(in) esquecível
23 Sobre como lidar com você não era ensinado em livro algum
Notas iniciais
Sobre como lidar com você não era ensinado em livro algum
Não era sua primeira vez ali e não era, também, a primeira vez que o via.
A primeira vez fora em uma segunda-feira, quatro dias a menos no calendário. Estava acompanhado, a trabalho. Tom, ao seu lado, reclamava sobre como aquele lugar nunca estivera antes em sua rota. A irritação do amigo, entretanto, estranhamente não o tocava. Fosse pelos acontecimentos dos últimos dias, fosse por aquele ser o primeiro dos trinta e poucos dias nos quais Ikebukuro cobria-se de enfeites vermelhos e dourados para brilhar interruptamente, fosse por ter alcançado sua cota de irritação e estar demasiadamente cansado para ultrapassá-la.
Naquela segunda, os olhos castanhos-mel circundados por profundas olheiras limitavam-se a dividir parca atenção entre resmungos de seu empregador, o outdoor com imagens de Hanejima Yuuhei em um anúncio de perfume, árvores enfeitadas com bolas de todos os tamanhos e luzes coloridas sem, verdadeiramente, atentarem-se a nada. Ainda que não entregasse a elas toda a atenção que tentavam tomar-lhe, contudo, as canções natalinas a escaparem de cada loja aberta do centro comercial principal de Ikebukuro não deixariam ninguém – nem mesmo aqueles que ardentemente o desejavam – esquecer que o Natal aproximava-se a passos largos. Aos que insistissem em ignorar a chegada da festividade, repetidas chuvas de pequenos flocos de neve, que, artificiais, derretiam-se nos casacos com manchinhas que demoravam a sumir, terminariam de afirmar o que a TV já a dias prometia: o espetáculo colorido e inacreditavelmente caro que o distrito anunciara para aquele fim de ano arrastaria a todos, a cada morador e visitante, para a festividade como se luzinhas presas a um fio de pisca-pisca.
A esperança de neve verdadeira, tão desejada por todos os olhos infantis que fitavam o céu a cada nova remessa de neve artificial e tão necessária para terminar de compor o clima natalino, entretanto, não parecia ter respaldo meteorológico. Mesmo que a promessa de baixas temperaturas dos serviços meteorológicos cumprisse-se com determinação, era apenas na forma de fina garoa que desde o fim de semana não dava trégua. Talvez se ela viesse, a neve que os pais gritariam aos filhos ser suja e imprópria para bonecos, todos naquele distrito pareceriam menos mal-humorados por vestirem os grossos casacos que normalmente só ganhavam liberdade no frio intenso de janeiro. Pesados casacos que, naquela segunda-feira, cobriam a todos, sem exceção, protegendo-os da constante chuva gelada e fina. Pesado casaco que cobria também, portanto, o homem mais forte de Ikebukuro, protegendo-o não apenas do frio, mas também dos olhares curiosos que certamente fitariam-no caso estivessem expostos os detalhes do desalinho em seu inadequado uniforme de trabalho. A gravata borboleta torcida à direita, o botão encaixado na casa errada, a mancha branca de pasta de dente no colete escuro: todos escondido das vistas pelo grosso casaco negro.
O lugar fora da rota de ronda deles e dentro das reclamações de Tanaka Tom não diferenciava-se dos outros, deixando-se também alcançar pela característica decoração natalina, serpentinas a casualmente ligarem as estantes repletas de livros dos mais variados temas e guirlandas coloridas a enfeitar os caixas de atendimento. Em ocasião diferente, os casacos pesados teriam abandonado os corpos aquecidos pelo aquecedor a funcionar em potência razoável, naqueles dias de intenso movimento pela proximidade da festividade, entretanto, o aparelho perdia a guerra para as portas a constantemente abrirem-se para novos clientes.
O mesmo frio, contudo, que arrancou dos lábios de Tom mais uma reclamação, foi o que garantiu que a única estranheza em Heiwajima Shizuo, naquela segunda-feira fria, fosse a atenção ímpar que dedicava a uma prateleira específica de livros. Seus botões fora da casa, sua gravata torta, sua mancha no colete: escondidos pelo casaco que não o deixou enquanto marchava atrás de seu empregador e amigo pela maior livraria do distrito, certamente teriam, quando unidos à carranca que ostentava e às olheiras a lhe circundarem os olhos castanhos-mel, afastados a todos os que, ridiculamente, por não serem capazes de vê-los, se aproximaram dele, movidos pela curiosidade diante da prateleira que tanta atenção ganhava, atenção tão intensa que impedir o guarda-costas de cumprir com sua função e fielmente seguir Tom para os fundos da livraria em processo de falência, onde, certamente, seus serviços seriam necessários na tentativa de convencer o relutante proprietário a pagar as dívidas contraídas não apenas com o escritório deles, mas com dezenas de outros, por conta do envolvimento em suspeitos negócios com a Yakusa.
“Interessado em anatomia, Shizuo?”, foi o que ouviram os que ousadamente distanciavam-se de Heiwajima Shizuo por pouquíssimos passos, distância também pequena o suficiente para notarem o semblante confuso que Tanaka Tom mostrava ao recuar até a prateleira intensamente fitada por seu guarda-costas. E, excessivamente próximos, espelharam a expressão contrariada do homem mais forte de Ikebukuro, torcendo também os narizes. A mesma expressão, desgostosa, incomodada, que tomou o rosto do guarda-costas quando se retirou da livraria minutos depois e que estampou seu semblante nas três vezes seguintes, naquela mesma semana, que visitara o futuramente falido estabelecimento e encontrara a exata prateleira do primeiro dia.
Por mais que a repetida atenção que dispensava a aquela prateleira pudesse sugeri-lo, não fora na primeira visita, entretanto, que o encontrara. Notou-o apenas na terceira, quando ousou distanciar-se ainda mais de seu amigo e empregador e enfiar-se por entre o corredor formado pela já conhecida prateleira e outra qualquer. Os olhos castanhos-mel arregalaram-se pela descoberta, acendendo-se como duas imensas luzes pisca-pisca. A empolgação e curiosidade como as de uma criança à meia noite do dia 24 de dezembro.
Exatamente como uma criança na véspera de Natal, contudo, esperou o momento certo para finalmente por suas mãos nele.
Era a noite de uma sexta-feira, exatos sete dias de distância da conversa que colocara em sua cabeça todas as questões que agora procurava resolver ao meter-se novamente na livraria lotada. O caminho até a prateleira foi feito da mesma forma que fizera nas quatro vezes anteriores, a mesma expressão desgostosa e contrariada que já parecia fixa em seu rosto, a única diferença nas mãos inquietas a anteciparem o momento no qual poderiam, finalmente, tocá-lo.
Rolou-o duas vezes entre os dedos, alheio a tudo que não ele, e leu seu título movendo os lábios sem produzir som algum.
“A anatomia do sexo”, seria o que distinguiria no silencioso sussurro alguém que se dedicasse a tal tarefa.
Os olhos mel abriram-se largos e um morder discreto de lábios omitiu um sorriso satisfeito. Heiwajima Shizuo, de fato, ignorava o quanto deveria sentir-se ridículo com seu casaco torto, óculos escuros inadequados para leitura e pares de meias de cores diferentes a fitar um livro de anatomia com tal curiosa expressão. Ele, entretanto, não se importava. Meias sem pares corretos, óculos desajustados e casacos tortos não significavam nada diante da bagunça de sua cabeça nos últimos dias.
A conversa com Shinra levara-o tão longe quanto poderia chegar sem perder a sanidade e a bondade de Celty estranhamente o fizera acreditar que deveria espelhá-la. Nenhuma destas percepções, entretanto, o levaram até Shinjuku na semana que se seguiu. Tanto quanto havia de seriedade em todas as outras palavras gritadas a Shinra há uma semana, havia em quando gritara acreditar ser melhor não ir atrás de Izaya. Certo que havia, também, além da seriedade e da determinação, um pouco de orgulho e teimosia em sua resolução, este pouco que o fazia recusar-se a colocar seus pés cobertos por pares de meias que não combinavam entre si a correr atrás de alguém que não o procurara durante quase duas semanas.
A teimosia, a resolução e o orgulho, contudo, sumiram de sua mente quase que instantaneamente naquela noite de sexta-feira no momento no qual finalmente correu os olhos pelo índice do livro entre seus dedos. No segundo seguinte, todos os problemas do mundo pareceram reduzir-se a zero diante da inexorável presença do tópico “intercurso anal” na seção que se iniciava na página 88.
Tão concentrado na tentativa de decifrar a aglomeração de palavras por tantas vezes inteligíveis das páginas do pesado livro, Heiwajima Shizuo não notou os rostos se abrindo em surpresa a cada olhar que ganhava. Olhos arregalados, alguns risinhos suprimidos e olhos de crianças tapados por pais: a atenção da livraria ainda mais cheia do que estivera nos últimos dias parecia ser toda do guarda-costas, como se todas as luzes coloridas transmutassem-se em holofotes e elegessem a ele como centro. Se enganaria, entretanto, quem acreditasse que saber da excessiva atenção teria freado a leitura do homem mais forte de Ikebukuro. Não naquele momento. Não naquela circunstância. Não quando seus olhos continuamente esbarravam na palavra “próstata” enquanto vagavam pelas figuras técnicas e termos incompreensíveis do livro entre seus dedos.
A livraria toda pareceu prender a respiração quando um bufar mais alto do que o adequado ao estabelecimento deixou os lábios do guarda-costas ao mesmo tempo em que fechou o livro sonoramente, irritado. E dezenas de pares de olhos acompanharam os olhos castanhos-avelã quando correram mais uma vez pela capa. A evidente frustração do homem mais forte de Ikebukuro quase – quase – levou um solícito funcionário até ele e quase – quase – fez com que um casal de namorados oferecesse ajuda. Não aproximaram-se e provavelmente arrependeriam-se caso o tivessem feito. Não havia, afinal, nem milímetro para boas maneiras no homem ainda incapaz de acreditar que os dias passados encarando o livro e depositando nele todas as suas esperanças de encontrar respostas para o que o afligia tivera como resultado apenas seu cenho franzido em dúvida diante de explicações nada didáticas sobre “dilatação”, “músculos”, “estímulos” e “vasos sanguíneos”.
As sobrancelhas castanho-claro torceram-se em uma careta para a prateleira em uma velada acusação de traição, mesmo que Shizuo em partes soubesse ser ele também o culpado pela falta de comunicação entre seus conhecimentos e as informações que um livro da prateleira que recebia uma enorme placa “anatomia” traria. Diferente, afinal, da pessoa que enfiara a palavra “próstata” em sua cabeça, o guarda-costas sabia não fazer parte das pessoas que nomeava sexo anal como “intercurso anal”. Longe, portanto, de ter suas dúvidas sanadas, a única consequência de sua leitura fora o desespero diante de possibilidade de não ter a mínima – mínima! – ideia de como praticar tal modalidade sexual, que, aparentemente, não envolvia apenas um pênis e um ânus, mas uma infinidade de pequenas terminações nervosas e glândulas com nomes estranhos que pareciam ter sido escolhidos apenas com o propósito de dar nó em sua cabeça.
Uma das mãos deslizou por reflexo até o bolso no qual já há dias escondia o papel entregue por Shinra na sexta anterior, pressionando-o por cima do tecido.
Heiwajima Shizuo não era ingênuo. Ele, ainda que não o melhor dos alunos, sabia tanto sobre o corpo humano quanto qualquer pessoa que já frequentara aulas de biologia na escola e, ainda que não o mais sexualmente ativo homem do mundo, sabia tanto sobre sexo anal quanto qualquer adolescente com acesso à internet que passara pela idade dos banhos longos. Sabia que ânus não lubrificavam-se naturalmente como vaginas e sabia que o desconhecimento ou desprezo desse fato poderia levar a dolorosas experiências traumáticas. Entendia, portanto, a necessidade das anotações do papel em seu bolso.
O problema todo era, entretanto, o quanto não podia tirar da cabeça a preocupação de Shinra quanto a Izaya não possuir uma vagina. Repetido tantas vezes quanto fora, Shizuo acabou por assumir que talvez – apenas talvez – não pensara tanto em como faria sexo com Izaya quanto deveria. Pensamento que agravara-se consideravelmente quando percebeu que não fazia ideia do porquê de uma pesquisa sobre “próstata” ser necessária.
Perguntar a alguém, qualquer pessoa que fosse, era totalmente fora de cogitação. Não havia, afinal, como casualmente conversar com alguém sobre uma palavra que Shinra aconselhara-o a pesquisar. Não era, também, uma possibilidade exigir que o amigo de infância lhe explicasse e poupasse a pesquisa. Isso exigiria mais de seu orgulho do que continuar seu atual esforço por manter a expressão neutra enquanto folheava outros livros da mesma prateleira na esperança de que algum autor explicasse mais sobre a próstata do que sua função – “sintetizar e secretar um fluído incolor que se junta com a vesícula seminal para originar o sêmen”, fosse lá o que isso significasse – e sua localização – “abaixo da bexiga, na frente do reto e envolvendo a uretra, apresentando tamanho aproximado de uma noz e peso em torno de 20 gramas”, fosse lá o que caramba isso significasse.
O inegável direcionamento dos livros não para o prazer sexual, mas para a reprodução o fazia torcer os lábios a cada vez que lia a palavra “glândula”, “vesícula seminal” e “hormônio”. Reprodução não era, de fato, algo sobre o que quisesse ler. Não o fizera, inegavelmente, nem quando devia, ao precisar das informações para provas em seus anos de colégio.
Talvez tenha sido, por fim, uma daquelas coincidência que lançam mãos a testas e olhos ao céu. Daquelas que ganham como nome “karma”, “maldição” ou “pagamento de pecados” como, em sua frustrada busca por informações que já se arrependia por buscar mas que continuava buscando por teimosia, Shizuo, após exasperadamente passar por livros de autoajuda e a aconselhamento amoroso acabou por esbarrar na seção de mangás da livraria.
Heiwajima Shizuo não era, inegavelmente, um homem inclinado a leitura, ainda que de mangás. Mesmo enquanto jovem, as poucas leituras que tivera eram sempre por incapacidade de negar aos colegas de sala ou para aproximar-se do irmão mais novo ao ler o que era por ele lido. Contudo, mesmo entre suas poucas leituras, nunca chegara a deparar-se com mangás como aqueles que agora folheava.
Talvez tenha sido, também, ironia proposital dos responsáveis pela organização da livraria – que, certamente, trazia bastantes sorrisos aos rostos dos funcionários –, colocar tão próximos os mangás de temas adultos e os livros sobre anatomia, unindo quase como continuação as pequenas estantes de romances BL e afins às grandes prateleiras sobre “intercursos sexuais”. Ou, talvez – talvez – o sorriso surpreso que instaurou-se no rosto dos dois funcionários que observavam Shizuo folhear num misto de curiosidade e apreensão uma pequeno livro cuja capa, exposta a quem arriscasse encarar, mostrava dois rapazes trocando o que ninguém hesitaria, mesmo se tratando de uma obra fictícia, classificar como um beijo bastante quente, estivessem apenas felizes por contribuir com a educação sexual da população de Ikebukuro que, inegavelmente, deveria conhecer um pouco de cada mundo: o excitante mundo do sexo para além dos fins reprodutivos e o informativo mundo do sexo para além do prazer.
E Shizuo talvez pensasse em como era importante para ele conhecer um pouco de cada um dos mundos se não estivesse tão plenamente enfeitiçado pelo excessivamente detalhista desenho de um rapaz fictício com os lábios fictícios fechados ao redor do pênis fictício de outro rapaz fictício, que, por sua vez, parecia bastante empolgado enquanto alocava dois de seus fictícios dedos na bunda fictícia do primeiro rapaz fictício. Sua demasiada atenção, entretanto, não deveria ser julgada. Para um rapaz de pouco mais de vinte anos que passara os últimos trinta minutos olhando figuras anatômicas com legendas como “reto”, “vesícula seminal” e “sphincter externo” a figura em preto-branco-e-cinza com anotações laterais como “som de sucção” e “ah! ah! hum! Mais!” era extremamente chamativa. Chamativa o suficiente para mantê-lo alheio as conversinhas que surgiam ao seu redor enquanto, com os olhos abertos ao limite, virara página atrás de página.
— Ah, não, esse não é bom, Shizu-chan. Muito forçado, na minha nada modesta opinião. Amor colegial à primeira vista: nada de novo no front. E o uke não chega nem perto de ser tão interessante quanto o seu.
O involuntário olhar furioso do funcionário encontrou o rosto do Shizuo no momento que o livro bateu contra o chão em um baque surdo. Nem o olhar furioso, entretanto, nem o assustado e arrependido que seguiu-se a ele, nem o livro agora desleixadamente caído ao chão com algumas páginas dobradas, ganharam a atenção de Heiwajima Shizuo. Com os lábios levemente separados e os olhos excessivamente abertos, a atenção do homem mais forte de Ikebukuro era toda da garota que, inclinada em sua direção, observava por sobre seus ombros o livro no chão.
Seu rosto tingiu-se de vermelho tão intenso quanto o da poltrona na qual minutos antes sentara-se ao mesmo tempo em que o colocou em pé como se tal poltrona tivesse, repentinamente, se tornado elétrica. Acostumado a atribuir a quantidade de sangue a preencher as maças de seu rosto a ela, não hesitou em momento algum em julgar que era raiva sua pintora. Não vergonha. Nunca vergonha. Nem excitação. Nunca excitação. Ser pego a imaginar Orihara Izaya no lugar do rapaz fictício a parecer divertir-se um bocado com os dedos inseridos em seu ânus nunca seria, afinal, capaz de trazer nenhuma dessas sensações a Heiwajima Shizuo.
De toda forma, o ex-barman não merecia julgamentos por errar o nome do artista a pintar seu rosto, não quando era inundado por tantas sentimentos e pensamentos conflitantes em relação à garota que agora puxava um livro da mesma prateleira da qual saíra o mangá ainda caído no chão.
Um, dois, três, quatro: diante dos estáticos e atentos olhos castanhos avelã, os braços de Karisawa Erika iam, pouco a pouco, enchendo-se de livros. Colegiais, assalariados, animaizinhos, flores e cores misturando-se a chicotes, algemas e beijos impudicos.
Uma, duas, três, quatro vezes: a cada livro acrescentado na já pesada pilha, os lábios de Heiwajima Shizuo separavam-se, prontos a dizer algo sem, entretanto, ser capaz de dizer nada.
— Esses são minhas indicações pessoais. – anunciou, orgulhosa, a garota ao despejar todos os livros na poltrona vermelha – Acho que vai gostar, principalmente, deste. O clássico clichê do amor versus ódio, mas muito, muito, muito melhor que o que a gente normalmente encontra por ai. Bastante quente, cheio de conflitos internos... Eles vivem uma relação secreta, então continuam brigando em público para que ninguém desconfie qu-
— Você!
Os murmurinhos dos clientes, as canções natalinas que esgueiravam-se pelos vãos das portas, o golpe involuntário na poltrona, o baque de uma pilha de livros no chão e o som empolgado da voz de Karisawa Erika: nada, absolutamente nada, foi capaz de abafar ou sobrepor-se ao grito gutural que escapou da garganta de Shizuo. Sonoro, arranhado, como um rosnado, em exato oposto ao silêncio mortal que instalou-se na livraria lotada no instante no qual a voz do homem mais forte de Ikebukuro deixou de ecoar pelas paredes.
— Você! – gritou uma segunda vez, os olhos raivosos fixos na garota que o fitava com latente surpresa, como se não esperasse dele os gritos recebidos. Gritos que pareciam esperar todos os outros na livraria, encolhidos entre as prateleiras, incapazes de moverem-se – Você mandou o pulga para minha casa!
— Pulga? Você diz o Izaya-kun? Ahã. Eu e Dotachin. – a resposta à sua afirmação veio lenta, despreocupada, junto a duas piscadas rápidas, como se a responsável por ela não entendesse o porquê de estar sendo acusada.
O quarto grito, tão ou ainda mais acusatório do que os anteriores, engasgou-o, recusando-se a deixar sua garganta, deixando, pela segunda vez nos últimos minutos, o homem mais forte de Ikebukuro estático diante da garota que parecia pacientemente aguardar por suas palavras. Nunca esperou, afinal, que ela simplesmente confessaria como se não fosse nada demais, como se não fosse ela a responsável por enfiar um Orihara Izaya possivelmente desmemoriado e com a cabeça cheia de suposições equivocadas em seu apartamento.
— Mas isso já faz tempo, Shizu-ch-Shizuo-san, uns dois meses, não é não?! Dotachin me contou que você ficou bravo, mas achei que já tinha esquecido disso agora que você e Izaya-kun estão juntos.
Se não preso às próprias nuances de sua respiração, a progressivamente acelerar-se, Shizuo perceberia o momento no qual as respirações de todos que clandestinamente ouviam a conversa fizeram-se suspensas depois de uma inspiração profunda. Todos pareciam esperar pela explosão de Heiwajima Shizuo. Todos, exceto da garota que agora abaixava-se para recolher do chão os mangás caídos. Todos, exceto, estranhamente, o próprio homem de quem a fúria era esperada.
“Eu poderia tê-lo matado!”. “Ele desmaiou”. “Eu bati nele”. “Ele sangrou bastante”. “Não estamos juntos”. “Ele saiu de casa”. “Ele está furioso”, “Furioso comigo”. As sobrancelhas franzidas, os olhos levemente fechados e o canto dos lábios preso entre os dentes: se Shizuo soubesse que a expressão que mostrava em seu rosto parecia tão abatida, tão diferente da raivosa que ele ainda acreditava ostentar, certamente teria escolhido melhor o pensamento dentre todos os que pululavam em sua cabeça até quase enlouquece-lo que externaria:
— Ele não está mais em casa. – a voz soava arranhada exatamente como durante os anteriores gritos, mas não havia possibilidade de que alguém, mesmo o mais receoso cliente da livraria, encarasse-a como um rosnar.
Talvez a pressão por encontrar com aquela que, há cerca de dois meses, o colocara em uma situação com a qual não sabia lidar. Talvez por involuntariamente lembrar-se do dia que Izaya batera à sua porta. Talvez por lembrar-se que recebeu-o com socos. Talvez por não ser capaz de perceber em qual momento entre o Shizuo que deseja matar Orihara Izaya e o Shizuo que deseja beijar Orihara Izaya havia acabado em uma livraria a ler mangás sobre relacionamentos entre homens. Talvez por estar demasiadamente cansado para pensar sobre o quão estranho era estar diante de Karisawa Erika em uma situação como aquela. Os talvezes que acumulavam-se nas costas do homem mais forte de Ikebukuro fizeram-no quase grato quando, com um gesto sutil, o garota apontou a poltrona vermelha ao mesmo tempo em que arrastava um puff para a frente dela e sentava-se.
— E você quer falar sobre isso? – ouviu-a perguntar no instante no qual sentou-se, largando o peso no estofado em um suspiro profundo.
“Não. E eu posso ver que você está sorrindo.”
— Não.
As sobrancelhas quase negras levantaram-se discretamente enquanto a garota corria os olhos por ele. Shizuo não precisava que ela dissesse nada para saber que ela perguntava-se o que, portanto, ele fazia ali sentado. Mesmo que sua resposta fosse apenas um “estou cansado demais”, ele sabia que Erika nunca aceitaria-a, por mais inegavelmente sincera que ela fosse.
— Você ainda está bravo comigo?
Torceu os lábios num misto de surpresa e indignação. Aquela pergunta não tinha fundamento algum. Como ele poderia, afinal, não estar bravo? Fora aquela garota que, afinal, o colocara naquela confusão.
Encarou-a sério.
Já há tempos sabia da estranha crença da garota em um relacionamento entre ele e Izaya. Celty deixara escapar há não muito tempo. Já sabia, portanto, antes mesmo que ela resolvesse incutir tais crenças em um Izaya sem memórias e força-lo a responder perguntas verdadeiramente constrangedoras sobre isso.
Enfurecera-se no início. E, por mais que não tivesse orgulho disso, certamente teria reagido violentamente caso fosse um homem, e não ela, a fazer tais suposições. Shizuo, entretanto, nunca fora bom em guardar ressentimento. Principalmente quando convencido de que não havia maldade por trás de quem o fazia mal. E Celty dedicara considerável tempo convencendo-o de que não, Karisawa Erika não fazia por mal e não tinha intenção alguma de provocá-lo ao juntá-lo, ainda que somente em sua mente, a Orihara Izaya. Consequentemente, por mais que não soubesse quais estranhas perturbações de personalidade a levavam a acreditar em um romance entre eles, nunca considerou verdadeiramente procurar alguma forma de convencê-la do contrário. Ali, sentado diante dela, os olhos fixos na expressão confusa e no pequeno biquinho que formara-se no lugar do sorriso estranho, ele lembrava-se exatamente o porquê de não tê-lo feito.
— Não mais. – respondeu num suspiro.
O sorriso recebido como resposta quase acabou por arrancar também dele um sorriso. Pessoas pequenas com grandes olhos castanhos e sorrisos felizes eram uma das fraquezas não conhecidas do homem mais forte de Ikebukuro. Mesmo que não sorrisse, portanto, era evidente o quão mais relaxado estava. Não poderia brigar com ela, não naquele momento, não sem acreditar que era realmente culpada, não com aquele sorriso e não, em definitivo, com todo o cansaço físico e mental que sentia.
Por mais que fosse evidente que Erika quisesse falar, o silêncio prolongou-se por longos minutos. Shizuo não se importou. Nem quando ele tornou-se desconfortável e a garota passou a mexer os pés ritmicamente e a folhear os mangás que minutos antes selecionara da prateleira.
— Posso perguntar uma coisa?
— Você vai perguntar de todo jeito, né?!
O garota sorriu culpada, arrancando dele um acenar resignado. Por mais que poucos contatos tivesse travado com ela, conhecia-a o bastante para saber o que perguntaria e que não o deixaria em paz enquanto não respondesse. O mais sensato, ele sabia, era levantar-se e ir para casa. Aceitar que fora ridículo ir àquela livraria e absurdo seguir os conselhos de Shinra. E, talvez fosse exatamente por ter a mente inundada com essas questões que, ao ouvi-la perguntar o que fazia ali, deu de ombros e declarou com a voz cansada:
— Acho que tô cansado dessa merda toda. E talvez você tenha razão. Durante o tempo todo, sobre a porcaria toda. Então acho que quero ouvir o que você quer falar. Mesmo que eu fique com raiva. Porque não sei mais o que fazer.
Os olhos castanhos escuros, aqueles mesmos que minutos antes haviam com seu sorriso desarmado o homem mais forte de Ikebukuro, abriram-se aos limites antes de piscarem repetidas vezes e correrem pelos arredores. Involuntariamente, correram também os olhos castanhos-mel por todas as direções, apertando-se contrariados quando perceberam que os olhos da garota não eram os únicos arregalados. Encarou firme cada uma das pessoas mais próximas até fazê-las afastarem-se. A última coisa que precisava era de público. Quando voltou a atenção à garota, ela sorria largo. Não o sorriso malicioso que Izaya quando em quando lhe lançava, mas também, de alguma forma, atrevido.
— É como um sonho se tornando realidade, Shizu-ch-Shizuo! Estou em um mangá BL! AI MEU DEUS estou num mangá BL! E sou uma personagem feminina em um mangá BL que está lá para ajudar, não para atrapalhar! Odeio como as personagens femininas em BLs são quase todas retratadas como se fossem insuportáveis, não concorda?! Como se a função de toda garota fosse atrapalhar o florescimento do amor ou causar ciúmes... Nananinanão, eu sou como a melhor amiga legal, ou a irmã mais velha foda, ou a conselheira para assuntos amorosos... Ok, eu preciso pensar! Como uma personagem legal agiria nesta situação?! Socorro, vou morrer, estou tão empolgada! Obrigada, Shizuo, você é o deus dos BLs! Melhor seme ever! O mundo definitivamente precisa de outros como você! Eu estava olhando de longe você ler todos aqueles livros de anatomia. Nem acreditei quando vi no fórum dos dollars que você estava aqui olhando isso... Tive que vir correndo pra cá! Sorte que estava por perto... Das outras vezes não consegui chegar a tempo... Enfim, é tão adorável da sua parte fazer isso! Uma vez entrei em uma discussão na internet com uma pessoa que defendia com unhas e dentes que você era um daqueles semes violentos, mas eu sempre soube que você é um amorzinho preocupado com seu uke e não o machucaria de propósito. E toda a dicotomia entre sua força e sua gentileza, selvagem e carinhoso, tempestade e calmaria... Ahhhh! Tão lindo! Izaya-kun é tão sortudo! Tenho certeza que tudo entre vocês vai ser maravilhoso, não se preocupe... Isso até me lembra alguns mangás que li... Se bem que o jeito que você estava agindo me lembrou o de um uke, Shizuo... Você é um seke? Oh, céus, isso seria tão mais legal!
Os lábios do homem mais forte de Ikebukuro separaram-se levemente e seus olhos piscaram repetidas vezes antes de suas sobrancelhas franzirem seu rosto em uma careta. Ainda que aquela fosse sem dúvidas uma pergunta e a garota claramente esperasse por uma resposta, não fazia ideia do que ela dele queria. Resignado e desconfortável, suspirou antes de perguntar:
— Quê?
A garota o encarou em um irritante misto de complacência, malícia e carinho, sorrindo divertida.
— Ok. Vamos por partes, né?!
— Não faço ideia do que merda você estava falando. – seu tom, apesar de acusatório, pareceu agravar ainda mais o olhar da garota.
— Tudo bem, Shizu-cha-descul-Shizuo. Eu já saquei tudo. Tinha minhas desconfianças... Quando vi o que estava lendo e tal, seu interesse e tal, e quando disse que Izaya-san tinha saído de casa e tal. Tá tudo bem. Eu sei exatamente como te ajudar. Mas, primeiro, – desviou os olhos dos castanhos-avelã para correrem-nos ao redor – vamos sair daqui? Livraria não é melhor lugar do mundo pra conversar. Quer sorvete? Abriu uma sorveteria nova aqui, daquelas que dá pra escolher um monte de cobertura e docinhos pra colocar. Não é longe.
— Eu pago. – anunciou ao levantar-se – Você está me ajudando, né?! – completou ao perceber o olhar confuso de Erika. A garota apenas sorriu em resposta, resmungando mais das coisas que ele não entendia e devolvendo os mangás em seus braços à prateleira – Ah, iss-
— Não precisa. Te empresto meus. Estes nem são tão bons assim... E não preciso de ajuda, Shizuo-san, pode ficar aí, já tô acabando.
Erika tinha razão ao afirmar que a sorveteria não era longe, sequer tempo o suficiente para que a ausência de respostas de Shizuo às tentativas de conversa da garota os fizesse desconfortáveis. Por mais que soubesse que deveria se atentar a isso, principalmente por saber que ela merecia sua atenção ao dedicar-lhe a dela, não tinha qualquer interesse em saber que o fórum dos dollars trazia mais uma vez imagens suas – desta vez na livraria, com um livro suspeito em mãos – seguidas de novas discussões sobre sua vida pessoal. De toda forma, ainda que a preocupação o tivesse tomado, ela se extinguiria no momento no qual os confeitos coloridos, dispostos lado a lado, em fileiras e fileiras, se revelaram diante de seus olhos. Balas, chocolates, gomas coloridas, coberturas, morangos: fofoca alguma em fórum algum seria capaz de suprimir a felicidade verdadeira contida em um sorvete de baunilha escondido por trás de camadas e camadas de doces.
Erika ria estranho o tempo todo: a cada combinação estranha e a cada vez que um funcionário receoso perguntava “mais, senhor? Tem certeza?”, soltando quando em quando comentários que pareciam significar muito mais do que inicialmente pareciam – “oh, uau, você tem bastante apetite, né, Shizuo?”, “chantilly com morango, hum? Sempre uma boa ideia”, “esses confeitos cilíndricos são maravilhosos, né?”, “o canudinho wafer encaixam tão bem no sorvete, delícia, né?!” – de forma que, depois dos dez minutos gastos na escolha e de pousar os dois sorvetes em taças de tamanhos incrivelmente discrepantes, Shizuo sentia como se a garota fosse, estranhamente, uma cúmplice. Cúmplice que, ainda que perturbadoramente estranha, definitivamente já não mais teria sua raiva, mesmo quando a merecesse.
— Legal você gostar de doces, Shizuo. Uma vez li que nunca se deve confiar numa pessoa que não gosta de doces.
— O pulga não gosta.
— Claro que gosta, ele gosta de você, não é?
Encarou-a firme, torcendo o cenho levemente antes de meter mais um colher cheia de doce na boca. Tinha certeza, absoluta, que falavam o mesmo idioma. Repetia as palavras dela na mente algumas vezes para se certificar. Era impossível, entretanto, livrar-se da estranha sensação de desconforto, como se estivessem em sintonias diferentes. Era inacreditável que ele permanecesse sem fazer ideia do que se passava pela cabeça dela quando ambos falavam japonês.
— Posso fazer uma pergunta?
Torceu a colherzinha de plástico dentro da boca, contrariado. Ele, definitivamente, não a entendia.
— Você vai fazer de toda forma, não vai? – rebateu, pela segunda vez, a boca ainda cheia de doces.
— Posso assumir que estou certa ao pensar no que penso sobre você estar na livraria lendo aqueles livros?
Num movimento rápido, tirou os óculos escuros. Talvez o problema em entender o que ela dizia fosse visual. Talvez a entendesse melhor caso visse seus lábios se movendo. Pediu-a para que repetisse, atentando-se aos lábios que moviam-se velozmente.
— Não. – declarou, receoso, como sempre fazia quando não entendia alguma pergunta.
— Não? Puxa, que pena. O que estava fazendo lá, então?
“Não te interessa” – seria sua primeira opção de resposta. Não era, entretanto, a resposta adequada a alguém que o acompanhava até uma sorveteria e não criticava sua opção de coberturas e docinhos. Não era, também, a resposta certa a alguém que, aparentemente, queria ajuda-lo.
— Lendo. – respondeu, educado, antes de afundar mais uma generosa colherada de sorvete na boca.
— Oh, sim! – riu, divertida – Isso eu notei. Por mais que eu tenha achado que deva ser difícil ler com óculos escuros em um ambiente fechado. Você teve problemas com isso?
— Um pouco. Mas o pior foram os termos. Ninguém entende aquela bosta.
— Termos?
— Vesícula seminal. Contrações por estímulo externo. Não sei o que envolvendo a uretra. – citou, dando de ombros, cutucando um pedaço de bala com a colher e assistindo-a colorir de vermelho o sorvete branco.
— Ah! Esses termos. Sei como é, já tive problemas com isso antes.
— Teve? – encarou-a, confuso.
— Ah, sim, acho que todo mundo já teve, né?!
— Teve? – repetiu, a voz mais esperançosa do que gostaria de admitir.
— Bom, ninguém nasce sabendo, né?! Por mais que tenha toda aquela ladainha de “é instinto, todo mundo sabe o que fazer”. Enfim, nunca tinha pensando muito nisso, mas dai vi o Shun-chan, o Taichi-san, Kou-chan e mais um monte de gente pesquisando e achei que devia fazer o mesmo.
— Quem?
— Ah, não esquenta, você vai conhecê-los. Vou te emprestar, lembra? Todos esses são bem... bem... hum... didáticos. Bem melhores do que aqueles que você estava vendo na livraria. – a pausa estendeu-se por tempo o suficiente para que Shizuo liberasse um notavelmente estranho “hum” que, se não dispersa fitando a própria colher enfiada no sorvete, Erika certamente entenderia como um “não faço ideia do que está falando, mas vou concordar para não prolongar a conversa” – Mas, ah! Isso significa que você estava sim fazendo o que eu pensei que estava fazendo! – exclamou, animada – Estava sim procurando sobre como dar prazer ao Izaya-kun e sendo um seme adorável comedor de doces. – a expressão animada sumiu, entretanto, instantaneamente, e, por mais que o guarda-costas preferisse acreditar que fora pela carranca dura que lançou a ela ao chama-lo de “comedor de doces”, sabia que não era este o motivo no momento no qual a viu separar novamente os lábios – Mas você disse que ele saiu de casa... Aconteceu alguma coisa ruim?
— Não. – mentiu, desejando que o doce em sua taça fosse capaz de afastar o amargo em sua garganta – Não vou falar. – consertou, os olhos sérios fixos nos da garota.
— Tudo bem. Tudo bem. – ditou, lentamente – Nem se eu te der meus chocolates? – arriscou, recebendo apenas um indignado franzir de cenho do homem mais forte do distrito – Ok, ok. Não precisa me falar. Seria mais fácil se falasse. Ou talvez eu só queira que fale para poder dar um pouco mais de realidade às coisas que estou neste exato momento imaginando. Enfim, é certo assumir que a briga de vocês levou você até a livraria hoje para ler livros de anatomia ou você foi lá só para agraciar o mundo com a verdade inquestionável de que você e Izaya fazem sexo?
— Não fazemos. – declarou antes de poder conter-se. Arrependeu-se do que dissera, entretanto, no instante no qual a colherzinha que a garota levava à boca caiu com um baque surdo na mesa e um par de olhos castanhos enormes fitaram-no, surpresos.
— Sério? – a decepção era palpável na voz, baixa como não estivera em nenhum algum antes.
— Não.
— Não é sério ou não fazem sexo? – bufou para ela, fazendo menção de levantar-se, já arrependido pelo momento de desespero que o levara a acreditar que a garota poderia de alguma forma ajuda-lo – Não, fica! Por favor. É minha única chance! Impossível disso acontecer de novo... E, eu só quis confirmar, mas entendi. Não fazem sexo... Que pena... – silêncio, desta vez definitivamente desconfortável, preencheu mais uma vez o espaço entre eles, cortado apenas pelos ruídos de doces quebrando-se contra dentes – Desculpa, Shizu-ch-Shizuo. Não consigo não falar, mesmo que você vá embora... e ah! eu vou tentar te parar se você tentar ir... Porque quero muito, muito saber ao invés de só ficar imaginando... Enfim, vocês não fazem mas querem fazer, né? Por isso você estava lá. E... por isso... E por isso ainda está aqui sentando, né?!
Não respondeu, limitando-se a lamber os resquícios de sua última porção de sorvete da colherzinha de plástico. Não precisava concordar. Ambos sabiam que ela tinha razão. Ainda que não soubesse bem o que ainda o mantinha ali e ainda que assumisse que o que quer que fosse muito tinha de desespero, era fato que ainda estava ali, encarando a garota, ouvindo as suposições que não queria ouvir.
— Fica mais fácil se você me responder só com sim e não?
— Foda-se. Sei dar respostas direito.
— Ok. Ok, não quis ofender, Shizuo-san. É que você não parece muito confortável com isso, certo? Bastante tímido. Tudo bem, acho que gosto disso também... Semes tímidos são fofos... Algo como ‘meu lado selvagem é só fachada’, ou ‘por favor, me ensine, uke-chan’. Hehe... Talvez eu goste bastante disso. Enfim. Como eu disse antes, vamos por partes. Você não precisa responder se não quiser, mas responderei com muito prazer tudo o que quiser saber, tá? – fitou-o, esperando por confirmação, na ausência de uma, continuou: – Ok. Você começa. O que quer saber?
— Por que diabos você sabe sobre esse assunto? – rosnou, incapaz de conter a agressividade por trás de suas palavras.
— Ah, bom, porque eu fiz o que você estava fazendo um tempo atrás. Eu li. Bastante, na verdade. Eu estou bem com ambos, garotos e garotas, então é sempre bom saber mais um pouquinho. E, bem, o amor BL é meu favorit-
— Tá, isso agora. O que caramba é esse monte de merda que você fica falando? – perguntou, sério, acrescentando diante da confusão dela: – BL e ataques e defesas.
— Ah, isso! Você é mesmo novo nesse assunto, Shizuo... hehehe... legal... BL é Boys Love, amor entre garotos. Seme e Uke? Bom, o seme é aquele qu-
— Já entendi. – cortou-a, certo de que não queria ouvir mais da explicação dela, principalmente um explicação tão absurdamente visual. A forma como ela atacava o restante do sorvete com a colherzinha era o bastante, afinal, para que entendesse. A associação com a imagem dos dois rapazes no mangá que vira na livraria foi inevitável. Como se ao serem nomeadas ganhassem tal direito, as imagens tornaram-se assustadoramente reais. – E como você saberia se sou u-? – começou, mordendo a língua ao percebeu que seus pensamentos escapavam por sua boca.
— Um seme? Não sei, na verdade. – declarou, parcialmente séria, parcialmente divertida – É só uma suposição minha. Mas se você pergunta isso porque quer saber como descobrir... Há algumas dicas... – anunciou, desta vez totalmente séria – O primeiro a pegar na bunda provavelmente será o seme. Ou quem tem mais, digamos, malemolência na cintura e uma tendência maior a reboladas durante os amassos será o uke... É o que ouvi dizer. Não é como uma regra, também. Mas... – olhou-o esperançosa – você não vai me dizer quem fez o que, né? – torceu os lábios pra ela em uma careta, mantendo-se em silêncio – Bom, já esperava que não... Mas já fico feliz em ver como você parece estar agora mesmo buscando cenas na sua memória... Fico feliz que existam cenas assim para serem buscadas, Shizuo-san!
Encarou o sorriso dela, sério, em um inútil esforço por fazer com que a raiva que sentia por ele e pelas suposições por trás dele substituíssem as imagens perturbadoramente nítidas de cada uma das vezes que tivera Izaya em seu colo, colado a seu corpo, esfregando-se contra ele.
— Cala a boca, você. – resmungou, contrariado, rolando os olhos e desejando que houvesse mais de sorvete em sua taça.
— Posso fazer perguntas agora ou você quer saber mais?
— Nem um nem outro. – mentiu.
Ainda que não conseguisse explica-lo direito e não se sentisse confortável em assumi-lo, não podia evitar o sentimento de dívida com a garota cujo sorriso cedera lugar a expressão notavelmente decepcionada. Odiava sentir-se daquela forma. Odiava aceitar favores ou ajuda. E, mesmo que sentisse que aquela conversa divertia Erika muito mais do que o considerado saudável, sabia que era esta a exata situação na qual se encontrava: recebendo ajuda. Situação que, mesmo sem sua aprovação, dava a ela direito a perguntas, ainda que ele não soubesse se conseguiria responde-las. Por outro lado, mentia também ao dizer que não tinha mais perguntas a fazer. “Você vai mesmo me emprestar os livros?”, “Livros ilustrados como os da livraria?”, “Lá vai me mostrar como diabos encontrar a próstata do pulga?”, “Você acha que o pulga vai me deixar tentar?”, “Você acha que ele ter sumido por quase duas semanas significa que ele vai levar a ameaça dele a sério caso eu apareça?”. Nenhuma pergunta, entretanto, ganharia sua língua. Nem para Karisawa Erika nem para nenhum outro. O sorriso resignado – aquele que tantas vezes tomara seus lábios desde a terça-feira chuvosa distante das duas batidinhas na porta de seu apartamento – invadiu-o dolorosamente. Talvez uma sádica vingança do destino fazê-lo pensar que Orihara Izaya era o único agora com quem poderia dividir seus pensamentos.
— Sério? Nem umazinha?
A pergunta o pegou desprevenido, levando o par de íris avelã da taça vazia até o rosto de Erika. Algum esforço foi necessário para lembrar-se do porquê da pergunta e a culpa apertou levemente a garganta ao fazê-lo. Ainda que a dívida permanecesse, não seria daquela vez que pagaria. Não, ao menos, integralmente. Foi, portanto, apenas por desencargo de consciência que afirmou:
— Só uma.
— Uma pergunta? Posso? – os olhos castanhos escuros acenderam-se, enormes – Ai caramba, isso é tão difícil! Tenho que escolher só uma? – ele acenou, confirmando – Espera, espera... Tem que ser uma bastante importante para que eu não me arrependa depois... Vocês já s-? não, essa não. Quem é qu-? não, essa também não... Espera... Espera... Acho que já sei... O quão longe vocês chegaram? Sei que não chegaram até o fim... mas... mas... o que já fizeram?
As sobrancelhas castanho-claro levantaram-se, surpresas. Ele devia imaginar que seria algo como aquilo. Obviamente que seria. Nunca esperou, entretanto, que dentre todas as possibilidades de perguntas, Erika teria coragem de fazer justo aquela. Torceu o cenho, arrependido de tê-la autorizado uma pergunta – mesmo que sentisse dever muitas outras. Teria que responder, sabia disso. Engoliu seco, a garganta amarga como se sorvete ou confeito algum já tivessem-na tocado.
— A gente j-
— Mudei de ideia, Shizuo! Não precisa dizer! Eu quero muito, muito, muito, muito saber! Quero saber, de verdade! Quero tanto que estou neste exato momento imaginando várias coisas e quase não consigo sentir vergonha por estar imaginando tudo isso com você aqui sentado na minha frente! Mas... – olhou-o, incerta, como se não plenamente convencida da decisão que tomara – tem outra coisa que preciso saber mais do que isso. Mesmo que eu precise muito, também, saber isso também... Mas, mas, mais importante que isso... você gosta dele?
Uma inspiração, rápida e sonora. Quase como um soluço. E, como se envenenadas por ela, todas as respirações seguintes se descompassaram. Rápidas demais ou lentas demais, como se todo o ar gelado a invadir suas narinas corresse não para seus pulmões, mas para o estômago, progressivamente a congelar-se. As sobrancelhas castanho-claro não levantaram-se, nem os olhos mel fixaram-nos nos castanho-escuros, nem separaram-se os lábios em choque, fúria alguma, medo algum, arrepio algum correu pelos músculos que sequer enrijeceram-se: Heiwajima Shizuo não era nada, naquele momento, que não sua respiração sem compasso. Não pôs-se de pé, não respondeu, não xingou, talvez mais por incapacidade do que por escolha própria. Permaneceu sentado, os lábios cerrados, os olhos baixos e o peito arfante.
A voz da garota alcançou seus ouvidos na forma de uma chiado baixo, forçando-o a piscar algumas vezes e olhá-la, acenando como se a houvesse entendido. Não entendera. Não planejava entender. Pelo sorriso dela, supôs ser um agradecimento, e, portanto, fez o seu melhor para dedicar-lhe outro aceno, também de agradecimento. A maneira, entretanto, como recebeu dela um olhar confuso o fez acreditar que talvez não fosse o que acontecera. Não se importou, porém.
Quando deu por si, já estava de pé, acenando novamente, desta vez uma despedida. Um sorriso forçado, um último olhar para a taça de sorvete vazia, mais um aceno discreto à garota e estava na rua, um cigarro entre os lábios e a dúvida se ao tragar conseguiria fazer com que a fumaça fosse corretamente aos seus pulmões e não ao já enjoado e repleto de ar frio estômago.
Em quarenta minutos estava em casa. Em três horas recebia uma pequena caixa pesada repleto de livros. Vinte minutos depois lia-os com um copo do amargo café solúvel que Orihara Izaya deixara em seu apartamento e que jurara aos berros que nunca tomaria. Fosse o que encontraria naquelas páginas, entretanto, sabia que precisaria de algo mais forte que um pote de pudim para conseguir lidar.
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