coisas não ditas
3 CAPÍTulo 2
Notas iniciais
CAPÍTULO 2
“Talvez as pessoas se afastem inevitavelmente e não há nada que possamos fazer.”
O alto ruído da porta batendo com toda a violência foi seguido de um grito.
— O que você tá fazendo aí no chão, Albus?
Ele tentou encontrar vãs forças para se levantar, sentindo a testa dolorida, e já prevendo o galo que a enfeitaria pelos próximos dias, mas a única resposta que saiu de sua boca foi um grunhido inteligível. Albus abriu levemente as pálpebras pesadas, distinguindo o que, se a voz era indicativa, deveria a cara de Rose a poucos centímetros da sua. Mas ele não poderia ter absoluta certeza, por duas razões: miopia e ressaca. Por falar na última, era impressionante como a sua cabeça doía. As memórias de ter bebido a garrafa inteira de vinho na madrugada anterior depois que Hugo fora dormir apenas fez surgir pontos pretos na sua visão.
Ele voltou a fechar os olhos novamente, e Rose colocou as mãos na cintura olhando para a sala completamente desorganizada de Hugo e para o vinho esgotado na mesa de centro; julgando o primo adormecido com um olhar mais entendido. Rose largou a bolsa no sofá onde Potter dormira nas últimas horas, e foi encher um copo de água na cozinha e pegar um remédio para Albus. Logo, ele voltou a sentir alguém mexendo no seu ombro e falando baixo perto do seu ouvido:
— Acorda e toma isso daqui rapidinho, Al, vai melhorar a dor de cabeça. – ele cedeu à moça, e apoiando-se no sofá, sentou no chão, endireitando-se e aceitando a água e a pílula.
— Obrigada, Rosie. – ele sorriu fraco, recebendo um afago carinhoso no ombro.
— Não tem de quê. – ela respondeu, sentando-se ao seu lado. – Já perdi a conta de quantas vezes tomei conta de você depois daquelas festas do 7º ano.
Ele riu, esfregando os olhos com as mãos e buscando os óculos em cima da mesa.
— Acho que não preciso te lembrar da vez que os papéis eram invertidos, não?
As bochechas de Weasley se viram tingidas de carmim rapidamente.
— Ah não, Albus, — ela parecia envergonhada, mas ainda ria. – essa história de novo não.
O garoto arqueou uma sobrancelha, cutucando-a com o ombro.
— Você se jogou no Lago Negro às três da manhã cantando uma música da Celestina Warbeck, Rose. Sem roupas.
Weasley revirou os olhos, e se levantou, mudando de assunto:
— Hugo combinou comigo de ir ao Beco Diagonal pra gente organizar as coisas da festa.
— Quê festa, Rose?
Albus bebericou do seu copo de água, levemente interessado. Um vinco enorme apareceu entre as sobrancelhas dela, quem se virou de braços cruzados e uma expressão típica de Hermione-insatisfeita.
— O reencontro da turma de Hogwarts, Albus Severus, você falou que ia!
Ele levantou os braços em rendição.
— Okay, okay, eu tinha esquecido, Rose.
— Vou engolir essa resposta, mas só porque você não está nas melhores condições. – ela revirou os olhos um pouco.
— Ei! – ele tentou fingir fúria, mas sem muito sucesso.
Rose decidira por finalmente invadir o quarto onde Hugo se mantinha trancado, e ele apenas escutou os murmúrios através das paredes. Com certeza ele era o tema da conversa dos Weasley, Albus pensou, antes de se levantar e desamassar o máximo que conseguiu a blusa de botões que ainda usava. Espiou pela janela, torcendo os lábios diante da chuva que armava para cair provavelmente quando ele saísse do apartamento de Hugo.
Quando Hugo e Rose finalmente deixaram o quarto, buscando por Albus, não encontraram quase vestígios do homem. O sofá estava arrumado, o copo que ele usara já estava lavado e guardado, e nem mesmo a garrafa vazia permanecera lá. Só um papel com uma mensagem rabiscada às pressas e deixado na mesinha de centro.
“Obrigado pela noite, Hugo, depois eu trago uma garrafa da sua tequila favorita. Rose, não se preocupe demais.”
Os irmãos se entreolharam, e o garoto deixou um suspiro escapar.
— Sabia que ele nem foi no noivado do Scor? – ela comentou, se jogando no sofá e colocando os pés na mesinha. Hugo sentou ao seu lado e empurrou os pés dela para o chão.
— A noiva é legal, pelo menos? Eu até entendo ele estar com um pouco de ciúmes, mas o Albus exagera tanto às vezes. – ele respondeu.
Rose deu de ombros, cruzando os braços em seguida.
— Pois é, a Lydia pareceu uma boa pessoa, de longe o melhor relacionamento que já vi o Scorpius dentro. Eles ficavam sorrindo um para o outro o tempo todo, mas não eram tão grudentos como...
— Ele com o Albus?
— É. – a Rose olhou para o irmão mais novo.
— Mas eles eram adolescentes cheios de hormônios, mana.
A Weasley sorriu diante da forma que Hugo ainda a tratava.
— Você sabe que era mais do que isso. Deus, até eu participei da aposta sobre quando eles ficariam juntos.
Hugo coçou a cabeça e levantou os olhos, alarmado.
— Que aposta? – ele gesticulou frustrado. – Por que ninguém nunca me contava dessas coisas?
Ela bagunçou o cabelo armado dele, apoiando a cabeça no seu ombro.
— Você ia achar um absurdo.
— É um absurdo.
Rose riu.
— Eles vão à festa de reencontro. Eu falei com a Lydia sobre no jantar de noivado, ela pareceu tão animada, Hugo! – a mulher de cabelos crespos castanhos lembrou-se de como fora àquela cerimônia com alguns pés atrás para terminar encantada com Shackelbolt. Elas haviam até almoçado juntas desde então!
Lydia era peculiar, tendo viajado o mundo para uma formação avançada em Relações Internacionais Bruxas, e cheia de histórias para contar. Ao mesmo tempo, a moça era quieta, tendo dominado a atenção da mesa poucas vezes durante o jantar, mantendo conversas individuais com as pessoas ao seu redor. Ela se lembrava dela vagamente de Hogwarts, mas a prometida do Malfoy tinha só ficado lá durante o 7º ano dela e na Corvinal.
— Você acha que o Albus deixaria de ir para não encontrá-los? – perguntou Hugo.
Ela balançou a cabeça em concordância.
— Ele iria até o Brasil só para não dar de cara com os dois se eu conheço o histórico dele. Ele falsificou varíola de dragão por causa daquele namoro do Malfoy com, — ela pareceu pensativa tentando lembrar os nomes. – acho que era com o Francis Zabini?
— O pior é que ele nunca vai admitir nada disso. – o homem balançou a cabeça pensativo.
— Não reclama, Hugo, você odeia vinho e tá ganhando tequila de graça praticamente. E nem pense em contar para ele que eles vão ao reencontro! – ela demandou com urgência a última parte.
Hugo Weasley assentiu, sugerindo que fossem para o centro de Londres e aproveitassem para almoçar no Caldeirão Furado (sempre passavam por lá e nunca haviam comido as comidas de Tom, deveriam mudar isso agora). Rose concordou, sua cabeça já voltada para a tese que tinha que defender no próximo mês, a vida do primo já correndo distante de seus pensamentos.
****
A Floreios e Borrões possui o cheio forte e já há muito tempo impregnado nas prateleiras de folhas de livros, novos e velhos, recentemente impressos e lá esquecidos desde o estabelecimento da loja em 1454. Suas pilastras assemelham-se a um estilo helenístico, mas quando dentro, o visitante se perde por entre as fantasias guardadas nas obras e o que menos poderia importar é a sua arquitetura interior. Porém, para Lydia é próximo de instintivo se localizar no meio das altas e abarrotadas estantes, buscando as vias de saída mais próximas e quais os pontos onde estaria mais vulnerável lá.
É o final do período de férias da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, portanto há pouco espaço vago para entrar na livraria. Crianças irrequietas e animadas com a volta às aulas correm de um lado para o outro, enquanto pais tentam não perder seus filhos de vista ao mesmo tempo em que obtém a extensa lista de material escolar. Esses alunos novos eram curiosos, na opinião da bruxa, quem nunca gostara de deixar as férias e, consequentemente, a companhia do pai. Porém, mais fundo da loja e longe do frenesi de vozes atropeladas, a loja não parece tão cheia assim.
Ela correu os dedos pelos títulos da área de Arqueologia Mágica, sem buscar um exemplar em especial. Seus olhos vagaram distantes das lombadas empoeiradas e esquecidas naquele canto certamente pouco frequentado por quem não quer algo em especial. Lydia limpou a gota de água salgada antes que escorresse por completo pelo seu rosto, tossindo um pouco para tentar espantar o bolo de choro entalado no fundo de sua garganta.
A voz arisca de Narcisa Malfoy ainda ressoava pelos seus ouvidos, antes que saíra tempestivamente da busca delas pelas “flores adequadas para o casamento do século”, como a senhora colocara para a noiva num tom impaciente. Provavelmente seria o neto a escutar as reclamações, mas ele bem tentara acompanhá-la no que já previra ser uma batalha: era, entretanto, impossível abandonar seu posto no Hospital Mungus por senão uma urgência. Esse não era o caso, ele amava sua vaga na área de doenças inidentificáveis e Lydia sabia cuidar de si mesma.
Em primeiro de tudo, a jovem e seu noivo concordavam plenamente que as únicas flores presentes no casamento seriam as do jardim onde a cerimônia aconteceria. Não havia razão para pagar por cadáveres belos, porém ainda assim, mortos, para enfeitar uma união viva. Um sorriso atravessou seu rosto ao pensar em Scorpius, e Lydia suspirou profundamente, finalmente se atendo aos títulos e determinada a encontrar uma nova leitura.
A Shackelbolt balançava seus cabelos e murmurava baixo uma música que escutara num rádio trouxa no caminho para o Beco Diagonal, o que na ocasião gerara um torcer desagradado nos lábios da velha Malfoy, quem ainda nutria desconfiança, embora não mais desprezo aos não-mágicos. Acabara com uma pilha de cinco livros, tendo que checar os preços no caixa tradicional que a Floreios possuía, quando foi surpreendida por um encontrão.
— Auch!
Todos os livros foram ao chão, e não somente os seus. Lydia agachou-se imediatamente, olhando brevemente para o homem em quem esbarrara que agora recolocava os óculos que acabaram por voar diante da trombada.
Ele também fora ao chão para buscar os óculos, e ajudou-a a pegar os livros.
— Desculpa, sou muito desastrado. – o garoto, provavelmente de idade próxima da dela, falou. – ‘Tava lendo enquanto andava, sempre dá errado.
Ela sorriu e colocou os fios que caiam na sua cara por detrás da orelha.
— Sem problemas, eu sempre faço isso. Estou inteira. – brincou, levantando-se e com um gesto mostrando o corpo intacto.
Ele riu, e num impulso automático empurrou os óculos redondos acima do nariz.
— Meu nome é Lydia, caso estivesse se perguntando. – ela falou de súbito. Ele assentiu, e quando ia abrir os lábios para contar o seu, um grito o interrompeu, sobressaltando-o.
— Hugo! – ele se virou, envergando as costas e logo encontrando quem o procurava com tanta eloquência.
A massa com quase vida própria da cabelereira de Rose era distinguível à distância, mas ela cruzava apenas uma bancada de livros quando finalmente notou o irmão. Antes que ele pudesse falar, ela continuou:
— Eu me virei para o lado por um segundo e você desaparece como uma criança. – reclamou, cruzando os braços.
— Rose? – Lydia fora deixada esquecida diante da chegada da mais velha, e na ponta dos pés enxergara a outra, certificando-se de quem identificara pela voz.
Um sorriso se espalhou pelos lábios rosados da Weasley.
— Lydia! – ela contornou Hugo para abraçar a recente amiga, que devolveu o gesto.
Realização se apoderou do garoto.
— Você é a Shackelbolt, não? A que vai se casar com o Malfoy. – falou, enquanto as duas se soltavam.
— Sim, sou eu mesma. – sorriu. – Você deve ser o famoso Hugo Weasley, eu lia seus contos nas edições do Pasquim.
Os olhos dele se arregalaram um pouco, antes de tomar sua atitude mais contida. Era raro ser reconhecido pelos textos antigos, mas ainda dava uma sensação reconfortante saber que tivera leitores que o reconheciam por nome.
— Viu Hugo, alguém se lembra do que você publicava no jornal. – Rose cutucou-o com o ombro, sorrindo. – Eu sempre disse que mamãe não era a única leitora.
Hugo afundou o rosto corado numa mão, grunhindo e gerando risadas nas duas moças. Ele desistira do público bruxo dois anos antes já que todas as editoras grandes reproduziam o mesmo discurso sobre valores e não ser possível publicar os livros dele. Hermione insistia quanto a buscar contatos no mundo trouxa, mas ele apenas se afundara nos artigos para O Almanaque Londrino. O cheque de pagamento tinha alguns zeros e ele tinha liberdade para trabalhar onde bem entendesse. Era cômodo e agradável.
— Bem, posso garantir que todos no vagão em que viajei eram seus fãs. – Shackelbolt complementou com um sorriso. – Um senhor de Cambridge fazia questão de ler tudo em voz alta.
— É bom saber, Lydia. Você trabalha com artefatos mágicos? – os olhos curiosos de Hugo logo haviam corrido para a pilha que ela carregava próxima do peito.
— Ah, não, — disse. – é só algo que gosto desde criança.
Algo na expressão da Weasley mudou, e ela bateu o pé em sutil impaciência a qual foi rapidamente captada pela garota, mas passou despercebida por Hugo quem se desdobrava em uma anedota de quando se perdera num museu trouxa de Londres tão fascinado que estava. Lydia odiava prender pessoas com pressa.
— Olha, eu não quero atrasar vocês de jeito nenhum... – ela já praticamente se despedia, mas foi cortada por ambos os irmãos ao mesmo tempo.
— Que isso, não tenho nenhum lugar para ir. – Hugo falava com um sorriso enorme.
— Na verdade, eu realmente tenho que ir. – o tom de Rose era meio incerto e lamentoso.
Os dois se encararam, desconcertados diante da confusão.
— Você falou que ia me ajudar com os preparativos, Hugo. – ela chiou da forma mais elegante que encontrou no momento.
O garoto levantou os braços em rendição.
— Não falta quase nada, Rosie. – tentava com suas habilidades oratórias convencê-la. – E você não ia tentar encontrar o Scorpius mesmo?
Ela desviou o olhar para Lydia, mudando o peso de um pé para o outro, mas ela sorriu para Rose e falou:
— Não precisam se prender a mim, gente. O Scorpius deve ter o intervalo do almoço dele daqui uns quinze minutos, se você correr pode alcançá-lo. – sugeriu, piscando um olho no final.
A Weasley sorriu mais aliviada, não sabendo da quantidade de ciúme a noiva seria. Lembrava-se bem da confusão que tivera com a namorada de um de seus melhores amigos, Lorcan Scamander, entretanto, Lydia parecia receptiva, inalterada e até brilhara mais quanto à menção ao Malfoy.
— Sinceramente não sabia se você iria se incomodar se soubesse que eu ia tentar levar isso pro Scor. – Rose era famosíssima pela sua honestidade essencialmente cega, e indicou a quentinha mantida aquecida magicamente que trazia do Caldeirão Furado.
Um vinco apareceu imediatamente entre as sobrancelhas da outra, que pareceu até perder a fala.
— Mas é claro que não, Rose, por Morgana! – era palpável o horror na sua fala. – E eu também não preciso saber de cada pessoa que o Scorpius sai com, graças a Merlin eu não sou mãe de ninguém pra ficar tomando conta. – ela brincou no final da sua fala.
— Quem me dera se a minha ex concordasse com você. – soltou Hugo em meio de uma risada fraca.
Rose tomou ar de fala, antes de Lydia responder.
— Vou indo então, até a festa de Hogwarts, Lydia, não esquece. – ela se inclinou, dando um beijo curto na bochecha da Shackelbolt.
— Não vou. – respondeu Lydia, acenando levemente.
Rose sumiu rapidamente na multidão que ia e vinha no Beco Diagonal, deixando o irmão mais novo com a herdeira dos Shackelbolt. Ele sorriu e olhou para ela por uns instantes.
— Então, o que me diz de um sorvete no Florean?
— Você não poderia ter feito uma sugestão melhor, Hugo.
Lydia acabou escolhendo dois dos livros com a ajuda do garoto, e logo estavam no meio das ruas tomando direção da velha sorveteria, falando sem parar mesmo com todo o barulho tentando abafar suas vozes.
****
— Rosie, o que você ‘tá fazendo aqui num dia de semana? – falou Scorpius antes de se atirar nos braços da mais baixa.
Ela subira as escadas do Hospital tentando não correr, mas já havia recebido alguns olhares feios no saguão quando não se dispusera a conversar com o recepcionista que parecia determinado a conseguir o número de telefone dela. Ela não estava nem um pouco interessada e, principalmente, precisava alcançar o medibruxo antes que ele engolisse um sanduiche velho e voltasse correndo para a sua Ala.
Scorpius fora interceptado pelo sorriso enorme da Weasley no momento em que entrara na Sala de Convivência dos Funcionários, e já estava alcançando sua mala onde colocara pela manhã, como Rose previra, um pão com frango. Ela, em resposta, colocou a sacola com a quentinha em cima da mesa central com o logo em movimento do Caldeirão Furado.
— Peguei seu prato favorito, – ela falou. – mas se você preferir sua ração diária, não tem problema também. – indicou o sanduíche ao na mão do outro, quem revirou os olhos.
— Não precisava se dar o trabalho, Rose, mas obrigada. – disse.
— O que eu não faço por você, Scorpius? – colocou a mão no coração, em pausa dramática enquanto o outro não conseguia mais conter a gargalhada.
— Podemos ir para a cafeteria lá embaixo. – sugeriu Scorpius.
— Merlin me livre, o cara da recepção com certeza vai tentar puxar conversa de novo se eu passar lá. – comentou com um arrepio exagerado.
— Ah, deve ser o Bruce. – comentou o homem. – Ele fazia a mesma coisa comigo quando eu entrei no Mungus ano passado, mas parou quando o Albus resolveu almoçar aqui todo dia.
Rose assentiu em compreensão, tendo ela mesma se infiltrado em algumas das ocasiões. Arrastaram cadeiras e se sentaram, e Rose agilmente puxou a varinha e transfigurou um de seus anéis em talheres.
— Alguém está se exibindo. – cantarolou Scorpius.
Rose cruzou os braços e revirou os olhos, deixando logo de ser foco do Malfoy que já abria a quentinha e inspirava o aroma da salada de batata e das folhagens que sempre fazia questão de colocar no meio das comidas que fazia sem deixar nem Rose nem Albus perceberem. Bons tempos quando tinham acabado de se formar na escola.
— Esse é o meu trabalho, Scor.
— Verdade. — ele falou antes de dar a primeira garfada. – Já terminou o projeto de conclusão da sua pós-graduação?
Rose sorriu animada.
— Vou apresentar tudo mês que vem, na verdade.
Malfoy balançou a cabeça em compreensão.
— Me manda a data, eu vou tentar folgar nesse dia e ir te ver, a Bonnie do turno noturno me deve um favor.
— Tudo bem, mas onde você tá morando agora? – ela perguntou receosa.
Scorpius não pareceu transtornado, mas ela bem conhecia as habilidades dele para ocultar sentimentos.
— Casa dos meus pais. – ele falou, coçando os cabelos caramelados que já batiam na altura de seus ombros. Mantiveram-se em silêncio por um tempo, o Malfoy mastigando com calma;
Rose fez um som de concordância, e transfigurou outro anel em garfo para caçar um tomate no prato de Scorpius, que nem se incomodou, já acostumado depois dos sete anos em Hogwarts onde a Weasley basicamente se enfiava no dormitório dos meninos. Eles eram bem grudados nos primeiros anos de escola.
— Por que não alugou outro apartamento?
Ele engoliu a comida enquanto deixava seus olhos vagares pelos brincos enormes e coloridos dela.
— Parecia muito cedo pra ir ver um lugar junto da Ly. E todos aqueles contratos me dão dor de cabeça só de pensar, Albus fez toda a papelada na época.
Rosie riu, um sorriso dançando nos seus lábios.
— Não pareceu muito cedo para se casar, hein?
As bochechas de Scorpius logo se aqueceram, e ele desviou o olhar para a quentinha.
— Muito pode acontecer em seis meses, Rose.
Ela apoiou os cotovelos na mesa, e fez das mãos um apoio para o queixo. Seus olhos brilhavam em interesse, mas nenhum dos dois intenciona em transformar aquele almoço numa sala apertada no Mungus numa conversa profunda.
— Nem me diga. Não achava que encontraria Al no sofá do meu irmão seis meses atrás.
Scorpius deixou o silêncio afundar lentamente seu coração, mas apenas se deixou parecer concentrado nos vegetais. Weasley continuou:
— Ah, quase me esqueci! Acabei de encontrar a Lydia na Floreios e Borrões.
Scorpius sorriu, amargamente alegre pela mudança de assunto, mas confuso.
— Estranho, ela veio com a vovó para ver coisas de casamento.
Rose quase engasgou na própria saliva.
— Lydia é durona, mas deixar ela sozinha com a Sra. Malfoy é vil, Scorpius.
Ele revirou os olhos.
— Não tivemos muita escapatória. Assim minha vó tem a impressão de que participa das decisões do casamento, e depois fazemos como quisermos.
— A mãe dela não que planejar também?
Malfoy pigarreou, ganhando tempo para pensar com cuidado o que não falar sobre a noiva.
— Ela mora na região da Sibéria, meio longe.
— Mas ela vem pro casamento, né Scorpius?
— Acho que não. – ele falou e engoliu mais comida.
— Caramba, girassol.
Malfoy sorriu minimamente diante do antigo apelido.
— Sabe Kingsley Shackelbolt, antigo ministro?
— É o avô dela, eu sei disso.
— Então, ele vai oficializar a união e tudo. Eles são muito próximos, é a família dela em Londres. – ele contou. – Bem, além de mim.
Rose achou isso levemente adorável, e não suprimiu a vontade de apertar uma das bochechas do homem, causando uma reclamação dele que ocultava divertimento nos olhos. Sua atenção foi desviada pela moça alta e de cabelos pretos quem entrava de braços cruzados na sala.
— Malfoy, sua pausa acabou faz cinco minutos. – seu tom era monótono, não muito irritado.
— Droga, desculpa Lysander. – ele falou já se levantando e descartando o resto de comida na quentinha.
— Hey Lovegood. – cumprimentou Rose, acenando com a cabeça para a outra.
A morena se recostou na batente da porta, esperando Scorpius ir assumir seu posto para ela mesma poder almoçar.
— Alô Rosalie.
— Esse não é o meu nome, Lysander. – replicou acostumada com o caráter imprevisível da gêmea de Lorcan.
Malfoy lavou as mãos na pia ao lado, secando-as na calça mesmo. Inclinou-se e abraçou Rose, plantando um beijo rápido na bochecha da amiga.
— Valeu pela visita Rosie, a gente se fala até a festa. – piscou para ela, já cruzando a porta.
— Até mais, Scor. – ela se despediu.
A garota ainda estava plantada na porta observando Weasley.
— Eu te acompanho até lá embaixo, Rosalie. – falou a filha de Luna.
— Se você queria passar tempo comigo era só ser direta, Lovegood. – comentou Rose, com certo charme.
Acho que Rose acompanhou outra pessoa em um almoço, mas é segredo que ela estava quase pulando de animação por dentro.
Fale com o autor