azul escuro
3 Brisa Noturna
Notas iniciais
A visita à praia não vingou naquele dia. Já era tarde da noite e Yokohama ficava a trinta minutos que eram mais desconfortáveis de enfrentar naquele horário. O silêncio no carro era leve, flutuante e confortável. Afinal foram parar num apartamento de Amayado novamente, visto que não parecia certo deixar Gentaro no metrô àquela hora nem queriam ficar rodando de carro para deixá-lo na própria casa.
Havia muitas coisas entre eles, a maioria delas não ditas. O fato de que Gentaro nunca foi convidado para apenas dormir lá — sempre estivera ali totalmente acordado para trabalhar. Nascia uma dúvida ansiosa e inocente se aquilo significava outra coisa, mesmo o convite sendo tão casual. Gentaro queria que significasse.
Talvez ele se sinta sozinho, assim como eu me sinto, o escritor meditou. Talvez seja por isso.
Após tanto tempo juntos, escrevendo e editando para contar histórias de toda sorte ao mundo, formaram o que poderia ser chamado de amizade, apesar de nunca terem se referido um ao outro como amigos. Era sempre meu editor e o escritor para quem edito. Entretanto, são madrugadas e amanheceres demais juntos para não existir nada além disso. Muitas conversas confinadas entre quatro paredes, sacadas, restaurantes de café da manhã. Sussurros e olhares entre xícaras de café que se dissolvem no espaço e permanecem na memória. Algo secreto apenas deles dois. Um mentiroso entende outro.
Mais coisas não ditas: Rei poderia dizer facilmente, se fosse honesto, que Gentaro Yumeno era uma das companhias preferidas dele. Achava a risada dele charmosa, os trejeitos elegantes, ele parecia um sonho. Fazia tempo que não ficava tão encantado pelo formato da boca de alguém. E fazia mais tempo ainda que a solidão de alguém não se encaixava com a dele tão bem, que dividir o ócio com uma pessoa parecia uma atividade agradável. Dava um gosto para a vida, aquele que o homem da história procurava.
O editor estava tranquilo, mas já no apartamento percebia a hesitação de Yumeno, a forma como ele evitava contato visual. Rei fez o favor a si mesmo de colocar a bebida certa no copo certo — whisky num copo de whisky —, e serviu o visitante com água. Um diálogo se iniciou na sacada:
— Por que tanto tecido? — perguntou Amayado sobre as roupas do outro. O tipo de coisa que sempre teve curiosidade, mas nunca questionou de verdade.
— Pelo mesmo motivo que você usa óculos escuros. Para esconder-me do mundo.
Uma resposta tão assombrosa e sincera que Rei se perguntou se havia mesmo servido água ou outra coisa. Gentaro apenas devolveu o favor de mais cedo: sabia que o homem da história era o próprio contador dela. Não podia discernir se foi algo real ou não, porém tinha convicção que o mais velho se projetou no personagem. A conversa de mais cedo ecoou na mente do escritor: “Ele encontrou o gosto pela vida?”, “Não sei.” Enfim, uma verdade por outra.
— Aprecio te ver sem óculos — comentou levemente para compensar a tensão levantada com a frase anterior.
— Bom. Queria poder te dizer o mesmo sobre suas roupas, Yumeno-sensei.
Gentaro quase derrubou o copo de vidro. A brisa da noite era fria contra as maçãs do rosto dele esquentando. Rei estava entretido.
— Tão rápido… — murmurou, olhando para baixo e tentando não transparecer que acanhou-se. Não funcionou.
O editor riu curto e o silêncio retornou. Daquela sacada podiam ver de longe outras sacadas em prédios em vizinhos, a maioria das janelas com a luz apagada. Em Shibuya as pessoas tentam dormir, em Shinjuku já era um pouco diferente.
— Cê sabe, a gente não precisa fazer nada que não esteja afim, óbvio — disse Rei, despreocupado. Como se dizer isso e todas as implicações contidas não tivessem peso algum.
— Está dizendo que convidou-me para cá apenas para essa finalidade?
— Não. Mas tô dizendo que se quiser, eu quero. E se não quiser… daí seguimos normalmente. Não tem que se sentir pressionado a nada — evidenciou, dessa vez com mais cuidado. Explicitou sinceramente logo depois: — Estou sóbrio, aliás. De verdade, sã consciência.
O mais baixo suspirou e não soube se era de cansaço ou alívio, depois assentiu, também ciente do pequeno obstáculo entre eles ser a relação de trabalho. Um empecilho que, na verdade, estava disposto a saltar sobre. Ele sorriu, por fim, e anunciou:
— Está muito frio aqui fora, vamos entrar.
Com a porta da sacada fechada e emergidos no calor e claridade da sala, Rei não estava certo se foi declinado ou não. Gentaro sempre foi uma carta coringa, apesar de ter suas previsibilidades e mentiras óbvias, conseguia ser tão difícil de decifrar quanto um movimento de xadrez. Um mistério vestindo preto e branco. Amayado era o tipo de homem que sabia se entregar ao improvável. E queria que o improvável se entregasse a ele também, ainda que só por uma noite. Nem que seja só por uma mentira breve.
Quando Amayado estava prestes a terminar os últimos goles da bebida, o copo foi delicadamente tirado da mão dele e, sem nenhuma cerimônia, porém com certa graça, virado em dois goles. O escritor fez uma careta, a sensação do amargo rasgando a garganta, e recuperou-se num instante enquanto deixava os dois copos na mesinha de centro.
Curiosidade: Rei já estava sorrindo antes mesmo de ser beijado. O beijo foi algo gelado, amargo e por pouco desajeitado. Sentado no sofá, havia esquecido o quão frágil Gentaro parecia se abraçado pela cintura, e descobriu o quão macio o cabelo dele era quando uma mão se aventurou por ali. As mãos do mais baixo, por sua vez, eram educadas e nervosas nos ombros cobertos de vermelho, arranhando e apertando por sobre o tecido.
— Eu disse — Yumeno iniciou, ligeiramente ofegante enquanto subia no colo alheio — que iria surpreender-te — e pontuou a frase com um puxão nos cabelos da nuca de Rei. — A propósito, tenho regras a estabelecer.
— Tô bastante admirado, cê conseguiu — o típico sorriso presunçoso era expresso enquanto ele espalmava a área do peito do escritor, depois passou a brincar com um dos botões da gola preta alta. — Que regras?
— Eu faço vestido.
— O quê?
— Faço sexo usando algumas roupas, Rei Amayado — o editor esperou o é uma mentira vir, entretanto isso nunca veio. Ele não exatamente julgava. — E se as roupas são minhas, sou eu quem as tiro… — e deixou de puxar o cabelo do outro para pôr a mão sobre a que brincava com os botões para retirá-la dali com cuidado.
Gentaro começou a desabotoar a gola alta, Rei seguiu com o olhar. O mais jovem inquiriu baixo sobre quais seriam as próprias regras de Amayado, ao que este respondeu levando a boca para a pele recém exposta.
— Minha única regra — entre beijos e mordidas no pescoço, ele se aproximou do ouvido alheio, um fantasma de uma risada nas palavras — é que a gente se divirta.
Subitamente, Yumeno sentiu os vários tecidos no corpo como excessivos e drasticamente quentes. Ele quis se livrar da maioria deles ali, o que foi feito não muito depois num quarto, tendo a generosidade de fazer uma pequena demonstração de como era fácil despir-se da saia, a vestimenta caindo nos pés dele num amontoado com simples puxões do cinto. Rei não prestou atenção nessa parte técnica, ocupando-se com outras vistas.
interlúdio
Gentaro Yumeno era mágico, devastador, sombrio, gracioso.
Dito isso, Rei não encontrou nenhum problema em ter o rosto entre as pernas alvas e com pequenas cicatrizes dele. Acima de Amayado os ofegos do escritor eram doces e pesados, cruelmente controlados, derretendo no quarto.
As palmas da mão de Gentaro ficaram vermelhas dada a força usada para segurar na cabeceira da cama, usada de apoio. Ao término de tudo, ele sentiu-se como um dia de verão.
fim do interlúdio
Batidas do coração e respirações que já voltaram ao normal, muitas coisas poderiam ser observadas discretamente enquanto descansavam. Para Rei havia menos, o corpo de Gentaro tinha menos tempo de estrada e ainda vestia a camisa preta, mesmo que com vários botões abertos; embora três sinais que formavam um triângulo no ombro dele chamaram a atenção do editor, mais as cicatrizes brancas e discretas.
Para Gentaro, era como se estivesse num museu. No fim das costas de Rei, uma tatuagem feita há mais de 20 anos do que deveria ser um escorpião, nunca retocada. Ainda nas costas, uma carpa desbotada nadava em direção a uma flor no ombro. Cicatrizes que desciam, subiam, variadas em tamanho e dando uma ideia do quão grave poderia ter sido a injúria passada. Aquela era funda, deve ter sido uma briga daquelas, mas ah, aquela é pequena, talvez foi um acidente em casa.
Ele colocou uma mão sobre o rosto de Rei, o polegar encostando suavemente na cicatriz que cortava o olho direito. O outro não recuou com o contato, mas saiu do estado de quase-cochilo. Gentaro achou que o corpo de Rei contava histórias mudas.
Nenhum perguntou nada por ora. Mas Yumeno sussurrou sonolento:
— Às vezes olho para ti e penso em todas as coisas que nunca me disse.
E recostou a cabeça no ombro do mais velho para começar a pegar no sono, deixando um Rei acordado que mirava a parede, o teto, as cortinas da janela mal fechada balançando suavemente com o vento frio. De repente sem sono, sozinho com as coisas que nunca diria.
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