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1 Primeiro
Noah conferia mentalmente se estava tudo pronto para se mudar. Depois de termina de ajeitar tudo, foi se despedir da família: Três irmãs, avô e avó, uma prima e tia, pai e mãe.
A maior parte da casa eram mulheres. Morava no interior, uma fazenda afastada da cidade. Mesmo sem muitas condições, seguiu forte nos estudos, conseguindo uma bolsa integral na universidade da capital, deixando os parentes orgulhosos.
— Você não deixa de comer de três em três horas menino, pra não passar mal! Você tá muito pálido! Liga pra gente, viu? — Dona Maria disse, exagerada como sempre.
— Tudo bem vó, agora tenho que ir. — Ela o beijou na bochecha bem forte, estalando. — Tchau gente!
— Lembra de visitar a gente de vez em quando também! — Sua mãe falou ao longe.
Terminando de se despedir de todos, saiu de casa com seu pai e a mala. Não era muita coisa, apenas o básico.
Entraram no carro e foram embora. Durante o caminho, o loiro quase nem acreditava que tinha conseguindo passar na prova, muito menos ser chamado para entrar na república que se registrou pela internet.
O caminho foi um tanto longo, três horas e meia no total. Noah só tinha vindo na cidade grande poucas vezes quando pequeno, se sentia tão diminuído perto da paisagem. Prédios altos, muito barulho e agitação, totalmente diferente da tranquilidade em que estava acostumado.
A universidade também era enorme. Seu pai, Robert, estacionou em frente à entrada.
— Chegamos. Filho, sempre lembre do que eu te falei.
— Sim sim, não desviar do foco. Relaxa pai, você sabe que eu não vou fazer alguma loucura aqui. — Desceu do carro.
— Mesmo assim. Tem muitas más influências, não vire um vagabundo. E não se meta em confusão também! Essa bolsa é uma oportunidade única filho, pra você perder ela tão facilmente.
— Pode deixar. — Sorriu e deu tchau enquanto o pai dava partida e saía. Amava seus pais, eles davam todo o suporte que precisavam
De certa forma, seu pai estava certo: Um deslize e deixaria de ser bolsista. Mesmo estando cedo, o campus se encontrava lotado. Noah decidiu ir primeiro na sua nova "casa", guardar a mala.
Tentava se localizar no local, era muito confuso para ele. Se sentiu burro por não guardado direito onde que ficava a república. Era perto do prédio de medicina, talvez?
A primeira coisa que achou foi a cafeteria. Que, sem surpresa, também lotada e barulhenta. Ficou parado um tempinho olhando as pessoas, com muita vergonha de perguntar para alguém a direção. Estava nervoso demais, e ainda por cima recebia alguns olhares julgadores, mesmo não fazendo nada.
Foi quando alguém com uma bandeja esbarrou em si, derrubando o lanche e a bebida em ambos, fazendo o loiro cair de bunda no chão.
— Qual o seu problema cara, parado aí no meio do caminho?!
A pessoa parecia mais muro do que gente. Era um cara alto e bem forte, moreno e bonito. Noah até se perdeu um segundo, mas se recompôs, ficando de pé.
"Meu deus, fiz uma burrada logo de cara!" Pensou.
— Tá surdo e mudo agora? Quase molhou meu celular, merda! — A cena chamou a atenção da maioria das pessoas, que ficavam encarando.
— Desculpa, desculpa! — Disse no nervosismo. — Foi sem querer, eu te pago outro lanche!
— Quer saber, foda-se. Foda-se então. Sua sorte é que eu tô de bom humor hoje. — Ameaçou, saindo apressado dali.
Com a camisa suja e atraindo toda a atenção do mundo, Noah deu por si rápido e foi pra longe dali com a bagagem, pra uma direção qualquer.
Acabou que, depois de alguns minutos perdido, conseguiu achar o banheiro. Felizmente estava vazio.O coração ainda batia forte pelo oque tinha acontecido. E, também, não queria muito admitir, mas tinha achando o cara atrativo até demais.
Suspirou, tentando salvar a roupa. Ele tinha um empasse pessoal de ser gay, mas não ter assumido para a família. Tinha medo do que iriam achar, eles eram muito tradicionais e religiosos.
E o estrago da comida já estava bem feito. Pior que a camisa era nova, e estava a "estreando".
— Que droga. Vai manchar e ainda tô pagando. — Resmungou sozinho.
Outra pessoa entrou no banheiro, indo até a pia e lavando as mãos. Noah olhou discretamente de relance, curioso. Ele usava jaleco e óculos, parecia ser um professor. Aproveitando o momento, foi perguntar.
— Oi, com licença. — O olhou. — Pode me dizer onde ficam as repúblicas? — A voz falhou um pouco, mas conseguiu. Não levava jeito para falar com desconhecidos.
— É só você atravessar a lanchonete, indo até um prédio espelhado, virar à esquerda e seguir em frente. Sem mistério.
— Muito obrigado!
Sorridente, foi de novo até a cafeteria e seguiu o caminho. Estava mais animado depois disso.
Não foi muito difícil chegar lá. Pelo que se lembrava de ter visto na internet, era uma casa salmão, número 12. A avistou rápido, e não perdeu tempo em tocar a campainha.
— O que quer?
Um cara de cabelo castanho e samba-canção o atendeu, com cara de poucos amigos. Com tanquinho também, Noah ousou adicionar em pensamento.
Mais ao fundo, dava pra ouvir gritos de discussão abafados.
— Boa tarde. — Tentou ser educado e recebeu um olhar confuso, se atrapalhou nas palavras. — Não, é que, eu sou o novo morador daqui.
— Você é o Noah? — Mexeu no cabelo. — Ah sim, lembrei. Veio cedo hein, o pessoal aqui em final de semana acorda lá pra onze horas. A propósito sou Theo, o líder daqui, pode entrar.
Noah deu uma boa olhada lá dentro, era aconchegante. A sala era conectada á cozinha, e os quartos ficavam divididos nos dois andares.
— Pode esperar um pouco aqui, Noah? É que eu tô resolvendo uma coisa lá em cima. — Theo disse já subindo.
— Tudo bem. — Assentiu baixinho.
A agitação no andar de cima foi parando aos poucos, e um outro estranho que parecia ser morador desceu a escada com pressa e exclamando.
— Isso é uma injustiça! — Tinha uma mala em mãos também. Olhou para Noah. — Não acredito que vão dar a minha vaga pra um qualquer!
O líder e mais um de roupa de dormir que o loiro não conhecia foram pra sala também.
— Chega, Oliver. Já era pra você ter saído ontem. — Theo disse sério. — Você escolheu isso.
— Fala mais baixo aí porra, eu quero dormir! — Uma outra voz masculina do segundo andar gritou, sendo ignorada.
— Eu já disse que me arrependi! Por que vocês não vão tomar no cu então, hein?! — Saiu andando com força, fechando a porta num baque.
Theo suspirou e mexeu de novo no cabelo, estressado.
— Deve ter sido chato ver isso, né? — Se referiu a Noah, que concordou mentalmente. — É que teve um problema com o seu quarto, mas já resolvemos. — Não entrou em detalhes.
O outro morador se pronunciou.
— É Noah, né? — Estendeu a mão. — Me chamo Elliott.
O loiro retribuiu o cumprimento. Elliott era um pouco maior que Noah e mais malhado, moreno com . marrons. Noah, por dentro, pulava de alegria, já que não parava de vir gente bonita na república. Admitia que era um pouco pervertido sim apesar de tímido, mas só pra si mesmo, é claro.
— O resto do pessoal ou tá dormindo ou saiu, mas isso daqui já já fica cheio. E você deve estar de saco cheio de eu ficar te enrolando né? O seu quarto é o penúltimo do corredor lá em cima. Vai dividir com o Derick, que não tá aqui agora.— Theo o instruiu.
Noah agradeceu, tentando ser educado novamente, e subiu até onde moraria todo o ano letivo. Duas camas, dois armários, janela, e ar-condicionado. "Ótimo", Pensou. A decoração também não era ruim.
Uma das camas já estava ocupada, e felizmente ele ficou com a da janela. O armário também foi escolhido pelo Derick. Foi desfazendo a mala e se aprontou para tomar banho e colocar a blusa de molho na água, não deixando de pensar oque aconteceu pra ter aquele escândalo do tal do Oliver.
Noah, antes de tudo, jurou em pensamento que não ia se intrometer em problema dos outros, ou algo do tipo. Mas a curiosidade, o que ele tem de sobra, é uma via de mão dupla. Uma hora age como virtude, outra como defeito.
Mal pisou na vida universitária e muita informação aconteceu ao mesmo tempo. Era sexta-feira e as aulas começavam segunda; Tinha um final de semana para conhecer ali e, quem sabe, fazer amizades. Só restava aguardar e ver no que iria dar sua estadia na república.
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