps! ♥ Espero, também, do fundo do meu coração, que todo mundo que leia goste!! Obrigada pelo apoio e compreensão de sempre, seuslindos! s2 Nos vemos nas notas finais, ok? beijo, beijo, =* Yuki



Sobre como você era um homem

Os olhos castanhos mel desviaram-se até a janela como se clamassem pela continuidade da chuva. Caprichoso, entretanto, o céu não entregava quaisquer indícios de que não a mandara apenas para fazer molhados os dois mais perigosos homens de Ikebukuro. Através do vidro sujo, permanecia sem dúvidas acinzentado, tanto quanto estivera nos dias anteriores e tanto quanto provavelmente permaneceria nos dias seguintes, a chuva, entretanto, que mais cedo não dera sinais de que cessaria, findara-se por completo, deixando para trás sequer garoa. Se no homem parado no limiar entre o corredor e a sala, alvo do fixo olhar de duas figuras sentadas lado a lado em seu pequeno sofá, houvesse espaço a pensamentos nesta direção, ele certamente acreditaria que as nuvens de Ikebukuro zombavam dele, tempestuosas quando desejava calmaria e calmas quando suplicava tormenta. Mesmo que, entretanto, os olhos avelã permanecessem fixos na janela por mais tempo do que deveriam, o desejo por uma tempestade dona de ventos fortes o suficiente para preencher com uivos o desconfortável silêncio absoluto a esperá-lo não realizou-se.

Um arrepio gelado correu por seu estômago um infundado medo de que as duas atenções fixas neles soubessem o que fazia há pouco em seu quarto e, involuntariamente, contraiu-se com frio que em nada relacionava-se com suas janelas embaçadas pela umidade. Shizuo esperava, afinal, dezenas de reações à sua chegada e nenhuma delas incluía o silêncio de Kishitani Shinra e os dedos imóveis de Sturluson Celty. Se os amigos – em especial a dullahan – estivessem tão preocupados quanto ele supunha estarem, não estariam quietos, tão rigidamente sentados em seu pequeno sofá de dois lugares.

Ainda sem dizer palavra, atravessou receoso, olhos oscilando de um amigo ao outro, o cômodo em direção à sua poltrona.

Por considerar que seria inundado por perguntas, não sabia o que deveria fazer ao sentar-se diante do peculiar silêncio. Um pedido de desculpas não era uma possibilidade, por mais que Shizuo sentisse-se estranhamente inclinado a sussurrar baixinho e acanhado um. Pelo que exatamente se desculparia? Por não ter ouvido tocar o celular? Por não ter respondido imediatamente as mensagens ao lê-las? Coisas pequenas assim não pediam por suas desculpas. Ou, ao menos, era o que pensava até sondar, cenho franzido, em busca de pistas os dois amigos e reter-se com redobrada atenção no quieto rapaz em jaleco branco.

Shinra mantinha a cabeça baixa, inclinada o suficiente para aprofundar em evidente estranheza o vinco entre as finas sobrancelhas castanhas-claras do ex-barman. Vinco que intensificava-se e expandia-se em rugas pela testa do homem mais forte de Ikebukuro conforme as nuances do abaixado rosto eram percebidas: olhos a fitarem o nada, os lábios sutilmente presos pelos dentes e, como complemento, dedos a enroscarem-se uns aos outros, nervosamente, nas mãos juntas sobre os joelhos que balançavam-se inquietos. Somente quando, contudo, os olhos castanho-escuros circundados por lentes escolheram a ele para fixarem-se e as sobrancelhas que mal deixavam-se ver por trás da armação dos óculos levantaram-se e torceram-se, Shizuo percebeu que não era infundada seu desconforto ou impulso por desculpas. Shinra, aparentemente, compartilhava também deles.

– Celty estava bastante preocupada, sabe, Shizuo... Né, querida?

Apesar do claro esforço feito pelo médico por exteriorizá-las, as palavras morreram imediatamente, sem ecos ou respostas. Ao homem mais forte de Ikebukuro, entretanto, mesmo sem réplica eram aquelas as últimas peças necessárias à resolução do mistério de uma silenciosamente sentada em seu pequeno sofá Sturluson Celty.

Encarou a amiga mais uma vez antes de suspirar fundo. Mesmo que não desfamiliarizado com tal comportamento, hesitou em atribuí-la à amiga. Os braços cruzados, o silêncio, a rígida postura, tinha certeza de que se pudesse fazê-lo, Celty traria nos lábios um pequeno bico descontente. Imagens de sua mãe, uma ex-namorada, e, contra sua vontade, Izaya agindo daquela mesma forma invadiram sua mente, arrancando um segundo suspiro seguido de um pequeno riso nasalado.

– Desculpe, Celty. Eu devia ter te respondido antes. Sinto muito.

E Shizuo teve certeza de que teria corado e recuado o olhar, influenciado pelo descostume em desculpar-se, se uma série de sombras negras nos o envolvessem de supetão. E teve certeza de que a surpresa o faria reagir impulsivamente violento se não sentisse nas sombras que o envolviam um estranho misto de abraço preocupado e sondagem por ferimentos. O riso nasal escapou-lhe mais uma vez. Alguém a preocupar-se excessivamente com ele não era coisa a qual estivesse acostumado. Não era como se ele, afinal, arrancasse suspiros preocupados de seus entes queridos quando acabava em brigas.

– Eu estou bem, Celty. Claro que estou. – o tom escapou-lhe mais duro do que desejava. Queria agradecer pela preocupação e desculpar-se por fazê-la preocupar-se, a firmeza com a qual planejava agradecer-se, entretanto, encontrou desvio em sua voz, transformando a tentativa de confortar a amiga no que parecia demais com uma repreensão. Baixou resignado os ombros, pronto a uma segunda tentativa – Estou bem, de verdade. Não precisa preocupar-se. O que achou que teria acontecido?

As sombras a envolveram-no deixaram-no de súbito, revelando diante de seus olhos uma Celty a digitar freneticamente em seu palmtop.

– “O que achou que poderia ter acontecido, você me pergunta, Shizuo?! Você me diz que vai encontrar com as irmãs de Izaya para tentar descobrir mais sobre as memórias perdidas e pouco depois eu recebo vídeos de vocês juntos pelo fórum do Dollars. Me esqueci que não tinha mais acesso aos fóruns... Mas achei que vocês logo perceberiam o que estava acontecendo. Achei que entrariam em brigas. Achei que você ficaria mal com a atenção e confuso com tudo o que estavam dizendo. Fiquei preocupada que se machucasse ou que machucasse o Izaya. Depois começou a chegar um monte de mensagens sobre vocês dois juntos, mas ninguém escrevia onde era... Escreveram um monte de coisas sobre brigas... E você não me respondia... Fiquei preocupada que falassem coisas cruéis para vocês dois... Por que não me respondia? Shinra começou a contar um monte de casos estranhos de pessoas que foram machucadas em situações assim... Vim até aqui atrás de vocês e vocês não estavam...”

Os olhos castanhos avelã abriram-se surpresos. Aquela era, inegavelmente, a primeira vez que via tão exaltada a dullahan. Leu mais uma vez as abundantes palavras no palmtop antes de fitar, os lábios levemente separados, a amiga. Ensaiou uma ou outra palavra como resposta, mas antes que pudesse decidir-se sobre o que dizer, os dedos cobertos por luvas negras começaram mais uma vez a moverem-se pelas teclas.

– “Mas você está bem, né?! Não te disseram nada cruel, né?! Não brigou com ninguém, não é?! Izaya também está bem. Só está tomando banho, né?! Não está machucado?” – o aparelho foi-lhe mostrado enquanto, pouco a pouco, a aura preocupada e exaltada ao redor da entregadora amenizava-se – “Desculpe agir assim... sei que as coisas estão sendo difíceis para você, não queria que ficassem ainda piores... Mas você está bem, não é?!”.

Um raro sorriso suave moldou-se nos lábios do homem mais forte de Ikebukuro.

– Estou sim, Celty. A pulga também. Ele não merecia estar, na verdade, aquele maldito. Era no Russia Sushi. A gente estava lá. E estavam encarando a gente, um monte de desgraçados. Mas a pulga e o Simon pareciam bastante animadinhos. Dois idiotas. Não fosse o Simon... aquela pulga escandalos-

O riso alto do até então plenamente calado Kishitani Shinra preencheu toda a sala, interrompendo o guarda-costas e a progressivamente crescente raiva que sentia ao ineficientemente narrar as cenas de mais cedo naquele dia.

– Shizuo, quando cheguei aqui vocês dois não pareciam estar propriamente brigando. Bom, na verdade, não vi nada, mas não precisaria ter visto para dizer que você não parecia tããão raivoso assim... – os olhos curiosos brilharam em reflexo perfeito aos dentes brancos a revelarem-se conforme o sorriso de Shinra alargava-se – E se eu estiver certo, Celty, Izaya está perfeitamente saudável. Perfeitamente saudável e tomando um banho bastante longo... como foi longo, também, o tempo que o Shizuo demorou para trocar a roupa... Tem certeza que está bem, Shizuo? Não é normal demorar assim para trocar as roupas... Ou será que você precisou dar um jeitinho em um detalhezinho antes?!

Era um fato: Shizuo não se importaria nem um pouco em fazer uso de sua odiada violência para, naquele momento, machucar nem que um pouco o médico clandestino. Um soco, talvez dois. Ou talvez afundar a cabeça dele no braço do sofá no qual apoiava os cotovelos. Talvez arrancar alguns dentes. Essa certamente seria uma boa forma de fazer com o que o sorriso presunçoso de Shinra o irritasse menos. Ele não podia, entretanto, simplesmente levar a cabo seus devaneios com ossos a partirem-se quando sua visão periférica captava perfeitamente a figura vestida de negro a remexer-se em confusão, inclinando o pescoço em um perfeito sinal de dúvida.

Os olhos maliciosos circundados por óculos seguiram a direção para a qual desviavam-se os olhos castanhos mel e o sorriso nos lábios do rapaz a vestir um jaleco alargou-se ainda mais.

– Celty estava tão preocupada que mal tivemos tempo de ver os vídeos, né, querida? Mas pela situação que Shizuo estava quando cheguei, consigo imaginar perfeitamente o conteúdo deles... Acho bastante corajoso da parte de vocês fazer isso em público, Shizuo. Celty nunca me deixa nem segurar a mão dela. E, devo acrescentar, a cada vez que os vejo estão mais ousados, incrível!... – o rosnar baixo do guarda-costas não pareceu impedir que o rapaz continuasse seu discurso – Vocês estavam bastante empolgados nos beijos e, não sei, mas meio que o Izaya estava sentado no seu colo lá... Se esfregando... Tipo um gato... Gato é uma gíria exatamente pra isso, né?! Não, espera, não pra isso... não ainda, mas do jeito que estão indo... Você conhece as gírias, Shizuo? Enfim... Era tipo um piquenique romântico? Vi uns copos do lado de vocês e talz... E depois jantar, hein?! Legal. Pelo que vi, o pessoal nos fóruns estava pirando com vocês lá. É sério que vocês estavam abraçadinhos e beijando? Tem umas fotos, mas a gente nunca pode confiar na internet... Quer dizer, não me lembro de você namorando antes, Shizuo, mas não consigo imaginar você tão meloso assim... e o Izaya... assim tão... enfim... Fico feliz por estarem se dando tão bem assim... Estava preocupado em deixar Izaya com você... A propósito, Shizuo, você poderia soltar a TV? Não consigo me concentrar direito com você me ameaçando desse jeito... E, Celty, tudo bem, amor, ele não vai fazer nada, né, Shizuo?

– Shinra, seu maldito! – rosnou entredentes.

Não tinha intenção alguma de soltar o aparelho entre seus dedos ou interromper o percurso que seguiam suas exaltadas ações, mas sabia que Celty não permitiria que o objeto em suas mãos alcançasse seu alvo. Era surpreendente a ele, entretanto, a forma como a entregadora mantinha-se quieta mesmo com a quantidade absurda de declarações constrangedoras que seu noivo fazia, normalmente o teria acertado nos primeiros indícios do rumo socialmente desagradável do discurso do rapaz. Mesmo que parecesse, entretanto, atenta às palavras do médico clandestino e pronta a impedir que ele fosse vítima do ex-barman, a dullahan não fazia interferência alguma. Ainda a esperar dela um movimento em direção ao noivo, o cenho do homem mais forte de Ikebukuro fechou-se, contrariado, ao perceber que quando moveu-se, não o fez para acertá-lo ou calá-lo.

Ele ouviu com perfeição enquanto os dedos finos digitavam algo no palmtop e acompanhou com interesse a reação de Shinra ao tê-lo direcionado a ele.

– Como assim, Celty? – clamou, parcialmente sentido parcialmente indignado, o médico – Por que não posso saber? Não quero ir pra lugar algum! Quero ficar com você... e ainda nem vi o Izaya-kun... também estou preocupado...

Os ombros da entregadora mantiveram-se visivelmente tensos por instantes antes de subirem e descerem lentamente em um silencioso suspiro, levando com eles também o palmtop para baixo. Shizuo não precisava fitar as expressões faciais da amiga para sentir nela a dúvida, e também não precisava ter lido a mensagem direcionada a Shinra para entender que a dullahan pedia para que o noivo se retirasse. Saber da dúvida e do pedido, entretanto, não tornava-o apto a compreender o que acontecia no silencioso diálogo entre Celty e o médico clandestino, ela visivelmente contrariada e ele em enfáticos acenos negativos.

Shizuo ainda devia a Shinra uma sonora resposta mal-educada, a pequena muda discussão em seu sofá, entretanto, o impedia de pronunciar-se. Ele assumia, contudo, mesmo que nunca fosse fazê-lo em voz alta, a possibilidade de que nenhum dos inadequados adjetivos de seu léxico possuísse a capacidade de colocá-lo em melhor situação. Fosse pela percepção da inutilidade de suas palavras ou ainda pelos resquícios de vergonha por Shinra ter suposto corretamente a causa de sua demora, manteve-se quieto, contrariado, assistindo Celty estender mais uma vez o plamtop ao noivo e receber uma nova negação como resposta.

– Mesmo que seja assim, Celty... prometo não dizer nada estranho! Por favor!

As sobrancelhas castanho-claras torceram-se em desagrado, incapazes de acreditar na expressão que progressivamente se instalava no rosto de Kishitani Shinra. Os lábios até então sutilmente separados pela curiosidade deformaram-se em uma careta enquanto assistia os olhos castanho-escuros circundados por óculos abrirem-se levemente e os lábios que há pouco insultavam-no moldarem-se em um bico. Cerrou os olhos em incredulidade, mas não rápido o suficiente para poupá-lo de ver o mínimo tremor a percorrer a figura vestida em negro.

– Oh, parem com isso! É nojento... Celty, não acredito que você cai nas manhas desse cara. Shinra, não acredito que faz essas manhas. Puta que pariu...

– Eu não quero ouvir isso do cara que recheou o celular da minha querida Celty de vídeos dele se pegando em praça pública com seu “pior inimigo” desmemor- tá bom, tá bom, Celty, não vou dizer nada. Nadinha. Vou ficar quietinho igual prometi, né?!

Um bufar alto escapou por entre os lábios do homem mais forte de Ikebukuro ao ver os dedos finos livrarem-se das luvas negras e entregarem um leve peteleco na testa do rapaz em jaleco, afastando para longe dos olhos castanho-escuros uma mecha rebelde de cabelo. O riso baixinho entregue como resposta ao gesto arrancou de seus pulmões um segundo bufar, mais alto que o anterior.

Não era nova a ele a forma demasiadamente complacente como Celty agia com o noivo. Sempre o fizera, mesmo quando Shinra era apenas um irritante garoto do ensino médio a tentar convencê-la a atribuir a ele o título que hoje o era atribuído. Desde o momento no qual, há anos, ambos foram apresentados, era inegável que a dullahan dedicava ao médico clandestino mais consideração que aos outros, tão notável que até mesmo o desatento homem mais forte de Ikebukuro notara. Contraditoriamente, em firme negação às afirmações de era incapaz de transpor sua raiva e força monstruosa e olhar para outros, foi exatamente o excessivo poder destrutivo que carregava dentro de si o que o permitiu perceber o que havia entre os dois antes mesmo da oficialização.

Não era simples ao que carregava o epíteto de homem mais forte do distrito antes mesmo de acertar sem equívocos os laços em seus tênis encontrar com alguém que carregasse em si força o suficiente para bater de frente. Celty, Simon e, de alguma forma, Izaya. Não eram muitos os que quando próximos a ele quase faziam sua força absurda parecer comum. A empatia, ao menos em relação aos dois primeiros, era involuntária. Reconhecer um pouco de si mesmo neles o fazia dedicar-lhes mais olhares e atenção do que dedicava a outros. Como resultado de sua atenção, inevitavelmente percebera a maneira como Celty agia com Shinra. Não o fazia racionalmente e não demorava-se a questionar a relação entre os dois, mas sempre ao vê-los brigar e contrariamente assistir tão espontânea interação, a sombra da surpresa passava por seus olhos castanhos-mel. Mesmo que durante anos tenha mantido abertos a eles os olhos, entretanto, demorou a entender que a surpresa ao assistir era porque, com sua força absurda, broncas, cascudos e petelecos, Celty permitia-se não esconder de Shinra seu pior lado. Ao contrário, ela permitia-se entregar também seu pior lado a ele, e, desconfiava Shizuo, com sua sempre presente amabilidade, preocupação e doçura, a dullahan talvez permitisse-se entrega-lo apenas e somente a ele. O guarda-costas não arriscava-se a dizer que o amigo de infância entendia a contraditória profunda confiança e amor que carregava cada golpe suavizado da noiva, mas o sorriso que exibia a cada vez que era acertado o fazia acreditar que o médico clandestino compreendia que era a única pessoa do mundo a conhecer todos os lados da dullahan, bons e ruins, sem exceção.

O sorriso ainda brilhava no rosto orgulhoso de Shinra quando a atenção de Celty voltou-se ao ex-barman. Alinhou por reflexo a postura na poltrona ao vê-la mais uma vez digitar rapidamente em seu palmtop e lançou a Shinra um confuso olhar ao perceber que a amiga planejava conversar com ele mesmo com a teimosa presença do rapaz em jaleco. Torceu os lábios, desgostoso, ao inclinar-se levemente para ler as palavras formadas na tela do palmtop que estendia a dullahan.

– “Shizuo, como você está?”

Ainda que rude, a expressão confusa foi inevitável. Lembrava-se de ter respondido aquela questão já consideráveis vezes naquela noite. Ciente de sua indisfarçada confusão, a entregadora afastou o palmtop e deslizou algumas vezes o dedo pela tela, como se buscasse algo. Quando aproximou-o mais uma vez, Shizuo pode reconhecer na tela o formatado e cores dos fóruns dos dollars.

“Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya, hein?! Quem imaginaria...”

“Sim, todas as perseguições eram no fim só fachada? Ou isso é de agora? O informante estava estranho naquela discussão que teve na praça com aqueles moleques, antes do Heiwajima chegar.”

“Não importa desde quando, gente! O que importa é que está na cara agora agora... Na verdade, eles parecem não fazer muita questão de esconder... Será algum plano dos dois?”

“Plano de quê? De matar Ikebukuro de constrangimento ao exibirem beijos gays na praça central?”

“Não, idiota. Aqueles dois juntos é uma coisa perigosa...”

“Sim, muito perigosos... Dava certinho para perceber o quão ameaçadores eram com seus suspiros e risinhos... É exatamente o contrário, desde que eles começaram a serem vistos juntos, o Heiwajima está bem mais calmo e o Orihara até sumiu.”

“E sem brigas pela cidade...”

“E, de alguma forma, eles parecem um casal...”

“Eles são um casal agora? Pareciam bastante um no Russia Sushi, pelas fotos que mandaram...”

“Eu estava lá!!! Uma hora o Heiwajima saiu... parece que para fumar, e o Orihara ficou todo inquieto dentro do restaurante, até perguntou para o garçom se o Heiwajima parecia chateado com ele...”

“E eles se beijaram lá, né?! Eu vi fotos...”

“O informante beijou o Heiwajima. Foi meio unilateral. O Heiwajima pareceu bastante surpreso... e depois ficou um pouco puto...”

“Oooooooohhhhh! Será que é meio como amor não correspondido, então?! Cacete, isso seria engraçado...”

“Amor não correspondido do Orihara, você diz?! Não seja idiot-...”

Mesmo que não acostumados a fazê-lo, os olhos castanhos avelã desviaram-se constrangidos, em vergonhosa fuga, e recusaram-se a voltar à pequena tela que ainda exibia as mensagens brilhantes. Mensagens que ele reconhecera durante sua leitura, ainda que relutantemente, inegavelmente selecionadas. Certamente mais por teimosia do que por inabilidade em identificar as marcas dos recortes, demorara mais do que o normal a identificar o que lia como excertos e não, consequentemente, originais lidos diretamente nos fóruns. Um vez percebido como inquestionável, entretanto, não pode mais ignorar. E, uma vez percebido, tornou-se a leitura insuportável. As mensagens, afinal, que arrepiavam em desconforto os pelos de sua nuca, haviam sido escolhidas por Celty e ele conhecia a amiga bem o suficiente para saber que ela nunca escolheria as piores. Estava plenamente ciente de que a amiga o poupara do pior e, se ao ser poupado eram aquelas mensagens o que lia, ele assumia o medo diante do que encontraria caso acessasse por si mesmo o fórum dos Dollars.

Limpou a garganta devagar, ciente de que sua fuga inevitavelmente colara em si a atenção do casal sentado em seu pequeno sofá.

– Bem, eu já esperava por algo assim.

Era uma mentira. Cada palavra. Apesar de esforço digno daquele que conquistara o título de homem mais forte de Ikebukuro para fazê-las soarem sinceras. Ele não estava, em definitivo, pronto para ler tantas especulações sobre sua vida. E não estava pronto, sem dúvidas, para colocar-se em reflexão por conta delas.

Acenou lentamente com a cabeça e apertou os dentes, mal percebendo que ao fazê-lo anulava as mentiras que vinha contando a si mesmo nas últimas semanas. Os dentes que quase rangiam pela força das mandíbulas e os e acenos vagarosos mas enfáticos denunciavam que o homem responsáveis por eles deparava-se, miseravelmente, mais uma vez com um assunto sobre o qual não pensara antes. Não, ao menos, verdadeiramente. Pois, ainda que insistisse em afirmar já tê-lo feito, enganava a si mesmo a cada vez que convencia-se ter questionado os motivos que tantas e tantas vezes o guiaram até os beijos de Orihara Izaya.

Um problema puramente perspectivo, talvez. Tão focados como estavam os olhos castanhos-mel nas nuances de seu alvo que não podiam enxergar seus próprios desvios. Continuamente a ruminar imagens de lábios encaixados, pedaços expostos de pele, toques e suspiros, não podia focar-se em nada que minimamente se desviasse deles, incluindo, inevitavelmente, em sua lista, suas próprias razões e suas próprias mentiras.

Mesmo, entretanto, dentre as mentiras que tanto acostumara-se a contar desde a primeira vez que permitiu-se começar a contá-las, nunca se iludiria a acreditar que já pensara nos motivos que levavam aquele do outro lado do beijo a continua-lo e intensifica-lo. Podia se convencer de que suas razões eram a loucura, a carência ou o instinto, mas não podia convencer-se nem por um segundo de que já refletira sobre as razões que guiavam Izaya a seus lábios.

Era vergonhoso a ele assumir tal falha a respeito de seu pior inimigo, mas desde o momento no qual recebera-o – ou talvez exatamente por tê-lo recebido –, não levara Izaya a sério. Provavelmente o mataria se o fizesse, era o que dizia a si mesmo como consolo a seu orgulho. Se o olhasse verdadeiramente, se o escutasse verdadeiramente, se o considerasse verdadeiramente. Era absurdo acreditar que colocara, ainda que relutantemente, sob sua proteção seu pior inimigo sem manter nele seus olhos bem abertos. Ele, portanto, não podia admitir que realmente houvera seriedade ao fazê-lo, não podia permitir a si mesmo, nem por um segundo, encarar lucidamente a Izaya.

Mesmo que talvez devesse, entretanto, Shizuo não culpava apenas a si mesmo. A culpa era, também, certamente, do informante. E talvez fosse o único sentimento que admitisse compartilhar com o outro. Como poderia, afinal, levar a sério um Orihara Izaya a elogiá-lo, ou a declarar gostar dele, ou a perguntar sobre relacionamentos? Levá-lo a sério significaria receber com seriedade todos os lados do novo Izaya, até mesmo o lado que agora Ikebukuro cogitava estar apaixonado por ele. Levar Izaya a sério o arrastaria, portanto, para além das considerações entre matá-lo ou deixa-lo viver. Consequentemente, para além do que Shizuo estava disposto a ir. Exatamente por não querer ir adiante, o homem mais forte de Ikebukuro estancou no meio do caminho, arrancando com um enfático aceno de suas preocupações as sugestivas palavras ou as considerações que deveriam seguirem-nas e preencheu seus lábios com um riso tão falso quanto as mentiras que contava a si mesmo, deixando-o soar tão alto quanto elas soavam em sua mente.

– Eles estão todos loucos, esses idiotas!

E se não de olhos fechados por sua gargalhada ou cego pelas negadas reflexões que a precederam, Shizuo certamente teria percebido olhos castanhos circundados por óculos a fitarem-no em um misto de preocupação e curiosidade, ou dedos finos a tamborilarem com força em joelhos trêmulos que quando em quando desviavam-se inconclusivamente em direção ao palmtop. Se não preso à tentativa de convencer-se mais uma vez com suas desculpas, Shizuo notaria como não convencera sequer os amigos.

– “Shizuo, eu já te disse uma vez... Mas... você pensou seriamente quando eu te disse que você é, agora, a única pessoa que ele tem? Mesmo que eu e Shinra estejamos aqui por el-”. – foi o que Shizuo conseguiu ler na pequena tela exibida a ele antes que ela fosse arrancada da frente de seus olhos.

As sobrancelhas franzidas pela mensagem da amiga franziram-se ainda mais ao encarar o rapaz que roubara para si o aparelho e descaradamente lia a mensagem que não lhe pertencia. Respirou fundo e encheu os pulmões com todos os xingamentos que planejava gritar a Shinra, mas inevitavelmente susteve-os ao fita-lo devolver o palmtop à noiva, apertando sutilmente os dedos dela e sorrindo de canto, acalentador.

O mesmo fôlego exigido pelo guarda-costas instantes antes foi tomado pelo médico clandestino, desfazendo rapidamente o estranho sorriso e transmutando-o em malícia.

– Mais importante que isso, Shizuo: vocês realmente estavam empolgados, né?! Pensou no que eu te disse sobre isso? – e, desviando a atenção para longe do rosto de guarda-costas ainda a oscilar em expressões, dirigiu-se à noiva – Sinto, muito, Celty querida. Eu disse que não falaria nada... mas não posso deixar Shizuo continuar sem saber no que está se metendo. – um segundo apertar nos dedos da dullahan e um olhar que, se atento o suficiente para fazê-lo, Shizuo classificaria como sério. Um sério que em nada condizia com o riso solto de quem conta uma boa piada e com o olhar divertido lançado em seguida lançado a ele – Izaya-kun é um rapaz, Shizuo! Está ciente disso, não é?

Nem confusa nem reflexiva nem indignada: a expressão do ex-barman concretizou-se como puramente raivosa ao ouvir as palavras do amigo.

– Cala a boca, Shinra, seu merda! Aparece na minha casa sem avisar e fica fal-

– Eu avisei! Avisei o Izaya-kun.

– Foda-se! Essa não é a casa da pulga maldita!

–Que rude, Shizuo! Ele ficaria magoado se ouvisse você dizendo essas coisas, principalmente depois de tudo o que peguei vocês fazendo no sofá.

– Você não viu nada, desgraç-

– Imaginação, Shizuo! Imaginação! – o médico acenou vigorosamente em direção à própria cabeça e em seguida às já acalmadas partes íntimas de Shizuo. O guarda-costas estreitou os olhos, relutante em aceitar que Shinra sugeria usar sua imaginação para tais fins – Por sinal, Shizuo, talvez imaginação seja exatamente o que você precisa agora! Espero que não. De verdade. Mas seria problemático se você tivesse algum problema com sua capacidade imaginativa ou de antecipação.

– O que caralho, Shinr-?

– Um pênis, Shizuo. É isso que tem debaixo das calças do Izaya-kun. Preciso que entenda, ok?!

– O qu-? De novo essa merda, Shinra?! Que caralho! Vai se foder! Eu sei que merda a pulga tem no meio das pernas, retardado! Não sou idiota! – o ex-barman não acreditava que era obrigado mais uma vez a travar com o médico clandestino aquela mesma conversa. Diferente da primeira vez, entretanto, na qual o franzimento de suas sobrancelhas tinha inegável influência da confusão, agora Heiwajima Shizuo estava puramente irritado pela insistência de Shinra.

Fitou-o demoradamente, dedicando a ele tanta atenção quanto sua fúria permitia, buscando nele qualquer sinal de que o único intuito de suas palavras era irritá-lo. Diferente do esperado, entretanto, não encontrou o sorriso malicioso, ou os olhos divertidos e provocativos que esperava.

– E o que te importa isso, Shinra? – perguntou, rosnando sonoramente entre dentes.

Um suspiro audível alcançou seus ouvidos antes que a resposta do médico o fizesse:

– Eu me preocupo com ele, claro. Não o quero machucado. Celty também, né, amor?

Os olhos castanhos mel abriram-se, surpresos, antes de imediatamente se estreitarem, dividindo a atenção entre o sorriso amável direcionado à dullahan e o olhar sério que revezava-se entre retribuir o olhar do guarda-costas e fitar o palmtop no colo da noiva. A reposta recebida, as reações entregues: aquilo não era, em definitivo, o que esperava Shizuo ao perguntar.

– Se preocupa tanto que se livrou dele na primeira chance! – provocou, incapaz de acompanhar Shinra e assumir também para si seriedade.

– Não nego que não o queria em casa. Mas teria aceitado se fosse isso o que ele quisesse. Ele não quis, perguntei mais de uma vez. Ele queria ficar aqui. E se é o que ele queria...

A serenidade na resposta ou o dar de ombros resignado: Shizuo nunca saberia dizer com precisão qual o irritou mais. Antes de poder conter-se, o grito escapou de sua garganta:

– Vai se foder, Shinra! Não vem pagar de... – bufou, incapaz de concluir, indignação a correr cada centímetro de seu corpo. Irritava-o como Shinra insinuava saber mais sobre sua atual situação do que ele mesmo.

– Celty também estava preocupada. E ela tem razão. Sabe? No que ela disse... Não. Não vou falar sobre isso. Não quer me ouvir falar disso, né?! Não quer ouvir de ninguém, né?! – um riso frustrado escapou por entre os lábios do médico clandestino – Só... pensa nisso... Não só... entra de cabeça sem pensar antes...

Shizuo, pela segunda vez desde que Shinra assumira o estranho ar sério, apertou os olhos e sondou-o. Suspirou fundo, entretanto, ao perceber que o amigo não oscilaria mesmo sob seu olhar raivoso. Não era, normalmente, daquela forma. Mesmo que não agisse como os outros moradores do distrito e frequentemente o direcionasse olhares atrevidos, loucos e curiosos, não era sempre que o rapaz em jaleco sustentava seu olhar como se disputasse forças. Não havia, entretanto, no olhar que Shinra mantinha nele nem atrevimento nem loucura nem curiosidade. O médico falava sério e exigia que com igual seriedade fossem encaradas suas palavras.

Shizuo poderia acreditar que o que fez o médico clandestino, por fim, ceder e abaixar o olhar fora sua inegavelmente intimidadora expressão, Shinra, entretanto, a rir-lhe suave o mesmo sorriso acalentador que entregara a Celty instantes antes, não o permitia acreditar que fora, verdadeiramente, ele a vencer a disputa. Não teve tempo, entretanto, para pensar em jogos ou derrotas antes que o sorriso cálido transformasse-se em mordaz, o mordaz que tanto mais combinava com a loucura que atribuía ao amigo de infância.

– Ops, esse foi um trocadilho agora, né?! Entrar de cabeça... hehehehe... pensa antes de se enfiar até o talo no problema, hein, Shizuo?! Hehehehehe... Oi, desculpa, Celty! Esqueci que você estav-... Eu só estava aconselhando o Shizuo. Nada demais. Ai, ai, Celty, querida, isso dói de verdade. Socorro, Shizuo!

Bufou, encarando o amigo, dividido entre intrigar-se com sua súbita mudança de atitude ou aproveitar-se dela para fugir do assunto que não lhe agradava. A escolha, entretanto, não fez-se necessária. A aura relaxada de Celty, tão diferente da anteriormente preocupada, afetou também a ele. Parte dele sabia que tão despreocupada expressão era desencadeada pela concordância de Celty com as declarações que Shinra vomitara sobre ele, não era, entretanto, difícil ignorar tal parte quando assistia a amiga afrouxar o aperto no palmtop e parar de balançar as pernas.

– A propósito, Shizuo. Cadê Izaya? Você disse que ele foi tomar banho, né? Mas isso já faz um tempão...

Inspirou fundo, instintivamente procurando pelo cheiro do informante.

– No quarto, provavelmente. Aquela pulga...

– Que rude, Izaya-kun! – Shinra gritou, levantando-se do sofá e caminhando em direção ao corredor – Nem veio cumprimentar a mim e à minha bela Celty!

– Hey, idiota! Não vai entrando assim na casa dos outros! – rosnou ao amigo, que pareceu intensificar ainda mais a velocidade de seus passos ao ouvi-lo – Oe, Shinra!

Impulsionou-se em um só pulo para fora de sua poltrona favorita, pronto a seguir Shinra e evitar ter seu quarto tomado pelo que mentalmente chamava de “reunião de idiotas”, mal cruzara sua pequena sala-de-estar-corredor, entretanto, quando sentiu dedos frios fecharem-se ao redor de seu pulso, impedindo-o de deixar o cômodo. Teria, certamente, se irritado, não tivesse certeza quanto a quem impedia seu avanço. Ainda se sentia mal por tê-la feito preocupar-se, tentou, portanto, seu melhor sorriso ao virar-se para encarar a tela a ser-lhe estendida.

– “Shizuo... Já disse antes, mas... se você precisar conversar pode contar comigo, tudo bem?! Eu também não entendo muito bem disso que todo mundo em Ikebukuro está falando... Mas a gente pode tentar descobrir junto e tenho certeza que a gente vai conseguir entender, tá?! Você não precisa pensar em tudo sozinho... Mesmo o bobão do Shinra. Ele se preocupa com você também...”

Seu forçado melhor sorriso gradativamente perdeu seu caráter falso. O “relaxa, Celty”, escapado baixinho de seus lábios carregava todos os agradecimentos que gostaria de poder dizer. Mesmo que não os dissesse, contudo, sabia que a amiga os entenderia.

Os passos até o quarto soarem bem mais leves do esperado do homem mais forte de Ikebukuro, e, quando cruzou a soleira e pôs-se dentro do quarto, Shizuo estava mais calmo do que se esperava de um homem que acabara de ter seu sagrado espaço pessoal invadido não apenas por uma, mas por duas pessoas.

Por conta das luzes acesas de sua sala, Shizuo não percebera o quanto a noite já avançara. Em seu quarto, entretanto, a escuridão insinuava-se em restrições.

Piscou pesado algumas vezes, buscando nas janelas expostas pelas cortinas abertas um pouco de luz. Alguns passos em direção ao vidro foi o suficiente para que percebesse que que a noite trouxera junto a si também a chuva. Mais suave do que a de fim de tarde, mas inegavelmente presente.

Gradativamente, a luz dos poucos postes de iluminação do lado oposto da rua trouxeram suficiente iluminação para que reconhecesse a figura encolhida em meio a seus cobertores e o parado rapaz, em pé, ao lado da cama.

– Hey, Shinr- – começou, mas foi interrompido por um baixinho “Shiiii” e um acenar captado pelos seus olhos já mais acostumados à escuridão.

Bufou sonoramente pela repreensão antes de perceber que Izaya dormia profundamente, o sono velado por um Shinra a ostentar a expressão mais surpresa que já vira ocupar o rosto jovem.

Assistiu o médico deslizar os dedos pelo que julgava a confusão de cabelos e travesseiro que Izaya sempre fazia ao dormir e mudou a distribuição do peso do corpo nas pernas para conter o desejo de arrastá-lo para longe de seu quarto. Recebeu um sorriso que não hesitou em julgar encantado e torceu o cenho em retribuição, gesticulando com a cabeça em direção à porta, num claro convite à retirada.

Apoiou-se na porta para dar passagem a Shinra e a fechou ao sair, deixando para trás apenas o rapaz a dormir.

– Ele está dormindo, Shizuo! – exclamou Shinra tão logo alcançou o corredor, lançando ao guarda-costas um olhar que não deixava dúvidas quanto à surpresa.

– Tá. E?

– Ele sempre dorme assim?

O ex-barman franziu as sobrancelhas. Não entendia o que insinuava Shinra ao fazer aquela espécie de pergunta. Ao que, exatamente, referia-se o médico ao definir o sono de Izaya com “assim”? “Com a cabeça enfiada pra caramba no travesseiro e espalhando pulguice por ai? Sim, é sempre assim”, seria sua resposta, sem hesitações. Calou-se, entretanto, a espera do que lhe diria o rapaz que encarava com evidente encantamento a porta fechada de seu quarto. Sua espera, entretanto, estendeu-se até o momento no qual mais uma vez sentaram-se no sofá.

– Sabe... – começou o médico, fitando a expressão confusa do guarda-costas – Ele não dormia assim em casa. Sabe? Quando ele ficou lá, naquela semana logo depois que apareceu aqui machucado. Ele não dormia assim, direto, pesado. Ele nem percebeu quando toquei nele agora, nem se mexeu. – acenou em direção a Celty, como se esperasse confirmação de suas afirmações, antes de continuar – Mais de uma vez, quando por algum motivo acordava a noite ou tinha que ficar até mais tarde acordad-, enfim... mais de uma vez naquela semana eu o peguei acordado durante a madrugada... E, às vezes, em umas manhãs, parecia nem ter dormido... Mas aqui... Ele estava dormindo tão pesado, Shizuo. É sempre assim?

Shizuo sondou rapidamente sua memória antes de acenar positivamente com a cabeça. Não tinha absoluta certeza de sua resposta, mas, ao menos nos últimos dias, Izaya parecia dormir perfeitamente bem. Sempre ia para cama primeiro, enquanto ele ainda tomava banho, no que julgava uma tentativa ridícula de não ser expulso. Acordava sempre primeiro, também, mas parecia bem-disposto.

– Que bom, né, Shizuo?!

O sorriso de Shinra o desconcertou. Não mentira quando dissera duvidar da suposta preocupação do médico em relação a Izaya, ao fitar, porém, a expressão leve e aliviada no rosto do outro, oscilou em sua interpretação sobre a ligação que unia o rapaz a sua frente e o rapaz em seus lençóis.

– Sim – sussurrou apenas parar quebrar o constrangedor silêncio instaurado pelo sorriso de Shinra.

Os trinta minutos que antecederam a saída de ambos os ocupantes de seu pequeno sofá foram plenamente preenchidos por conversas triviais que quando em quando, talvez por algum propósito falsamente secreto de Kishitani Shinra, esbarravam em comentários sobre confiança. Shizuo, verdadeiramente, não precisava que o amigo o fizesse, não precisava de dica alguma ou indireta alguma para entender o que tão forçadamente era insinuado. Ele entendia que tanto Celty quanto Shinra o alertavam sobre a inegável confiança que tinha nele o rapaz que se enfiava entre seus lençóis para um sono profundo. Confiança absurda, injustificada, não-merecida por nenhum dos dois lados.

Shizuo sabia que não merecia confiança tanto quanto sabia que Izaya não merecia alguém em quem confiar. O informante não deveria tão simplesmente baixar sua guarda e cerrar seus olhos diante dele, mas ele, definitivamente, não devia tê-lo permitido fazer.

Mesmo que como um conjunto de erros dos dois dos mais perigosos homens de Ikebukuro, entretanto, os olhos castanho-avermelhados permaneceram fechados enquanto Shizuo invadia o quarto mais sonoramente do que devia em busca de uma troca de roupas, permaneceram fechados nas imagens durante seu banho, e permaneceram fechados enquanto o guarda-costas enfiava-se debaixo de seus cobertores, e, protegido não só dos castanho-avermelhados mas de todos os outros que tanto o seguiram naquele dia, traçou com mais delicadeza do que era dele esperado a linha das sobrancelhas negras finas e dos cílios de tamanho médico, incomodando os olhos fechados que tanto incomodariam seus sonhos nas horas seguintes.

Dois apitos baixinhos. Bastante baixinhos, sequer perturbariam seu sono se não estivesse já prestes a acordar, inexoravelmente aproximando-se do horário marcado em seu despertador. Sua mão alcançou o criado-mudo antes que os olhos castanhos mel se abrissem, mesmo abertos, entretanto, embriagados pela claridade da manhã, em nada ajudaram na busca pelo pequeno aparelho celular responsável pelos assovios, pego às cegas por pesados e preguiçosos dedos.

Piscou algumas vezes antes de finalmente conseguir reconhecer na tela o que causara os diminutos sons. Duas mensagens. Abriu-as mecanicamente, sem qualquer reflexão sobre sua procedência e surpreendeu-se ao encontrar como remente o nome de seu empregador e amigo.

“Shizuo, espero não ter te acordado. Tive algumas problemas com meu apartamento, um cano estourou. Já falei na agência e nos deram a manhã de folga.”

“Começaremos hoje depois do almoço, tudo bem?”

Suspirou pesado, cansado. Os pequenos dígitos no canto superior direito de seu aparelho indicavam que pouco se passara das seis horas. Um bocejo curto foi o que precisou para convencer-se de que daria a si mesmo algum tempo a mais de sono, mesmo que aquela fosse uma segunda-feira e mesmo que, provavelmente, seu parâmetro de comparação para deveres e direitos – Heiwajima Kasuka – já estivesse acordado.

Ensaiou em sua cabeça algumas respostas a Tom antes de optar por um sucinto “ok” e devolver ao criado-mudo seu celular já com o alarme desativado.

Deslizou satisfeito as pernas contra os lençóis macios ao espreguiçar-se e afundou-se pesadamente nos cobertores. Um segundo bocejo foi contido pelo medo de deixar escapar o sono. Os olhos castanhos-mel, entretanto, mantiveram-se abertos enquanto o homem mais forte de Ikebukuro virava-se em busca de mais confortável posição para voltar a dormir. Se fechados, teriam espelhado os olhos da outra margem da cama de casal. Abertos, contudo, abriram-se ainda mais, atingindo os limites de abertura e perdendo o momento no qual poderiam voltar a fechar-se.

O grito manteve-se preso na garganta, mesmo que os lábios separados denunciassem que por pouco.

Piscou repetidas vezes, a estranha sensação de familiaridade invadindo-o em arrepios gelados e, inconscientemente, atraindo uma de suas mãos até o rosto tranquilamente adormecido a sua frente. Não o tocou, deixando que a os dedos despencassem com um baque surdo no travesseiro que cobria-se por uma confusão de fios negros. Ali perdidos, deixou que se enroscassem em uma mecha, apertando-a de leve antes de soltá-la. Diferente de seu toque, entretanto, seus olhos, excessivamente abertos, não puderam manter-se longe da expressão calma, sorvendo surpresos o sono profundo de Orihara Izaya.

As palavras de Shinra inevitavelmente invadiram sua mente e, silenciosamente, deu razão à comoção do médico clandestino quanto a tranquilidade de Izaya. Havia algo, sem dúvidas, de embriagador nos lábios entreabertos, na respiração leve, no tremor sutil das pálpebras, nos cabelos desgrenhados... Algo que merecia ir além do infundado “sim” entregue como resposta à indagação de Shinra sobre o sono de Izaya. Algo diferente, algo que prendia olhos como reféns.

Era aquela a expressão que encontraria na primeira noite que dormiram juntos, quando Izaya invadiu sua cama, se não tivesse transformado-se em gritos? Era aquela a expressão que encontraria se Izaya não despertasse antes dele todos os dias? Era a expressão que encontraria caso não descobrisse todos os dias o café-da-manhã já servido ao acordar?

“Você não tem o direito de dormir assim tão calmo, pulga.”

Com ou sem direitos, entretanto, os olhos castanho-avermelhados permaneciam cerrados, tranquilos como apenas os olhos dos justos deveriam permanecer.

E talvez – talvez – fosse porque já conheciam o caminho, porque já antes haviam-se perdidos ali, mas não houve hesitação na forma como os dedos do homem mais forte de Ikebukuro alcançaram finalmente o rosto de Izaya, traçando num toque tão suave que quase parecia flutuar a linha marcada do maxilar. Toque que, por forçar-se tão leve, fazia-se desengonçado, ora tocando demasiadamente, ora sem tocar sequer milímetro. Toque que só tornou-se seguro ao afundar-se nos cabelos negros e, implacavelmente, ao arrastar como que preso por linhas invisíveis o corpo de Shizuo em direção ao rapaz adormecido.

– Droga, Izaya.

Os dedos deslizavam pesados pelos cabelos negros, não ganhavam, entretanto, atenção alguma do homem que inclinava-se em direção ao sono e velava-o em carinhos, a ponta do nariz a encontrar a bochecha direita ou a orelha gelada ou o início dos fios negros que cheiravam a seu próprio shampoo.

E talvez se não perdido nos próprios carinhos, Shizuo notaria o momento no qual um pequeno resmungos escapou dos lábios do rapaz adormecido. Ou o momento no qual o sono deu lugar a tensão que congelou o corpo abaixo do seu. Distraído como estava, o guarda-costas só notou que seus carinhos eram recebidos por um Izaya acordado quando eles foram retribuídos, as pontas dos dedos longos e cobertos de cicatrizes afundando-se em seus cabelos.

– Bom dia, Shizu-chan. – a voz rouca soou colada a sua orelha, preguiçosa, e progressivamente transformou-se pequenos risinhos – Se eu soubesse que era assim que seria acordado, dormiria sempre um pouco mais. Tão quentinho~ – cantou, a voz baixinha e divertida – Que horas são? Faz tempo que acordou?

A negação, feita com o rosto agora enfiado em meio aos cabelos negros, espalhou bagunça entre os dois homens na cama e arrancou novos risos de Izaya, mais altos. Shizuo riria, também, inexoravelmente contagiado primeiro pelo sono leve depois pelo riso leve do outro, mas permaneceu com o rosto escondido, a respiração pesada e as bochechas que tinha certeza agora coradas em vergonha.

Ele não podia dizer o que esperava ao aproximar-se de Izaya daquela forma. Podia, contudo, dizer o que não esperava. Podia afirmar, portanto, que não esperava que Izaya acordasse em meio a seus carinhos, não esperava que os retribuísse e não esperava que sorrisse como se o que quer que existisse entre eles fosse normal e suave daquela forma. Mesmo que não esperasse, entretanto, recebia sem restrições um Orihara Izaya perfeitamente acordado com ambas as mãos enroscadas nele e sorrindo – agora provavelmente de seu notável constrangimento – como se manhãs de segunda-feira sempre fossem preenchidas por carinhos divertidos na cama.

– Isso significa que não faz tempo que acordou, Shizu-chan? – o novo aceno discreto arrancou mais um risinho de Izaya – É cedo ainda? Por que acordou antes de mim? Não vai trabalhar? Sim, sim, Shizu-chan, tá bastante quentinho e gostoso aqui, mas você precisa olhar pra mim e não só chacoalhar a cabeça se quiser que eu te entenda.

Um beijo desajeitado na bochecha foi que ganhou ao afastar-se com uma carranca no rosto. Seguido de um novo riso ao afirmar que “não conseguia respirar direito com o cheiro insuportável de pulga”.

Talvez as mãos espalmadas em seu peito esperavam que o fizesse, mas Shizuo não deitou-se novamente, sentando-se, ao invés disso, rigidamente no canto da cama, ambos os pés no chão e as mãos numa enfática tentativa de coçar para longe dos olhos o sono.

– Vai levantar?

O bufar alto e o intenso farfalhar nos cobertores quase arrancou dos lábios que nunca sorriam pela manhã um sorriso. Sentia um prazer quase infantil ao ignorar as perguntas de Izaya. De toda forma, já de pé e a dirigir-se a seu banheiro, tinha certeza de que o informante não precisava mais de resposta alguma. Um segundo bufar, ainda mais alto que o primeiro, foi a última coisa que ouviu ao fechar a porta às suas costas e lançar um olhar repreendedor às próprias calças. “Ereção matinal”, declarou em sua cabeça, jurando a si mesmo que seria apenas esta a razão a tornar o processo de urinar verdadeiramente complicado. E, por menos sentido que fizesse, culpou também algum estranho processo que ocorresse a seu corpo durante as manhãs a forma como arrumou com as mãos úmidas os cabelos diante do espelho e pescou do armarinho branco fixo à parede sua escova de dentes. Antes, entretanto, que pudesse dar início ao que normalmente faria apenas após o café da manhã, a porta às suas costas abriu-se.

– Ué.

Encarou raivoso Izaya através do pequeno espelho de seu armário de banheiro e gesticulou com a mão livre.

– Sai pulga, caralho, não terminei ainda.

– Vai escovar os dentes, Shizu-chan? Mas só faz isso depois do café...

– Quê? Como sab-? Pulga, tá cedo, não enche. Sai.

O baque oco da porta ao fechar-se não abafou por completo o prolongado e baixinho “hm” de Izaya, responsável por tornar a escovação de Shizuo uma atividade bem mais bruta do que normalmente seria. Irritava-o as insinuações de Izaya e irritava-o como Izaya provavelmente estava certo ao fazê-las. Repreendeu-se. Verdadeiramente repreendeu-se, mas repreensão alguma impediu que escovasse a língua com dedicação.

“Droga, Izaya”, pensou ao abrir a porta do banheiro.

“Droga, Izaya”, pensou ao encontrar o sorriso do outro a espera-lo do outro lado da porta.

“Droga, Izaya”, pensou ao encontrar em tal sorriso tanto da malícia que encontrava nos sorrisos do informante que há anos odiava.

“Droga, Izaya”, pensou ao colar seus lábios contra o sorriso e obriga-lo a desfazer-se.

“Droga, Izaya”, repetiu ao encaixar ambas as mãos na cintura atipicamente delineada e empurrá-la em direção à porta fechada.

“Droga, Izaya”, pensou uma última vez ao ouvir um gemido abafado de surpresa.

Ao invadir com a língua os lábios entreabertos, entretanto, tudo em sua mente tornou-se silêncio. Silêncio que ecoava cada estalo de seus novos beijos. Silêncio que ecoava o arranhar sutil do corpo de Izaya a ser pressionado contra a madeira fria. Silêncio que ecoava as respirações profundas. Silêncio que Shizuo nunca quebraria por si mesmo.

– Eu não... Eu não escovei os dentes, Shizu-chan.

Um riso nasal substituiu o desgosto pelo afastamento, obrigando-o a depositar mais um beijo, rápido, nos lábios de Izaya.

– Não me importo. – e ele não se importava. Verdadeiramente não. Aquela não era uma das já inúmeras mentiras que contava só para poder beijar novamente o rapaz a sua frente. Mas a contaria, se precisasse. – Ontem tinha gosto de café. – deslizou ambas as mãos até o queixo, certificando-se de que manteria Izaya ao alcance de seu sopro – Odeio café.

Cortou com os lábios o riso que receberia, roubando o fôlego de Izaya e firmando mais uma vez os dedos no contorno da mandíbula para garantir que não teria mais beijos interrompidos.

– Que gosto tenho q-?

– Cala a boca, Izaya. – um bico emburrado a barrar sua língua obrigou-o a estalar os lábios contrariado e completar – Não importa. Sempre tem gosto de pulga.

– Isso era para ser um elogio?

– Não.

Mesmo que não fosse um elogio, contudo, Izaya riu como se fosse antes de buscar novamente por seus lábios num beijo que não se importava com sabores. Quase, quase, como se orgulhasse de suas nuances ou quase, quase, como se tentasse roubar as nuances dele. As mãos que espalmavam-se no peito do homem mais forte de Ikebukuro escorregaram decididas até os fios descoloridos e embrenharam-se neles até perderem-se. Perdidas como também estavam as mãos de Shizuo dentro de sua camisa do pijama que cobria em excesso o informante.

– Esper- espera, Shizu-chan... Preciso ir ao banheiro. – a voz fraca, a respiração descompassada, os lábios avermelhados e úmidos, o claramente indesejado afastamento, a oferta sutil do pescoço no lugar dos lábios, nada, absolutamente nada em Izaya parecia pedir pra que verdadeiramente se afastasse.

– Não precisa. – retrucou, sério, prensando mais uma vez o corpo menor contra a porta e cravando de bom grado os dentes na pele alva ao fim da gola do pijama escuro.

– Se continuar, hm, me apertando assim não vou mesmo mais precisar, Shizu-chan.

Apenas ao ouvir um risinho baixo que provavelmente em nada tinha a ver com a trilha de beijos que entregava ao pescoço de Izaya entendeu o que insinuava o informante. Suspirou fundo antes de afastar-se, sem, entretanto, quebrar de todo o contado, ambas as mãos ainda presas à pele macia por baixo do tecido.

– Sério?

– Seríssimo. Preciso fazer xi-.

– Não precisa me dizer o que vai fazer. – resmungou, uma clara careta de nojo.

– Preciso sim, você precisa saber que isso que tá pressionando com o quadril é minha bexiga.

Apertou os olhos em direção ao sorriso aberto antes de afastar-se totalmente e bufar.

– Você é um merda, Izaya. – rosnou, frustrado.

Os pulmões encheram-se e esvaziaram-se três vezes, os ombros movendo-se sinuosamente em sincronia, antes que desviasse os olhos castanhos-mel do sorriso brilhante de Izaya e girasse os calcanhares em direção ao quarto. Os passos que o distanciavam do informante não eram, sem dúvidas, os passos do homem mais forte do distrito, mesmo que exigissem dele bem mais força do que exigiam quando ele agia de acordo com seu epíteto. Soco algum já exigira algum dia dele o poder que precisava para agora manter calmas as mãos trêmulas.

– Você vai me esperar, né?

Não precisou virar-se para saber que Izaya já não mais sorria. Era absurdo pensar no informante como dono de tais capacidades, mas ele tinha quase certeza de que Izaya sabia que planejava trocar suas roupas e deixar o apartamento. Ele tinha certeza de que Izaya sabia que se não fossem as suas roupas agora a deixarem seu corpo seriam as dele quando voltasse ao quarto. E, se convencesse a si mesmo de que Izaya sabia de tudo, que sabia de suas tentativas frustradas em negar seu crescente desejo, que sabia que desejava mais de seus beijos, mais de seu corpo, mais de suas respirações descompassadas e suspiros prolongados... se convencesse a si mesmo de que Izaya sabia de absolutamente tudo, poderia agarrá-lo e senti-lo corresponder aos seus toques sem precisar pensar em quais seriam as consequências. Se culpasse também ao homem que separava os lábios para sua língua e enroscava os dedos em seus cabelos e mandava-o esperar por ele, poderia ignorar sem culpa as preocupações de Celty e Shinra. Poderia ignorar até mesmo as próprias preocupações, culpando os olhos avermelhados, os cabelos negros, o sorriso aberto, a pele marcada por cicatrizes por sua insensatez.

E ele esperaria. Daria tempo. Daria tanto tempo quanto necessário enquanto fingia não fazê-lo. Abriria o armário com lentidão, fingindo incômodo com o ranger da porta. Escolheria demoradamente entre as roupas iguais. Trocaria combinações entre as gravatas de mesma cor e formato. Elegeria o sapato mais lustroso entre os que não traziam brilho. Tiraria a camisa do pijama primeiro pelos braços e fingiria perder-se na abertura do cinto que sua calça sequer trazia. Daria tempo para que Izaya chegasse e, assim, não lhe sobrasse mais tempo para correr dele.

Quando chegou, Izaya cheirava a sabonete e a pasta de dente – talvez sua própria forma de ganhar tempo – e, Shizuo considerou em sua loucura, trouxe consigo todo o tempo que ambos desperdiçaram.

E Shizuo culpou-o, culpou-o ciente de que assumiria a culpa caso Izaya também o quisesse culpar. Culpou-o pela forma com suas mãos arrancaram a camisa do pijama antes mesmo de provarem nos lábios arfantes o gosto de menta. Culpou-o pelos passos apressados em direção à cama e culpou-o pelos gemidos a escaparem de ambos quando prensaram-se juntos nos lençóis já bagunçados. Culpou-o pela pele quente de banho ao marca-la com os dentes e culpou-o pelo cheiro de sabonete ao correr lentamente a ponta do nariz da linha do maxilar até a linha da roupa íntima. Culpou-o pelos pelos arrepiados e culpou-o por cada cicatriz que contornava com a língua. Culpou-o quando afastou-se para olhá-lo nu e culpou-o pelos suspiros perdidos ao fazê-lo.

A culpa, entretanto, toda ela, a que pertencia a ele e a que relegava a Izaya, extinguiu-se no segundo olhar. Não havia lugar para culpa nos poucos centímetros que separavam seu próprio corpo do de Izaya, eles estavam, afinal, plenamente preenchidos pela malícia no sorriso preso nos lábios avermelhados pelo desejo.

Izaya sorria para ele como sorria quando escapava de seu socos, como quando vestia seu usual casaco negro e espalhava seu cheiro ao correr pelo distrito. Agora, entretanto, ao tornar-se o rapaz nu espalhado em seus lençóis, o sorriso não escapava-lhe, permanecendo quieto e direcionado a ele. E Shizuo, como sempre, o odiava. Odiava cada dente a expor-se e odiava cada curva dos lábios finos. Odiava a cor e odiava como as bochechas se levantavam e odiava como os olhos se fechavam sutilmente. Odiava-o por completo.

Odiando-o, arrancou-o dele. Forçando-o a ceder lugar para, então sim, expressões que Shizuo aceitava no rosto de seu pior inimigo. Os dentes brancos a darem lugar a lábios entreabertos e a expressão maliciosa de quem tem absolutamente tudo sob controle a dar lugar a sobrancelhas franzidas em rendição. E Shizuo iria longe, ultrapassando seus próprios limites, só para poder manter esta expressão no rosto de Orihara Izaya. Tocando-o, sondando-o, pressionando-o de tal forma intensa que, por fim, a perdeu, assistindo o informante jogar a cabeça contra o travesseiro e contorcer-se, escondendo de seus olhos atentos as expressões que trazia. E ele sorriu, o exato sorriso malicioso de todos os dentes que tanto lutara para arrancar do outro, ao fitar o pescoço evidente, os cabelos negros grudados em suor, os nós dos dedos brancos presos ao lençol. E, então longe do foco dos olhos castanho-avermelhados e livre da prisão das expressões de prazer de Izaya, podia escolher por si mesmo seu foco. Alargando seu sorrido, elegeu o corpo a sua frente.

Já o havia visto nu. Não só uma vez. Conhecia a cicatriz larga e evidente na linha das costelas, conhecia também a menor na coxa esquerda, conhecia as linhas brancas e finas de cortes antigos no início do quadril. Conhecia a palidez. Conhecia a trilha de pelos negros que caminhava do umbigo até espalhar-se pela virilha. Conhecia os mamilos pequenos. Conhecia a diminuta curva que formava-se na cintura. Conhecia-o por completo. Não conhecia, entretanto, o corpo de Izaya ao ser tocado pelo dele. Não conhecia a cicatriz que tornava-se rubra como se ferida novamente, não conhecia o vermelho que espalhava-se do pescoço até o centro do peito, não conhecia os pelos eriçados pelo prazer, não conhecia os mamilos úmidos por sua saliva, não conhecia a cintura marcada por seus dedos e não conhecia o pequeno rastro pegajoso que eroticamente unia o pênis ereto aos pelos negros da virilha.

Izaya era, diante de seus olhos arregalados e lábios entreabertos, absolutamente lindo.

– Droga, Izaya.

O rosnado baixinho arrancou um riso, também baixinho, de Izaya e certamente também traria a ele os olhos castanho-avermelhados se não levasse uma das mãos aos fios negros e forçasse o informante a expor ainda mais aos seus dentes o pescoço agora avermelhado. No lugar dos risinhos, o arfar difícil fez-se ouvir. Arfar que intensificava-se a cada novo pedaço de pele descoberto por sua língua ou dentes. E Shizuo provou-o novamente. Sem sabor algum de café ou pasta de dente. Cada centímetro a revelar um arfar novo, cada arfar a tornar-se ainda mais difícil a cada centímetro descoberto. E então um gemido, alto, daqueles que ele certamente não atribuiria a ninguém que não o informante mais perigoso de Ikebukuro, ao alcançar um dos mamilos.

“Izaya não é uma garota, Shizuo”, ecoou em sua cabeça a voz de Shinra, como se apenas para fazê-lo perceber-se que não se importava. Ainda se lembrava da última vez que tivera em sua língua mamilos endurecidos de prazer – mamilos que pertenciam a seios –, mas não lembrava-se de nenhuma vez na qual tivera em seus lábios alguém que gemesse para ele daquela forma. Não lembrava-se de vez alguma ter a agarrar seus cabelos alguém com força o suficiente para arrancá-los.

Sorriu entredentes, sentindo com deleite arrepios correrem o corpo de Izaya. Divertia-se com a clara indecisão das mãos em seus fios descoloridos, ora a apertá-lo contra o colo ora a empurrá-lo para longe dele. Sorriu mais uma vez, capturando em seguida pela última vez um dos rijos bicos antes de tomar por ele mesmo a decisão que Izaya não era capaz de tomar.

A trilha de macios fios negros marcava exatamente o caminho que seguiria. Saber o exato caminho, entretanto, não obrigava-o a segui-lo em linha reta, sem desvios e sem demoras. Livre como só aqueles que conhecem o destino final são, Shizuo demorou-se a arrancar com pequenos sopros e mordidas novos gemidos de Izaya.

“Izaya é um rapaz, Shizuo”, ecoou mais uma vez a voz de Shinra e Shizuo quase sorriu diante da desnecessária afirmação. Com o rosto tão próximo ao baixo ventre, não havia dúvidas de que, por mais que insistisse em dizer que era apenas como pulga, Izaya cheirava como um homem. Os abundantes pelos negros nos quais afundava seus dedos não o deixariam negar. Sorriu em antecipação.

“Homens tem pênis, Shizuo”, o eco da voz de Shinra em sua mente foi quase plenamente abafado pelo ofego alto, gutural, que escapou dos lábios de Izaya quando deslizou o dedo médio e indicador pela circunferência da glande. A sombra do sorriso transformou-se em som, um riso abafado sobrepondo-se aos gemidos que demoravam-se para além das carícias.

– Você não é uma garota, Izaya.

O gemido cortou-se pela metade, a carícia a estender-se pela extensão do pênis em riste encontrou apenas silêncio. Silêncio prolongado, desconfortável. Silêncio que despregou os olhos castanhos-avelã do baixo ventre e arrastou-os contrariados para o rosto que até pouco contorcia-se de prazer.

Arregalados como nunca antes foi como encontrou os olhos castanho-avermelhados, fitando-o grandes, surpresos. Progressivamente, entretanto, Shizuo assistiu surpresa transformar-se em expressão conhecida de longa data. E, então, abertos ao máximo, o guarda-costas viu fixos neles olhos repletos de ódio. Ódio crescente, grande como nunca antes havia recebido.

Confuso, assistiu as pernas de Izaya jogarem-se em sua direção e recebeu o chute sem impedimentos. Adiantou-se a segurá-las, não para impedi-las de acertá-lo novamente, mas para impedi-las de taparem a expressão que ainda confuso assistia tomar o rosto do rapaz que há pouco gemia sob seus dedos. Recuou, soltando-as, entretanto, ao ver que ambas as mãos de Izaya rumavam a seus próprios quadris, reflexo de anos acostumado a desviar de lâminas quando os dedos longos e cobertos de cicatrizes tomavam aquela caminho. Longe de lâminas, entretanto, as mãos do informante mais perigoso de Ikebukuro limitaram-se a taparem seu sexo.

Com o sexo tapado e os ombros caídos, os olhos castanho-avermelhados pareceram perder o ódio que refletiam para a mágoa. Os lábios ainda rubros de beijos abriram-se algumas vezes, como se quisessem dizer algo, apenas para fecharem-se em seguida.

O homem mais forte de Ikebukuro fez menção de mover-se, confuso, ao ver Izaya levantar-se e buscar pelo quarto o que percebeu serem roupas.

– Toca em mim de novo e eu acabo com você.

A ameaça, baixa e arfante ao mesmo tempo em que quebrada e hesitante, estancou-o, obrigando-o a assistir quieto enquanto Izaya deixava o quarto, um baque desnecessariamente forte ao fechar a porta.

Notas finais
Oi, gente, ^^ tudo certo até aqui? Primeira informação relevante (ou não): no meu computador, este capítulo está nomeado como "xablau". Rs! Segunda informação relevante (essa sim é!): Não conseguirei postar mais uma vez durante o período de recesso. O próximo capítulo será, consequentemente, postado em 2016. E, uau, isso significa que é a última vez que falo com vocês este ano... E, portanto, esta é minha última chance em 2015 de agradecer mais uma vez por todo o apoio que recebi ao longo da história. Vocês foram incríveis, de verdade! O apoio, o carinho, os comentários, os favoritos... não sei direito como eu devo agradecer a tudo o que fizeram por mim... Foi tudo lindo! Não costumo participar de ritos de passagens de fim de ano, mas, se posso aqui abrir uma exceção e fazer um desejo, desejo que vocês estejam aqui comigo ano que vem tbm! Obrigada pelo apoio e espero que tenham se divertido com a história tanto quanto eu me diverti! *.* Terceira informação relevante (“relevância” é um conceito abstrato, né?!): como não tenho habilidade alguma com desenho (rs!), rodei a internet atrás de um presente de Natal pros leitores mais lindos do site e encontrei o seguinte vídeo com a representação perfeita de Shizuo e Izaya dormindo juntos: https://www.facebook.com/nova937/videos/905648099489928/?theater Feliz Natal, gente!