(in) esquecível

22 Sobre como você podia se ferir mesmo sem máquinas de venda automática voadoras


Notas iniciais
Olá, olá, gente, *.* Feliz Natal e Feliz Ano Novo atrasados!!! Espero que a passagem de ano de vocês tenha sido incrível e que 2016 seja um ano maravilhoso! *.* E que emoção de estar aqui mais um ano com vocês! ^^ Obrigada por estarem lendo! Tenho centenas de coisas para dizer aqui porque estou empolgada em estar falando com vocês pela primeira vez no ano, mas vou deixar tudo para as notas finais, tudo bem?! Assim não fico segurando ninguém aqui... rs! Obrigada, mais uma vez, a quem leu e a quem comentou o capítulo anterior, a quem quis me matar (ou ao Shizuo) por ele e a quem não quis, ♥ Vocês são uns amores (mesmo quando mostram tendências homicidas *.*) nos vemos nas notas finais? Espero que gostem do capítulo, beijo, beijo, =* Yuki



Sobre como você podia se ferir mesmo sem máquinas de venda automática voadoras

— Ele está mentindo!

O grito ecoou alto, inadequado, pelas paredes do apartamento discreta, mas belamente decorado, recusando-se a deixar-se confinar por elas e alcançando ouvidos mais distantes do que aqueles que dispunham-se, naquela noite de sexta-feira, ainda que resignadamente, a ouvi-lo. Ele não se importou, nem com seu tom rude, mais alto do que o já usualmente alto, nem com o olhar repreendedor recebido em resposta. Eram quatro os dias, afinal, – quatro dias e meio, se somasse às horas a noite que se insinuava através das amplas janelas do cômodo – suportando o grito preso em sua garganta, arranhando-a por libertação, engasgando-o, enlouquecendo-o. Mantê-lo por mais segundos além do que já mantivera, mantê-lo por tempo o suficiente para verdadeiramente adentrar a sala-de-estar e acomodar-se no sofá cinza claro apontado por seu anfitrião era impossível a ele, mesmo que carregasse o epíteto de homem mais forte.

Quatro dias e meio, quase uma semana inteira de dias úteis. Dias que certamente não poderiam ser chamados daquela forma se fosse outro que não Tanaka Tom ao seu lado, a aturar pacientemente suas tentativas frustradas de cumprir com seu trabalho e valer o dinheiro depositado em sua conta ao fim de cada mês. Metade de uma segunda, terça, quarta, quinta e sexta inteiras apenas a vagar descontrolado pelas ruas cada dia mais frias de Ikebukuro em busca desenfreada por algo que nem ao menos sabia ser. Quatro dias e pelo menos o triplo de reclamações quanto a sua conduta durante o expediente. Quatro dias e oito postes de iluminação arrancados. Quatro dias e duas lojas de conveniência parcialmente destruídas. Quatro dias e três máquinas de venda automática arruinadas. Quatro dias e 98 cigarros. Quatro dias e 12 copos de pudim. Quatro dias e 22 horas e meia de sono. Quatro dias e nenhuma – nenhuma – ligação na tentativa de encontrar a fonte de todos os números a acumularem-se em suas costas.

— Shizuo, eu entendo que “ele” é o Izaya-kun, mas isso é tudo o que entendo do que diz.

Sabia ser infundada, mas a raiva que mantivera presa em seu peito durante todo o caminho até o apartamento do médico clandestino e seu amigo de infância, Kishitani Shinra, retornou com força total a seus músculos, contraindo-os. Respirou fundo em tentativa de conter o impulso de socar algo, preenchendo ambos os pulmões com a culpa por estar, progressivamente, permitindo-se recorrer à violência para aliviar suas frustrações. Nova culpa para somar às tantas que acumulara nos dias anteriores. Nova culpa que, definitivamente, não precisava. Como alguém que se fere para distrair-se de uma dor maior, Shizuo apegou-se, portanto, não à crescente culpa, mas a outro dos sentimentos negativos que preenchiam-no o peito: o orgulho aos pedações por estar ali, naquele momento, diante de seu estranho amigo de infância, em busca de respostas que quatro dias e meio de vagar desenfreado por seu distrito mãe não lhe entregaram.

Shinra não, era, em definitivo, sua primeira opção de socorro quando precisava de ajuda. Sua primeira opção era, sem dúvida, calar-se e fingir não precisar. O que vinha depois desta primeira eram todas opções classificadas por menor grau de desagrado. Todas elas, entretanto, inegavelmente desagradáveis. Desagraváveis opção que, definitivamente, nunca trariam Shinra no topo. Se recorria a ele naquele momento, mesmo que contrariado, de passos pesados e berros ensurdecedores, era porque, ainda que por motivos que definitivamente não o agradavam – os quais incluíam duas invasões a seu apartamento e dois flagras de momentos que não deveriam ser flagrados –, o médico estava suficientemente envolvido em seus conflitos para poupar-lhe o transtorno de dispensar tempo com explicações indesejadas e detalhes desnecessários.

— Não se faça de idiota, Shinra! Eu sei que ele te procurou!

— Izaya? Izaya me procurou? Quando?

Bufou sonoramente, sondando o rosto do amigo, franzido pela dúvida. Torceu o cenho para as sobrancelhas a sumirem por trás dos aros dos óculos e para os olhos a apertarem-se, pequenos. Desviou o olhar, intensificando o vinco entre suas sobrancelhas e batendo o pé esquerdo com inquietação no piso. Era verdade que não tinha a certeza que seus gritos e rosnados tanto afirmavam ter, não podia, entretanto, ceder tão facilmente diante da confusão que poderia muito bem ser fingida.

— Não minta para mim, Shinra, maldito!

— E não estou. A última vez que vi o Izaya-kun foi na sua casa, Shizuo. No domingo. Estávamos eu e Celty. – os olhos castanhos escuros correram ao redor, nervosos, em infundada busca pela noiva. Quando voltou a falar, o tom do médico clandestino abaixara-se até quase um sussurro – Falando em Celty... ela chega logo mais, não quer esperar? Assim a gente pode conversar melhor...

Súplica, talvez desespero, um pedido silencioso por trás das palavras quase mudas. Não era difícil ao homem mais forte de Ikebukuro notar, agora que sentava-se a frente dos olhos que desviavam-se esperançosos até a porta e do tom reduzido, que seu anfitrião desejava aquela conversa tanto quanto ele mesmo a desejava.

Suas costas relaxaram involuntariamente no encosto do sofá enquanto um suspiro aliviado escapava de seus lábios ainda contraditoriamente franzidos em fúria. Não podia, entretanto, apesar da inegável enormidade de sua raiva, evitar senti-la abrandar-se ao perceber que havia entre ele e o rapaz a sua frente algum ponto de convergência, mesmo que tal ponto fosse o desconforto pela conversa que forçosamente travavam.

— É com você que quero falar. – ditou, decidido, recebendo como resposta apenas um olhar confuso que deixava claro que, dentre tudo o que Shinra esperava ouvir, aquelas palavras eram as últimas. Shizuo sabia, e sabia que Shinra também sabia, que a dullahan era muito mais apropriada a ouvi-lo e aconselhá-lo do que o rapaz em jaleco, a forma como, entretanto, a compreensão iluminou nos instantes seguintes os olhos castanhos escuros circundados por lentes denunciou que o médico, por algum motivo que fugia ao conhecimento do homem mais forte de Ikebukuro, pareceu entender o recado.

— Entendo. Mas, como eu disse, Shizuo, a última vez que vi Izaya foi domingo passado. – repetiu, desta vez sem tom algum de súplica, a voz de volta ao ritmo normal – Posso entender que o fato de você estar aqui, pressionando a mim, e não no seu apartamento, pressionando a ele, significa que ele não está mais lá? – limitou-se a acenar positivamente, controlando o impulso de pescar em seu bolso um cigarro – Então a opção mais óbvia, já que ele não está lá, é ele estar aqui, né?! Ou ao menos, ter passado por aqui. Ok, Shizuo, entendo o que está fazendo aqui... Mas – os olhos castanhos escuros sondaram-no, correndo de seus punhos contraídos até seus lábios firmemente cerrados – não entendo o que ele estaria fazendo aqui.

— Ele está mentindo, Shinra! Por isso! Mentiu o tempo todo! – o grito irrompeu de sua garganta, furioso, pouco condizente com calma no rapaz a sua frente ou mesmo com o tópico levantado por ele. E Shizuo teria se envergonhado pelo tom, pelo descontrole, verdadeiramente o teria, se não estivesse de tal forma submerso nele.

O médico piscou alguma vezes, confuso, torcendo o cenho em evidente esforço por entender as incongruências que o homem mais forte de Ikebukuro berrava. Mordeu os lábios como se prendesse um sorriso antes de decidir, por fim, pronunciar-se:

— Ah, por favor, Shizuo. Não pra cima de mim... Se realmente tivesse essa certeza toda de que ele está mentindo não é sentado no meu sofá que você estaria agora. A estação fica pertinho daqui e é um pulo até Shinjuku.

Os olhos castanhos mel arregalaram-se até os limites enquanto ouvia o médico casualmente sentado à sua frente dizer-lhe justo o que não queria ouvir, sentenciando-o como se nada fosse. E odiou-o. Odiou-o de forma como não lembrava-se de tê-lo antes odiado. Odiou-o infantilmente como só quem é contrariado é capaz de odiar, como uma criança que tem sua travessura secreta descoberta odeia. Odiou a calma absurda com a qual ele explicava as razões pelas quais limitara-se a destruir seu distrito por quatro dias e meio ao invés de correr até o apartamento de Izaya. Odiou como tinha razão ao anunciar que não ele tinha certeza de suas afirmações. Odiou-o por despreocupadamente aumentar exponencialmente as culpas que já quase afogavam-no. Culpas por não ter certeza da mentira de Izaya. Culpas por entregar ao informante o benefício da dúvida. Culpas por assistir os olhos castanho-avermelhados dedicarem-lhe ódio e permanecer quieto recebendo-o. Culpas por procurar razões no ódio. Culpas por não aceita-lo com ódio gratuito como até pouco tempo fazia.

— Bom, agora que isso parece ter sido esclarecido, você pode me dizer porque achou que ele estivesse mentindo? – o médico rolou os olhos de um lado ao outro antes de acrescentar – Não me entenda mal, Shizuo, não estou dizendo que acredito que o Izaya é inocente ou coisa assim... mas... bem... não é como se você aqui estivesse sendo uma fonte imparcial...

— O jeito que ele me olhou antes de sair, Shinra! – rosnou, surpreso por conseguir responder ao médico com todos os conflituosos ódios e culpas – Ele me odiou. Eu vi! E saiu batendo a porta...

Um risinho baixo alcançou seus ouvidos antes que seus olhos captassem a tentativa de Shinra de manter-se sério.

— Desculpe, Shizuo, mas você parece tão ressentido... chateado, sabe? Esquece... só nunca esperei te ver assim... Enfim, ele te olhou como se te odiasse antes de sair. Entendi. Mas... Por que ele saiu? Não! Espera! Primeiro: quando foi isso? Quando eu sai de lá no domingo realmente me pareceu que vocês estavam se dando bem. E ele estava dormindo, de toda forma...

— Segunda de manhã.

— Hoje é sexta, Shizuo. Já faz um tempo, hein?!

— Eu sei! – rosnou, rude.

— Ok, enfim... então aconteceu logo depois que acordaram? Por que diabos vocês brigariam assim tão cedo? Você tem mau-humor matinal, Shizuo? Ele comeu seu pud- Ah! – pela segunda vez no dia a compreensão iluminou os olhos do médico clandestino – É só uma suposição, mas... por acaso vocês estavam continuando o que eu interrompi na noite anterior?

Um arrepio correu a espinha do ex-barman. Aquela era a exata razão pela qual evitou procurar Celty para aquela conversa, mesmo que ela fosse inegável melhor conselheira que o agora alvo de todo seu ódio: sabia que, em algum momento, seria obrigado a dizer “sim” àquela pergunta. Ainda que soubesse mesmo antes de meter-se no apartamento do amigo que chegaria àquela questão, entretanto, manteve-se em silêncio, incapaz de confirmar.

— Acho que isso é um sim. – anunciou, pausadamente – Agora você vai me dizer como a partir de sexo matinal você acabou com Izaya te odiando ou isso iria ferir muito seu orgulho masculino?

As sobrancelhas franzidas pelo ódio infantil ainda dedicado ao amigo gradualmente cederam lugar a lábios separados enquanto progressivamente absorvia, em choque, a pergunta de Shinra. Não a compreendeu de imediato, talvez por, dentre todas as perguntas, aquela não ser uma possibilidade. Quando finalmente a entendeu, entretanto, o anterior ódio correu na forma de raiva primitiva por suas veias, espalhando por cada centímetro visível de sua pele queimada de sol um rubor intenso. As memórias sobre os segundos transcorridos antes de receber de Izaya o olhar que tanto o atormentara nos últimos dias retornaram aos seus olhos como se para garantir a seus ossos que estalavam em fúria pela pessoa correta, que a raiva direcionada a Kishitani Shinra era fundamentada.

— Pro inferno com isso! É sua culpa, Shinra, seu merda! Sua culpa, desgraçado!

— Minha culpa? Shizuo, posso te garantir que nenhuma das drogas que já te dei interferem no seu desempenho sexual... eu acho...

— Quê? Que merda, Shinra! Não tem nada de errado com meu desempenho sexual! Que drogas?

— Nenhuma droga! Quem falou em drogas aqui? Se não é nenhuma droga... idade também não pode ser, Shizuo... e também não seria minha culpa, de toda forma. Isso seria com os seus pais.

Seus lábios se separaram, mas a única resposta a deixá-los foi um estalo seguido de um resmungo incrédulo, denunciando-o plenamente incapaz de concentrar a raiva para poder extravasá-la. As sobrancelhas castanhas-claras aproximaram-se até quase unirem-se e acenos negativos lhe escaparam involuntariamente.

— Tenho umas coisas aqui que te podem te ajudar, se quiser, Shizuo. Juro que não é nada experimental. Estão no mercado e tudo mais. Pode ser comprado em farmácia, até. Não é muito usado por gente na nossa idade, mas podemos controlar a dosagem e tudo ficará certo.

— Shinra, cala a boca. Cala a boca antes que eu acabe com você.

— Eu estou tentando te ajudar! É por isso que me procurou e não podia ser a Celty, né?! Precisa de ajuda médica. Sei que é difícil falar sobre, Shizuo, e me sinto mal por ter dito aquelas coisas antes, sobre seu desempenho sexual e tudo mais, mas não precisa ser tão agressivo comigo e... só pra te deixar saber, esse negócio ai na sua boca só agrava sua situação, se eu fosse você apagaria esse e consideraria parar de fumar.

— Não tem – pontuou o guarda-costas com toda a calma que conseguiu reunir, apertando o cigarro recém-aceso entre os dedos – nada de errado com meu pau.

— Não tem? – o médico apertou juntos os lábios em um pequeno bico antes de moldá-los em um sonoro “ah!” – Então é um problema de técnica, Shizuo? Bom, nisso as drogas não podem te ajudar, mas tenho umas indicações de livros que você pode procurar e uns exercícios pélvic-

— Não, Shinra! Cala a merda do focinho! A gente não transou!

— Não chegaram nem a transar? Puxa, Shizuo, desculpa dizer isso assim, mas você deve ser mesmo uma droga nas preliminares. Quero te ajudar, mas... desculpa, nem sei mais o que te dizer...

O cigarro aceso certamente abriria um terrível buraco no estofado cinza claro do seu belíssimo e confortável sofá ao cair daquela forma, com a brasa voltada para baixo, aquele era, entretanto, o menor dos problemas de Kishitani Shinra naquele momento. O buraco do cigarro não seria nada, afinal, comparado ao buraco que sua própria cabeça abriria no tecido se Shizuo conseguisse levar a cabo seu plano de acertá-lo com o móvel. E ele teria conseguido, certamente o teria, caso sombras negras não o envolvessem e com esforço – esforço não notado por ele, completamente absorvido em sua tentativa de homicídio – o parassem. Incapaz de mover-se, nada pode fazer enquanto novas sombras arrancavam de seus dedos o móvel e, pousando-o em seu devido lugar, o forçavam a sentar-se novamente. Não seria, entretanto, quieto que suportaria as afirmações absurdas de Shinra. A força que não pode desprender-se dos músculos de seus braços, portanto, concentraram-se todas em sua garganta e cordas vocais enquanto, ignorando o avançado horário no relógio, gritava a plenos pulmões para o médico clandestino e para a mulher visivelmente desconcertada que já há alguns minutos observava, sem interferir, a discussão entre eles e que agora punha-se ao lado do noivo:

— É culpa sua, Shinra! Por sua culpa eu disse aquilo pra ele! Se não tivesse ficado falando aquilo na minha cabeça, eu nunca teria dito merda nenhuma! É sua culpa que ele me olhou daquele jeito! Sua culpa!

O médico olhou-o num misto de pavor e surpresa, piscando algumas vezes e buscando uma das mãos de Celty para entrelaça-la à sua. O olhar, entretanto, progressivamente mudou de forma, estreitando-se, afiado.

— O que você disse a ele, Shizuo?

Mesmo que óbvia, a pergunta pegou-o desprevenido. Desagrava-o Shinra a provocá-lo e a tagarelar incoerências, a voz no misto de deboche e profissionalismo a arrepiar em fúria e aversão cada pelo de seu corpo, a seriedade, entretanto, e a espera paciente por resposta, causavam-lhe ainda mais repulsa do que causavam-lhe seus outros tons.

— O que você falou. – respondeu, surpreendendo-se a si mesmo com como as palavras escapavam de seus lábios apesar da raiva ainda a pulsar em suas veias.

— O que você disse, Shizuo?

— Que ele não era uma garota.

— Ele estav-?

— Ele estava sem roupas. – completou, supondo ser aquela a pergunta que receberia – A gente estava na cama.

— Oh, Shizuo, você é realmente horrível com preliminares. – apesar do deboche e do riso, não havia diversão alguma na voz de Shinra – E então ele te olhou com ódio e fugiu.

Ainda que não fosse aquela uma pergunta, respondeu.

— “Se você tocar de novo eu acabo com você”, foi o que ele disse.

Ele não acreditou de imediato que o som que ouvia preencher a sala-de-estar em resposta a sua anterior declaração era um riso. Procurou com determinação outra razão, sondando atento todas as direções antes de aceitar que os lábios abertos de Shinra eram a origem de um som que era, inegavelmente, uma exagerada gargalhada.

— E você ainda achou que o olhar de ódio dele era sinal de que ele estava mentindo, Shizuo?! Ah, céus, eu não aguento! Isso só pode ser brincadeira. Você não pode estar falando sério! É claro que ele ia te odiar, Shizuo, ele é um rapaz, já era antes mesmo de você ver o pênis dele, né?! E mesmo que ele não tivesse um... ele se trata no masculino... ele é um rapaz! Dizer a um rapaz, sendo você mesmo um rapaz, que ele não é uma garota durante as preliminares... Ah, Shizuo! Isso não pode ser sério!

— Não me venha com essa, Shinra! Era a sua voz na minha cabeça o tempo todo... Você me dizendo que el-

— Bom, e é exatamente por isso que eu precisava te dizer tantas repetidas vezes, não é?! Você não fazia a mínima ideia do que estava fazendo, né?!

A pergunta o surpreendeu, desfazendo imediatamente a carranca que segundos antes instalara-se em seu rosto. Piscou alguma vezes, incapaz de decidir se entendera corretamente o que Shinra insinuava. Sua decisão, entretanto, fez-se desnecessária no instante seguinte:

— Você só está se deixando levar, não é, Shizuo? Sequer pensou no que fazia até estar fazendo, ignorou todas as vezes que te falei... e ainda ficou bravo comigo por estar falando... Não faz a mínima ideia do que está fazendo, não é, Shizuo?!

“Você está certo”, é o que declararia, sem traço de hesitação, se em outro lugar, outra semana, outra situação, outras culpas. “Não fazia ideia”, afirmaria, sobre quaisquer planos ou intenções que insinuassem ter com Izaya. “Não é nada”, declararia, escondendo-se covardemente atrás de seus instintos. “É loucura”, se convenceria com sucesso. “Tudo acabou assim”: mesmo que nunca admitisse e ainda que com determinação evitasse qualquer pensamento que desviasse-se nesta direção, sabia que seria esta a resposta se alguém fosse suficientemente corajoso para pressioná-lo em busca de uma.

“Você tem razão”, ele diria, mesmo que isso ferisse parte de seu orgulho, em qualquer outro lugar que não aquele, qualquer semana que não aquela, qualquer situação que não a presente e quaisquer outras culpas que não as que agora queimavam sua garganta. Naquele lugar, contudo, e naquela semana e naquela situação e naquelas culpas não suportava ser previamente acusado de um crime que não cometera, mesmo que provavelmente fosse cometê-lo no instante seguinte. E, mesmo se fosse obrigado a cumprir pena, não aceitaria que fosse Shinra a julgá-lo. Os julgamentos de Shinra não eram aceitos quando o próprio médico era, em sua versão dos fatos, tão culpado quanto ele, ou até mais.

— Você sequer pensou no que disse, Shizuo? Sobre Izaya ser um homem?

Apertou os punhos. Shinra julgava sem quaisquer escrúpulos quando devia era estar a ocupar a cadeira do réu ao seu lado. Entregando-lhe broncas como se também não as merecesse. Independente da visível proteção que Celty fazia em volta dele, o amigo de infância não tinha direito de sentir-se confortável o suficiente para fazer-lhe aquelas acusações.

— Eu não me importo, Shinra! – gritou a plenos pulmões – Eu não me importo! Nunca me importei! Foda-se se ele é um rapaz ou uma garota! Foda-se! E foda-se você também! Foda-se essa sua postura idiota... Naquela hora eu... eu só pensei em como ele er-...

“Em como ele era bonito. Em como seus avisos eram idiotas e sem propósitos. Em como ele ficava lindo nu, preso nos lençóis.”, completou em sua mente, incapaz de exteriorizar seus pensamentos. Desviou o olhar para os pés, tomado por timidez que certamente não fazia parte de seus sentimentos comuns. Timidez que nada combinava com sua raiva do que dissera a Izaya, raiva das circunstâncias que o levaram a dizer, raiva do olhar recebido ao dizer. Abaixados pela súbita vergonha pelo que quase dissera a Shinra e pela clara contradição entre sua raiva e os sentimentos que aos poucos faziam-na ceder, os olhos castanhos-mel não perceberam o momento no qual a atenção do médico clandestino fixou-se nele, examinando clinicamente, dissecando-o. Baixas, as íris âmbar perderam a surpresa que instalou-se no olhar firme do médico clandestino, surpresa pura, que mudou pares de vezes as formas nos lábios finos do rapaz em jaleco.

— Não se importa? – perguntou quase como um sopro.

E então, pela primeira vez desde que encaixara entre seus lábios os de Orihara Izaya, percebeu que não se importava. Que nunca, verdadeiramente, se importou. Que as palavras ditas com raiva, ditas só para sua defesa, ditas só para acusar ao outro, não eram falsas como acreditava serem. Seus próprios olhos arregalaram-se surpresos, a revelação, mesmo que saída de seus próprios lábios, chocando também a ele mesmo.

— Não me importo. – afirmou mais uma vez, talvez mais para convencer a si mesmo do que a Shinra.

“Não me importo que ele seja um homem.”, repetiu, desta vez apenas a si mesmo, e, ao fazê-lo, sentiu como se mais uma vez Izaya estivesse entre seus braços, a nudez sob seus dedos.

As repetidas rejeições aos conselhos de Shinra, o deboche quanto à sua insistência, as afirmações convictas de que sabia o que fazia... Shinra tinha razão quando acusava-o de não guiar com determinação seus avanços, o que havia de errado na acusação do sempre tão esperto e analítico médico eram os motivos que levavam-no a isso. Izaya ser homem nunca fora o problema. O homem que agora estancara no sofá, movimento algum exceto o cenho a franzir mais a cada segundo, sequer lembrava-se do sexo da pessoa que quatro dias e meio atrás contorcia-se com seus toques em sua cama. Orihara Izaya era apenas Orihara Izaya. O informante existia para Shizuo apenas como ele mesmo, alguém que não ganhava segundas definições.

Mesmo que o conteúdo do que supostamente ignorava nas conversas com Shinra pudessem sugerir o contrário, o que o impedia de levar o amigo de infância a sério não era qualquer aversão a relacionar-se com um homem. Este não seria um problema, repúdio algum viria dele por esta razão. Não seria, afinal, a primeira vez que a possibilidade se apresentaria a ele. A proposta já lhe alcançara antes. Duas, três, quatro vezes talvez? Não muitas, sua reputação era, afinal, eficiente em manter todos, homens ou mulheres, longe. A natureza da aproximação nunca fora, também, das mais invasivas, nada que garantisse números exatos. Sugestões baixas e bebidas que traziam na nota já paga números de telefones. O medo de que à provável rejeição somassem-se golpes a azedar mesmo os mais doces coquetéis. A rejeição vinha sempre, para os mais receosos garotos ou para as mais decididas garotas, sem que nunca, entretanto, o temido golpe a seguisse. O homem mais forte de Ikebukuro dispensava muitos golpes sem propósito, mesmo que não se orgulhasse disso, mas não dispensaria golpe algum se pudesse evitar. Não o deixavam confortável, nem garotos nem garotas nem qualquer desconhecido que se aproximasse, mas não o irritavam o suficiente para enfurecê-lo, não com seus números de telefones e sua coragem reunida com tanto esforço. A raiva estava presente apenas porque era companheira fiel que nunca aceitava suas rejeições, não porque verdadeiramente a sentisse.

O problema em Izaya não era, em definitivo, sua identidade de gênero ou sua orientação sexual. Mesmo que pelos mais dolorosos motivos, e ainda que nunca consciente deles, Shizuo nunca considerara preocupar-se com isso. Alguém que é ditado como monstro nunca vê-se no direito de apontar o dedo em riste. O problema era ser Orihara Izaya. Qualquer definição que viesse depois desta não assumiria importância alguma.

— “Você precisa se desculpar com ele, você sabe disso, né?” – as palavras brilharam em frente a seus olhos, roubando sua atenção. Leu-as duas vezes antes de direcionar o olhar para os dois anfitriões. Shinra mantinha-se calado e Celty não fazia sequer menção de digitar nova mensagem.

— Talvez seja melhor não. – ditou baixinho. “Talvez seja melhor se continuar assim, se acabar aqui”.

Os olhos castanhos-mel desviaram-se para lugar nenhum, fingindo não perceber o passo dado em sua direção pelo rapaz vestido em jaleco. Sabia que Shinra tinha o que dizer, ele também tinha, afinal. Tinham ambos muito o que ser dito. O médico, entretanto, assim como ele, permaneceu quieto. Quieto por tempo o suficiente para fazer desconfortável o silêncio no cômodo.

Levantou-se com mais vagar do que normalmente faria, os braços apoiados no joelho a forçar o tronco para cima, um claro, mesmo que silencioso, anúncio de que iria para casa. Estalou os lábios mais por birra do que por desgosto, uma necessidade infundada de acusar seu suposto conselheiro da inutilidade da visita, mesmo que resignadamente convicto de que não o fora.

— Espera, Shizuo.

Um segundo estalo, seguido de um bufar, escorregou por seus lábios ao voltar-se para fitar o rapaz em pé em frente ao sofá no qual se sentava até poucos instantes. Enfiou ambas as mãos no bolso, apertando com ansiedade o isqueiro dentro de um deles, enquanto assistia Shinra buscar um bloco de notas e uma caneta. Escreveu algumas poucas linhas no pequeno pedaço de papel antes de entregá-lo.

— E isso é...? – perguntou, rude, lendo os dois itens escritos.

— Não é uma receita médica. – anunciou, como se a informação bastasse.

— Foda-se. – xingou, depositando o papel na mesa de jantar antes de deixar em definitivo o cômodo, decidido a abandoná-lo lá.

— São marcas. As melhores. De lubrificante.

Os olhos mel arregalaram-se, surpresos, inevitavelmente correndo mais uma vez pelas letras azuis no pequeno papel.

— Você ouviu o que eu disse, Shinra, maldito?! Eu não vou atrá-

— Mas devia. Ele vai achar que o problema é o corpo dele.

— Não é! – gritou.

— Ótimo que você saiba, Shizuo. Muito útil você saber...

Torceu os lábios pelo sarcasmo do médico. De todas as formas que assumia o amigo de infância, talvez fosse aquela, sim, a que mais odiava.

— Não foi só o olhar... o jeito que ele sorriu antes... Você não entende, Shinra. Tenho certeza que ele está mentindo!

— Antes quando? Quando vocês estavam começando? Ele riu malicioso para você quando vocês estavam se agarrando?! Oh, céus, ouvi dizer que isso dá cadeia, Shizuo. Sorrir malicioso para o parceiro antes do sexo é, definitivamente, a maior prova do mundo de um crime.

O som da cadeira a partir-se sob seus dedos foi a única resposta entregue, mesmo que centenas de xingamentos pudessem tê-los seguido.

— Eu não queria me envolver, também, Shizuo. – a voz do médico era fria, sem nota de diversão ou sarcasmo – Mas a Celty está preocupada. Se você não for, ela vai. E eu não quero que ela vá.

Involuntariamente desviou o olhar até a figura em negro parada no centro da sala-de-estar. Mesmo que não digitassem, era inegável que não estavam parados os dedos cobertos por luvas negras. Trêmulos, ansiosos, inquietos. O nervosismo nela era tão palpável que Shizuo surpreendeu-se por não perceber antes. Poderia tentar convencer-se que o que a fazia assim era apenas a incomum briga entre o noivo e o homem mais forte do distrito, mas sabia que não era este o motivo. Celty era esperta o suficiente para entender o motivo da briga mesmo que não a tenha ouvido desde o começo, e bondosa o suficiente para incomodar-se com as razões por trás dela.

Sua carranca cedeu, progressivamente, ao assistir a dullahan caminhar até a mesa, apanhar o papel e estender novamente a ele. O rubor por receber dela o papel com informações como aquelas ameaçou suas bochechas, mas a mensagem lida em seguida no palmtop o suprimiu plenamente.

— “Se ele estiver falando a verdade, ou mesmo se não estiver... Ele deve estar realmente triste agora, por achar que tem algo errado com ele... Sei que deve ser difícil para você... Eu sei disso. Ele é o Izaya, afinal... Mas acho que agora está mais difícil para ele, então nada mais justo do que fazer o possível para melhorar, não é?!”

A motoqueira apertou mais uma vez sua mão antes de entregar-lhe em definitivo o papel, como uma espécie de conforto. Um riso absurdo quase preencheu seus lábios pela bizarrice de sua atual situação.

— Isso não significa que vou precisar disso, Celty. – anunciou, amassando o papel entre os dedos antes de enfiá-lo no bolso, ao lado do isqueiro, com um sorriso no canto de lábios.

O discreto sorriso quase transformou-se em riso quando Celty afastou-se claramente envergonhada, suas sombras a escaparem sem controle pelos vãos do capacete.

— Boa sorte tentando não precisar, Shizuo! – berrou Shinra, o sorriso brilhando como se instantes antes não fosse uma carranca séria a ocupante daquele rosto – É a últim-

Virou as costas e apressou o passo em direção do hall de entrada, teria coberto as orelhas com ambas as mãos se não fosse parecer excessivamente ridículo ao fazê-lo. Teria feito entretanto, se tivesse a garantia de que com isso evitaria chegar a seus ouvidos as palavras que seu sonoro rápido avanço não pode evitar.

“Conselho”, ouviu ao finalmente alcançar a entrada. “Pesquisada”, ouviu ao abrir a porta com força o suficiente para marcar a maçaneta com suas digitais. “Próstata” ouviu ao fechá-la com um estrondo às suas costas.

Os quatro dias e meio terminavam, em definitivo, piores do que haviam começado. A estranheza pela fuga repentina de Orihara Izaya de seus toques sequer comparava-se com a estranheza por perceber que se importava com isso mais do que supunha.

Notas finais
Oi, oi de novo, tudo certo até aqui? Confesso que este capítulo demorou mais para sair do que eu planejava porque ele foi muito tenso de escrever, um dos mais tensos, eu acho... Sempre é complicado escrever capítulos mais pesados, aqueles nos quais o personagem precisa refletir e definir. Ao mesmo tempo, confesso que me sinto bastante tensa ao escrever cenas de conflitos. O resultado da união dos dois foram surtos de "eu não consigo escrever" bastante longos. Rs! Surtos que acabaram atrasando um pouco a postagem e, mesmo que eu tenha postado, admito que talvez não esteja muito segura com este capítulo em especial (não que eu seja a senhora-100%-confiança, longe disso, rs, mas este está pesando um pouco mais...). Então espero, do fundo do meu coração, que gostem! Ahhhhh. Mas não fiquei paradinha durante meu surto! Na verdade, sempre que me sinto pressionada por uma história, acabo caindo nas garras da traição e pulando a cerca com outra história (=O promiscuidade narrativa!). Minha traição teve como resultado um novo filho (rs!) chamado "Vermelho em sete atos", uma short-fic de 07 pequenos capítulos postada no intervalo de uma semana. Presente do lindo do Kai-kun e da linda da Jack. O link é: https://fanfiction.com.br/historia/670286/Vermelho_em_sete_atos/ Estão super convidados a eles! e, se lerem, espero que gostem! Enfim, acho que era isso o que tinha a dizer aqui... Em compensação a este capítulo meio tenso, o próximo será o que eu acredito ser (talvez) um dos mais engraçados da fic. *.* E um personagem que ainda não deu as caras aparecerá, alguém ai quer chutar quem é? Ahhh! Já tagarelei bastante aqui, né?! Me desculpem... Eu estava com saudades! Espero que tenham gostado do capítulo e obrigada por lerem! Nos vemos no próximo? Beijo, beijo, =* Yuki