a Garota do Cemitério - A filha de Quione
2 Quase somos mortos (E tenho certeza que não será a primeira vez)
Notas iniciais
"Não são nossas habilidades que definem que realmente somos, são o que escolhemos fazer com elas". — Harry Potter
Ive
Olhei cheia de medo pra enorme coisa a minha frente, que, ao contrário de mim, no olhar tinha um brilho assassino. Olhei pra Jadel e Enri, Enri usava muletas, não conseguiria correr, Jadel é boazinha, nunca sequer se meteu numa briga, tanto corpo a corpo quanto uma discussão, e eu duvido que uma lápide velha ajude agora. Eles eram meus amigos, tinha de protegê-los, e, com a coragem que eu imaginei ter tirado do cú, só pode, parti pra cima do monstro gritando pra ver se conseguia o fazer se distrair e der tempo pra Enri e Jadel saírem dali. Peguei meu caderno, esperando ouvir a voz que falou comigo da primeira vez. Nada, a não ser o urro do monstro e o som que seus pés enormes faziam ao pisar e destruir a estrada de concreto. Comecei a me desesperar, desenhei o mais rápido que pude a mesma flecha dourada do dia anterior, que havia misteriosamente sumido, e soprei com todo o fôlego que tinha. Uma saraivada de flechas douradas saiu do caderno, todas em direção ao monstro, mais ele pareceu tão incomodado quanto alguém tentando espantar um mosquito. Desenhei chamas e novamente soprei mais ele nem pareceu se incomodar. Foi então que ele pareceu me achar desinteressante, ou quem sabe eu não pareça assim tão apetitosa, pois ele se virou pra Jadel, ainda paralisada de medo. Um arrepio que parecia ter vindo da alma passou pela minha espinha, assim que eu o vi levantar aquele punho gigante e arremessá-lo em direção aos dois, e eu juro que, em toda minha vida, acho que nunca me veio um desespero tão grande quando o de perder meus dois únicos amigos. Então eu só pude gritar com todo ar que tinha nos pulmões.
—Fique longe deles! – Senti uma força sobrenatural me consumir e, assim que abri os olhos, tudo estava congelado, o chão, as árvores, os postes, os carros que estavam parados ali perto, até mesmo o gigante caolho, tudo. Minha boca foi ao chão.
—Su... Summer? Você está bem? – Jadel falou comigo tremula e preocupada. Não respondi, ainda estava paralisada de surpresa pelo que aconteceu. Mais que, ARGH! RAIOS! Como assim?! As coisas não congelam do nada! O que acabou de acontecer? – Summer? Summer! Ai meu deus! Summer fala comigo!
— Summer, você está bem? – Foi Enri, ele parecia preocupada, mais não assustado.
—Nã... Não se preocupem, eu, eu estou bem. Foi só um susto. – Achei forças pra falar. – Jadel, acho melhor irmos pra sua casa, algo me diz que não é bom continuarmos na rua de noite.
—Claro, isso, vamos lá. – Ela me ajudou a levantar, e olhamos pra Enri.
— É, boa idéia, vamos. – Ele disse, então fomos juntos pra casa de Jadel. Demorou uns vinte minutos, e quando chegamos perguntamos a Enri se ele queria dormir conosco, ele aceitou.
23h13min, Casa da família Kendall
Acordei a noite com sede e desci pra tomar água. Olhei no celular, 23h13min, ri mentalmente, eu realmente devia está acabada pra ir dormir tão cedo. Desci as escadas e escutei vozes, me agachei e comecei a descer sem fazer barulho, coisa que eu sou ótima, se tem uma coisa que eu sou boa, é em passar despercebida. Surpreendi-me quando vi Enri conversando com os pais de Jadel. Enri estava sério mais tinha tristeza no olhar, o pai de Jadel, Gustav, estava com uma expressão de compreensão, mesmo que com um olhar abatido, já a mãe de Jadel, Marietta, parecia poder desabar a qualquer momento, falavam sobre um tipo de colônia de férias, acampamento para pessoas especiais.
—Escutem, eu sei que é difícil, mais é pro bem de Jadel, e para o de Summer também! Elas já passaram muito da data de ir, estamos adiando demais! Fomos atacados por um ciclope e pelo que elas me contaram por uma empousa também! Pensem no melhor pra ela, que depois vou conversar com o pai de Summer.
—Nós sabemos, mais é difícil, talvez amanhã nós teremos a resposta, mais ainda sim é uma decisão muito grande pra tomarmos assim de ultima hora, e ainda tem Summer, não podemos decidir por ela. -Ok, aquilo estava muito estranho e eu e Enri com certeza teríamos uma conversinha depois. Decidi subir e voltar a dormir, já que, magicamente, minha sede passou.
09h48min, Casa da família Kendall, Cozinha
Estávamos tomando café, Jadel, ingênua como era não percebia nada, mais eu estava vendo os olhares abatidos dos pais dela e o jeito como Enri estava tenso. Decidi que era hora de tirar isso a limpo.
—Jadel, acho que esqueci meu celular lá em cima, pega pra mim? – Mentira, meu celular estava aqui no meu bolso, mais eu precisava de uma desculpa pra tirar Jadel da cozinha. Lógico que ela estranhou, eu não costumava sair pedindo as coisas assim na casa dela, principalmente na frente dos pais dela, mais foi mesmo assim. Olhei pra eles e joguei as cartas na mesa.
— Que acampamento é esse pra qual querem nos mandar, por que estamos correndo perigo e o que Enri tem haver com isso?- Eles olharam pra mim com os olhos arregalados e cheios de surpresa.
— O que, mais como que você... — Enri gaguejava enquanto olhava pra mim.
—Eu ouvi a conversa ontem, não toda, mais o suficiente pra saber que tem algo errado, e eu quero saber o que, e como Enri se envolve nisso. – Disse os fitando com um olhar frio e uma expressão séria, sou ótima em esconder emoções.
—Mio, você, conhece os deuses gregos?
—Tipo Zeus, Hades, Poseidon? Conheço sim, por quê? – Perguntei confusa.
—Sei que parece loucura, e que, vai parecer brincadeira, mais eles existem Mio. Existem até hoje, e você é filha de algum deles. – Ele disse apreensivo, enquanto os pais de Jadel me olhavam preocupadas. O olhei incrédula.
—Você... Está brincando, não é?- Disse sem acreditar no que acabara de ouvir. Aquilo era uma piada pra desviar do assunto? Se for, era de muito mau gosto.
—Não. Mio, não é uma piada, ele está falando sério. – Olhei pra Sra.Kendall. Ela, que sempre estava sorrindo e com um olhar carinhoso, agora estava séria.
—Jadel, ela também...
—Sim, Jadel também. – Enri me cortou.
—E ela já sabe?
—Não, e por enquanto preferimos que não saiba, pelo menos até tomarmos alguma decisão. Pode esconder isso? Pelo menos por enquanto? – Tio Gustav disse.
—Posso. Posso sim. – No mesmo momento, Jadel desceu as escadas.
—Pode o que Summer? – Jadel me olhava curiosa.
—Eles perguntaram se eu podia esperar mais um pouco, antes de viajarmos pro Brasil, sabe? Se eu não ia ficar brava. Eu disse que podia que não tinha problema. – Disse olhando sugestivamente pra eles. Jadel olhou pros pais.
—Isso, exatamente. – Disse Sr.Kendall. Enri olhou pra mim. Pude o ver mexendo a boca e entendi o que dizia “Jardim”.
—Eu já volto, já terminei de comer mesmo. Não se preocupem. – Disse saindo da mesa. Enri disse que ia ao banheiro e me seguiu discretamente. Chegando lá, tranquei a portinha que dava pro jardim e o encarei. – Sério?
—O que?
—Quero saber o que você falou pros pais da Jadel!
—Mas eu já te disse!
—Ahã! Claro! Acampamento pra pessoas especiais? Sério? Tudo bem que somos meio histéricas, mas nós não somos retardadas, não temos problemas mentais! Espera... Já sei! Você contou pros pais dela o que te dissemos sobre aquela garçonete vampiresca né? Disse pra eles que somos loucas? É isso?
—O que? Não! Não, se acalma você entendeu mal! – Por um misero segundo, vi seu olhar se desviar pra algum ponto atrás de mim, e vi seus olhos se encherem de pânico. Resisti à vontade de olhar também, estava tomada pela cólera pra prestar atenção a qualquer outra coisa.
—Se for pra inventar desculpas, pelo menos invente desculpa descentes! Deuses gregos? É sério? Nós não somos loucas! Não somos burras! Estou cansada disso! De ser a esquisita! A garota que não sente frio! De ser chamada de vadia por isso! De ser tachada de louca por todos os psicólogos que visitei, por contar às coisas que eu via! “Você já passou da idade de ter amigo imaginário”, “Você já está muito velha pra ter medo do bicho papão” – Disso com uma voz alterada, imitando os psicólogos. – Estou cansada de ver essas coisas, esses... Esses... Monstros! Espreitando, atrás dos muros, nas ruelas, parecendo me seguir! Dessas coisas estranhas que parecem só acontecer comigo! – Respirei fundo, senti um peso sair das minhas costas, frustrações da vida inteira, ou ao menos, boa parte delas, finalmente colocadas pra fora.
—Você já esta melhor?
—Sim. – Levantei a cabeça, esperando ver seu olhar direcionado a mim pra que eu pudesse me desculpar, mas não era em mim que ele estava vidrado. Ele olhava pro chão num olhar misto entre incredulidade, surpresa e, pude ver pelos menos, pânico. Olhei pro chão, onde estava sua atenção, e o que vi também me assustou. Gelo, gelo e neve. Era como uma marca de explosão, mas feita de uma geada espessa, e o pior, partia diretamente de mim. Como se eu tivesse explodido, eu estava bem no meio da marca. Mas eu não sentia medo, me sentia poderosa, como se tivesse eu aberto uma válvula e liberado a força.
—Isso, é... É... _ Fechei os olhos, talvez esperando que ele me xingasse, mas ouvi um sussurro _ Incrível...
—Sério?
—É! Tipo, uau! Summer, nem eu nem os pais da Jadel mentimos pra você, o que falamos é verdade! Deuses gregos realmente ainda existem, e às vezes eles têm filho com mortais. Os semideuses, você e Jadel são semideusas Summer, não ah com fugirem disso, os pais de Jadel, junto de seu pai, eles tentaram, mas quanto mais velhas vocês ficam, mais fácil fica pra serem localizadas por monstros! Se continuarem aqui, vão se machucar, ser mortas ou até pior. Pra isso que existe esse acampamento o qual vocês devem ir, pra proteger semideuses de todos os parentescos. O acampamento meio-sangue.
Fale com o autor