(in) esquecível
14 Especial 1 – Era uma vez ele, um gato
Notas iniciais
Especial 1 – Era uma vez ele, um gato
Era uma vez um gato. E daqueles gatos que todo mundo diz trazer azar: pelos negros como uma noite chuvosa. Como uma noite chuvosa que era, também, a noite que se insinuava por trás das janelas do apartamento no qual o gatinho negro estava. Os olhinhos vermelhos e brilhantes fitavam com interesse o rápido movimentar das nuvens cinzentas através de uma fresta na cortina escura enquanto o gatinho aninhava-se no sofá, encolhido na tentava de ignorar o frio que fino vidro da janela não era capaz de barrar.
Quando olho-o assim, tão concentrado na tarefa de afundar-se no estofado, eu desejo com todas as minhas forças saber o que o gatinho pensa. O que aqueles olhos curiosos e inteligentes procuram ao correrem pelo cômodo, o que o pequeno bocejo seguido por um miado baixo significa ou o que ele deseja ao cravar as patinhas dianteiras em uma almofada, arrastá-la para baixo da manta que o cobre e abraçar-se a ela, farejando-a com concentração ímpar e ronronando satisfeito.
Eu sei que já devia ter desistido de entendê-lo, durante toda aquela noite, afinal, eu mantive meus olhos nele. Não obtendo, apesar de minha concentração, sequer lampejo de seus pensamentos.
No começo ele não estava sozinho como agora.
Há algumas horas os rosnados altos e guturais de um gato maior, pelo dourado e olhos num misto contraditório de raiva e bondade, preenchiam a sala. Ao ouvir tais rosnados, meu primeiro impulso foi procurar intensamente pelo alvo deles, demorando a acreditar que eles eram direcionados ao gatinho negro. Somente ao perceber que, inegavelmente, os únicos ali eram os dois, a indignação tomou-me de tal forma que pensei em deixar meu esconderijo e, elevando minha voz acima dos rosnados como rugidos, gritar ao gato maior para que parasse de intimidar o pequeno gatinho negro. Me detive, entretanto, ao notar que o alvo dos rosnados não parecia se importar sequer minimamente com eles, muitas vezes respondendo-os com ronronas.
Foi assim, mantendo-me longe o tempo todo, que espiei a interação entre eles até já não acha-la estranha. Foi em silêncio que sorri ao ver como as ronronas do gatinho negro combinavam muito mais com as refeições compartilhadas, com o som da TV ligada e com os olhares trocados de quando em quando do que os rosnados do gato caramelo. Foi com susto que percebi, portanto, que quando o gato caramelo afastou-se arrastando as patinhas pelo sono, o fez sozinho, deixando para trás o gatinho negro que, pouco tempo depois, aninhou-se no sofá e dormiu. E, ainda que não tivesse conhecimento da linguagem dos gatinhos ou acesso aos pensamentos daquele gatinho em especial, pude quase afirmar que os rosnados liberados pelo gatinho negro ao ver-se sozinho tinham um quê de indignação por ser deixado para trás.
“Talvez o gatinho não queira ficar sozinho”, eu pensei. E por pensar assim eu fiquei de olho nele, observando de longe enquanto ele caia no sono profundo, ora ou outra se encolhendo arrepiado ou esticando-se em ronronas. E eu confesso que mal pude controlar minha própria vontade de correr até ele e deslizar meus dedos pelos longos pelos negros e acarinhá-lo quando o vi levando um das patinhas até as orelhas e acarinhando-as.
E eu ainda estaria velando seu sono se ele não tivesse despertado, os olhos vermelhos brilhando no escuro do cômodo pequeno. E minha curiosidade crescia a cada vez que eu via-o mover ansioso os pequenos olhinhos, ora fitando o sofá onde se aninhava, ora fitando a direção na qual o gato dourado caminhara horas antes.
“Gatinhos não podem sorrir”: foi o que tentei me convencer quando vi a feição do pequeno ao deixar o sofá num salto que explicou-me porque gatos tem a fama de bons saltadores ao mesmo tempo em que me deu uma razão para acreditar que a expressão tranquila que ele mostrava a cada vez que outro rosnava para ele não era forçada como imaginei a princípio. Podendo saltar daquela forma, o gatinho não precisava temer rosnados, por mais parecidos com rugidos que eles fossem.
Independente, entretanto, de considerar o miado baixo que ouvi enquanto o gatinho negro movia-se em direção a uma das portas do pequeno corredor como uma risada, era inegável que seus passos que ecoavam baixinho conforme ele se aproximava de seu destino tinham um quê de gingado divertido. Assim como era impossível não pensar que a forma como a longa cauda negra moveu-se preguiçosamente em movimentos pendulares quando ele alcançou a maçaneta era, estranhamente, constrangedoramente maliciosa.
Tudo naquele gatinho gritava o quanto ele sabia que estava fazendo algo errado.
Tudo naquele gatinho gritava o quanto ele estava adorando fazer algo errado.
Até mesmo os movimentos da cauda, entretanto, pararam de subido quando ele girou a maçaneta e, empurrando silenciosamente a porta, meteu-se num pulo dentro do que eu agora percebia como o quarto no qual o gato maior, um pouco assustador apesar do tom caloroso de seus pelos, ressonava baixinho. O baque surdo da porta fechando-se às suas costas arrancou do gatinho invasor um pequeno pulo e um miado baixo, reclamão. Se eu não soubesse que gatinhos não são capazes disso, juraria ter ouvido um palavrão.
O som, entretanto, não foi o suficiente para acordar o gato maior como parecia temer o pequeno clandestino. E talvez por notar que não seria assim tão fácil acordar aquele que acabara de soltar um pequeno ronco, o gatinho negro tornou-se incrivelmente ousado.
“Gatinhos são sempre ousados”, você me dirá, como se isso justificasse como aquele gatinho em especial correu até a cama no centro do quarto e jogou-se nela num pulo, ou como se isso legitimasse a forma como ele rondou a cama toda amassando com suas patinhas cada canto dos cobertores, incluindo em sua pequena exploração, ousadamente, o canto do cobertor que cobria o adormecido gatinho caramelo.
O gato caramelo também é digno de nota, mas eu não teria percebido isso sem a ajuda do gatinho negro, que, sem qualquer aviso prévio, parara a bagunça que fazia entre os cobertores e pousara quietinho seus olhos avermelhados nele. Quando desviei meus olhos para o que roubava a atenção do pequeno hiperativo e punha-o sentado em suas patinhas traseiras não pude evitar um sorriso. Sorriso este que apenas aumentou conforme eu dedicava também minha atenção ao gato caramelo.
Claro que num primeiro instante eu me surpreendi e procurei em minha mente alguma explicação para o que via, mas, após me convencer de que definitivamente não havia mais gato algum no apartamento além daqueles dois sobre a cama, não havia mais como duvidar que aquela confusão de pelos desgrenhados no travesseiro era, ainda que a escuridão do quarto não me deixasse confirmar, sim, o gatinho caramelo. E não me culpe por minha dúvida, ela te tomaria também, tenho certeza, se você visse o que eu via. O fato era: a confusão de pelos desgrenhados no travesseiro mantinha uma expressão tão suave, tão calma, que seria quase impossível associá-la ao gatinho rosnador de horas antes. O gato caramelo que rosnara todo imponente para o gatinho negro, raivoso o suficiente para me fazer desejar interferir, era, agora, uma bola de pelos fofa perdida em cobertores. E isso, definitivamente, é capaz de chocar qualquer um, até mesmo o gatinho negro. Porque eu, apesar de minhas dúvidas quanto aos sorrisos que aquele gatinho dera minutos antes, não tinha dúvida alguma que a boquinha aberta em susto era sinal de que aquela expressão calma do gato caramelo pegara desprevenido também o gatinho negro.
“Ser pego desprevenido” foi exatamente a desculpa que dei para as seguintes ações do tal gato negro, aquelas que, inevitavelmente, alargaram ainda mais o sorriso no meu rosto. Inevitavelmente porque, eu reconheço e você talvez concorde comigo, é impossível não sorrir ao ver um gatinho negro curioso levar uma das patinhas até o rosto adormecido de um gato resmungão e empurrá-lo levemente como se para testar que a expressão que ali figurava era mesmo verdadeira. E ele o fez, empurrou uma, duas vezes, trocou a patinha e empurrou de novo. Empurrou até que a boca do gato caramelo abriu-se e inundou em baba o rosto adormecido. Não consegui me controlar e ri alto. Achei que meu riso revelaria minha presença e eu teria que deixa-los, mas, no fim, o gatinho negro riu junto a mim, abafando minha risada com seus miados sonoros.
Eu tenho que confessar: não sou especialista em gatinhos. Assim, não tenho sequer palpites do porquê, de um instante para o outro, o miado-risada transformou-se em um ronronar alto e as patinhas que até então empurravam o agora babado rosto adormecido passaram a dedicar-se a abrir espaço entre as camadas de cobertores. E, lembra-se do gatinho quietinho sentado nas patinhas traseiras que até mesmo deixara de balançar a cauda tamanha a calmaria? Sequer sinal dele! Tudo o que eu podia ver agora era um aglomerado de pelos negros tentar enfiar-se a todo custo no espaço aberto com todo esforço por entre os cobertores. Empurrando o gato maior, miando em desagrado, arranhando os lençóis.
Eu quase – quase – pensei que o gatinho negro estava, em meio aos caos que fazia, esforçando-se para ser pego em meio a sua travessura, mas meus pensamentos que caminhavam nesta direção perderam-se quando o ele aquietou-se novamente, agora deitado confortavelmente ao lado do gato caramelo, a cabeça pousada relaxadamente no pedaço de travesseiro roubado durante a confusão de segundos antes. E eu tive certeza de que aquele gatinho de olhos vermelhos brilhantes poderia querer tudo, menos ser pego. Não tive dúvidas disso quando o vi olhar em todas as direções, como se suspeitasse que alguém mais ali, além dele, espiava o sono do gato caramelo.
E como não há em mim sequer traço de ingenuidade, eu soube que deveria apurar meus ouvidos e abrir bem meus olhos para o que ele faria a seguir. Porque eu sei, como o gatinho negro provavelmente também sabe, que as piores travessuras sempre vem acompanhadas por olhares furtivos.
E eu, então, com ouvidos atentos e olhos bem abertos, assisti o momento no qual o gatinho negro aproximou-se ainda mais do gato caramelo e, ronronando baixinho, aconchegou-se a ele, afundando a cabeça em seu peito e cravando nele ambas as patinhas dianteiras. Eu não soube dizer, entretanto, mesmo com meus sentidos todos fixos neles, se a travessura do gatinho era o aconchego ou as unhas cravadas. Ou talvez ambos. Só sei que, assim afundados no peito do outro, os olhos avermelhados não podiam ver o que eu via. Não puderam ver, portanto, o momento no qual as unhas cederam, ou o momento no qual o gato caramelo jogou uma de suas patas sobre o gatinho negro e transformou o aconchego num abraço, e não puderam ver como justamente este último momento coincidiu com o instante no qual o sono esgueirou-se por entre eles.
Mesmo depois de me certificar que ambos dormiam, e que, portanto, minha saga a observar a invasão do gatinho negro cujos pensamentos não pude ler acabara, eu ainda permanecia a olhá-los por tempo o suficiente para notar como o gato caramelo farejou sonoramente o gatinho em sua cama e resmungou em seus sonhos, assim como pude notar que, ainda que inegavelmente adormecido, o rabo negro se espichava a cada vez que o nariz molhado do gato maior se aproximava. Tempo o suficiente para ver que apesar dos resmungos e dos pelos eriçados eles permaneceram aconchegados um ao outro até a luz do sol invadir o quarto e força-los a enfiarem os focinhos por entre os cobertores em escapatória e acabassem, por fim, a separarem-se quase que totalmente, mantendo-se unidos apenas através do entrelaçamento de suas patinhas.
E assim separados permaneceram até que o gato caramelo começou a dar sinais de que acordaria, movendo-se devagar e farejando avidamente o ar. E, ainda que os resmungos tenham inicialmente soado parecidos com os resmungos liberados durante os sonhos, conforme despertava, o gato caramelo fazia cada vez mais dos seus resmungos rosnados sonoros. Até que, por fim, miados ensurdecedores preencheram o quarto e despertaram o gatinho negro.
Antes de sair de fininho, olhei uma última vez para o gato caramelo e não pude conter um suspiro de desagrado: ele não se parecia nem um pouco com o gatinho que dormia tranquilo ou que resmungava quase que em ronronas durante o sono. Mas, de toda forma, o gatinho que miava baixinho o que eu podia jurar pedidos de desculpas também não fazia sequer lembrar o gatinho ousado que invadira o quarto de madrugada.
Mesmo que eu não devesse, entretanto, confesso ter rido sonoramente antes de deixa-los ao notar que, inegavelmente, ambos escondiam segredos.
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