azul escuro

2 espumante num copo de uísque


Notas iniciais
boa noite, rei amayado is a disease eu não ia postar essa parte separada da próxima que ainda está por vir - elas iriam compor um capítulo só, uma sendo a progressão da outra, enfim, mas considerando que hoje é o aniversário do rei decidi postar logo! :) decidi deixar o discurso do rei com várias marcas de oralidade (a repetição de palavras, algumas contrações, etc) por motivos de expressividade. sem mais delongas, boa leitura!

— Rei, conte-me uma história.

Ele girou o espumante no copo curto em que deveria estar whisky, observou brevemente o movimento do líquido antes de voltar a atenção para Gentaro.

— Não é você quem costuma contar histórias?

— Tenho ciência disso. Então imagine o quão cansativo é ser sempre quem conta, e dificilmente quem escuta…

— Hmm. ‘Cê ganhou no argumento. Vou pensar em algo, espera aí...

Gentaro sorriu satisfeito contra o copo plástico que segurava. Encostados na parede do salão como dois adolescentes reclusos, a festa de aniversário do diretor geral da editora não era a melhor programação da noite. As pessoas mais importantes ocupavam as poucas mesas e cadeiras disponíveis, o resto ficava pelos cantos, à deriva. A música não era sequer boa. Yumeno já havia provocado Rei, usando uma voz falsa de idoso, com uma sugestão de usar a idade deles a favor de conseguirem assentos. A ideia não foi para frente.

Existia uma pressão mínima em lembrar e escolher uma das várias histórias que Rei mantinha no baú da cabeça para relatar a um dos melhores contadores de histórias. Gentaro não apenas escrevia, recitava também — com ou sem algo para ler. Habilidade lapidada durante anos em quartos pequenos, às vezes falando baixinho como se estivesse rezando. Rei aperfeiçoou isso em bares e salas bonitas onde tinha que impressionar pessoas. Claro, a maioria do que apresentava não era verdade. Mais outra coisa em que eles combinavam.

Amayado apertou os olhos sob as lentes escuras. Dia de sorte para o escritor: decidiu contar uma história de verdade.

— Conheci um cara um dia desses... — ele começou, daí bebericou do espumante enquanto via a expressão atenta de Gentaro. Tão real que quase parecia ingênua. — Ele tinha um emprego meia-boca, sabe? Um inferno, um pé no saco, chama do que quiser. Até que ganhava bem comparado com o trabalho antigo, mas não mudava o fato que praticamente todo dia ele acordava sem gosto nenhum. Tem gente que acorda com gosto ruim na boca e tem gente que levanta disposto, mas ele acordava com gosto nenhum.

“Aí olha o que acontece: um dia ele sai da cama, veste as roupas do trabalho, entra no carro. Tudo no modo automático, exceto o veículo, é que ele ainda não tinha grana pra bancar um assim. E continua o gosto de nada, que é tipo gosto de água, que é nenhum…”

Pausou. Desejou um cigarro que não poderia fumar ali, ainda por cima dava muito trabalho sair, interromper a história e voltar. Resistiu ao vício e prosseguiu.

— Só que algumas águas têm gosto de alguma coisa. Água do mar, por exemplo. Todo aquele sal, viajando pra longe e encontrando a gente na forma do cheiro do mar. Queimando nossos olhos quando mergulhamos, deixa a pessoa com sede quando bebe… Um diabo de sal infinito que não se dissolve. Mas dá sabor pra água, um odor. Isso é suficiente pra fazer um homem feliz em sentir alguma coisa.

“O cara dirige devagar porque o desgosto o deixa sem pressa de chegar ao trabalho. Pra completar, pega um caminho mais longo, um oposto dum atalho. Demorar mais pra chegar era um pequeno luxo o qual deu a si mesmo. Mas aí ele descobriu que nesse mundo tem luxo muito maior que dar um caô no chefe… Essa é a parte onde ‘cê fecha seus olhinhos."

Gentaro obedeceu. Por dentro, conseguia sentir uma elevação, uma excitação nascendo diante do desfecho do conto.

— Numa parte do trajeto, se deparou com isso: uma massa de cor azul escuro se estendia enormemente até onde os olhos alcançavam, como um pesado cobertor jogado sobre a terra. Um gigante azul, imenso, deitado porque sempre descansa. Mas sempre em movimento, as ondas quebram preguiçosas na areia desde que o mundo é mundo… Ele fica tão hipnotizado que para, sai do carro e fica olhando do acostamento. Todo o resto está deserto. E decide descer pra realmente estar na praia.

“Os sapatos dele ficam com areia antes dele ter a ideia de os tirar enquanto caminha. Logo as roupas dele têm areia também porque senta pra olhar aquilo tudo. O cheiro do sal é forte, a água é forte, o gosto dela mais ainda. Algumas gaivotas fazem barulho. Já era meio-dia, mas havia coisas maiores que um emprego mais ou menos. Ah, pode abrir os olhos.”

Ele os abriu. Na expressão do escritor, um deleite existia. Era do tipo que saboreava longamente palavras, frases, sorvendo e absorvendo-as. A história alheia derretia na língua dele como fazem os bons biscoitos e flocos de neve. As imagens que se formaram na mente dele o envolveram num encanto.

— Esse é o fim, eu acho — Rei virou o resto da bebida de uma vez antes de continuar. — Quero dizer, ele voltou pro carro e foi trabalhar. O chefe deu um esporro nele. O cara justificou o atraso: “me perdi no caminho”.

— Obrigado, gostei bastante do conto — o mais jovem disse, uma mão delicada fechada em punho sobre o próprio peito. — Acho que o senhor da história não mentiu no final… Às vezes você deve se perder para poder se encontrar. Você não disse isso, porém tenho certeza que por alguns momentos o homem da história reviveu.

Rei sorriu presunçoso. Agradar um contador de histórias profissional era mais uma de suas conquistas. Ademais, tinha tranquilidade porque não precisava responder coisas desnecessárias: para Gentaro, não importava perguntas como ‘’ele era seu amigo? Ou seu colega de trabalho? Alguém que conheceu no bar?’’; para ele a história ser interessante já bastava. Não importava se era mentira ou não.

— Gostou, baixinho? Acho essa história maneira também.

— Ele encontrou o gosto pela vida?

— Não. Não sei, na verdade. Fica em aberto — e riu.

— Entendo — Gentaro anuiu. E daí uma claridade: — Vamos sair daqui. Vamos a Yokohama para ver o imenso azul agora.

Amayado avaliou o ambiente que estavam, depois as opções disponíveis. Não foi tão difícil. Guarde as chaves para mim enquanto me despeço de umas pessoas, disse antes de se apressar para tal tarefa. Em alguns minutos estariam no carro rumando para algum lugar menos tedioso.

Notas finais
aqui estamos mais um dia sob o olhar sanguinário do vigia se você veio aqui pela baixaria espera mais um tempo que no próximo deve sair, amém irmãos