curious time

1 parte I - we have all the time in the world


Notas iniciais
Como já comentei nas outras duas fics que postei sobre Drukkari (meu Deus, 3 fics em uma semana, alguém envia socorro porque tenho coisas importantes a fazer da vida e não consigo fazer porque só penso neles), eu não consigo parar de escrever sobre eles. Dessa vez, esse é um projeto em duas partes. O principal conceito é justamente a sinopse: eles são eternos, tem todo o tempo do mundo. Até que a destruição do mundo, a percepção que podem ter suas memórias apagadas a qualquer minuto os levam a perceber que talvez não tenham tanto tempo assim. O título, "curious time" faz referência à invisible string, da Taylor. Espero que aproveitem a primeira parte!

Parte I

we have all the time in the world

(1)

5.000 a.C. — Mesopotâmia

Quando Makkari correu pela primeira vez, ajudando a derrotar aqueles Deviantes, tirando as pessoas de perto do perigo, foi como se estivesse respirando pela primeira vez. Foi como se antes, o tempo que passou na nave, a caminho da Terra, houvesse sido uma mera experiência de casulo.

Quando Druig alcançou a mente dos humanos pela primeira vez e conseguiu acalmá-los logo após o ataque, foi como se sua mente nunca fosse ser silenciosa novamente. Sentia todos os pensamentos e intenções daqueles homens, escorrendo em direção aos seus próprios, como se quisessem ser abraçados por ele.

E, de alguma forma, era mais do que qualquer um dos dois poderia prever.

(2)

1793 a.C. — Egito Antigo

Ela não sentia tanto calor como os humanos, mas ainda assim não estava mais aguentando tanto calor. Quando se mudaram para o Egito, não havia dado a devida importância ao conceito de “deserto”: já estavam ali há séculos e ela ainda não havia se acostumado.

Ao mesmo tempo, nunca havia visto os humanos fazerem tantas coisas interessantes. As pinturas nas paredes, o ritual de morte, a escrita! Papiros e mais papiros de textos escritos com esmero, contando histórias inteiras. Tão mais elegantes do que a escrita dos sumérios, ela tinha de admitir.

— Estou indo para o Nilo — Sersi disse, levantando-se da mesa em que todos ainda estavam sentados após o café da manhã — Vamos começar a colheita do trigo hoje. Alguém quer vir também?

Ninguém se dispôs a ir com ela, que deu de ombros antes de sair da sala.

Makkari tinha grandes planos para o dia: planejava ir até a pirâmide em que Queóps havia sido enterrado para dar uma olhada no barco funerário. Período divertido, aqueles anos em que Queóps reinou — ela sempre se lembraria da expressão maravilhada do faraó diante da apresentação de Phastos sobre a nova tecnologia que possibilitaria a construção da maior pirâmide feita até então.

Levantou-se logo após Sersi, direto para seu quarto na Domo. Estava em busca de alguma bolsa, algo em que pudesse guardar seu almoço — não planejava voltar tão cedo. A cozinha da Domo não era algo muito complexo, e na verdade acabava tendo apenas os alimentos que os humanos sempre deixavam como oferendas. Pegou algumas maçãs, e também pão. O vinho não teria como carregar, não sem fazer uma bagunça, especialmente enquanto corria.

Sentiu a vibração de passos logo atrás de si, virando-se de supetão, com uma maçã a meio caminho de ser guardada na bolsa.

— Tenho a sensação que Ajak não sabe dessa sua aventura de hoje — era Druig que chegava na cozinha.

“Não vou fazer nada, só vou conhecer alguns lugares”, ela sinalizou.

— E trazer uma parte deles com você? — ele levantou uma única sobrancelha em tom irônico.

Ela revirou os olhos e continuou a guardar o que precisava na bolsa.

— Qual o destino hoje? — ele encostou no balcão ao seu lado.

“A pirâmide de Quéops. Nunca tive a chance de ver a barca funerária dele”.

— Me traga uma lembrança — ele pegou uma das maçãs que ela ainda não havia embalado e deu uma mordida.

.

Makkari ainda se impressionava com a quantidade de bens que os faraós levavam junto a eles para suas tumbas. Passava a mão por todas aquelas jóias, por todo aquele ouro e aquelas preciosidades que nunca veriam a luz do dia novamente. Ok, talvez algumas acabassem vendo, se ela as levasse consigo.

Não encontrou, porém, o barco de Queóps. Talvez houvesse sido guardado em outro local? Revirou sua memória, mas não encontrou nenhuma informação sobre isso.

Deu de ombros — teria de se contentar com o que tinha. As paredes da câmara funerária eram ricamente incrustadas de pinturas e hieróglifos. Pinturas para o deus Rá e sobre a vida do faraó, junto a sua rainha, eram a maioria. Mas também havia algumas outras: uma sobre aquele episódio da cheia do Nilo após alguns anos de seca, outra sobre quando choveu por uma semana inteira no litoral.

Andou e vasculhou por todos aqueles artefatos. Guardou para si alguns papiros com textos únicos e alguns pequenos vasos onde a rainha colocava seus cosméticos, feitos de ouro puro.

Uma estatueta com cabeça de cachorro captou a atenção do seu olhar mais que qualquer coisa. Era pequena, não mais que quinze centímetros, uma representação de Anúbis. Porém, a cabeça sempre preta estava combinada a uma túnica vermelha, e não o típico dourado encontrado na maioria das homenagens a esse deus. Ela não pode deixar de sorrir ao lembrar-se que combinava perfeitamente com o uniforme de Druig. “Me traga uma lembrança”, ele havia dito. Pois bem, ela pensou colocando a estatueta também na bolsa.

Quando saiu, percebeu que passou muito mais tempo lá dentro do que o planejado: já era noite. Correu de volta ao Domo, esperando que ninguém houvesse notado sua falta. Odiava as tantas perguntas que Ajak sempre fazia.

Correu até seu quarto, deixou a bolsa sobre a cama de qualquer jeito e correu para a sala comum. Merda, todos já estavam reunidos para o jantar, não teria como fingir que havia estado o tempo todo em seu quarto.

— Makkari — Ajak começou a falar, assim que ela puxou a cadeira para se sentar em seu lugar — Retornou antes que o previsto, sempre ágil. Como estava a fronteira norte? Realmente encontrou algo de anormal?

Franziu a testa, do que ela estava falando?

Quando ergueu os olhos para Ajak, seu olhar antes cruzou com o de Druig, sentado na sua frente. Ele erguia apenas uma das sobrancelhas, assim como havia feito pela manhã.

“Estava tudo bem, nada de anormal”, sinalizou, tentando ser o mais breve possível.

— Isso é bom. Estamos em um grande período de calmaria, essas últimas décadas. Seria uma pena que se já acabasse.

— Eu não acho — Thena murmurou, não baixo demais para que não arrancasse um riso de alguns.

Makkari comeu o quão rápido podia, voltando para seu quarto. Já era tarde, todos provavelmente estariam dormindo, quando ela sentiu novas vibrações de passos parando em frente a sua porta — as mesmas vibrações da manhã. Abriu a porta e encontrou Druig, com um sorriso de escárnio, parado à sua frente.

— Por nada — disse com uma mesura de cabeça.

“Entra, antes que alguém passe pelo corredor”, gesticulou e abriu espaço na porta para que ele entrasse. “Que história foi essa de fronteira?”

— Quando vi que estava anoitecendo e você não tinha voltado, comentei com Kingo sobre como você tinha sentido algumas vibrações estranhas vindas do norte. E que tinha ido fazer um reconhecimento, certificar-se que não eram novos Deviantes. Ele fez o resto do trabalho e espalhou para todos. Então, repito, por nada.

Ela sorriu. Foi até a sua mesa, onde agora estava a bolsa, e entregou a ele a estatueta.

— Realmente me trouxe um souvenir? — ele brincou, mas parecia surpreso — Obrigado.

“Obrigada por me acobertar hoje”, sinalizou.

— A seu dispor.

(3)

525 a.C. — Babilônia

— Minha bela Makkari. Está atrasada!

Anos haviam se passado desde a primeira vez que Druig acobertou uma das suas fugas, e isso só havia se tornado mais recorrente com o tempo. E, em algum momento desse período, Druig havia começado a chamá-la de “minha bela Makkari”. Ela ainda não havia definido o quanto ele estava brincando com a sua cara ou se ele realmente queria dizer aquilo.

“Precisava de artefatos para fazer uma boa troca”, explicou.

A Babilônia era mais agradável que o Egito. Embora as temperaturas ainda fossem tão altas quanto possível, pelo menos tinham o jardim aqui, para se distraírem com as plantas. Nabucodonosor o havia construído em homenagem aos feitios deles em combaterem os Deviantes.

Druig traduzia na linguagem nativa sua língua em sinais. Não era a primeira vez que tinham problema com alguns negociadores que tentavam enganá-la por ser surda — ênfase no tentavam.

Em um piscar de olhos, uma briga teve início do outro lado do cômodo. E em uma batida de coração, tinha encerrado. Makkari conseguiu ver os brilhos dourados nos olhos de Druig antes que se esvaísse.

“Quando os humanos entram em conflito, Ajak nos diz para não interferirmos.”

— Ela também diz que roubar é muito, muito feio — se aproximou dela para dizer isso, enquanto lhe mostrava um dos artefatos que ela havia trago para a troca.

“Se você não contar pra ela, eu não conto”, decidiu, por fim.

Por um momento, sentiu que haviam fechado um acordo com cláusulas que iam além do dito.

(4)

420 a.C. — Atenas

Atenas foi uma época movimentada para os Eternos. Makkari não sabia explicar porquê, mas o surgimento da democracia e da filosofia ateniense era quase como um imã para os Deviantes. Não que ela estivesse reclamando, adorava os dias em que podia correr e lutar ao lado dos outros.

Além disso, havia toda a arte. Ela sempre havia sido apaixonada pela habilidade dos humanos em fazer arte. Os textos, as esculturas, os mitos, tudo a encantava. Ser a inspiração para muitos desses mitos era um orgulho, ela não conseguia esconder — mesmo que tivessem a retratado como um homem e mudado seu nome tanto quanto fosse quase impossível perceber que tinham a mesma origem.

Era verão em Atenas, e o sol brilhava sobre as águas do mar eram tão azuis quanto possível. E eles estavam lutando com outro grupo de Deviantes.

Makkari corria tanto a ponto de ser um borrão quase imperceptível. Ikaria voava sobre sua cabeça, Thena e Gilgamesh lutavam quase como se fossem uma unidade, enquanto Kingo lançava explosões poderosas. Eram um time que trabalhava perfeitamente em equipe desde o início dos tempos.

Quando acabaram com aquela horda, vislumbrou os outros se aproximando lentamente. Ao longe, também pode ver os Diplomatas caminhando ao encontro deles.

Ajak foi diretamente até Kingo, que tinha uma lesão bastante feia na perna. Druig caminhou até ela, por outro lado, com um sorriso no rosto.

— Minha bela, bela Makkari. Poderia passar o resto da vida assistindo sua luta contra os Deviantes.

“Você viu alguma coisa? Provavelmente eu estava fazendo algo errado, então”.

— Você foi um lindo borrão.

(5)

114 d.C. — Roma

— Talvez eu tenha ouvido falar sobre uma biblioteca que possivelmente é a maior do mundo, e talvez eu saiba exatamente onde ela se encontra — Druig parou ao seu lado, olhando pela sacada.

“Ouvido falar?”, ela sinalizou, em um tom um pouco irônico.

Druig não podia sair do palácio onde estavam morando agora. Bem, pelo menos não podia se não fosse para uma das suas missões oficiais. Ajak havia aumentado a vigilância sobre ele, especialmente após o episódio do incêndio de Roma. Druig havia sentido a mente de Nero, sabia de suas intenções — segundo ele, o pensamento do imperador praticamente gritava por ajuda, anunciando o desejo. Pediu para que Ajak o deixasse intervir, pelo menos dessa vez, senão a cidade inteira queimaria. Ela o impediu. Isso havia sido há 50 anos, e desde então estava sendo uma época sombria para Druig — tendo de lidar com o peso de sentir a morte simultânea de tantas pessoas que poderiam ter sido facilmente evitáveis com sua ajuda.

Na próxima década, Druig havia começado a interferir em pequenos eventos cotidianos dos humanos: violências, roubos, assassinatos. Até que Ikaris descobriu o que vinha acontecendo — haviam brigado, Ajak havia intervido, e agora Druig apenas saia do palácio para as missões.

— Selene, a que traz oferendas toda semana — ele deu de ombros, virando-se completamente de frente para ela — Quer saber onde é?

Makkari olhou para o rosto de Druig, sempre havia sido tão pálido, porém agora que não ia ao sol frequentemente parecia ter se tornado ainda mais. Em baixo de seus olhos, olheiras, como se não conseguisse dormir direito há semanas.

“Não”, ela sinalizou, recebendo um olhar confuso como resposta. “Vamos comigo”.

— Você sabe que não posso, minha bela Makkari — ele sinalizou ao mesmo tempo que dizia.

“Ajak não precisa de saber. Saímos amanhã cedo, voltamos antes do anoitecer. Você sabe que consigo”, sinalizou, com um sorriso.

— Não estou duvidando de ti. Mas você vai se meter em problemas por causa disso.

“Bem”, ela deu de ombros, “Se você não contar pra ela, eu não conto”.

Recebeu um sorriso em resposta.

— Minha bela, bela Makkari. Não sei o que posso ter feito para te merecer — tocou a bochecha dela com o polegar.

Sorriu também. “Vamos amanhã?”.

(6)

400 d.C. — Índia

Ikaris e Sersi haviam acabado de se casar. Estavam juntos há séculos, mas agora haviam se casado, e Makkari não esperava que isso fosse realmente acontecer. Sorria genuinamente enquanto eles trocavam um beijo no altar.

Parado ao seu lado, Druig dava uma mordida em uma fruta. Nem mesmo durante o casamento ele havia parado de comer — típico.

“Não é muito respeitoso comer durante uma celebração”, ela sinalizou para o rapaz.

— Não é como se fosse meu casamento.

“Será que pra beijar a sua noiva você vai largar a manga?”

— Quer ir lá pra gente descobrir a resposta?

Ela revirou os olhos, mas sentiu um arrepio subir pela sua coluna.

Dançavam em volta dos noivos, juntos à população local. Era um dia festivo. Druig nunca dançava, independente da cultura do local, mas Makkari dessa vez insistiu.

“Vamos lá, é o casamento de Sersi e Ikaris, é um dia feliz”.

— No mínimo estou com pena de Sersi, ter de aturar Ikaris por toda eternidade. Eu tenho só de conviver com ele e me lamento todos os dias.

“Vamos lá, Druig. Dança comigo”, estendeu a mão para o rapaz que estava sentado.

— Eu não sei dançar — ele disse, mas ao mesmo tempo não oferecia resistência e se levantava apoiado na mão que lhe era estendida.

Makkari não abusou do que havia conseguido: havia levado Druig até um dos cantos do cômodo, afastado de toda a movimentação da festa, embora ainda conseguissem ouvir a música.

Ele manteve suas mãos juntas, e colocou a outra na cintura de Makkari, puxando-a para mais perto de si. Ela tinha a ligeira impressão de que não era esse o costume da dança ali, mas não poderia estar se importando menos com isso. Soltou sua mão da dele apenas para que pudesse abraçar seu pescoço, e encostou a cabeça em seu ombro.

Não sabia mensurar quanto tempo haviam ficado assim. Tudo era silêncio e vibrações para Makkari, ela não conhecia o som. Mas o silêncio nunca havia soado tão tranquilo como naquele momento, nunca havia lhe trago tanta paz. Era como se tivesse conseguido isolar todas as vibrações do ambiente, e a única que retumbava em seu cérebro era a vibração da pulsação do sangue de Druig contra seus vasos, e o arrepio que iniciava-se na base da sua coluna, no exato ponto em que a mão dele a tocava.

Ela se separou um pouco dele, o suficiente para gesticular.

“Você já pensou nisso? Passar o resto da eternidade com alguém?”. Não sabia porque havia lhe perguntado isso, de um momento para o outro é como se sua mão tivesse criado vida própria.

— Tenho pensado. Há alguns séculos — ele a olhou enquanto dizia.

Makkari sustentou o olhar. Era algo que poderia começar a pensar, não negava. Talvez até mesmo fosse algo que já vinha pensando há algum tempo, no fundo. A partir do momento que Ikaris e Sersi haviam ficado juntos, quando uma pequena porção do seu cérebro subitamente se ativou: ela poderia ter aquilo também, se quisesse. E queria.

Ao mesmo tempo, eternidade era muito tempo. E sempre teriam de estar todos juntos. Talvez o mais prudente fosse ir com calma, ver aonde tudo levaria.

Fechou os olhos e inclinou a cabeça para frente, sentindo que Druig abaixava um pouco a sua, tocando suas testas e a ponta dos seus narizes.

— Nós temos todo o tempo do mundo — ela pode sentir que ele murmurava.

(7)

1521 — Tenochtitlan

E então ele partia. E então todos partiam. Toda sua família, cada um para um canto diferente do planeta.

E, mesmo assim, Makkari estava em paz. No fundo sabia, acima de qualquer coisa, que não era um adeus. Nada disso era parecido com um adeus. Era um até logo, um vejo vocês em um minuto. Eram eternos, e quando se vive para sempre, cada século é um minuto.

Não precisavam ter pressa.

Sabia que era o melhor para Druig naquele momento, sabia que talvez fosse o melhor para todos eles. Haviam estado reunidos por muito tempo, e às vezes só se percebe o quão precioso era o que você tinha quando já não se tem mais. Druig estava sustentando em seus ombros o peso de muitas mortes que não eram sua culpa, e precisava de tempo para se curar.

Por isso, mesmo enquanto via Druig caminhando para longe de si, sorriu e acenou, desejando silenciosamente um boa sorte que torcia em cada fibra do seu corpo que o alcançasse.

Notas finais
Então, essa foi a primeira parte. O título é uma frase batida, mas faz referência especialmente à música de Louis Armstrong, com o mesmo título. Me contem o que acharam! Em breve retorno com a segunda (e última) parte. Beijinhos, Paulie