asylum
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Espero que gostem...
Talvez Maureen tivesse ingerido absinto em demasia; coisa que uma boa garota vitoriana não deve fazer.
Mas ela não era uma boa garota vitoriana.
- 911, emergência. — a voz ecoou do telefone, enquanto eu checava o pulso de Aprella (segundo nome, escolha dela própria. Algo violento, que cheira ao sangue fresco num punhal).
- Minha amiga... Ela está praticamente sem pulso. Acho que tentou se matar.
Por um momento pensei que o atendente não me responderia. E qual era a surpresa de um suicídio?
- Primeiro, veja se alguma parte da roupa dela está apertada demais. Se estiver, solte o que puder. E, tire todos os acessórios que sua amiga estiver usando. Pulseiras, brincos, colar, cinto...
Fiz conforme o socorrista me orientou.
- Certo, já olhei tudo. — respondi.
- A ambulância está a caminho. Eles não devem demorar a chegar.
- Nada mais que a obrigação — murmurei, enquanto desligava o telefone.
Segurei firme a mão de Aprella e roguei para meu Deus (se é que Ele existia) por uma salvação. Aprella era tão jovem; uma doçura com formas humanas. Não poderia simplesmente acabar assim.
Ah, minha doce Crumpet! Na arte que se contempla ao ver o suicídio... Parecia tão belo fazer poesia sobre a dor, a fatigação — pois era o que eu também sentia. Fechada numa bolha, nunca percebi que os outros tinham problemas e eram tão doentes quanto eu!
Quando a ambulância chegou, tratei de arrumar meus cabelos avermelhados e me comportar como uma boa paciente. Mostrei onde Aprella estava e falei com o médico.
- Doutor... Por favor, posso ficar junto dela, não?
- Claro. Os pais dela, onde eles estão?
- Ligarei agora para eles — respondi, com educação — Doutor... há como saber o que houve com Maureen?
- Não há indícios de cortes no corpo, então, provavelmente, foi ingestão de remédio. Faremos os exames; não tem como saber que substância e nem que quantidade ela tomou, se é que tomou. Afinal, jovens cometem tantos enganos!
Fiquei transtornada por alguns segundos. Então era assim que viam a nós, garotas medievais? Simples passageiras da vida, que pretendem aproveitar tudo o que puderem?
Não.
Não apoiava a atitude da minha Crumpet; mas eu bem sabia de que nada adiantava viver uma vida pintada com tristeza e solidão!
Com tal pensamento, fiquei ainda mais transtornada. Aprella era minha amiga mais... condolescente com a vida. Sempre alegre, tendo um fraco para brincadeiras de mal gosto, a vitoriana mais malandra que eu jamais havia conhecido. Onde estava a dor disso?
Eu também não estava sendo a melhor das companhias para ela. Se eu realmente estivesse atenta, teria notado que havia algo acontecendo com Aprella, ou, no mínimo, teria percebido que a rebeldia lhe traria problemas.
Era o momento de fazer tudo o que eu pudesse para auxiliá-la. Permaneci no hospital até mais tempo que os próprios pais de minha amiga.
Fui informada de que ela despertaria dentro de algumas horas. Já haviam saído os resultados dos exames e administrados os remédios de que minha crumpet precisaria para voltar do sono nada natural em que estava.
A notícia que mais me intrigou foi saber que Aprella estava na décima semana de gravidez e, por conta dos remédios que tinha tomado, a vida que estava sendo gerada havia sido exterminada.
Fiz questão de estar presente quando Aprella despertasse. Que felicidade seria estar ao lado quando os olhos dela vissem luz novamente! Quando ela pudesse conversar, e compartilhar o que sentia para aquietar um pouco a tempestade que certamente existia em seus pensamentos!
- Emilie? — ela disse, ainda fraca, mas, se agarrando a mim do mesmo modo que um náufrago se agarra ao barco de resgate.
- Estou aqui, Ap... — não pude continuar.
- Desculpe, eu tinha me esquecido completamente que você viria até minha casa! Sinto que não vou poder mais manter segredos; tem tanto acontecendo comigo que preferi não te aborrecer com meus problemas...
- Para que servem os amigos, se não para ouvir e, se possível, ajudar?
Lágrimas brilhantes escorriam pelo rosto de minha crumpet rebelde.
- Você e as nossas outras amigas vitorianas são as únicas que se importam comigo, e sei que vocês não pensariam duas vezes antes de me ajudar, por isso preferi não contar qual é o oceano que tenho atravessado.
Ouvi com atenção tudo o que ela contava; sofrimentos que nenhuma pessoa deveria passar.
Pais que destruíam tudo o que achavam inapropriado e ela mais amava; desde músicas e poemas que considerassem dramáticos demais (cantar somente as alegrias não faz os males desaparecerem, o que entristece também pode, ou melhor, deve, ser cantado em poemas), até roupas — principalmente vestidos e espartilhos — que eles consideravam inapropriados para os dias atuais, forçando-a se vestir conforme a moda que achavam correta (o que havia de errado em se vestir com roupas diferentes das que eles aprovavam?). No dia em que apareceu em casa com os cabelos coloridos de violeta, teve que usar (ao menos em casa) uma peruca de fios negros, cor que consideravam mais aceitável.
Um namorado que a usava como se ela fosse somente um objeto dele, ignorando os sentimentos de minha amiga e importando-se somente com os dele próprio; como se somente ele sentisse algo quando estavam juntos, e a ferindo de forma profunda tanto fisicamente quanto emocionalmente.
Uma escola (prisão aonde ia diaramente, obrigada pelos mesmos pais que a impediam de expressar-se livremente) que não permitia que ela alcançasse todo o potencial que tinha; forçando-a a estudar com professores que não a compreendiam, e que poderiam aprender com ela mais do que ensinar. A professora — se é que pode ser assim chamada — que ensinava História nem sabia nada sobre a rainha Victoria! Ainda haviam normas absurdas — por exemplo, o uso de um uniforme durante as aulas e restrições quanto a cores e cortes para os cabelos! Ninguém deveria impedir um estudante de expressar-se, e muito menos obrigar a cumprir um currículo ridículo. Aulas de música, poesia, canto, dança e outras artes seriam tão importantes quanto o conteúdo que já estudávamos.
Eu mesma tinha exigido concluir minha educação em casa e, sem modéstia, meus professores eram os melhores.
Estava claro que Aprella estava precisando de cuidados. A vida que ela levava era de enlouquecer até a mais mentalmente sã das criaturas.
E era exatamente isso que estava acontecendo, e eu não estava atribuindo a devida importância.
Ficou decidido que ela permaneceria em um hospital psiquiátrico para tratamento. Eu faria questão de estar do lado dela o tempo todo, até que ela cruzasse os portões do Asylum, instituição onde ela ficaria.
Eu chorava como um bebê recém-nascido por estarmos sendo separadas, enquanto eu a ajudava a empacotar as coisas que levaria para a internação.
- Henry já sabe? — perguntei, enquanto enxugava as lágrimas que insistiam em sair dos meus olhos.
- Não sei se ele sabe. Acho que... Talvez. — dava pra ver que ela estava triste, mas, só porque éramos muito próximas; ela não costumava demonstrar o que sentia, e desta vez não estava sendo diferente.
Eu a abracei o mais forte que pude.
- Você não está doente. Só está enfrentando mais problemas do que a maioria podia suportar.
- Emilie, não sei exatamente o que me espera naquele lugar... Mas sei que não deve ser nada bom. Você é afortunada por ter pais que não ficam atrapalhando nada do que você quer, e um namorado tão digno quanto Arthur. — finalmente, os muros que minha crumpet mantinha em torno de si mesma ruíram; não havia o que a fizesse parar de chorar.
Por um milagre, conseguimos separar o que Aprella precisaria enquanto ficaria em tratamento antes que os pais dela a levassem. Recusei-me a ir embora, mesmo com as insistentes mensagens de texto em meu celular, enviadas por meu namorado — eu estava com algo mais urgente para cuidar.
Tecnologia. Muitas vezes ela salva sua vida, outras, ela te incomoda quando você tenta salvar a de outra pessoa. O que era exatamente o caso agora.
O trajeto até a fortaleza onde minha melhor amiga ficaria não combinava nada com o estado em que nossas mentes estavam.
O dia quase terminava; as pinturas das casas refletiam a luz divinamente; pássaros voando cantavam, crianças brincavam com pequenos animais na rua. Conforme saímos da cidade (o sanatório que abrigaria Aprella era no que havia sido a sede de uma próspera fazenda), as árvores balançavam ao vento da tarde de primavera, e mais vida podia ser vista longe da massa de construções feitas por mãos humanas.
O sol se pondo começava a tingir o céu com várias cores quando chegamos ao Asylum.
Nossas mentes, se fossem um cenário, seriam algo parecido com uma noite incrivelmente escura em meio ao nada, ou, talvez, com uma rosa vermelha que se tornou quase negra depois de arrancada do galho e deixada para secar.
- Eu não quero ir... — Aprella sussurava, e segurava as lágrimas que teimavam em querer sair.
- Não há o que fazer agora, infelizmente.
Saímos do carro, e, depois de uma triste despedida (e qual despedida é alegre?), a grande grade de metal que cercava as instalações foi fechada, impondo uma dolorosa separação, não só entre mim e minha melhor amiga, mas, entre ela e o mundo.
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