(in) esquecível

18 Sobre como você era o café, a cor, o crime


Notas iniciais
Olá, gente sedução, tudo sucesso com vocês? muito obrigada por todos os super lindos comentários no capítulo passado e por todo o apoio que vocês tem me dado! Muito obrigada, também, a quem favoritou e a quem está lendo. Chegamos ao capítulo 18! Sei que não é o momento para saudosismo, mas não posso evitar pensar que com 18 capítulos eu conclui minha long anterior, "Depois de um sonho". Engraçado é que não estou, provavelmente, nem na metade de "(in)esquecível" e que agora, certamente, terei que escrever no mínimo até o capítulo 28 porque sou a louca do 8. *.* Enfim, devaneios da autora doida por 8 a parte, espero que gostem do capítulo tanto quanto gostei de escrevê-lo, ^^ beijo, beijo, =* Yuki



Sobre como você era o café, a cor, o crime



Talvez fosse a sonolência preguiçosa de quem dorme pela tarde. A sonolência de quem acorda e mantém-se quieto. Mas Shizuo podia jurar que os beijos daquela tarde de domingo fria começaram, estranhamente, não por seus lábios, mas pelos olhos semicerrados, pesados pelo sono.

Heiwajima Shizuo nunca ouvira, em sua não tão curta nem tão longa vida, sobre a possibilidade de beijos serem entregue por algo que não lábios. Não que ele fosse excessivamente experiente com romance, nem com os próprios nem com os marcados em páginas de livros. Poesia não ocupara muito de seu peito em momento algum dos seus vinte e cinco anos. Metáforas eram para ele temas de aulas de literatura e páginas empoeiradas da igualmente empoeirada biblioteca da Academia Raira. Não que ele pudesse ter-se tornado apto a nomear ou entender o que sentia caso tivesse dedicado mais atenção às linhas ritmadas lidas pausadamente em salas de aula durante seu período escolar. Poesia alguma seria, afinal, capaz de preparar o homem mais forte de Ikebukuro para a constatação de que seus beijos começaram no instante no qual pensou que a cor que o sol pintava em suas pálpebras ainda cerradas pelo sono era o vermelho dos olhos de Izaya.

Assumindo ou não, entretanto, que os mantinha assim por causa de um beijo, Shizuo manteve os olhos bem fechados mesmo enquanto ouvia despedidas e sentia mover-se o calor no qual apoiava a cabeça. Ele não precisava, entretanto, de seus olhos abertos para saber que o calor pertencia a Izaya, ou para compreender que o contraste entre sua nuca e o restante de seu corpo era causado pela grama fria da praça central de Ikebukuro, ou para entender que as despedidas seguidas pelo silêncio indicavam que Mairu e Kururi já não mais faziam companhia a Izaya. E, estranhamente, ele também não precisasse ter os olhos abertos para saber que o informante mais perigoso do distrito trazia nos lábios um sorriso presunçoso. Não que ele considerasse abrir os olhos para confirmar. Não que ele se importasse. Aquele não seria, em definitivo, o pior tipo de sorriso que Izaya poderia entregar a ele.

Não foi, portanto, para encontrar o provável sorriso de Orihara Izaya que o homem mais forte de Ikebukuro abriu, lentamente, os olhos. E não que ele sentisse, de todo, que os abrira. O que encarava, afinal, era um vermelho muito semelhante ao que via por trás de suas pálpebras.

Ele demorou algum tempo para entender o porquê de estar cercado por vermelho. Só ao piscar algumas vezes, confuso, e sentir seus cílios resvalarem de leve contra um tecido consideravelmente poroso, entendeu que não poderia ter visto o sorriso de Izaya nem se quisesse, não quando o cachecol vermelho do informante cobria seus olhos. Um sorriso de entendimento poderia ter alcançado seus lábios quando a conclusão de que sol algum poderia, desde o início, produzir sozinho um vermelho tão quente atingiu sua mente, mas o pensamento não era, por fim, confortável o suficiente para fazê-lo sorrir quando trazia em si o resolução de que só Izaya e seus olhos e cachecóis eram capazes de ser tão rubros.

Bem devagar, embalado ainda pela sonolência, encheu e esvaziou seus pulmões sonoramente. Ele sentia o corpo implorar por um cigarro e por uma bebida quente. Mas, longe de afastar-se da grama gelada e pôr-se de pé, limitou-se a umedecer os lábios algumas poucas vezes com a ponta da língua. Não intensificou-se o suficientemente para fazê-lo desconfortável, mas arrependeu-se momentaneamente pela recém atitude ao sentir o gosto de Izaya. Ou o cheiro de Izaya. Ou o gosto do cheiro de Izaya. Talvez pela sonolência, talvez pelo contraste entre o colo quente e a grama fria, talvez pelo vento que embalava seus fios descoloridos quase como se acarinhando-os, talvez pela proximidade esmagadora do corpo do informante, o homem mais forte de Ikebukuro sentia em si a impossibilidade de determinar as fronteiras de seus sentidos. A confusão durou poucos segundos, entretanto. Poucos segundos e Heiwajima Shizuo transformou-se todo em tato, guiado plenamente pelos carinhos dos dedos fios e cobertos de cicatrizes em seus cabelos.

– Está acordado, Shizu-chan?

Os dedos enroscavam-se preguiçosamente entre os fios loiros, vez ou outra desembaraçando-os ou livrando-os do que Shizuo supunha serem pequenas folhinhas de grama seca. A memória do carinho que embalara seu sono pulsou em sua mente apenas para cravar o contraste: aquele carinho preguiçoso nada tinha do carinho inconsciente que recebera mais cedo naquele dia dos mesmos dedos. Não era carinho que dividia atenção com conversas sérias com irmãs mais novas. Era carinho só seu. Carinho que, ainda que descuidado, afirmava que os olhos castanho-avermelhados eram também seus, só seus, fixamente seus. E se eram assim, seus, não seria um problema, portanto, trazê-los para perto.

O homem mais forte de Ikebukuro não foi capaz de determinar se, no fim, fora ele a roubá-los para si ou se Izaya a entregá-los voluntariamente, mas no instante seguinte ele tinha os cobiçados olhos castanho-avermelhados a centímetros dos seus. Assim, tão próximos, ele percebeu como nada tinham do rubro opaco que cobrira instante antes seus olhos, o brilho de surpresa era ali tão evidente que Shizuo perguntou-se momentaneamente como os pode comparar com o desbotado cachecol. Brilhavam tanto que o guarda-costas permitiu-se um sorriso tão presunçoso quanto o que acreditou ocupar os lábios de Izaya até então. Talvez – talvez – os brilhantes olhos não esperassem serem flagrados no caminho que faziam em direção a ele. Não que Shizuo fosse permitir arrependimentos ou recuos. Ambas as suas mãos garantiriam que os olhos permanecessem fixos nele enquanto firmemente se enroscavam aos fios negros e lisos.

Ele não fechou os olhos. Nem mesmo quando Izaya os fechou.

Os lábios, em contraste, permaneciam fechados, em si mesmos e nos outros. Colados. Encaixados. Presos.

E não havia lugar para saudosismo algum, para nostalgia alguma, para recordação alguma nem para comparação alguma. Ainda que a estranha sensação suave fosse a mesma, Shizuo nunca se permitiria pensar naquele beijo como extensão do que provara há poucos dias no pequeno sofá de dois lugares em sua sala-de-estar-corredor. A aquele, afinal, e ele teve certeza disso a parte do instante que o começou, ainda em seus olhos, não permitiria que silêncio algum se instaurasse após o término. Não permitiria que silêncio algum o fizesse questionar o gosto de Izaya em sua língua. Como garantia, o prenderia todo para si. Repetidas vezes. Pressionando, roçando, massageando, mordendo, provando, fitando, sorvendo.

Não que ele acreditasse que os beijos de Izaya fugiriam, e não acreditou nem mesmo quando sentiu deslizarem por entre seus dedos os fios negros e afastarem-se dos seus os lábios finos e vermelhos como cachecóis e olhos. E, exatamente por não acreditar na fuga não moveu-se, inicialmente, sequer um centímetro para recuperá-los. Abriu bem os olhos castanhos-mel e esperou, pacientemente, que Izaya voltasse para buscar o que deixara para trás em sua tentativa de fuga. Porque ninguém o convenceria, mesmo que soasse irônico a ele pensar naquela atitude quando creditada ao mais habilidoso, furtivo e manipulador informante de Tóquio, que Izaya sabia o que fazia ao correr deixando para trás o par de olhos rubros a fita-lo intensamente, como dois reféns esquecidos. Não havia espaço para risos irônicos ou pensamentos debochados, entretanto, quando ambos os esquecidos o fitavam sérios, confusos, recuados, rancorosos por serem deixados para trás.

Shizuo não seria, entretanto, aquele a manter tais reféns. Ele, ainda que não fosse sua forma de atuação, aceitaria manter com ele quaisquer outros que Izaya resolvesse entregar, não admitiria, contudo, os olhos sérios. Nem os olhos sérios nem o silêncio que provavelmente se juntaria a eles. Mesmo que fosse uma ação arriscada, portanto, o guarda-costas ousou entregar os próprios olhos sérios a Izaya, demoradamente, junto a seu próprio silêncio. Foi somente, entretanto, quando Shizuo levantou-se e sentou-se inexoravelmente diante dos olhos, dos lábios, da confusão e da seriedade que Izaya pareceu percebeu que não havia direção a correr que não para frente. Ainda que aquele fosse o único sentido, Shizuo fez questão de guia-lo, cada uma das mãos a cada um dos lados de seu rosto, diretamente aos seus lábios.

Heiwajima Shizuo, então, finalmente fechou os olhos.

Izaya tinha gosto de café. Um pouco amargo. Provavelmente culpa de uma das gêmeas. Provavelmente para compensar pelos copos anteriormente derrubados. Shizuo não gostava de café e não mudara sua opinião sobre o quão questionável era o gosto de alguém que sorvia amargura. Ele não podia negar, entretanto, que a amargura, quando provada através dos lábios de Izaya, da língua de Izaya, da respiração de Izaya e dos suspiros de Izaya, era diferente de quando experimentada em copos de isopor. Ainda era amarga, sem dúvida, mas estranhamente quente e suave.

O homem mais forte de Ikebukuro havia jurado, silenciosamente, que aquele não seria como o beijo interrompido no pequeno sofá de sua pequena sala, mas ele realmente não precisou esforçar-se para que não o fosse. A inquietude, as batidas desenfreadas em seu peito, a ânsia em suas mãos trêmulas eram, inegavelmente, as mesmas que sentira enquanto pressionava o corpo de Izaya contra a seu, a forma, entretanto, como elas se manifestavam eram estranha até mesmo a ele. E seria errôneo acreditar que assim o eram porque ele entendia estar exposto na praça central, longe da privacidade de seu sofá de dois lugares, ou que o fazia porque notara as duas câmeras de celular com zooms ao limite apontadas a ele. Não havia autocontrole algum, nem desconfiança alguma, ou descrição alguma nos gestos dele, mesmo assim, entretanto, eles permaneciam estranhamente suaves e ternos.

As mãos permaneciam nas laterais do rosto, os troncos permaneciam separados, os colos permaneciam vazios e as roupas permaneciam arrumadas, os lábios uniam-se mais do que as línguas e os dentes sequer deixavam marcas. As respirações eram o único indício de que não havia calma em nenhuma das margens. Descontroladas, arfantes, sussurrantes, pesadas, truncadas, altas, interrompidas, falhadas.

Café, leveza, calor, carinhos, suspiros. Ao homem mais forte de Ikebukuro, a quem os beijos sempre tinham gosto de restrição, era surpresa capaz de arrancar ainda mais ar de seus pulmões como o que tentava controlar naquela tarde de domingo frio, em um dos seus lugares favoritos de seu distrito favorito, era não sua força absurda, mas seu sorriso. Um sorriso que insistia em curvar seus lábios e impedi-los de encaixarem-se perfeitamente nos de Izaya.

Os beijos amargos de café nos lábios ressecados de frio eram, estranhamente, tão fáceis quanto o descontrole. Entregá-los, tomá-los, roubá-los, devolvê-los – tão suave que sequer pareceria absurdo pensar que os cantos dos lábios do homem mais forte de Ikebukuro flutuavam. Não era felicidade, Shizuo jurava que não. Felicidade certamente não seria amarga daquela forma. Fosse o que fosse, entretanto, era claro ao guarda-costas que havia ali nem que uma notinha bem pequena do sentimento, nem que uma pontinha mesclada a autossatisfação pela capacidade de manter a força absurda longe de seus lábios sorridentes e de seus dedos serenos. E Shizuo, talvez se não estivesse tão concentrado em sua tarefa de nomear o que sentia, achasse bonita a forma como os lábios de Izaya, na tentativa de moldarem-se aos seus, acabaram por espelhar seu sorriso.

Ainda que o céu continuasse tão cinzento quanto o concreto de suas ruas e prédios, era inegável a surpresa vagava por Ikebukuro, que, ainda que já tenha alimentado em seu seio tanto do anormal e inesperado, talvez nunca tenha experimentado, bem no meio de sua praça central, um momento tão magicamente impensável quanto aquele que mostrava dois piores inimigos a mal poderem manter os lábios juntos sem desviarem-nos em sorrisos. Gangues coloridas, motoqueiros sem cabeça, russos assassinos, máfia, traficantes, nada, absolutamente nada comparava-se a anormalidade de beijos leves entre Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya.

– Se continuar rindo eu não consigo te beijar, Shizu-chan.

Se Heiwajima Shizuo visse a si mesmo, naquele momento, como era visto pelas duas câmeras que o filmavam ao longe, certamente julgaria a si mesmo como louco. Irreparavelmente louco. O sorriso úmido de saliva, as costas relaxadas, as mãos distraidamente brincando com a ponta do cachecol vermelho, os olhos atentos a forma como os lábios de Izaya moldavam-se na palavra “beijar”: não havia nada no homem mais forte de Ikebukuro que merecesse, naquele momento, tal grandioso epíteto.

– Ninguém está dizendo que você precisa continuar, pulga.

E Shizuo, verdadeiramente, não percebeu contraste entre suas palavras e suas ações ao inclinar-se novamente na direção de Izaya e roubar um novo selar de lábios. Se Izaya o percebeu, escondeu com perfeição a surpresa por trás de suas pálpebras ao devolver o beijo.

– Ninguém está me dizendo para parar, também, não é, Shizu-chan?

E ele não diria. E não pararia, também, por ele mesmo. Tudo no qual moldariam seus lábios seriam novos beijos, e, quando em quando, algum sorriso resignado. Beijos e sorrisos, seriam, também, tudo o que aceitaria receber dos lábios de Izaya. Beijos, sorrisos e, percebeu poucos segundos depois, suspiros. Mesmo que não fosse, miseravelmente, acostumado a recebê-los ou entregá-los. Shizuo, ao menos, não se lembrava de beijos seus a desencadearem sinfonias de suspiros. Ou, talvez, ele realmente nunca tenha parado para ouvi-la. Agora, entretanto, ele engolia os seus próprios suspiros e controlava sua própria respiração para que tudo o que soasse ao seu redor fossem os sons de Izaya. E ele nunca, nunca, acreditou que a odiosa tendência barulhenta fosse algum dia soar agradável.

Izaya moldava-se em infinitos suspiros diferentes: soltava o ar devagarzinho pelos lábios ao fim de um beijo longo, como um sopro; ronronava com o fundo da garganta quando tinha a nuca acarinhada; perdia o fôlego momentaneamente quando as línguas se tocavam; inspirava intensamente quando tinha o lábio mordido; expirava pelo nariz num quase riso quando começava por ele mesmo um novo beijo.

Se não tão fixo em inspirar para si cada um dos suspiros de Izaya, Shizuo certamente teria percebido como ele era, naquele beijo, o único satisfeito com as atuais posições das mãos e dos corpos. E se não tão dedicado guardando nos próprios pulmões o ar de Izaya, ele entenderia que os suspiros não eram desprendidos do restante do corpo do informante. Shizuo, consequentemente, não notou os dedos finos e cobertos de cicatrizes de cortes subirem pelas mangas de seu casaco e provarem despudoradamente seus braços e ombros antes de descerem por seu peito e procurarem contato com sua pele. Não notou, também, quando eles escorregaram por seu ventre antes de entrelaçarem-se em suas costas, gelados, tocando-o diretamente e encaixando, no processo, Izaya por entre suas pernas. Não que o corpo do guarda-costas, como sua mente, tenha permanecido alheio a aproximação do informante. E, exatamente por não tê-lo feito, quando a mente de Shizuo finalmente alcançou os acontecimentos, as mãos que castamente brincavam ora com o cachecol ora com os fios negros já encaixavam-se com exemplar dedicação em ambas as coxas de Izaya e os lábios que tão suavemente dedicavam-se a beijar e massagear os lábios finos e avermelhados marcavam com ardor o pescoço alvo do informante.

Talvez ele não tivesse permitido, entretanto, que seu corpo se sobrepusesse a sua calma exploração dos suspiros de Izaya se soubesse que um suspiro surpreso e ultrajado seria tudo o que restaria a ele quando escorregasse um pouco mais as mãos em direção ao quadril do informante. Não que tenha sido imediato, antes do tão diferente e decepcionante suspiro pode jurar ouvir um pequeno gemido e jurar sentir as pernas envoltas ao seu corpo tremerem de leve.

– Estamos em uma praça pública!

Shizuo, se não conhecesse o suficiente de Izaya para acreditar que nunca o veria envergonhado, poderia jurar que a voz do informante soava acanhada. Acanhada ou não, ao focar-se nela o guarda-costas perdeu o momento no qual retrucaria que não fora ele, com seus suspiros e proximidade, a esquecer-se de onde estavam.

Agora que podia fazê-lo, suspirou fundo, tentando, inutilmente, controlar o impulso de fechar novamente os olhos. Tinha certeza que quando os abrisse novamente, Izaya já não estaria entre suas pernas e esperou, de olhos cerrados, sentir o calor do joelhos dobrados do informante deixar suas costelas. A sombra de um sorriso pintou seus lábios quando o tronco de Izaya descolou-se do seu, mas a formato que seus lábios assumiram, longe de ser o do riso, foram o da surpresa. Abriu os olhos já de sobrancelhas franzidas para um Izaya que apoiava ambas as mãos no fim de suas coxas, quase em seus joelhos, e inclinando-se para trás, pendia o pescoço em direção ao céu, distraidamente.

– Continuamos na praça, pulga. Não acha que está muito perto, não?

Como resposta, ganhou um sorriso apontado às nuvens chuvosas e um apertão em uma das coxas.

– Não o bastante, Shizu-chan. – um segundo aperto, perigosamente próximo a virilha, fez com que o suspiro engasgado deixasse, desta vez, os lábios de Shizuo – De toda forma, é injusto se for só comigo, né, Shizu-chan? Tenho certeza de que suas pernas também podem tremer.

Mesmo que continuasse apontado para cima, Shizuo não tinha dúvidas de que o sorriso que alargava-se a cada segundo tinha a ele como alvo. E ele, verdadeiramente, poderia ter se importado ao ver como o sorriso continuou a aumentar mesmo depois que ambas as mãos voltaram a repousar castamente em seus joelhos. Ao homem mais forte de Ikebukuro não parecia aquele sorriso como se preenchido por felicidade. Satisfação, talvez. Sentindo ainda, porém, o gosto deles em sua língua, Shizuo não importava-se verdadeiramente com a forma que assumiriam os lábios de Izaya.

– Elas compraram café?

O informante pareceu confuso por alguns instantes, franzindo as sobrancelhas sem baixar o olhar. Desmanchou, porém, tanto ruga no cenho quanto o sorriso nos lábios ao experimentar com a ponta da língua a própria boca.

– Sim. Você estava dormindo. Achei até que acordaria com o cheiro do chocolate quente delas. Você quer pegar um? A grama está meio úmida, né? Está com frio? Logo mais anoitece.

– Russia Sushi seria uma boa.

– Isso é um convite, Shizu-chan? Como um encontro?

Izaya fechava os olhos enquanto ria alto, pendendo involuntariamente a cabeça para o trás. Ao vê-lo tão relaxado, Shizuo teve certeza de que não se importaria em beijá-lo mais uma vez, mesmo que fazê-lo inevitavelmente resultasse em arrancar dos lábios o sorriso displicente e provavelmente receber algumas provocações. Mesmo que não com seus beijos, entretanto, fora ele mesmo, por fim, a arrancar de Izaya o sorriso leve.

– Como foi a conversa com suas irmãs?

E ele soube que beijo algum moldaria os lábios de Izaya após sua pergunta, não quando os olhos castanhos avermelhados transmutaram-se tão sérios, não quando até mesmo as mãos em seus joelhos escorregaram para o chão e a relaxada coluna tencionou-se. Assistiu Izaya separar os lábios por duas vezes antes de, enfim, dizer:

– Elas não acreditam em mim. Disseram que eu estou enganando todo mundo. Você incluso. E que vai me matar quando descobrir. O que não vai demorar muito.

Os olhos castanhos-mel abriram-se ao limite. Shizuo, inegavelmente, não esperava por aquela resposta. E, mesmo que esperasse, não esperava ouvi-la tão direta. Sem floreios ou amenizações. As palavras exatamente como deveriam ser e exatamente onde deveriam figurar. A surpresa logo foi, porém, substituída por sobrancelhas quase dolorosamente franzidas. O homem mais forte de Ikebukuro tinha consciência que suas feições mostravam-se ainda mais duras do que o normal, Izaya, entretanto, não recuou em momento algum, sustentando seu olhar. Ainda que mantivesse, contudo, seu semblante duro e o cenho concentrado, Shizuo não conseguia compreender porque, dentre tantas as possibilidades, o informante mais perigoso de Ikebukuro (ou quem um dia o fora) escolhera a verdade nua.

“Eu estava dormindo. Eu não saberia se você mentisse.”

“Não te ajuda em nada alguém fazer coro às minhas desconfianças.”

“Por que me diz isso tão sério? Cadê aquele seu maldito sorriso pulguento falso?”

– O que elas te contaram?

– Mairu gosta de lutas, Kururi gosta de ler. Mesmo assim é Mairu quem usa os óculos e Kururi quem usava o colan. Os contrastes foram apontadas por elas mesmas e elas pareciam de alguma forma orgulhosas deles, mas afirmaram que ambas leem e praticam exercícios com frequência e que não perderiam para ninguém em uma competição. Meus pais não tinham muito tempo para a gente quando éramos crianças, ambos trabalham bastante para manter o nome da família. Eu cozinhava para elas quando mais novo, mas quase nunca ficava em casa quando adolescente. Quando estava em casa, ficava só no meu quarto. Não temos uma relação muito boa e isso vai além das brigas normais que existem entre irmãos, você sabia disso, certo? Nunca brincamos muito juntos, mas pouco antes de eu mudar sequer nos falávamos. Elas me trocariam sem hesitar pelo seu irmão mais novo se você aceitasse, mas eu não quis te acordar para que fizessem a proposta e, de toda forma, eu já estou com você, então elas não insistiram. Eu não gosto muito, aparentemente, de praia ou sol, mas elas não tem certeza se isso é verdade ou se era minha desculpa para fugir às poucas viagens familiares que nossos pais propunham quando a consciência deles por nos deixarem sozinhos pesava. Eu criei alguns contatos suspeitos enquanto ainda morava com eles, então quando me mudei ninguém tentou impedir. Eu gosto de jogos de tabuleiros e, supostamente, não sou tão esperto quanto acho que sou. Aparentemente eu devo dinheiro para a Mairu, mas acho essa informação altamente questionável. E, segundo a Kururi, se eu estiver mentindo para você e o Kasuka-san ficar triste por causa disso eu vou pagar. E, bom, não acho que seja de dinheiro que ela esteja falando. Enfim, nossos pais não se importam muito, mas elas se viram bem sozinhas, estão no colegial agora, na Academia Raira. Disseram que não fazem questão de me ver de novo, mas que se eu realmente precisar elas fazem isso por você, Shizu-chan.

Agora calado, Shizuo observava o sorriso falsamente tranquilizante progressivamente voltar aos lábios amargos como café. Perfeito encaixe com os olhos sérios.

“E ajudou? Você se lembrou de algo, pulga?”

– E você está bem, pulga?

A seriedade dos olhos castanhos-avermelhados oscilou levemente e o sorriso polido morreu, substituído por uma expressão absolutamente nula.

– Elas me mostraram uma foto do seu irmão, Shizu-chan. Ele é bonito. Ator, né?! Vocês se parecem um pouco.

– Ele é.

“Se lembrou, pulga?! Desembucha!”

– Você acredita em mim, Shizu-chan?

Os olhos castanhos-avermelhados permaneciam sérios, as sobrancelhas castanhas-claras permaneciam franzidas, sorrisos não ocupavam lábios alguns. Shizuo sabia que não era uma brincadeira.

– Não.

De todos os confusos suspiros entregues por Izaya desde que batera a sua porta há algumas semanas em uma terça-feira chuvosa, o suspiro recebido como resposta a sua afirmação foi, inegavelmente, o mais incompreensível. Ele sabia que não havia motivo algum para senti-lo de tal forma, não podia, contudo, deixar de pensar nele como se preenchido por alívio. O sorriso resignado e levemente divertido que pintou os lábios de Izaya em seguida reforçou seu estranho sentimento.

– Estou com fome e frio. Vamos? Temos um encontro pra hoje ainda, né, Shizu-chan?

Heiwajima Shizuo deveria, desde o momento no qual colocou-se de pé, afastou com um rosnar a mão estendida de Izaya e cruzou a passos rápidos a praça em direção ao restaurante, ter notado que havia algo de errado naquele fim de tarde.

O pôr-do-sol não era visível por trás das nuvens carregadas. Talvez como compensação pelas promessas descumpridas de chuva ao longo de toda a semana, naquele início de noite daquele domingo o céu mostrava-se cinzento ao ponto de antecipar a noite e alcançá-los antes mesmo que a primeira gota caísse.

A precoce escuridão não era, entretanto, o motivo pelo qual o homem mais forte de Ikebukuro não notava os olhares que acompanhavam seus passos. Dezenas deles, curiosos, chocados, surpresos, enojados: Shizuo não via nenhum deles, nem a eles e nem ao escuro que parcialmente os escondida. Não que os olhos castanhos-mel focassem-se em cores. O guarda-costas não captava plural algum: tudo o que o via era o esvoaçante vermelho do cachecol e o brilhante vermelho dos olhos tagarelas. Ele não via, portanto, os lenços amarelos que dobravam-se quando pescoços viraram-se em sua direção, ou as máscaras azuis que escapavam de bolsos de pernas a correrem na direção oposta.

Ainda que não as ignorasse conscientemente, era inquestionável verdade que Shizuo não precisava se preocupar com cores. Ainda que as gangues coloridas pintassem tantas vezes de negro a paciência do homem mais forte de Ikebukuro, naquela fim de tarde de um domingo cinzento, os problemas de Shizuo foram causados não pela escuridão, nem pelo vermelho ou pelo amarelo ou pelo azul, os problemas de Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya não vestiam cor algum. E, por não vestirem cor alguma, os problemas dos dois dos mais fortes homens de Ikebukuro poderiam pintar-se de todas as tonalidades e adotarem as mais variadas formas.

Naquela tarde cinzenta de domingo na praça central de Ikebukuro, os problemas de Shizuo e Izaya assumiram as formas de um curioso e pacato senhor de meia-idade cansado do tedioso trabalho e deprimido pela briga sobre a utilização do dinheiro mensal com a esposa após o almoço, e a de um casal de namorados recém-formado que acreditava-se o mais sortudo do mundo por compartilhar o gosto por tomar sorvetes ao ar livre em dias frios. Eles não eram figurões do distrito nem tinham planos quaisquer para causarem grandes problemas aos dois homens mais fortes do distrito, tudo o que tinham eram celulares com câmeras de vídeo e o acesso anônimo ao fórum de uma gangue sem cor.

Eram quatro as gravações, uma do senhor de meia-idade e três do casal de namorados, que não somavam juntas nem vinte minutos. Não eram de qualidade profissional, mas boas o suficiente para mostrarem beijos plurais entre Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya. Beijos, carícias, sonecas no colo, mãos estrategicamente posicionadas em finais de coxas, pernas entrelaçadas, mordidas em pescoços, dedos sorrateiros esgueirando-se por entre camadas de roupas e largos sorrisos compartilhados.

O homem que rapidamente percorria a rua e cujos olhos castanhos-mel fixavam-se em fios de um cachecol vermelho sequer suspeitava, contudo, que vermelho era também a cor que piscava em centenas de diferente celulares ao redor do distrito a anunciar novas infinitas mensagens.

“Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya aos beijos”: era o que anunciava o fórum.

“É a praça central? Há alguns dias o Heiwajima defendeu o Orihara neste mesmo lugar. Alguém tinha postado uma foto sobre isso...” – comentava um. Uma garota do Ensino Médio a vestir pijamas.

“Eu os vi juntos no supermercado nesta semana.” – afirmava outro. O caixa de um pequeno mercado de bairro.

“Eu moro no mesmo prédio que o Heiwajima. Sempre os vejo juntos.” – completava a aposentada professora de japonês clássico.

“Beijos?! Vocês tem certeza que não é um vídeo alterado? Qualquer um pode fazer isso hoje em dia.” – o dono do comentário, um hacker de computador, tinha certeza que era capaz de criar um vídeo como aquele.

“Um vídeo falso de duas fontes diferentes? Por que alguém faria duas contas só para forjar um beijo? E os vídeos são bastante diferentes. Olha de novo! São ângulos diferentes...” – o contraditoriamente sensato escritor de matérias sensacionalistas nunca oscilava em sua fé nas fontes.

“Quem é este que tá beijando o Heiwajima?” – a universitária em Designe Gráfico tinha quase certeza que já vira os desgrenhados cabelos negros em alguma revista de moda.

“O Orihara é membro dos dólares, não é?” – o aluno do colegial já sabia a reposta a sua pergunta, mas tinha de garantir que a discussão no fórum continuasse.

“O Shizuo também é.” – ela reconhecera sem problema algum com seus olhinhos infantis cobertos por lentes grossas a figura de Shizuo em uma briga entre gangues há algumas semanas.

“Não, ouvi dizer que o Heiwajima saiu.” – os cabelos brancos a escaparem por baixo da boina e cobrirem parcialmente os ouvidos não impediram que o aparelho auditivo captasse a afirmação no metro dias antes.

“Quem é, na verdade, Orihara Izaya?” – mais uma vez, o aluno do colegial sabia exatamente a resposta à pergunta que fazia.

“Então é isso que o maldito está fazendo depois de ter sumido? Beijando o mostro?! Só pode ser piada!” – o devedor de aproximados 60882.800 ienes que precisava manter com urgência os agiotas longe de sua casa e receber o restante da informação sobre a quantidade de dígitos na conta de seu primo amigo de um político figurão coçava com força a cabeça enquanto digitava.

“O Heiwajima Shizuo é gay? Uau, por essa eu não esperava...” – a bonita jovem de cabelos castanhos escuros suspirava ao pensar que o flerte da semana anterior fora justificadamente dispensado.

“É montagem, com certeza...!” – dois parcialmente comidos Pockys de chocolate pendiam dos lábios sorridentes de duas gêmeas perfeitamente iguais a olharem maliciosamente um aparelho de celular.

“Pessoal, pessoal, se acalmem, não deve ser nada... E não seria um problema se eles se beijassem, não é?!” – o palmtop tremia nas mãos cobertas por luvas negras de uma motoqueira com capacete de orelhas de gatinhos parada no acostamento de uma rua em Shinjuku.

Dez para um.

Dez para um era a incrivelmente exata proporção entre as mensagens que acumulavam-se incessantemente no fórum e os passos do homem mais forte de Ikebukuro.

Mesmo que a distância não fosse muita, portanto, quando Shizuo deslizou com desnecessária força a porta de correr do Rússia Sushi e afastou com uma das mãos a pequena cortina que trazia pintado o nome do estabelecimento para percorrer com eficiência seus olhos castanhos-mel pelas mesas lotadas, todos os rostos que o fitaram de volta estampavam com se tatuadas todas as já milhares de mensagens que pululavam nas telas dos celulares agora escondidos freneticamente nos bolsos como se provas de um crime. Crime agora conhecido por cada cidadão daquele distrito, membro ou não da gangue descolorida. Crime que o homem que ainda procurava por lugares vagos no restaurante sequer parecia importar-se ser o responsável. Crime do qual o homem que permanecia no limiar entre o restaurante e a calçada com um sorriso gigantesco nos lábios parecia orgulhar-se muito.

Notas finais
Olá, gente, tudo certo até aqui? Espero que tenham gostado do capítulo! *.* Obrigada por me acompanharem! s2 beijo, beijo, =* Yuki