(in) esquecível
19 Sobre como você, inegavelmente, era mais do que um “ops”
Notas iniciais
Sobre como você, inegavelmente, era mais do que um “ops”
O pequeno aquecedor creme colado à parede um dia branca não era o bastante para afastar o frio que insistia em insinuar-se pelas portas ainda abertas do Russia Sushi. Os rostos voltados ao recém-chegado Heiwajima Shizuo, entretanto, não denunciavam a queda da já baixa temperatura, assumindo não raramente um tom corado. Também não era o frio o culpado pelas mãos que mantinham-se dentro dos bolsos. O culpado, tanto pelos tons vermelhos nas bochechas quanto pelos dedos escondidos em bolsos, eram vibrantes celulares coloridos ainda a anunciarem mensagens da gangue sem cor.
O homem cujo celular no bolso dianteiro das calças já não vibrava há semanas por fórum algum, contudo, permaneceu alheio aos olhos atentos, aos rostos vermelhos e aos ativos celulares enquanto corria os olhos castanhos-mel pelas mesas lotadas a procura de lugares vagos. Se mais atento, ele notaria o próprio celular a vibrar em seu bolso, anunciando a chamada de um de seus poucos amigos e o mais sigiloso médico clandestino de todo o distrito, ou que os corados olhares que recebia nada se assemelhavam com os olhares surpresos ou temerosos aos quais já se acostumara a receber. Foi somente ao encontrar no mar de atentos olhos um par conhecido que percebeu que a forma como era encarado era inegavelmente mais desconcertante do que o normal.
Não que fosse estranho a ele ser recebido com surpresa por Brezhnev Simon. Não havia vez na qual visitara o restaurante que não fora recebido por um par de olhos azuis bondosamente surpresos. Olhos bondosamente surpresos, recepções calorosas, sorrisos solícitos, convites enfáticos e afirmações convictas sobre os benefícios de sushi – em especial os russos – para a manutenção de corpos saudáveis. Naquela noite, entretanto, os olhos que o receberam, ainda que inegavelmente surpresos, não eram calorosos e não transbordavam felicidade. Eles traziam apenas surpresa. Surpresa pura. Sem rastro algum de quaisquer outros sentimentos.
Mesmo que, entretanto, as sobrancelhas castanhas-claras tenham se franzido, a pergunta sobre o estranho olhar recebido sumiu espontaneamente da garganta do homem mais forte de Ikebukuro quando um cortante vento gelado insinuou-se por baixo das mangas e barras de seu casaco.
– Hey, pulga, entra logo, está deixando ar gelado entrar no restaurante, merda! Vou deixar você morrer se ficar doente de novo! – o estalar indignado escapou alto dos seus lábios ao receber uma risadinha como resposta à sua repreensão, sua vontade, entretanto, de estender sua indignação a xingamentos cessou-se no instante no qual a porta fechou-se em um baque surto e a ausência dos ruídos da rua acentuou o contraditório silêncio do lotado restaurante. Uma notificação de mensagem opressivamente alta no calado estabelecimento roubou os olhos ainda presos em Izaya para Simon, que ainda mantinha-se a fita-lo, parado diante de uma mesa. Limpou a garganta silenciosamente e elevou sua voz o suficiente para fazer-se ouvir apesar da distância entre eles – Yo, Simon! Tem lugar?
Franziu involuntariamente as sobrancelhas e torceu sutilmente os lábios pela ausência de reação do amigo, que permanecia a fita-lo com a mesma expressão surpresa, sem indício algum de responder ao seu cumprimento com a usual calorosa e sonora entoação de seu nome. Talvez exatamente por não ter devolvido seu cumprimento, assumiu de imediato que também sua pergunta permaneceria sem retorno e correu mais uma vez os olhos pelo restaurante, procurando por ele mesmo a resposta à sua pergunta por lugares vagos. A ruga de desconforto entre seus olhos aprofundou-se ao perceber-se ainda vítima das dezenas de pares de olhos atentos. Ainda que, agora, aparentemente, dividisse a atenção com um ponto às suas costas, não sentia-se confortável quando era o motivo de tantos sushis esquecidos suspensos no ar. Seu semblante só relaxou ao encontrar dois lugares recém vagados no balcão.
– Pode ser ali, Simon?
O nome do russo arranhou sua garganta ao escapar mais alto do que normalmente faria e, ele tinha certeza, definitivamente mais rude. Ele não se importou, entretanto, em manter o semblante sério e a voz alta ao repetir mais uma vez o nome do amigo. Como resultado ao impolido tom, ou talvez pela percepção do quão silêncio o restaurante ficava sem seu sonoro e gentil sotaque, o russo acabou por piscar repetidas vezes e rearranjar sua expressão surpresa para a usual animada e solícita:
– Ah! Shizuo! Veio comer sushi? Sushi está gostoso hoje. Sushi especial com cupom de desconto.
O sorriso polido estava de volta ao rosto do russo, trazendo ao guarda-costas alívio quase suficiente para fazê-lo espelhá-lo. Alívio que dobrou na forma de um meio-suspiro quando, ao ser conduzido até os lugares vagos, o homem mais forte de Ikebukuro notou que, ainda que não gostasse das desconfortáveis banquetas dispostas ao longo do balcão, usá-las naquela noite significaria ter diante de si apenas o sorriso, os cupons e as infinitas propostas por novos sushis de Simon. Os olhos curiosos, intrigados, confusos e sondadores ficariam, felizmente, às suas costas.
Sete passos, talvez oito, seriam o suficiente para alcançar as banquetas e confortavelmente livrar-se dos opressores olhares. Shizuo dera três deles até perceber que algo tentava barrar seu avanço, puxando-o de volta pela barra do casaco. Não precisava virar-se para saber quem chamava sua atenção, não quando sentia o aperto afrouxar e uma mão deslizar até alcançar a sua e entrelaçar juntos os dedos, ainda assim, girou os calcanhares até encontrar suplicantes olhos castanhos-avermelhados.
– Desembucha, pulga.
– Eu não fiz nada... – o aperto um pouco mais forte nos dedos entrelaçados foi a única resposta entregue, um aceno resignado com a cabeça, entretanto, indicou que o informante entendera o porquê do imperativo, suspirando baixinho e apontando com os olhos na direção de Simon – Ele é aquele que chamou meu nome há algumas semanas, né?! Quando voltávamos da escola...
– Oh! – os olhos castanhos-mel correram de Simon até Izaya e então de volta a Simon, que esperava-os com dúvidas nos olhos e dois cardápios nas mãos, em frente aos lugares vagos no balcão – É Simon. Não lembra?
O “não” baixinho foi ignorado enquanto puxava os dedos para longe do aperto de Izaya. O restante do caminho foi cruzado rapidamente, sem hesitação, mas o guarda-costas não sentou-se de imediato, encarando com receio que não combinava nem com seus passos duros nem com sua expressão rígida o homem que estendia-lhe educadamente a carta do restaurante.
– Simon... – começou, abaixando o tom de voz ao notar que dezenas de cabeças que definitivamente não respondiam a aquele nome viraram-se em sua direção. Engoliu seco e aumentou a ruga entre suas sobrancelhas. Tinha certeza de que não queria ser ouvido. Tinha certeza de que vazar pelo distrito a história sobre Izaya ter perdido as memórias lhe o arrastaria irremediavelmente para conflitos. Em um só movimento, portanto, acenou para que o russo se aproximasse e cobriu com as mãos parcialmente os lábios, de forma que fossem visto apenas por Simon – O Izaya... – os bondosos olhos azuis atentos esperavam pacientemente pelo complemento, Shizuo, entretanto, assim como com Kadota e Shinra, via-se incapaz de escolher as palavras corretas para explicar a condição do informante. Engoliu seco mais uma vez na tentativa de desobstruir a garganta e piscou pesadamente. – Droga, me sinto um idiota dizendo isso... Merda, Izaya, seu maldito... Simon, o Izaya... umas semanas atrás... bateu na minha porta... disse não se lembrar... não se lembrar de merda nenh-
– Ah! Shizuo, Kadota me contou. Izaya não lembra. Eu sei. Eu sei. Sem memórias. Nem do Shizuo. Nem do sushi. Eu sei.
O russo levantava ambas as mãos, balançando-as em um gesto que tanto transparecia rendição quanto lamento diante de uma causalidade. O sorriso bondoso e solícito não oscilou por nenhum segundo no rosto daquele que muitos julgavam o único capaz de competir com Shizuo em força bruta, permanecendo no rosto negro mesmo quando os olhos, talvez mais sérios do que antes, se dirigiram a Izaya, parado atrás do guarda-costas:
– Yo, Izaya. Eu sou o Simon.
Shizuo assistiu o momento no qual Izaya adiantou-se, curvou-se levemente e entreabriu os lábios para um cumprimento que, entretanto, não concretizou-se. Os lábios entreabertos tremeram sutilmente e o olhar castanho-avermelhado oscilou quando os bondosos olhos azuis endureceram e o outrora sorriso transmutou-se em uma linha fina antes de moldar-se em palavras de um idioma desconhecido pelo guarda-costas. Poucas palavras, pela entonação, uma pergunta ou duas. Mesmo que não houvesse dúvidas de que o alvo das palavras estrangeiras eram o informante, Izaya não parecia familiarizado com as elas, inclinando levemente a cabeça enquanto as escutava com as sobrancelhas franzidas em dúvida. Tão rápido, porém, quanto dera lugar as palavras sérias na língua que Shizuo julgou a materna, o sorriso voltou aos lábios de Simon. No instante seguinte dois pequenos tapas eram depositados nos ombros de Izaya e dois cardápios plastificados encaixados nas mãos do guarda-costas.
– Querem sushi?
Era inquestionavelmente fácil ignorar dezenas de olhos atentos quando não precisava encará-los, assim, ainda que não fosse de seu feitio deixar com que a atenção a ele dedicada não recebesse de seus punhos a adequada retribuição, Shizuo deixou que seus olhos vagassem desleixadamente pelos itens no folheto entre seus dedos e sua atenção fosse tomada pela empolgação de Izaya ao ler em voz alta todas as estranhas variedades para escolha. Até permitiu a si mesmo um sorriso discreto de canto de lábios enquanto assistia a indignação do informante diante de possibilidades como “carne especial de chefe”, “surpresa de crianças”, “pirata russo”, “combo mortal da casa” e da inquestionável falta de explicação dos ingredientes que compunham os sushis.
Diferente dele, Simon não segurava o riso diante da reação de Izaya aos seus falhos esclarecimentos quanto ao cardápio. Se estava surpreso com as ações do possivelmente desmemoriado Izaya, o russo definitivamente não o demonstrava. O guarda-costas lembrava o quão difícil fora a ele acostumar-se a descontraidamente falante personalidade, Simon, entretanto, não parecia apresentar grandes dificuldades em engrenar com a nova versão do informante uma conversa sobre como nomes de sushis não os faziam menos preciosos. Não pode evitar revirar os olhos ao pensar que Simon estava, definitivamente, entregando a Izaya mais atenção do que o moreno merecia.
– Né, Shizu-chan?
O já largo sorriso de Izaya, apontado para o guarda-costas, contraditoriamente alargou-se ainda mais ao receber como resposta um “né o caralho, pulga” rosnado entredentes. O sorriso de Simon, entretanto, deu lugar a repreendas pelo linguajar do homem mais forte de Ikebukuro. Segundo o russo, palavrões amargavam mesmo o salmão mais suave. E, mesmo que não tivesse intenções de interromper a bronca que sabia que merecia, Shizuo não pode segurar as próprias palavras ao ver Izaya desenrolar do pescoço o rubro cachecol e apoiá-lo nas costas da banqueta.
– A propósito, pulga, onde achou isso?
Os olhos cujos tons incluíam os dos fios do cachecol fecharam-se sutilmente em evidente dúvida e só abriram-se em entendimento quando o guarda-costas tocou mecanicamente a ponta do cachecol, enrolando com eficiência a parte que escapulia das pequenas grades do desconfortável banco.
– Ah! Isso? Por que? – os olhos castanho-avermelhados retornavam casualmente ao cardápio seguro entre os dedos longos e cobertos de cicatrizes, mas Shizuo podia distinguir com perfeição um meio sorriso nos lábios do informante.
– Eu não me lembro de ter um assim.
– Bom, deve ser porque não é seu.
– Quê?
– É meu, Shizu-chan. Encontrei no meu armário. – de volta a ele, os olhos não escondiam espelhar o meio sorriso dos lábios finos. Franziu o cenho num misto de confusão e desconfiança, o que acabou por arrancar um riso aberto do outro. – Eu fui até meu apartamento pegar algumas coisas. Roupas, na verdade. Achou que eu estaria usando suas cuecas por todo este tempo?
Não conseguiu evitar que seus olhos corressem Izaya da cabeça aos pés. Reconhecia: os sapatos não eram, definitivamente, seus, a calça e o casaco, entretanto, inegavelmente faziam parte de suas compras de fim de ano do Natal anterior. Quando retornaram ao rosto do informante, prontos a questionarem as afirmações, os olhos castanhos-mel encontraram um sorriso ainda maior do que fitavam momentos antes.
– Aqui, olha: a camisa de baixo, e... hum... aqui: o cinto da calça são meus.
Os instantes dedicados a encararem o mediano cinto negro de fivela prateada e a camisa cinza escura relação alguma tinham com a conclusão de que, realmente, as peças não pertenciam a ele. Ele, afinal, não precisaria de um segundo olhar para perceber que aquelas roupas, diferente da calça e do casaco, nunca estiveram em sacolas de compras carregadas por ele. O excessivo tempo que permaneceu correndo seus olhos da camisa para o cinto e do cinto para a camisa eram resultado da descrença diante do que via, descrença grande o suficiente para separar seus lábios e mantê-los calados por tempo o suficiente para arrancarem novo riso, desta vez inegavelmente alto, de Izaya.
– Os sapatos também são meus, na verdade. Mas as meias são suas. – a declaração, dita num tom divertido e entrecortado por risos, arrastou de volta sua atenção aos olhos cor de cachecol.
– E por que diabos você usaria minhas meias?
– Hã? Por que não? Eu gosto delas. São estranhamente branquinhas e ficam dispostas em pequenos rolinhos nas gavetas. – Shizuo sentiu seus cabelos descoloridos balançarem avidamente em sua cabeça enquanto negava com perfeita indignação as palavras ouvidas – E seu casaco é gostoso. Tem cheirinho de Shizu-chan e é fofinho por dentro. Mas suas calças são meio largas...
– Você usa a merda do seu cinto para ajustar a merda da minha calça em você ao invés de usar a merda da sua calça?! – Shizuo sabia que, apesar de seu tom, aquela não era uma pergunta tão bem quanto sabia que todos os possessivos assumiam em sua voz tons altos o suficiente para trazer de volta a ele todas os olhares que porventura tenham deixado suas costas naquele meio tempo.
– Shizuo. Eu ouvi que é moda entre jovens. – a voz de Simon, apesar de calma e educada, não trouxe a ele sensação alguma de conforto.
– O que é moda, Simon?
Com indignação correndo por cada veia em seu corpo, Shizuo assistiu os lábios solícitos e sorridentes abrirem-se para uma resposta, mas fecharem-se novamente quando os olhos azuis deslizaram para alguns centímetros a sua direita, a exata posição de Izaya. Fosse o que fosse que o russo encontrou ali, o fez sorrir ainda mais largo enquanto respondia:
– É moda comer sushi aos domingos. O otoro está fresco. O que o Izaya-kun gosta. Salmão também está gostoso para dias de chuva. Arroz está macio e alga crocante.
– Eu gosto? Gosto tipo favorito? Viu, só, Shizu-chan? Viu?! Viu?! Eu tenho um favorito!
Um lamentar resignado, mais parecido com o bufar de um animal furioso do que com um suspirar, escapou lento dos lábios do guarda-costas. Por mais que desejasse, não sentia que seus músculos responderiam a sua vontade de surrar Izaya. E, de toda forma, tinha certeza de que Simon, atento a cada um de seus movimentos, não o deixaria quebrar a suposta ordem do restaurante.
– Eu quero alguns também, Simon. – respondeu sério, com a certeza de que o único a ser quebrado naquela noite seria seu orçamento.
Ainda que o restaurante permanecesse tão lotado quanto antes, era inegável que a atenção de Simon era integralmente dos recém-chegados clientes. Não que Shizuo se importasse com a excessiva dedicação do russo, era claro a ele, afinal, que não era o principal alvo da atenção.
Izaya ria satisfatoriamente de tudo. Ria do cardápio. Ria dos comentários de Simon. Ria dos desenhos no copo de água. Ria quando questionado sobre sua história e ria enquanto a contava. Ria ao entregar detalhes de sua estadia na casa do guarda-costas e ria quando as mangas do casaco, compridas demais, deslizavam através de seu braço e cobriam suas mãos. Shizuo, ao contrário do informante, não ria de nada, moldando os lábios apenas na boca do copo de chá e separando-os apenas para receber os sushis que tão rápida e eficientemente foram depositados no balcão a sua frente. Diferente do esperado dele, entretanto, não irritava-se com o riso do homem que quando em quando esbarrava o braço no seu ao pescar um sushi ou gesticular com ênfase.
Nem Izaya nem Simon pareciam importar-se com seu persistente silêncio, limitando-se a chamar seu nome periodicamente e sorrir em sua direção quando ele acenava em concordância a algo que sequer havia ouvido. Não que os pensamentos do homem mais forte de Ikebukuro vagassem livres ou prendessem-se a algo que não as palavras trocadas entre os dois outros, a verdade, que certamente seria negada caso Shizuo a percebesse, era que ele acostumara-se a fazer, em silêncio, refeições enquanto ouvia a voz do informante. Apenas isso. A voz de Izaya, o tilintar de pratos e copos, o sabor da comida e algum pensamento superficial sobre a semana passada ou os planos para a próxima era tudo o que o homem mais forte de Ikebukuro esperava ao sentar-se em frente a comida.
– Seria legal ter sukiyaki esta semana. – o pensamento escapou alto. E, mesmo que não fosse uma mentira e ele realmente acreditasse que o clima estava perfeito para o prato, em momento algum planejou que dois pares de olhos voltassem-se a ele. Nenhum deles, entretanto, pareceu surpreso com sua exclamação, o que levou o guarda-costas a acreditar que provavelmente fora algo da conversa entre eles que o levara a tal conclusão.
– Sim, sempre dizem isso no inverno. – Simon respondeu, como se rendido – Mas sushis são bons no frio também.
– Podemos fazer, Shizu-chan. – o riso que parecia permanente no rosto de Izaya deu lugar a uma expressão pensativa – Mas precisamos ir ao mercado. Não temos cogumelos em casa.
– Precisamos nada, pulga. Por que tenho que ir junto? – “e não diga ‘casa’ como se fosse sua também!”, pensou.
– Da última vez eu tive que voltar correndo, lembra? Te contei. Um pessoal estranho veio atrás de mim. Quando vou com você isso não acontece.
– Não preciso de cogumelos.
– Claro que não. Você não precisa nem dos cogumelos e nem de nenhum dos legumes, né? Só de carne e de pudim.
Um riso abafado, mas alto o suficiente para ser ouvido, cortou o palavrão que coçava na língua de Shizuo. Ao desviar o olhar, entretanto, na direção de Simon, encontrou-o com a cabeça abaixada como se espiasse algo que, de sua cadeira e com o balcão a barrar sua visão, o guarda-costas não podia ver. Franziu, involuntariamente, o cenho. Aquela não era a primeira vez que via o russo desviar o olhar naquela direção.
– Ir juntos ao mercado é bom. Eu sempre vou com o Chefe.
E Shizuo, verdadeiramente, não podia acreditar como aquele tópico de conversa trazia tantos novos risos a Izaya. De alguma forma, ao fitar Simon e encontrá-lo desviando os surpresos olhos de Izaya ao ponto atrás do balcão, não pode evitar pensar que ele não era o único a estranhar os excessivos sorrisos do informante.
– E então o Shizu-chan pegou um carrinho de compras e encheu toda a parte de cima de pu-
Ele não desejava que Izaya se calasse, mas certamente poderia ter-se apropriado desta desculpa para justificar a ação que o fez calar-se. Verdadeiramente, Shizuo não desejava nada em específico, não desejava sequer o que acabou por fazer. Não foi dependente, portanto, de nenhum de seus desejos a maneira como casualmente inclinou-se e limpou da bochecha de Izaya uma gota de molho shoyu. Não foi intenção sua, também, ganhar como acompanhante silêncio, um corar sutil das agora limpas bochechas e um fitar curioso dos olhos castanho-avermelhados. Assim como não foi sua intenção levar os dedos sujos do molho até a própria língua e chupá-los discretamente.
O silêncio de Izaya, aquele que não desejara em momento algum, espalhou-se impiedosamente por todo o restaurante. Nem ruído de talheres nem de conversas a atrapalhar sua presença opressora. E Shizuo sabia, mesmo que se mantivesse de costas a eles, que assim como os olhos castanho-avermelhados, todos os outros olhos, de todas as colorações, também estavam fixos neles.
Quando o silêncio por fim rompeu-se, não o fez gradualmente. Como se para compensar todo o tempo de quietude que o gesto do homem mais forte de Ikebukuro desencadeara, o som de dezenas de celulares a apitarem preencheu de uma só vez o restaurante. Dezenas de toques diferentes, músicas, campainhas, apitos, assovios. Por mais diversos e barulhentos que fossem, entretanto, pareceram cúmplices ao cessarem a tempo de fazer com que a voz grossa e rude de Shizuo ecoasse no estabelecimento:
– Estava sujo... Cala a boca enquanto come, pulga. Dá pra ver sua comida sendo mastigada!
O som, entretanto, da resposta que Izaya o entregaria ao entreabrir os lábios foi imediatamente substituído por uma segunda onda de toques de celulares. Shizuo teria percebido que o seu próprio, seguro no bolso dianteiro de sua calça, soma-se ao barulho se não fosse ele mesmo a interromper os quase coordenados eletrônicos com o som do arrastar de seu banco contra o chão de madeira. Alto, forte o suficiente para sobrepor-se às músicas, campainhas e assovios e marcar em disforme trilha o piso.
Toques de celulares, olhares atentos, cochichos baixos: em um segundo, nada mais disso importava a Heiwajima Shizuo. Tudo o que importava era o ceder quase macio dos hashis entre seus dedos, o peso da banqueta em suas mãos e a adrenalina a correr em suas veias. Os olhos castanhos-mel, quase fechados pelo dicotômico prazer do descontrole, não captavam nada que não a destruição prestes a ser causada. Uma última inspiração, profunda, cravou um sorriso nos lábios daquele prestes explodir. A explosão, entretanto, nunca eclodiu e, se estivessem atentos, os olhos cor de avelã teriam antecipado o porquê. Antes que pudesse reagir, contudo, Heiwajima Shizuo sentiu o peso de sua nova arma ser arrancado de sua mão e um pano vermelho cobrir-lhe os olhos.
– Shizu-chan, acalme-se, sim?
– Shizuo, sem brigar no restaurante.
O vermelho a cobrir seus olhos deslizou sobre seu rosto e pousou suave em seus ombros antes que Shizuo percebesse tratar-se do cachecol de Izaya. Apenas, entretanto, quando a pesada mão de Simon fez companhia ao tecido em um aperto que ele tinha certeza ser capaz de desmontar qualquer cliente que não ele, o guarda-costas percebeu que estivera a poucos instantes de fechar a força os olhos que ainda o fitavam, agora mais assustados e temerosos do que curiosos.
As desculpas que ele devia ao russo não deixaram seus lábios. Ele não estava, afinal, arrependido. Com a respiração ainda agitada, ele lamentava ter sido parado e, se pudesse, ainda levaria a cabo sua explosão. Fosse pela mão imensa em seu ombro ou pela pequena que acabara de encaixar-se na sua, suspirou pesado e virou mais uma vez as costas ao salão do restaurante.
O banco voltou ao lugar de origem e o homem mais forte de Ikebukuro sentou-se como se nunca tivesse levantado. A mão encaixada a sua e o cachecol ainda a pender em seus ombros eram o único indício de que ele estivera a ponto enlouquecer, um apertão e um “ok” foram o suficiente, entretanto, para que os dedos longos e cobertos de cicatrizes deixassem os seus e no caminho arrastassem para longe o tecido.
– Hehe. Isso foi perigoso, né, Shizu-chan?! É a primeira vez que te vejo ficando bravo assim com alguém que não eu! Assustador! – longe de parecerem assustados, entretanto, os olhos rubros brilhavam em diversão – Ah! Na verdade não é não! Você também ficou super bravo naquela vez na praça.Com aqueles três caras. Mas não entendi desta vez... por que ficou bravo?
As sobrancelhas castanhas claras se juntaram confusas, o rapaz que calmamente levava o copo de água aos lábios realmente parecia sério ao afirmar não saber a razão da raiva ainda a pesar sua respiração.
– Está assim desde que chegamos. Não percebeu, pulga? Eles ficam olhando. E esses malditos celulares...
– Eles sempre ficam olhando, Shizu-chan... pra você...
– Não me vem com essa, pulga! Impossível você não ter percebido. No caminho para cá também... E eles não estão olhando normal... E não só para mim...
– Hm... você me parece especialmente bonito hoje, Shizu-chan... Esse casaco de inverno tem um charme e você está um pouco corado. Bem saudável, sabe?
– Não fode, Izaya, seu merd-
– E seu celular também estava tocando... bastante...
Um falso bico magoado seguido de um risinho baixo foi o que Shizuo recebeu ao espantar para longe do bolso de sua calça uma das mãos de Izaya. Ele nunca pensaria naquilo como um plano do informante, mas era inegável que, quando finalmente pegou seu celular, depois de ralhar com o rapaz que insistia, aos risos, em sacá-lo por ele mesmo, Shizuo sequer se lembrava de sua fúria anterior ou do motivo por trás dela.
– É Shinra. E Celty. Droga. Um monte delas.
Um riso alto denunciou que o seu desgosto pela quantidade de mensagens e ligações perdidas a apitar na tela inicial de seu aparelho transparecia com perfeição em seu rosto. Desviou da nova tentativa do informante em roubar seu celular e quase o derrubou ao senti-lo vibrar com mais uma chamada de Shinra.
– Não vai atender?
– Só se fosse a Celty.
– Oh! Hehe... como se fosse possív- Shizu-chan na verdade tem um senso de humor bastante perturbador, não é?
– Não isso, idiota! – ralhou, sem real rancor, diante do riso satisfeito de Izaya, rejeitando a chamada que ainda vibrava – Vou ler as mensagens da Celty. Nem fodendo vou atender aquele idiota.
– Lê em voz alta, Shizu-chan!
Estalou a língua em indignação, mas não impediu que Izaya apoiasse-se em seus braços e espiasse a pequena tela.
– Oe, pulga, se você colocar o cabeção na frente eu não consigo ler... E está muito perto, não acha não? Desgruda!
Heiwajima Shizuo nunca ousaria dizer que sabia o que esperar de Izaya, com ou sem suas memórias. Ele, entretanto, sequer hesitou em pensar que não gostaria do que encontraria no rosto do informante ao vê-lo afastar-se lentamente, em silêncio. Mesmo que, contudo, ele tentasse se enganar na tentativa de convencer-se de que fora apenas educação a guiar o afastamento de Izaya, o sorriso que encontrou nos lábios finos afastaria de pronto qualquer possibilidade desta interpretação.
– Não perto o suficiente, Shizu-chan. – ainda que o homem mais forte de Ikebukuro, centrado no nó a formar-se em sua garganta, não pudesse percebê-lo, o sorriso de Izaya aumentava exponencialmente, proporcional aos olhos castanhos-mel que abriam-se em excesso, misto entre surpresa e desconforto – Enfim... Shizuo, onde você está? Não faça nada impensado. Atende as ligações do Shinra, por favor.
– Quê? – o questionamento escapou atrasado, engasgado, lutando para deslizar em sua garganta seca.
– A mensagem, Shizu-chan. É o que está escrito.
Piscou alguma vezes antes de desviar os olhos do sorriso para a tela de seu celular:
“Shizuo, onde você está? Não faça nada impensado. Atende as ligações do Shinra, por favor.”
“Shizuo, me responde! Está em casa? Estou indo até ai. Me espere, ok?”
“... Não vale a pena se aborrecer. Não é como vocês tivessem feito algo errado.”
“Shizuo, você está bem? Izaya está com você? Não ligue para isso. Eles esquecem logo.”
“Me responde, Shizuo! Você viu, né?! Não tem como não ter visto... Fique calmo. Fale comigo. A gente vai achar alguma solução, tá?”
“Esqueça o que eu disse, só fique em casa, ok?! Não tem nada de errado, mas me responde!”
“Na verdade, você viu os vídeos? Você não tem mais acesso aos fóruns do Dollars, né?!”
“Shizuo, o que vocês estavam pensando? Na praça central? Tem vídeos espalhados por todo canto.”
Shizuo nunca fora conhecido como uma pessoa especialmente expressiva. Como se acostumadas por todos os anos a moldarem-se em fúria, as sobrancelhas castanhas-claras raramente oscilavam por sentimentos que não ela. Poucas eram as ocasiões capazes de pintar expressões diferentes no rosto do homem mais forte de Ikebukuro e estes, normalmente, permaneciam escondidos das vistas dos moradores do distrito que insistia em tê-lo como monstro. Ternura, preocupação, felicidade, empolgação: as expressões que normalmente entregava sem reservas a Kasuka certamente fariam abrirem-se em excesso todas as dezenas de olhos que agora fitavam com pouca discrição suas costas curvadas. Se, entretanto, ao invés de seu dorso, todos os olhares atentos pudessem fitar as sobrancelhas que tanto acostumaram a ver franzidas pela raiva, certamente os celulares inquietos desde o fim da tarde a repassarem imagens de beijos cederiam espaço em seus cartões de memórias para discussões sobre como o rosto do homem mais forte de Ikebukuro era capaz empalidecer e corar, espelhar surpresa, medo, vergonha e terror como qualquer outro. Os únicos, entretanto, a fitarem tantas expressões, eram dois olhos castanho-avermelhados. Intensos, curiosos, embriagados e faminto como mostravam-se, contudo, não seria exagero dizer que os olhos de Orihara Izaya fitavam Heiwajima Shizuo com força o suficiente para compensar por todo o distrito que permanecia cego.
E eram tantas, tantas as expressões a serem devoradas pelo ávido informante. Primeiro a confusão de quem lê as mensagens em ordem contrária ao envio. Seguida pela incredulidade pela informação que aos poucos se revelava. Então a excessiva abertura, a dilatação das pupilas diante do terror e surpresa. Pupilas que contraíram-se tão rápido a segunda leitura, feita desta vez na ordem correta, seguindo com dedicação os pequenos números dos horários de envio, começara. Pupilas recuadas que tanto combinavam como o também recuo das sobrancelhas, a unirem-se quase em uma. Recuo que, estranhamente, tanto parecia harmonizar com os lábios a separarem-se como se a repelirem-se, e, abertos além do que a educação permite, tremeram em hesitação.
– Nos viram.
E, ainda que o sussurro que muito poderia ser tomado como temeroso e arrependido pudesse fazer pensarem os ouvidos atentos a ele que tais sentimentos preenchiam-no o peito, não era como se Heiwajima Shizuo sentisse medo ou remorso. Ele tinha certeza, mesmo com tantos conflitantes pensamentos a pulularem em sua mente, que poderia naquele momento beijar, prazerosamente, o rapaz que se inclinava em sua direção, atento ao que dissera. Sushi algum o fizera esquecer do gosto de café de Izaya e ele, em definitivo, tenha plenas intenções de prova-lo novamente. Também não era como se ele se importasse com o fato de ter sido visto. Não, ao menos, o suficiente para dedicar a lamentações mais do que um dar de ombros e um torcer de lábios e cenho. Não tinha intenção de tê-lo sido, sem dúvida, mas não seria estúpido o suficiente para acreditar que não o fora. Ele, acima de qualquer pessoa no distrito, sabia que suas ações nunca passariam despercebidas e há tempos deixara de importar-se profundamente. Mesmo que, portanto, parcialmente preparado para arrebentar alguns semblantes surpresos no dia seguinte quando a história se espalhasse – porque, ele sabia, ela se espalharia – as mensagens de Celty, a citarem “vídeos” e “fóruns do Dollars”, e não “rumores” e “boatos”, pegaram-no desprevenido.
As já franzidas sobrancelhas forçaram-se ainda mais juntas quando o homem mais forte de Ikebukuro lembrou-se que, algum tempo atrás, ouvira em uma de suas rondas pelo distrito com Tom sobre um vídeo a mostrar a briga na qual entrara pra proteger Izaya. Na época, pouca atenção dedicara a possibilidade de que o boato fosse verídico. Agora, relendo as mensagens de Celty pela terceira vez, arrependia-se por sua falta de atenção. Mesmo que já não mais possuísse acesso aos fóruns da gangue descolorida, lembrava-se com perfeição da capacidade de propagação de informação que eles tinham. E, ainda que, assim sem acesso, não pudesse ver o vídeo, não tinha qualquer dúvida quanto ao seu conteúdo. Beijos, sorrisos, mãos em braços, em torsos, em pescoços e em coxas. Não se arrependia, em definitivo, do caminho que tomaram seus dedos, não contava, contudo, que tinha companhia no desbravamento. Ao homem mais forte de Ikebukuro, o único Heiwajima que deveria correr o mundo em vídeos era o mais novo.
– Ops. – não percebera o momento no qual tivera seu celular retirado de suas mãos, mas era inegável que Izaya o fizera em algum momento. Os olhos castanho-avermelhados corriam atentos pela pequena tela, a expressão na qual se fixavam, entretanto, não era, na opinião do guarda-costas, a mais adequada para tal situação, assim como não o era um “ops”.
– “Ops” o caralho, pulga! Não entendeu a merda?! – seu tom arfante, oscilando nos limites entre a explosão e a necessidade de manter-se despercebido aos ouvidos alheios, contrastava em absurdos com o olhar travesso que via estampado no rosto do homem que, ainda que não se arrependesse de ter beijado e pretendesse beijar ainda outras tantas vezes, tinha vontade de socar.
– Bom... eu te avisei que estávamos em uma praça...
Um riso baixinho, daqueles que poderiam facilmente despertar sua fúria de forma que certamente não seria contida por cachecóis vermelhos a cobrirem-no os olhos caso tivesse deixado os lábios que havia naquele fim de tarde provado, roubou sua atenção. Os olhos castanhos-mel desviaram-se de imediato à fonte do riso e pousaram com um misto de curiosidade e indignação no russo que animadamente inclinava-se no balcão em direção a ele e sorria. Como se por estalo, imagens do mesmo sorriso sendo direcionado a um ponto atrás do balcão invadiu sua mente.
– Simon, seu celu-
– Oh! Então era isso que o Simon-san olhava enquanto conversávamos. Estava me perguntando o que era... – a voz de Izaya, mais animada do que Shizuo gostaria de ouvir, soava alto no restaurante que Shizuo podia jurar silencioso como nunca antes. – Quero ver. Posso?
Um arrepio gelado correu pela espinha do homem mais forte de Ikebukuro.
No instante no qual percebera que eram, inegavelmente, os vídeos os responsáveis por colar em suas costas todos os olhares do restaurante e, certamente, também os culpados – junto a possíveis discussões sobre eles – por roubarem a atenção do russo durante o pouco tempo que lá permaneceram, a pergunta feita por Izaya coçava sua garganta. E ele realmente poderia tentar convencer a si mesmo que era algo além de curiosidade a alargar seus olhos que, atentamente, acompanhavam as mãos grandes a pousarem no balcão um celular amarelo imediatamente pego por longos dedos cobertos de cicatrizes. Entretanto, Shizuo não enganava nem a si mesmo ao resmungar que não era uma boa ideia assistir ao vídeo cujos dedos formigavam com o desejo de apertar o “play”.
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