be my eyes
3 Capítulo 2 - Uma ponte de emoções
Notas iniciais
Voltar dez anos depois para aquele lugar deu um certo frio na barriga, e não apenas por estar uns -10°C e sim porque eu realmente havia tido várias memória naquele lugar, e estar do mesmo jeito me fez imaginar que apenas nós sabíamos o que tínhamos feito naquele inverno. Só nós que guardavam aquelas lembranças.
Olhei para o céu e senti o mesmo calor que tinha sentido naquela juventude, o calor das expectativas e dos sonhos. E foi ai que me lembrei do primeiro momento em que pisei naquele lugar. Não pude não deixar de sorrir, era realmente divertido com todos.
O local de encontro era em um café que íamos às manhãs nos dias da formatura, ficava ao lado do hotel que eu também tinha passado noites com Carol e as meninas, dividindo risadas e momentos. Fiz questão de me hospedar no mesmo lugar, só para ter mais um gostinho de nostalgia.
E eu não sabia que iria ficar tão nervosa antes de entrar no café, como eu iria reagir? Como eu deveria começar a conversa? E se eu acabar não reconhecendo muita gente? Ah, como eu era estúpida, no que eu estava pensando em vir para esse encontro? Eu vou te matar, Janice.
— Amélia? – Congelei quando ouvi meu nome por trás.
Não não não. Droga, agora não dá tempo de voltar para casa.
— Sim? – Me virei vagamente.
— É você mesmo! – E foi a primeira pessoa que eu vi depois de dez anos – Espero que ainda se lembre de mim.
— Thomas... – Não foi tão difícil o reconhecer, ele estava ainda mais bonito e seu sorriso era o mesmo.
— Uau... Você está adorável! – Ele se aproximou para me abraçar.
— Você não está nada mal também... – Ri e retribui o abraço.
— Por que está aqui fora?
— Estou um pouco nervosa.
— Relaxa, todo mundo deve estar assim também.
Acabei entrando com ele e de primeira vista, encontramos Carol toda animada pulando na gente.
Ela não tinha mudado tanto, animada como sempre.
— MIA!!! – Entrei em seu abraço caloroso, só ela para me deixar um pouco mais calma – Nem parece que faz dez anos...
— Carol! – Realmente não parecia tanto tempo assim – Você continua tão linda!
— Olha quem fala, você parece uma flor como sempre! – Ela pegou minha mão – Vamos, tem umas pessoas que eu quero que veja.
— LYLA! GRACE! – Ela correram assim que me viram.
— MIA!!! – O abraço foi tão forte que todo o nervosismo que eu estava se transformou em uma nostalgia enorme.
Quase todo dia por dois anos eu sentia esses abraços, e por um momento eu realmente senti muita saudade disso. Quando foi que eu deixei de lembrar desses momentos?
Havia por volta de 40 pessoas ali, muitas não puderam vir e outras iriam apenas nos outros dias.
— Então... Sei que todo mundo ficou, assim como eu, muito animado com esse reencontro. Mas agora deixa eu explicar o que vamos fazer durante esse mês.
A turma estava dividida em duas mesas enormes, e com a Carol no meio segurando milhares de papeis.
— Quem se lembra da formatura de 2008, vai lembrar que fizemos um roteiro pelos lugares que mais nos interessavam. Então eu achei que seria uma ótima ideia refazer esse roteiro, voltar para todos os lugares que fomos naquele inverno.
Todos olharam animados, nós éramos realmente uma turma agitada. Mesmo com uns 27 e 28 anos refazendo um roteiro para adolescentes, estávamos jovens até demais.
— Sim, eu consegui a bolsa para New York e fiquei por lá mesmo após terminar a faculdade.
— E eu encontrei a Lyla quando fui para New York. – Carol continuou – Aliás, e você Mia?
— Bom, eu acabei não conseguindo entrar na New York Film Academy. Então fiquei um ano e meio fazendo alguns curtas-metragens com um grupo que eu conheci na Holanda. Quando vimos que um curta realmente tinha ficado ótimo, ariscamos em mandar para algumas faculdades. E uns dois meses depois, recebemos uma bolsa para estudar em Roma.
— Você está morando em Roma? – Grace perguntou surpresa.
— Uhum. Eu também nunca tinha pensado em morar lá, mas acabei me apaixonando pelo local. – Mostrei algumas fotos.
— Awn... É tão romântico. – Carol sorriu – Falando em romance.
— Lá vai ela. – Grace suspirou balançando a cabeça.
Passar esse tempo com elas foi realmente algo gostoso de fazer. Nem lembrava o motivo que tinha me deixado tão nervosa.
Acabei descobrindo que Carol se formou em Design de Moda e que atualmente mora em New York, assim como Lyla que agora é publicitária. As duas acabaram trabalhando juntas algumas vezes. Já Grace virou advogada assim como seu namorado, ah e também é mãe de um garotinho de dois anos.
— Amanhã vai começar os passeios então. Espero todos aqui às 6h da manhã, se atrasarem já sabem... – Carol dava sua últimas instruções antes de todo mundo ir embora para seu hotel.
Já estava deitada na cama olhando para o teto escuro.
Uau... suspirei.
Todo mundo está tão bem.
Olhei para o lado e vi flocos de neve grudando em minha janela, por que eu sentia algo tão estranho? Como faltasse alguma coisa.
Será que esqueci algo na cafeteria?
Eu me esqueci de perguntar alguma coisa para o pessoal?
Senti-me estranhamente vazia aquela noite.
...
Estava com minha mochila e malas em mãos assim que sai do hotel, vi a mensagem de Janice respondendo as minhas noticias de ontem.
“Eu te falei, vai dar tudo certo. Agora aproveita ai e só pegue o celular para tirar fotos, sabemos que você é a melhor fotografa do mundo.”
Ela sabia como me animar.
Espero que não esteja com ninguém estranho na nossa casa.
— Mia, aqui! – Avistei Grace correndo na minha direção.
— Bom dia Grace!
— Bom... Dia... – Ela falava ofegante – Quase perdi o horário, fui burra de não me hospedar no hotel da nossa formatura também.
— O importante é que chegou a tempo, a Carol iria te matar. E olha pelo lado positivo, agora vamos ficar no mesmo lugar que todo mundo. – Falei lembrando que Carol tinha alugado uma casa grande para todo mundo.
Claro que contribuímos.
— Tem razão, eu estou tão ansiosa para voltar para aqueles lugares.
— Daniel cara, que saudades! – Olhei para o lado e vi Thomas abraçando quem eu menos queria que aparecesse nessa viagem, Daniel Wezz.
— Mia? Você está bem? – Grace colocou a mão em meu ombro.
— Estou sim, vamos... O ônibus já está ali.
Entramos no ônibus que Carol também tinha reservado para a turma e Grace tentava puxar qualquer assunto para fugir das memórias que aquele homem me trazia.
Assim que chegamos ao parque nacional, descemos para o piquenique de café da manhã que planejamos. Quando estava descendo do ônibus acabei cruzando o olhar com ele, o que não foi nada agradável. O mesmo parecia me evitar também.
Ainda bem.
Pensei que seria bem melhor ficar apenas desse jeito até aqueles dias acabarem, mas eu iria mesmo aguentar tudo isso?
Ele estava na minha frente durante toda a refeição, e ficar ouvindo todo mundo querendo saber sobre o que ele tem feito me dava náuseas.
— Lyla, pode avisar para o pessoal que eu vou comprar umas coisas no centro que eu acabei me esquecendo de trazer? Quero ligar para minha colega de quarto também para mandar noticias. – Na verdade só quero um pouco de ar longe daqui — Eu encontro vocês na casa mais tarde. Ah, vou deixar minhas malas no ônibus e levar só a mochila.
— Tudo bem, eu aviso sim. Cuidado por ai.
...
Eu até pensei em pegar um taxi ou algo assim. Mas eu lembrei que o que eu tinha falado para Lyla era apenas uma desculpa para sair daquele lugar, eu sabia que não podia fazer isso toda vez que Daniel aparecesse.
Decidi então caminhar pela cidade, descobrir lugares novos e quem sabe eu acabo voltando antes.
Acabei parando no meio de uma ponta e olhando para o imenso rio na minha frente, onde passava barcos e do outro lado milhares de prédios gigantes. Respirei fundo e fechei os olhos, não sei se foi coincidência ou não, mas uma música começou a tocar no fundo e eu apenas me senti cansada.
Does that make me a fool
For loving her
So baby bring me down
Oh, baby bring me down
Oh, I know some place
West of the cascades
I can take you when you're down...
Era uma mulher cantando, mas abri meus olhos quando percebi que a voz calma agora era de um homem e que estranhamente eu o senti perto. E não foi apenas a sensação, ele estava realmente perto.
Olhei para o lado e vi a um metro de distância alguém que esbanjava serenidade, alguém que havia seu olhar nos prédios que completavam a vista daquela ponte. Alguém que parecia ter toda minha atenção a ele.
— Precisa de ajuda? – Ele se virou assim que percebeu minha reação – Oi!
— Harry?
Eu não sei o que realmente aconteceu naquele momento, mas quando o vi sorrir com os olhos meu coração se encheu de emoções. Dez anos... Ele me fez perceber que havia se passado realmente dez anos, eu não tinha mais 17 anos... Eu estava com 27 anos. E isso doeu, porque eu não posso mais voltar para aqueles anos, eu não posso ter minha juventude de volta. O que diabos eu tinha feito todo esse tempo?
Eu estava com 27 anos, e isso me assustou tanto naquele momento.
Mas por um segundo, ele estava ali também. Ele também estava com 27 anos, ele também deve estar assustado certo? E naquele segundo, eu não me senti tão assustada assim, ele parecia estar comigo, eu não estava sozinha... Não estava sozinha naqueles segundos.
E aquilo doeu.
Doeu sentir tudo aquilo em apenas um olhar.
Fale com o autor