curious time

2 parte II - what would you do if you had more time?


Notas iniciais
Dessa vez, o título "what would you do if you had more time?" é uma frase do musical Hamilton. Espero que gostem! Boa leitura

parte II

what would you do if you had more time?

2023 — Iraque

— Isso! E o mundo está acabando. ¹

A visão de Kingo sinalizando aquela frase para ela continuava a retumbar em sua cabeça. O mundo está acabando. Ela não conseguia processar essa informação. Ela não morreria, claro, mas seria resetada e perderia todas suas memórias. Não estava pronta para abrir mão de suas lembranças.

Todas as suas andanças pela Terra. Todas as pessoas que conheceu, todos os artistas, escritores, pintores, escultores. Toda aquela história. Toda sua família. Druig.

Ergueu a cabeça de súbito com esse pensamento. Druig havia chegado junto com os outros e, mesmo não o tendo visto há séculos, estava exatamente como se lembrava. Mesmo não o tendo visto com qualquer vestimenta mais recente que a túnica de Tenochtitlan, de alguma forma, o imaginava exatamente daquela forma ao fechar os olhos.

E então ele estava a implicando com sua tendência de colecionadora, e então ele estava parado atrás dela, tocando seu ombro mesmo enquanto Phastos tentava achar uma solução para prevenir o fim da Terra. Era como se aqueles cinco séculos não houvessem ocorrido, como se tivessem continuando exatamente de onde haviam parado.

— Encontre o local do despertar — Phastos disse olhando-a nos olhos e depositando o dispositivo em sua mão.

Makkari estava mais que contente por poder correr. Desde sempre ela pensava melhor enquanto estava correndo. E ela realmente precisava pensar: tudo que ela julgava ser verdade, tudo em que ela acreditava havia sido desconstruído e transformado em menos tempo que seu coração levou para bater uma única vez.

Não estava pronta para se despedir desse planeta, nem de todas as coisas que ainda poderia vir a conhecer, de todas as coisas que ainda poderia vir a acontecer. Não estava pronta para abrir mão de suas memórias e de seus conhecimentos: todos os livros que leu, toda história que extraiu de cada peça de arte, de cada pessoa que conheceu ao longo desses anos.

Druig! Não estava pronta para se esquecer de Druig. Ela pensou, e até mesmo tropeçou por um momento, tendo de pular por sobre um morro. “Temos todo o tempo do mundo”, ele disse diante de sua hesitação. Não mais. Havia hesitado e se segurado por medo do que viria, de todo o tempo que ainda viria, e agora esse não era mais um problema. Era justamente o oposto agora.

Talvez fosse um pouco egoísta de sua parte, estar pensando nisso ao mesmo tempo que bilhões de pessoas poderiam morrer. Ela admitia que era sim egoísta. Acelerou o passo o máximo que pode — não tinha tempo a perder, muitos dependiam dela. E, mesmo assim, o pensamento que retumbava em sua mente era que precisava conversar com Druig.

“Eu encontrei Tiamut”, gesticulou assim que entrou no Domo.

Os próximos segundos foram pura confusão: expressões de choque no rosto de todos, os olhos de Ikaris acendendo em sua direção e Kingo caindo aos seus pés.

— Sai logo daqui! — Kingo disse, após ter se jogado na sua frente para impedi-la de ser atingida pelo raio de Ikaris.

Correu para longe dali, sem mais perguntas.

Ikaris tinha tentado acertá-la, pela expressão de todos, Ikaris havia se virado contra eles também. Não queria que parassem o despertar. E logo ele, que sempre havia sido o com maior força bruta de todos eles.

Sabia que não podia ter continuado lá, possuía uma informação preciosa e tinha de se esconder até que fosse seguro. Sentia seu coração batendo em seu pescoço, se sentando entre as últimas prateleiras no fundo da biblioteca do Domo, escondia por entre, além dos livros que já tinham ali, os diversos outros itens que também havia trago posteriormente.

Não saberia dizer por quanto tempo ficou ali. A noção de tempo é uma coisa engraçada, especialmente em situações como aquela.

— Sabia que te encontraria aqui — Druig disse e gesticulou simultaneamente, sentando-se ao seu lado.

“Onde está Ikaris?”

— Foi embora. Sprite foi com ele. E Kingo voltou para casa.

“Como assim voltou para casa?”

— Ele concorda com Ikaris — disse simplesmente, dando de ombros. — Agora somos só nós. Thena, Sersi, Phastos, você, eu.

Ele apoiava os cotovelos nos joelhos dobrados, e tombou a cabeça para olhá-la diretamente.

— Eu não sei se consigo controlar a mente de Tiamut para voltar a dormir. Mesmo com a Unimente. E mesmo que eu consiga, vou passar o resto do tempo, até vocês acharem um novo local para os humanos, tendo de focar toda e qualquer energia que eu tenha em mantê-lo assim.

Makkari não havia pensado nisso. O poder de Druig era mutável e a influência que exercia sobre as mentes era temporária, enquanto ele quisesse a manter. De um jeito ou de outro, era a última oportunidade que tinham: ou porque iam morrer e ser resetados, ou porque Druig ficaria preso à essa tarefa pelos próximos sabe-se lá quantos anos.

“Você está disposto a isso?”

— Não é como se temos outra escolha.

“Pensei em te visitar, várias vezes”, gesticulou, de repente.

— E por quê não visitou? — se ele havia se importado com a mudança brusca de assunto, não demonstrou.

“Você precisava disso. De um tempo seu. Mesmo que fosse cinco séculos”. Ele não respondeu nada, ficaram sentados mais um tempo, até ela voltar a gesticular. “Você disse que tinha pensado há alguns séculos, naquela vez. Agora eu pensei por alguns séculos”.

Mesmo aquela tendo sido uma única conversa que tiveram há tanto tempo, Druig de alguma forma pareceu se recordar imediatamente. Talvez tenha deixado uma impressão tão profunda nele quanto havia deixado em Makkari, em quem as palavras que ele havia pronunciado retumbavam diariamente em sua mente — de alguma forma ela torcia para que fosse o caso.

— A probabilidade é que não vamos ter mais a eternidade, de qualquer forma.

Ela assentiu. “Não temos mais todo o tempo do mundo. Mas ainda temos todo o tempo que nos resta”, acabou de gesticular enquanto olhava diretamente para os olhos dele. “E ainda que tivéssemos a eternidade, eu gostaria de passá-la com alguém”.

Ele não a respondeu. Girou as pernas, sentando-se olhando diretamente para ela. Makkari espelhou seus movimentos, e em um segundo, estava entre as pernas dele, que apoiava um pé no chão de cada lado de seu quadril. Druig apoiou uma de suas mãos no rosto dela, contornando a linha de sua mandíbula com o polegar.

— Eu pensei em você em cada dia, minha bela Makkari. Ia até o rio, olhava para até onde eu conseguia distinguir, esperando ver um sinal de que você estava vindo, correndo.

Ela se inclinou para frente, e suas testas estavam coladas. Pela primeira vez, Druig colou seus lábios ao da velocista.

Todo o relacionamento deles havia sido construído lentamente: vagarosamente, haviam se tornado mais que colegas de equipe, amigos; ainda mais devagar, haviam ido de amigos a indispensáveis; num passo moroso a partir daí, perceberam-se apaixonados um pelo outro. Quando se tem a eternidade, não é preciso urgência.

Exceto que agora não tinham a eternidade.

Talvez fosse por isso que Makkari se percebeu sentada no colo de Druig, sem perceber em que momento aquilo havia acontecido. E em um impulso estavam indo aos tropeços para o quarto que ela ocupava no Domo, sem se desgrudarem. Sem hesitação, ela estava sem sua blusa e Druig deixava uma trilha de beijos por todo seu abdômen. Um instante depois, estavam emaranhados, o peso dele sobre o dela. Sublime, estavam deitados um ao lado do outro, ela apoiando no peito dele, ele com a mão por entre os cabelos dela, ambos extasiados.

Ou talvez fosse porque haviam esperado tempo demais por aquilo que os dois queriam há tanto.

— O que você faria se tivesse mais tempo?

Makkari sentiu as vibrações vindas diretamente do peito dele. Se apoiou em seus cotovelos.

“Isso de novo”, ela sorriu.

Ele riu.

“Você não?”

— Temos pelo menos até amanhã, acho que conseguimos fazer isso mais algumas vezes — ele a beijou e ficou em cima dela novamente, e ela sentiu quando seus lábios formaram um sorriso involuntário mesmo durante o beijo.

No dia seguinte de alguma forma tudo se acertou, de alguma forma ele não estava mais morto e um peso que Makkari desconhecia deixou seu peito, de alguma forma eles se abraçaram e uniram suas testas. De alguma forma, Makkari pode sentir, no fundo da sua mente, ela não sabia se era a sua própria consciência ou a voz dele, um sussurro: “nós temos todo o tempo do mundo”.

Ela não sabia como seria dali em diante. Não sabia onde iria, ou o que teria de fazer. Não sabia quais seriam os seus próximos passos. Mas ela sabia com quem iria querer passar cada um daqueles momentos da eternidade.

Notas finais
¹ Tomei a liberdade poética de mudar um pouco a frase do dublado para a tradução literal do original. Eles não tinham pressa. Quando se tem o tempo como aliado, não é preciso ter pressa. Mas quando de repente o tempo não está mais a seu favor, as coisas ficam um pouco desesperadas. Além dessa, tenho mais duas one-shots Drukkari publicadas, caso você tenha interesse em ler mais sobre eles. De qualquer forma, queria agradecer a cada um de vocês que leu até aqui. Muito obrigada pela companhia. Vejo vocês em uma próxima oportunidade!! Beijinhos, Paulie
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!