amor o suficiente para nós dois
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Fizera um dia especialmente quente, o que causou uma noite ainda mais especialmente quente do que o usual. Tom estava em seu quarto minúsculo no Estabelecimento Wool Para Órfãos de Guerra, ou simplesmente “orfanato” para seus habitantes.
O jovem estava deitado em sua cama estreita, o lençol que usava a noite para se proteger dos mosquitos jazia embolado no chão. Seu quarto estava mais vazio do que de costume desde que a sra. Cole começou a ceder seus móveis às outras crianças; “você quase nem fica aqui, querido”, ela justificava. Tom não se importava, de qualquer modo, desde que tivesse um quarto e uma cama para dormir quando voltasse. Crescer naquele lugar lhe ensinou a apreciar belas coisas, sim, mas principalmente a entender que essas coisas nunca seriam suas. O armário, dado para Lauren, a mesa, entregue para Charles, ou o abajur, agora de Mary, nenhuma daquelas coisas pertencera a Tom — eram do orfanato e, antes disso, eram de seus doadores ricos.
Tom suspirou, colocando as mãos atrás da cabeça enquanto contava pela enésima vez as rachaduras no teto do quarto. Elas não estavam ali verão passado, recordou. O garoto suspeitava que foram causadas por um dos bombardeios nazistas que destruíram prédios não muito longe dali a questão de dois meses atrás. Londres sempre fora um lugar desagradável e caótico, até onde Tom se lembrava, mas parecia que a cada verão a cidade se tornava mais desagradável e caótica do que estava da última vez.
De repente, Tom ouviu vozes murmurando do lado de fora. Sua janela estava aberta para que a brisa da noite entrasse, e como até mesmo sua lâmpada havia sido entregue à outra pessoa (Mary B.), seu quarto estava na mais completa escuridão, razão pela qual as vozes provavelmente não perceberam que estavam dentro do seu raio de audição.
“Então o pequeno Laurent morreu?” era a voz da sra. Cole, sua entonação sempre fria, mesmo quando falando da morte de uma das crianças a quem costumava cuidar.
“Sim. Lembra-se como ela adotou ele para fugir do alistamento?” foi o doutor Alexei quem replicou, sua voz, por sua vez, era suave e compreensiva. “Parece que ela não tinha como sustentar os dois. Ele morreu de pneumonia, complicada por causa da anemia profunda.”
“Ah, que infortúnio. Não sei para que tiram eles daqui, se agora os dois vão acabar morrendo. Ela vai ter que se alistas de qualquer forma…” a sra. Cole disse, e Alexei murmurou sua concordância enquanto as vozes começavam a se afastar, continuando em sua caminhada noturna.
Tom ainda observada o teto, a parte de trás de seus olhos agora começando a latejar no que ele adivinhou ser uma dor de cabeça se aproximando. Ele se lembrava de Laurent. Um garoto sardento, de cabelos muito vermelhos e olhos verdes escondidos atrás de óculos de lentes grossas. Não devia ter mais do que oito anos quando fora adotado. E agora estava morto. Tom bufou, esticando os braços para que o sangue voltasse a circular depois de ficar por tanto tempo na mesma posição. A morte do garoto não fora a primeira a assombrar o orfanato, e certamente não seria a última. Ele ouvira rumores sobre como Anne fora levada às pressas para o St. Bartholomew — Charles apostava que a jovem morreria dentro de 5 dias; Tom acreditada que ela não passaria de 2.
Novamente o garoto suspirou, se sentando contra o batente de metal da cama. Ele queria ler um dos livros que Atlas lhe emprestara, mas sem lâmpada para iluminar o quarto, o feito seria impossível. O garoto pensava em roubar uma das velas do altar da sra. Cole quando ouviu um farfalhar ao seu lado. Ao se virar em direção à janela, se deparou com os grandes olhos amêndoas de uma coruja negra. Tom conhecia o animal, é claro: era Tolkien, a coruja-barra-pet de Abraxas que, por vezes, lhe entregava pacotes e mensagens do amigo. De fato, ao se aproximar, ela estendeu a pata, deixando cair em suas mãos um pergaminho amarrado por uma fita vermelha.
Tom novamente se viu com o problema de ler algo na mais completa escuridão. Suspirando, mas também impaciente em razão da curiosidade, o garoto abriu uma pequena fresta na porta de seu quarto. Observou o corredor silencioso para garantir que ninguém estava lhe espiando, e colocou a carta do amigo na luz que adentrava o quarto pela fresta, forçando os olhos para poder enxergar as palavras escritas.
Caro Tommy
Você sabe como eu assino alguns periódicos trouxas para me manter informado sobre tudo, não? Recentemente, li em uma dessas publicações que Hitler fez uma investida em Londres há poucos meses. Por razões óbvias, eu me preocupei imediatamente com você, enfiado nesse orfanato sem qualquer tipo de proteção. Obviamente, já me certifiquei que você está vivo e bem, mas creio não ser suficiente.
Em razão unicamente da minha preocupação, quero que você venha passar o resto do verão na minha propriedade no Brasil. Esse pedido não tem absolutamente nada a ver com o fato de que eu não entendo nada do que esses latinos falam e, por isso, estou no ápice do tédio.
De qualquer forma, prepare sua mala. Dobby irá lhe buscar amanhã às 9 a.m. Não se atrase, a ordem que dei à ele foi específica, mesmo que você se recuse a vir, ele VAI te trazer.
Com amor,
Abraxas Malfoy.
Tom sentiu um sorriso se abrir em seu rosto, ainda que tentasse lutar contra ele. Abraxas era realmente ridículo, mas de uma forma tão terna que era impossível se irritar com ele. O garoto enrolou a carta, olhando um momento por sob o ombro para constatar que a coruja já havia ido embora. Cantarolando, ele abriu a porta do quarto e se encaminhou para as escadas, à procura da sra. Cole.
Precisava informar que estaria de partida.
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