amor o suficiente para nós dois
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“Tommy,” uma voz cantarolou por entre as chamas azuis da lareira. “Poxa, já faz um mês que não nos vemos e eu não ganho nem um sorriso?”
Diante dessas palavras, Tom sentiu o canto de seus lábios tremendo. Ele estava em uma pequena vila ao norte de Kosovo, o frio entrava na cabana de madeira que usava, apesar de todas as janelas e portas estarem rigorosamente fechadas.
“Espere mais uns dois meses, e quem sabe dai eu sorria ao te ver.” Tom replicou para a cabeça dourada perdida no fogo, sua respiração saindo em uma fumaça branca.
“Se você esperar dois meses para me contatar de novo, a última coisa que vai fazer é sorrir!” Abraxas disse em tom ameaçador. Isso fez com que Tom risse alto.
“Ora, um discurso violento vindo exatamente da pessoa que disse para eu evitar violência desnecessária?” Tom disse, erguendo suas sobrancelhas. Foi a vez de Abraxas rir. O som pareceu afastar o frio onipresente que sentia desde que chegara em Kosovo.
“Eu disse para não usar violência desnecessária e, se você me negligenciar por tanto tempo, não seria desnecessária, seria?” Abraxas disse, uma mão ficando visível por um momento enquanto retirava algumas mechas de cabelo de sua testa.
“Acredito que você está certo,” Tom respondeu, sorrindo enquanto mudava de posição na cadeira que usava, buscando alguma posição mais confortável — mesmo sabendo que era inútil. “Por outro lado, eu jamais negligenciaria você se tivesse opção.”
“Nesse caso, por que levou um mês? No início, você me contatava uma vez por semana, pelo menos.” A voz de Abraxa tremeu por um momento, traindo seus verdadeiros sentimentos apesar do rosto sorridente. Tom podia dizer que o outro estava realmente magoado. Ele suspirou, esfregando os olhos.
“Eu tive alguns problemas. Os policiais trouxas acharam que eu era um fugitivo de guerra, levou algumas semanas para convencê-los a me devolver minha varinha e só dai pude escapar. Foi uma bagunça.”
Abraxas ficou um longo momento em silêncio, apenas o som do vento lá fora e o crepitar do fogo eram audíveis.
“Tom, quem sabe não está na hora de voltar? Já faz cinco anos e você não encontrou nada-”
“Eu estou perto, Brax. Bem perto. Quase posso sentir a mágica do Diadema. Não posso desistir agora.” Tom disse, encarando os olhos muito azuis do outro.
“Eu estou com saudades,” A voz de Abraxas não foi mais alta que um sussurro. “Sem você aqui eu me sinto… Perdido. Você sabe que sempre foi uma parte de mim. A melhor parte.”
Tom sentiu um nó na garganta, mas se forçou a sorrir mesmo assim.
“Mais um ano. Tudo bem? Só mais um ano e-”
“Você disse isso ano passado, Tom!” Ele replicou, e Tom pode ver suas orelhas ficando vermelhas. Lembrou-se que Abraxas nunca corava, apenas suas orelhas ficavam vermelhas, e o pensamento arrancou-lhe outro sorriso. Se deu conta que sorrira mais durante aquela curta conversa do que fizera nos últimos meses.
“Bem, então, mês que vem eu vou lhe ver na Alemanha, que tal?”
Um sorriso, maior do que qualquer outro que dera até ali, se abriu no rosto do outro homem.
“Sério? Você promete?”
“Sim, eu prometo. Podemos ficar juntos durante suas férias do Ministério. Bem, pelo menos tanto quanto Delphine permitir.” Tom adicionou a última parte com o cenho franzido. Não gostava de ter que levar em consideração os caprichos da esposa de Abraxas, mas era necessário.
“Ela não se importa. Agora está tendo um caso com uma brasileira, sabe. Lúcia ou Luzia, seja lá como se pronunciam esses nomes latinos.” Abraxas sacudiu a cabeça, seu cabelo se desarrumando.
“Olha quem fala, Abraxas.” Replicou, levantando uma sobrancelha. Ambos riram.
Um farfalhar às suas contas fez Tom se empertigar, seus olhos nunca deixando os de Abraxas.
“Escute, eu preciso ir agora. Vou te mandar uma coruja em uma noite ou duas, a respeito dos nossos planos para Alemanha.”
Abraxas assentindo com a cabeça. Mandou beijos para Tom por entre o fogo, e só então desapareceu.
O homem ficou um longo momento parado, suas costas doendo de tanto ficar na cadeira desconfortável. Um gemido baixo às suas costas finalmente o fez se levantar, se espreguiçando languidamente.
Ele caminhou para o canto mais escuro da cabana, onde o calor do fogo não chegava. Lá, com os braços pregados ao chão, jazia um homem alto e magro, o rosto pálido e desidratado indicando que não comia há alguns dias. O sangue estava seco em suas roupas, o sangramento anterior estancado por magia para evitar que morresse por hemorragia devido aos grandes pregos em seus braços. Tom cutucou uma perna, arrancando um grito do homem — ele as quebrara mais cedo naquele dia, e os ossos já estava quase saltando da pele naquela altura.
“A do të flasësh tani, zotëri?“ Tom perguntou em albanês, sua voz fria.
“Po, unë do të.” O homem aos seus pés murmurou, sua voz rouca por ter gritado, lágrimas rolando de seus olhos.
Tom suspirou e arrastou a cadeira que usara até então para mais perto da figura estirada que tremia violentamente. Ele se sentou, apoiando os cotovelos em seus joelhos.
Por alguma razão, lembrou-se das palavras de Abraxas. Você sempre foi uma parte de mim. A melhor parte.
Tom sorriu, sua expressão triste. Os dois sabiam que era o contrário. Era Abraxas quem era a melhor parte de Tom. A única parte boa.
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