Notas iniciais
prompt: tom e abraxas observando as estrelas e tom sendo, pela primeira vez, sincero?

Tom estava ofegante. Suas vestes, coladas ao corpo devido ao suor frio que escorria por sua coluna, arranhavam sua pele sensível cada vez que ele tentava se movimentar. O jovem não sabia muito bem onde estava, apenas tinha consciência da dor que latejava por toda parte. Não podia comparar aquilo com nada que já sentira antes. Era como se alguém tivesse aberto todas as suas veias e jogado ácido no lugar de seu sangue — ele quase podia sentir a corrosão que vinha de dentro para fora.

Ouviu passos apressados ao longe, mas os ignorou. Tentou lembrar o porquê de estar ali. Tentou lembrar onde era ali. Finalmente, ele conseguiu mexer o torso, e se virou com um grande gemido. Não havia se dado conta que estava com o rosto contra o chão até aquele momento.

Os passos pararam por um momento. E então recomeçaram, agora mais próximos a cada segundo.

Tom abriu os olhos, e se encontrou encarando o céu estrelado. Sentiu sob suas palmas suadas algo úmido e áspero: folhas. O cheiro de terra molhada invadiu suas narinas. Aos poucos, seus sentidos iam se recuperando. Sabia agora que estava na Floresta Negra. Sabia que era uma noite agradável de verão.

Mas não sabia de quem eram os passos que finalmente alcançaram seu corpo distendido no chão.

“Tom!” Foi a voz de Abraxas que quebrou o murmurar silencioso da Floresta. O jovem teve vontade suspirar diante da urgência na voz do amigo, mas não tinha certeza que sua garganta funcionaria. Ou seus pulmões. “Oh, meu Deus! O que houve?” Abraxas sussurrou, se agachando ao seu lado e tentando colocá-lo numa posição mais digna, mas abandonou a ideia ao ouvir o gemido baixo de Tom diante do mínimo movimento.

“Eu não sei,” Ele respondeu, sua voz quase inexistente. “Não lembro.”

“Como não lembra?” Abraxas disse, seus dedos trêmulos tocando a fronte do amigo de forma afetuosa, retirando a sujeira que se acumulara ali. “Faça um esforço. Eu sei que você consegue.”

Tom desviou os olhos da íris muito azul do amigo para o céu estrelado.Tentou se recordar, mas era difícil com Abraxas lhe acariciando os cabelos, e a brisa agradável, e o seu corpo cansado que a cada momento vencia mais um pouco da dor.

“Tom?” Abraxas chamou, e o outro abriu os olhos de repente. Havia cochilado por um momento, percebeu. O amigo, que antes estivera agachado ao seu lado, agora estava sentado com a cabeça de Tom repousando em seu colo.

“Eu estava… Eu tinha algo para fazer. Que não podia ser feito em Hogwarts.” Tom murmurou, observando Abraxas de um ângulo invertido. Por algum razão, achou mais fácil conversar com o amigo daquela forma. Não era possível entender suas expressões; havia apenas seus olhos azuis, nos quais ele tanto confiava. Olhos azuis que tanto confiam nele. “Eu precisava vir para a Floresta, porque Dumbledore — não, não — ninguém poderia saber.” Quanto mais falava, mais Tom recordava.

E quanto mais recordava, menos deseja falar. Especialmente para o outro.

“Nem mesmo eu?” Abraxas inquiriu. Era impossível decifrar sua expressão, mas havia dor em sua voz. Traição.

“Nem mesmo você,” Tom se obrigou a confessar, desviando os olhos. A mão, que estivera tocando os cabelos desalinhados do jovem, parou diante disso. Mas permaneceu entre as suas mechas. Assim como Abraxas sempre permanecia. Não importava o que ele fizesse, Abraxas sempre permanecia. “Mas… Eu vou te contar.” Ele completou. O jovem tentou se levantar, mas seu corpo não podia aguentar seu próprio peso, e logo cedeu diante do esforço.

“Shhh, não faça isso!” Abraxas comandou, empurrando o outro suavemente contra as folhas úmidas que cobriam o chão outra vez. Com um movimento fluído, ele se deitou ao lado do amigo, agora ambos com seus rostos voltados para o céu estrelado.

Um longo momento de silêncio se seguiu. Uma coruja piou ao longe, provavelmente caçando algo antes de sair para entregar cartas à alguma família preocupada e afetuosa.

“Eu matei meu pai,” Tom falou, observando uma estrela muito brilhante logo acima de suas cabeças. Se perguntou se seria Marte. “Há algum tempo, na casa dele. Matei meus avós também, mas apenas porque tentaram interferir. Meu tio foi preso pelo crime, ouvi dizer que está em Azkaban. Não sinta pena dele, o sujeito era desprezível,” Tom continuou, seus olhos nunca sobre o amigo e seus ouvidos atentos apenas para o som da Floresta — nunca para o suave inspirar e expirar ao seu lado. “Obviamente que eu não pretendia matá-lo… Eu nem sabia que ele morava no mesmo vilarejo que meu tio, até o encontrar lá. Queria apenas conhecê-lo, sabe, entender o porquê…”

Ficaram calados mais algum tempo. Tom pensou ter visto uma estrela cadente, mas ela passara rápida demais para ter certeza. Se perguntou se Abraxas teria notado também, ou se apenas ele que a vira. Ele desejava não ter sido o único.

“As coisas saíram do controle,” Ele seguiu seu monólogo, como se estivesse se confessando apenas para o vento gentil que fazia terra e poeira voarem em seu rosto. “Brigamos, e eu o matei. Fugi de lá na mesma hora, nem mesmo pensei que poderiam achar que o velho Morfino seria o culpado — ainda que isso tenha me servido muito bem,” Tom comentou, se forçando a rir. O som saiu como um grunhido devido ao nó em sua garganta. “Isso, como eu disse, foi há algum tempo. Eu não tenho… Não tenho feito nada além de pensar sobre ele desde que aconteceu. Decidi que eu iria dar continuidade ao meu projeto, o quanto antes. Então é isso. Foi isso que eu vim fazer aqui. Completar o ritual. Criar minha Horcrux.”

Tom respirava pesado agora, não sabia se de cansaço ou outra coisa. Queria simplesmente levantar e correr, mas seu corpo estava muito debilitado devido ao procedimento. Não, não seu corpo, ele se deu conta: sua alma.

Após um longo momento, virou sua cabeça para onde o amigo deitava, o movimento intensificando o cheiro de terra onipresente desde que acordara.

Abraxas estava com as mãos atrás da cabeça, observando atentamente o céu. Seu cenho estava franzido mas, fora isso, sua expressão parecia serena.

“O que você acha que eu farei? Agora que sei disso?” Ele perguntou de repente.

Tom piscou algumas vezes antes de responder.

“O que você quiser. Você sempre faz aquilo que você quer.” Respondeu, suspirando e também voltando a encarar o céu. Abraxas riu baixo. Tom podia jurar que, agora, haviam mais estrelas.

“Azar o meu, que o que eu sempre quero é ficar com você.” Foi sua resposta. Havia um sorriso em sua voz, e Tom sentiu seus próprios lábios rachados se levantarem com isso.

“Posso te perguntar algo?” Tom inquiriu.

“Claro.” Abraxas replicou.

“Você viu uma estrela cadente agora a pouco?”