be my eyes
4 Capítulo 3 - A última dança
Notas iniciais
Já assistiu a um filme ou leu um livro e sentiu como se sua vida fosse totalmente sem graça? Bom... Como alguém que faz cinema, eu sinto isso quase todo dia. Mas isso nunca pareceu importante, só que às vezes eu queria ter algo emocionante na vida. Qualquer coisa, uma paixão intensa, noites que nunca sairão de sua cabeça, viagens incríveis e pessoas que façam você ver que a vida é muito mais do que os nossos olhos possam ver. Talvez no final de tudo, apenas procuramos momentos assim. Ou melhor, vivemos para viver esses momentos.
— Você... Uau, faz tanto tempo. – Olhei para ele novamente quando sai do abraço.
— Bom, faz dez anos... – Ele colocava a mão na cabeça vergonhoso.
— É... Dez anos. – Suspirei.
— Mia? Está tudo bem?
Já tínhamos saído daquela ponte e parado num café de esquina. Ele me estendia o copo um pouco preocupado.
— Ah? Ah sim, não se preocupe. Só estou meio nostálgica hoje. – Tomei um gole e senti aquele líquido quente esquentar todo meu corpo.
Talvez não tenha sido a bebida em si, mas o toque que ocorreu quando peguei o copo de sua mão.
— Não é surpresa, esse reencontro com pessoas que você não via há tanto tempo causa isso.
Não, não sei se era isso.
— É, talvez.
— Não imaginei que viesse mesmo.
— Você lembrava de mim?
— Bom... – Ele olhou para os lados – Quando eu recebi a carta, lembrei-me de algumas pessoas que conhecia na época e então você veio a mente.
— Eu nem consegui pensar nas pessoas, só a ideia de voltar a esse lugar me dava um certo arrepio.
— Você não está gostando?
— Não é isso, é só que... Tanta coisa mudou, as pessoas estão diferentes, os lugares também. Não parece mais aqueles dias da juventude.
Eu encarava aquele café em minhas mãos e lembrava momentos que eu não devia esquecer, mas apenas cenas aleatórias passavam em minha cabeça.
— E...?
— Como assim? – Olhei para ele.
— E daí, Amélia? Olha, isso tudo não importa. Não importa o que as pessoas eram e como são agora. Você veio, não é? Agora é só criar uma nova juventude, apenas finja que você é uma garota de 17 anos e faça tudo o que você queira fazer.
Ele parecia tão maduro, o olhar focado. É umas das primeiras vezes que o vejo assim. Antigamente ele evitava olhar diretamente para todos e isso era tão bonitinho. Agora com esse ar adulto e o físico perfeito. Ele era tão charmoso assim? O vendo desse jeito, ele não mudou tanto... Sempre tentava me animar e isso era o que eu mais adorava nele.
— Eu acho que realmente só faltava você ontem. Acho que é a pessoa que eu mais sinto falta. – Sorri.
— Já sei! Lembra daquele dia que você estava bem pra baixo e chorona? Sentada no quarto do hotel como uma criança abandonada pela mãe no mercado?
— Ah céus, não diga que você lembra daqueles momentos.
— Relaxa, só quero chegar no momento em que eu te tirei daquele ar de tristeza.
— É claro que eu lembro, eu consegui aproveitar o resto da formatura graças à você.
— No avião eu estava vendo umas fotos que eu tirei daqueles dias, e encontrei uma de você naquele bar que fomos.
— O BAR! Uau, eu tinha me esquecido completamente desse bar. Ele tinha aquele boliche junto, ficamos o dia inteiro naquele lugar.
— Sim. Havia até um jardinzinho perto dos banheiros.
— Ah, me pergunto se ainda existe.
— Exato, por que não vamos dar uma olhada hm?
— Está falando sério?
— Vamos Amélia. Eu lembro como chegar.
Ele deixou o dinheiro do café na mesa sem me perguntar e seguiu até o outro lado da rua. Um pouco mais animada, o segui e entramos em um táxi.
— Você ainda continua bem firme. – Ri daquela animação toda dele.
— Algumas pessoas não mudaram tanto assim, Amélia. – Ele piscou para mim.
Era impossível não sorrir para ele que sempre esbanjava felicidade e harmonia em seus olhos. Uma das únicas pessoas que só de olhar eu já me acalmava.
— Ei, posso te pedir algo?
— Sim, fale.
— Não me chame de Amélia... Não combina com seu jeito.
— Pode deixar, Senhorita Mia.
Sem dúvidas, ele era a pessoa que eu mais senti falta nos meus dias.
...
— Está igualzinho...
Então me senti com 17 anos novamente, feliz com aquele ambiente confortável.
— Olha, nosso banco. – Ele apontou para uma mesa perto do pequeno palco que ainda no mesmo lugar cantava um grupo.
— Vamos... – Sentamos e nenhum de nós conseguia tirar aquele sorriso bobo no rosto. – Só de pensar que alguns anos atrás quase todo dia daquela formatura tu me trazia aqui quando ficava triste.
— Era divertido.
— Obrigada Harry, de verdade. Acho que as melhores memórias eram com você.
— Sério?
— Claro! Aconteceu tanto coisa naqueles dias que eu prefiro nem lembrar, mas com você eu passei momentos mais divertidos.
— Eu não gostava de ver as pessoas tristes.
— A sua namorada deve estar bem feliz contigo.
— Namorada?
— Sim.
— Bom, não sei. – Mesmo não ligando muito eu senti um pouco de incômodo por ele realmente ter uma namorada, talvez um pouco de inveja dela.
Meus relacionamentos foram fracassados desde muito jovem, namorar com alguém como Harry deve ser muito divertido.
E foi quando ele se levantou até o palco para cochichar algo para o vocalista que assentiu com a cabeça sorrindo.
— Eu acho que você me deve uma música, não é?
... (Dez anos atrás) ...
— Eu não acredito que é a última vez que estaremos aqui... – Ela suspirava pela décima vez.
Se eu acabar falando que não estou triste vai ser a maior mentira do mundo, me deixar levar também não sei se seria a melhor escolha.
— Quem disse que não vamos voltar?
— O que você está querendo dizer?
— Podemos voltar novamente... Não precisa ser juntos, mas eu acho que vai existir esse bar por bastante tempo ainda. – Ela enxugava as lágrimas que ameaçavam cair enquanto eu falava.
Foi então que começou a tocar Don’t Go Away — Oasis.
— Ei... Posso te pedir uma coisa? – Ela confirmou com a cabeça – Uma última dança com o seu conselheiro? Por favor, Mia...
Eu estendia o braço e a chamava com a mão, ela sorriu ainda triste e aceitou. Feliz por esse momento, agarrei sua cintura com tanta firmeza que me perguntei se ela se incomodaria.
É o último momento, não posso desperdiçar.
Ela com as mãos em meus ombros fechava os olhos, e eu a guiava com a música. Sentia seu cheiro de flores por todo o ambiente, seu cabelo sempre parecia iluminar todo lugar. Pequena e adorável, era assim que eu a via naquele momento.
But say that you'll stay
Forever and a day
In the time of my life
'Cause I need more time
Yes, I need more time
Just to make things right
Sem perceber eu cantava baixinho sem deixar de olhar aquela garota angelical.
— Você tem uma voz bonita, sabia? – Tomei um pequeno susto assim que ela falou abrindo os olhos – Não, não pare.
Engoli o seco em minha garganta e ela se aproximava mais ao meu corpo. E foi como se cada segundo uma chama diferente se acendia entre nós, eu nunca precisei de tanto ar na vida como naquele momento.
Damn my education I can't find the words to say
About the things caught in my mind
And I want to be there when you're coming down
And I want to be there when you hit the ground
Ela me olhava sorrindo, eu estava ficando cada vez mais triste. Triste por não poder beijar e puxar até acabar com todos aqueles 3 cm que ainda nos afastavam. E eu esperava mostrar tudo aquilo cantando aquela música, desejando nunca acabar.
Me and you what's going on?
All we seem to know is how to show
The feelings that are wrong
E então, ela começou a cantar comigo com lágrimas em seu rosto. Por medo de eu acabar vendo, encostou a cabeça em meu peito escondendo as suas emoções.
So don't go away
Say what you say
But say that you'll stay
Forever and a day
In the time of my life
'Cause I need more time
Yes I need more time
Just to make things right
Eu a deixei cantar o refrão sozinha, para conseguir gravar aquela memória só com ela. Sua voz rouca pelo choro e o calor do seu corpo junto ao meu, com tanta aproximação fiquei com medo dela acabar conseguindo ouvir meu coração..., mas o maior medo que eu sentia era do meu coração parar de bater com tudo aquilo.
A música acabou e ela ainda estava com a cabeça encostada em mim.
— Você está bem? – Me arrependi assim que falei, porque ela acabou se afastando.
— Pela primeira vez, acho que realmente estou triste por tudo isso estar acabando.
Ah, não faz isso comigo.
— Hey, hey... – Falei baixinho se aproximando – A juventude não acabou, eu sei que você ainda vai viver muita coisa boa.
— Você é incrível... – Se você ao menos soubesse — Queria estar tranquila assim.
— Quem disse que eu estou tranquilo? Eu estou triste também, mas acredito que ainda temos muito tempo pela frente.
Não, eu não sou tão forte assim.
— Por tudo, eu te devo uma música. – Ela sorriu.
— Eu vou cobrar, viu?
— É sério Harry, eu quero muito te ver no futuro...
— Eu também Mia.
— E eu espero que na próxima, quem vai animar o outro vai ser eu. Vou recompensar tudo isso...
Você já está fazendo isso há muito tempo.
...
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