asylum

2 Capítulo 2


Notas iniciais
tá aí, a segunda parte dessa short, que terá quatro capítulos...

PoV Aprella

Conforme eu percorria o interior do Asylum, eu não sabia se o que estava diante de mim era real ou somente resultado de minha mente transtornada.

Os corredores não deveriam ser claros, iluminados, arejados, bem conservados e limpos, em vez de cinzentos, escuros, úmidos, com tinta descascando das paredes, cheios de sombras e de mofo?

Os jalecos dos médicos não deviam estar sem os rasgos e sem as manchas de sangue, remédios e patas de animais?

Finalmente, cheguei ao quarto que seria meu. Não era muito diferente de tudo o que eu tinha visto até ali; a mesma cor apagada dos corredores, tinta descascando, cantos embolorados; alguns vidros da janela estavam quebrados, assim como parte da estrutura estava retorcida.

Os tecidos e rendas dos lençóis, cortinas, travesseiros e de toda a roupa de cama eram de vários tons de rosa. A única coisa que estava em perfeito estado até ali.

Havia até algumas roupas no armário antigo, que só devia estar inteiro porque a madeira de que era tão grossa que nem mesmo uma furadeira atravessaria aquilo.

As peças não eram do meu tamanho exato, mas serviriam. Algumas blusas eram um tanto apertadas, mas, nada que eu não pudesse usar. As calças, de um tecido bastante maleável, tinham elásticos na cintura, o que permitia que se ajustassem; só ficavam um pouco compridas nas pernas, mas, nada que uma ou duas dobras não resolvessem.

Enquanto eu desfazia a mala que eu tinha trazido, a porta do aposento abriu-se e uma outra garota caminhou para o interior; logo deduzi que ela também ocupava este lugar — havia duas camas, detalhe com o qual nem me importei; na verdade, até me alegrei por saber que não estaria sozinha.

Minha colega de quarto tinha cabelos de um vermelho que fazia fogo parecer desbotado, e a pele de uma brancura que quase reluzia. Seus olhos brilhavam como duas lâmpadas, e, nossos olhares se cruzaram por um instante demorado.

- Oi. Capitã Maggots — ela se apresentou, com um sorriso que a fez parecer uma criança travessa; quero dizer, mesmo sem sorrir ela não ficava muito longe de parecer uma criança crescida demais; não era muito alta, e suas feições eram bastante juvenis. — Meu navio está passando por alguns reparos, então estou temporariamente aqui. — ela disse, enquanto a garrafa de rum em sua mão tremia.

- Oi, Maggots. Aprella. Que bom que não tô sozinha aqui. — nos cumprimentamos, e logo em seguida ela continuou a caminhar até a cama que ocupava.

A garota que pensava ser pirata deitou-se, derrubando no chão a garrafa que trazia. Os pedaços do vidro quebrado e o que ainda havia do conteúdo criaram uma mancha no chão cujos azulejos brancos e pretos formavam um padrão como o de um tabuleiro de xadrez.

Maggots não demorou a dormir. Depois que guardei minhas coisas, abri a porta que dava acesso ao banheiro do quarto.

O lugar estava num estado tão terrível quanto o restante.

Borrões de maquiagem por toda a pia, respingos de espuma, sabonete e shampoo na área do chuveiro, marcas de água no chão, uma toalha cheia de rasgos pendurada no suporte quebrado, o espelho manchado quase completamente.

Tomei meu banho, vesti uma roupa confortável, e depois dormi com uma facilidade absurda.

Acordei no dia seguinte, chamada por uma médica e um enfermeiro. A médica era tão sinistra quanto os outros profissionais; jaleco com mais áreas sujas do que limpas, e expressão de quem tentaria te matar, e não tratar algo que estivesse acontecendo. Os formulários que ela trazia mãos mais pareciam páginas de uma enciclopédia envelhecida do que material que pode ser encontrado em um hospital. A qualquer minuto a doutora Joan — o nome estava no crachá — atingiria meu pescoço com caneta que tinha com ela, de onde pingavam algumas gotas de tinta que pareciam sangue – pelo menos era a minha visão sobre aquela horrenda mulher.

A enfermeira, igualmente assustadora, trazia em mãos uma bandeja cheia de pontos enferrujados, marcas de medicamentos derrubados e carregada com frascos de remédios, comprimidos, e uma seringa para injeção com um uma agulha que mais parecia um prego grande.

Não discuti; somente fingi ter ingerido os comprimidos que me foram oferecidos, mas, não consegui fugir do remédio que seria aplicado em minhas veias.

Maggots não foi despertada, e ainda dormia — não duvido que, se eu me aproximasse um pouco mais, sentiria o cheiro de toda a bebida alcoólica que ela tinha consumido.

Ainda era cedo; por volta de oito e meia da manhã.

Eu estava faminta — afinal de contas, não tinha jantado na noite anterior. Saí do quarto para explorar os corredores e tentar localizar um refeitório; felizmente, eu não demorei a encontrar.

O chão cor de creme, as mesas brancas, as cadeiras de madeira e as paredes pálidas estavam quase que invisíveis entre os respingos de óleos, molhos, caldas e sucos.

Apesar de cada parte que eu desbravava dentro deste lugar estar tão mal cuidada quanto a anterior e as condições de higiene não serem nem de longe saudáveis, cada ambiente tinha um cheiro deliciosamente agradável e único.

Os corredores cheiravam como ar das montanhas, flores brancas e árvores. O quarto tinha cheiro de talco para bebês, rosas e roupa recém-passada. No banheiro, o perfume era algo entre o de uma praia ensolarada, uma cachoeira no meio de uma mata e uma gruta subterrânea.

A dúvida sobre a real existência de tudo o que meus sentidos estavam me mostrando ainda persistia.

Mas, qual seria a diferença? Se era tudo alucinação, não me parecia menos concreto que qualquer outro lugar onde já estive.

Depois de comer, retornei para o quarto e encontrei Maggots com caderno e lápis em mãos, escrevendo.

- Posso? — disse educadamente, e apontei para a página em que ela redigia.

- Claro! — ela pulou, e me mostrou o que estava escrevendo.

Ao ler, me faltaram palavras para dizer o quanto eu havia gostado da poesia dela.

- É... Perfeito, insano, maravilhoso, incrível, doentio, lindo, sofisticado e simples ao mesmo tempo... Quando sairmos daqui, vou apresentar você pra uma amiga minha, Emilie. Ela também escreve, e compõe música pros poemas que ela faz.

- Não é nada de mais. Tenho toneladas desses rascunhos. — Maggots disse, como se a arte dela não fosse algo que raríssimas pessoas são capazes de fazer.

Ler tudo o que minha colega de quarto produzia era a única coisa que havia de interessante pra fazer ali. Os exames e testes pelos quais eu era forçada a passar não eram nada agradáveis; mais pareciam torturas da Segunda Guerra Mundial.

Eu também gostava de me expressar em versos — modéstia à parte, eu era boa; não escrevia tanto quanto Emilie, mas o suficiente para colocar em palavras tudo o que eu precisava.

Os dias pareciam se arrastar cada vez mais. A hora do lanche da tarde era a mais agradável; eu e Maggots quase todas as vezes conseguíamos muffins e algum chá, que saboreávamos enquanto escrevíamos juntas ou líamos.

- ~ — ~ -

PoV Emilie

- Em, desde que sua amiga foi internada, você tem estado mais triste do que nunca. — Arthur disse, quando começaram os comerciais entre as partes de um programa de TV que estávamos vendo na sala de casa.

- Arthur, a Aprella é minha melhor amiga. Nós duas crescemos juntas – eu disse, quase afundando em agonia – Não consigo imaginar o que ela está passando. Quando aconteceu comigo...

Arthur me interrompeu e puxou-me para mais perto no abraço em que me mantinha ao lado dele no sofá, e me beijou calorosamente.

- Ela vai ficar bem. Entendo que você fique abatida, mas você tem seus próprios assuntos pra se preocupar. Não dá pra pensar só nos outros o tempo todo.

Desta vez, eu o beijei de volta, antes de responder.

- Se fosse você, acredite, eu estaria ainda pior. Provavelmente o Asylum teria mais uma paciente.

Ele se assustou, mas conseguiu disfarçar.

- Então... O que está planejando?

- Raptar Maureen, tolinho. — respondi.

Arthur arregalou os olhos.

- Sério?!

- Claro, oras. — respondi, sorrindo docemente e olhando nos profundos olhos de Arthur.

Quebrando a bolha em que eu e meu querido Arthur estávamos, a campainha tocou. Levantei-me e fui atender a porta.

- Oi, Emilie... — Veronica, outra de minhas melhores amigas, me cumprimentava.

Seus olhos claros devem ter notado que eu não estava sozinha em casa.

- Entre! — convidei.

- Desculpe, mas, não vou poder ficar muito tempo. Tenho que colher algumas ervas para meu chá.

- Veronica, você sabe que eu também amo chá! Se é por causa do Arthur, eu insisto, vou com você e a gente passa os três juntos o resto da tarde. — eu ri — Podemos até preparar muffins, se você quiser.

- Se você insiste...

Súbito, ouvi um barulho.

- Ok, hora das meninas. Eu vou indo. — o jovem mais lindo que eu conhecia se despediu.

- Por favor, não vai embora agora! — quase gritei, e tentei segurá-lo pelo pulso.

- Volto mais tarde. Divirta-se. — ele me deu um amável beijo de despedida e foi embora.

- Desculpe ter atrapalhado. — Veronica disse, constrangida de uma forma que eu poucas vezes tinha visto.

- Tudo bem, sem problemas. Na verdade, quero conversar sobre como vamos libertar Aprella daquele lugar terrível onde ela está.

- Se você dissesse que não tem nenhum plano, aí eu ficaria preocupada.

Sorri.

- Na verdade, minha ideia era fingir que somos insanas, o que não acho que será difícil, até sermos internadas na mesma instituição. Daí, fica fácil conseguir um jeito de sair de lá com ela.

- Imaginei que fosse pensar em algo assim.

- Primeiro, nossos muffins e nosso chá.

Veronica preparou o chá de frutas para ser tomado gelado que amávamos; morango, maçã, abacaxi, raspas de canela e algumas gotas de limão; untou as formas para os muffins de chocolate, e eu preparei a massa competentemente.

Faríamos o que fosse preciso para entrar lá e trazer Aprella de volta.

Depois da nossa hora do chá, saímos num ônibus que sabíamos que passaria em frente ao Asylum. Não poderíamos ir usando nem meu carro, nem o de Veronica — os documentos nos identificariam, e não levaríamos nada que pudesse nos rastrear. Mesmo nossos celulares ficaram em casa.

Resolvemos que, quando saíssemos do ônibus, em frente aos portões de entrada do local, Veronica iria fingir que estava tentando me matar a facadas dramaticamente — assim, nos levariam para o interior.

- Vou acabar com você, sua sanguessuga imunda! — Veronica corria em minha direção com uma faca que tínhamos trazido discretamente na bolsa dela.

- Não, depois de tudo o que fiz por você! — nossas habilidades de atuação estavam sendo terrivelmente úteis.

Um rato atravessou as grades que separavam a construção do exterior e passava graciosamente perto dos meus pés; peguei-o e lhe beijei o focinho.

Conseguimos atrair a atenção dos médicos, conforme queríamos.

Não demorou até que viessem nos levar para dentro do Asylum.

Notas finais
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