Seu Geraldo tinha mais de setenta anos e era um divinense muito astuto. O armarinho que administrava não era maior do que um banheiro, mas ficava bem no centro da cidadezinha. Ele nos contou, assim que o conhecemos, que havia deixado o ofício de professor há alguns anos, mas que graças a essa profissão, conhecia muitas pessoas em Divino, entre elas a família Rodrigues.

— O filho mais velho deles foi meu aluno e é meu afilhado de batismo. — O idoso ajeitou os óculos quadrados no nariz torto, um traço da descendência italiana. — Eles quase não aparecem aqui na cidade, estão sempre na roça. São gente muito trabalhadora. Passam bastante dificuldade nos Viletes com aquele pedacinho de terra deles que não tem produzido muito. É uma pena...

Para seu Geraldo, aquela família era a ideal para o trabalho que procurávamos. Residia próxima da chácara e provavelmente estaria bem interessada no que estávamos oferecendo. No entanto, o único que vinha frequentemente à cidade era o filho caçula.

— O rapazinho vem todo domingo para o catecismo. Ele tem o cabelo preto igual ao de vocês, só é mais queimado de sol. Não é difícil de reconhecer, não. Esperem pra falar com ele. Digam que fui eu que indiquei e ele não vai se assustar.

Nós esperamos até o fim da missa. Observamos as senhoras descendo vagarosamente a longa escadaria enquanto as crianças passavam por nós, correndo até o coreto da praça. Elas brincavam debaixo da sombra das raízes da árvore e das flores cor-de-rosa nascidas naquela primavera. Os bancos estavam cheios naquele domingo e as pessoas circulavam em torno da fonte para observar as tartarugas que ali viviam.

Os homens eram escassos, mas mulheres e crianças surgiam de todas as partes. Quando vimos o garoto descer sozinho os infinitos degraus, foi como ver um indiozinho vestido. Era magricela e moreno, com um ar inocente que eu provavelmente nunca tive.

— É você mesmo que estávamos procurando.

Ele me encarou com desconfiança.

— Às ordens.

Amaldiçoada e bendita hora foi essa em que conheci José Marcos. Amaldiçoada e bendita hora foi essa em que ele e todos daquela família cruzaram nosso caminho. Se eu soubesse o que se seguiria nos próximos anos, teria cortado fora minha mão antes de cumprimentá-lo.

— Você é filho do seu Antônio, não é?

— Sim, senhor. Algum problema?

José Marcos era arredio e desconfiado como apenas um mineiro sabe ser. Se algum dia alguém havia lhe ensinado discrição, o garoto já havia se esquecido de como usá-la. Reparava em nós dois da cabeça aos pés, como se fôssemos atrações de circo. No entanto, quando se deu conta de que estávamos querendo tratar de assuntos de homem, fez uma desprezível tentativa de parecer adulto. Inclinou o queixo e engrossou a voz, mas isso o deixou ainda mais parecido com uma criança.

— É, eu acho que nós pode ajudar com os serviço na chácara, sim. Só que eu penso que é melhor o senhor falar com o pai.

Foi preciso que Mauro usasse um pouco de sua lábia para convencê-lo a entrar na caminhonete e nos levar até sua casa. Não era fácil fazer com que as pessoas da região confiassem em nós. Diferente da cidade grande em que não se confia em ninguém, e tudo bem assim, em lugares como Divino era vital formar uma boa imagem. Se conseguisse, o caminho seria muito mais fácil de trilhar.

— Então você tem 14 anos? Pensei que fosse mais velho. Sua família toda é católica?

Mauro insistia em perguntar e se empolgar com as respostas, fazendo a desinteressante vida de José Marcos parecer sua maior descoberta.

— Sim, senhor. Só uma tia minha que é crente.

— Mas só você frequenta a missa pelo que vejo.

— Não, senhor! É que o pai e a mãe gosta de ir na igreja dos Viletes, na roça mesmo. Meus irmão também. Só eu prefiro a Matriz. É que tem mais gente, senhor sabe.

— Claro. Mais moças também, não é?

Meu irmão não teve dificuldades em descobrir que José Marcos estava de olho em uma menina da cidade e que esse era o único motivo que o fazia caminhar oito quilômetros todos os domingos. Na realidade, era difícil imaginar outro motivo para um garoto fazer isso.

Durante aqueles minutos do trajeto o menino foi se tornando mais manso, mas seguia respondendo com economia de palavras às nossas perguntas.

— Meu pai teve quatro filho homem. Eu sou o mais novo.

— É só homem na sua casa, então?

— Não é só homem não, senhor, eu tenho uma irmã que já é moça já.

— Ah, sim. — Mauro me lançou uma olhadela sutil, mas que revelava intensões que eu reconheceria de longe. — Isso é bom.

Ele iria ver que não era tão bom assim.

— Ela chama Rosalina, mas a gente chama ela de Rosa. Ela fez dezoito em setembro.

Rosa. Aquele nome ficaria para sempre na minha língua. Iria arder a cada vez que eu o pronunciasse.

— Ah, mas tinha que ter pelo menos uma moça mesmo, né? Se não você ou um dos seus irmãos ia precisar vestir saia pra ajudar a mãe de vocês na casa.

— Cruz credo, doutor! — Pelo retrovisor pude ver José Marcos rindo. A batalha com ele estava ganha.

Enquanto Mauro prosseguia com a conversa, aumentando a confiança do menino, eu observava os pastos, as lavouras de café e os enormes eucaliptos daquele chão mineiro. Vez ou outra vislumbrava uma cruz fincada nos barrancos. Sempre fui mais taciturno e, naquele instante, me senti em perfeita sintonia com aquelas terras criminosas.

Assim que chegamos à casinha de parede caiada, parcialmente coberta por arbustos floridos e goiabeiras, fomos levados à varanda dos fundos. Nela encontramos um velho carrancudo enrolando um cigarro de palha. Estava sentado com as pernas finas cruzadas em uma poltrona antiga e não disse nada até ouvir a explicação do filho.

— Tá parecendo que cês são doutor.

O velho se chamava Antônio e tinha traços indígenas bem mais marcantes que o filho. Ele estudou longamente minhas mãos brancas e sem calos quando o cumprimentei. Seu tom de voz era levemente debochado, mas não o suficiente para que alguém quisesse tirar satisfações com ele.

— Doutores? — Mauro se admirou com a dedução, mas pareceu gostar. — Não, senhor, seu Antônio. Quem dera!

— Cês faz o que pra viver?

— Nós dois já trabalhamos em fazenda grande, mas nos últimos anos controlamos as vendas numa tecelagem pequena no Paraná. — Menti. — Sabemos conduzir um pouco as coisas, tanto na cidade quanto no campo.

— O Rômulo é que gerenciava a tecelagem, seu Antônio. — Mauro fez ares de quem não lidava com papéis. Era o nosso teatro costumeiro. — Eu sempre preferi rodar por aí para conseguir compradores. Nunca tive paciência para ficar parado. Isso não é vida, não é mesmo?

A tentativa de Mauro de conseguir gerar empatia instantânea, algo que geralmente funcionava com todo mundo, não deu certo com aquele homem. Ele era duro como uma rocha.

— Eles compraram a chácara do seu Fernando, pai. Estão procurando gente pra ajudar a arrumar as coisa por lá.

O garoto intermediou nossa conversa o tempo todo, provavelmente desesperado por não receber uma bronca do pai quando fôssemos embora.

— E o que gente granfina assim faz por essas banda?

— Ah, granfina é por conta do senhor. — Mauro não desistiria. — Já viajamos bastante por cada canto desse país, mas nada é igual a Divino. Nosso pai sempre quis voltar pra cá e eu também. Só o Rômulo ainda não conhecia a cidade.

O velho índio inclinou o queixo e uma expressão ainda mais zombeteira surgiu em seu semblante enrugado. Ele não acreditava em nós. Aquele desgraçado conseguia ler a verdade.

— Nosso pai faleceu há seis meses. — Revelei, apostando que algumas informações pessoais poderiam surtir efeito positivo. — Saímos da tecelagem e viemos pra cá. Parece um lugar bom, de gente decente.

— E é. — Disse o velho, com os olhos firmes dentro dos meus. — Num sendo decente, costuma não durar muito por aqui não.

Ele fez uma pausa, me estudando.

— Vocês tem mãe viva?

— Nossa mãe está com Nossa Senhora há muitos anos, Seu Antônio. — Mauro encenou as lamúrias de sempre. — Estamos sozinhos, só com Deus de companhia! É uma tristeza que nenhum de nós dois seja casado.

Meu irmão quase não conseguia segurar a gargalhada na garganta quando dizia isso.

— Mas quem sabe conseguimos formar família com moças decentes por aqui. — Prosseguiu ele. — Crescer e multiplicar... É o que Deus manda, não é seu Antônio?

— Se o dotor diz.

O velho pacientemente apagou o cigarro em um cinzeiro já cheio de bitucas, com o olhar fixo no restinho de fumaça que subia discretamente. Me surpreendeu notar que, assim como o filho de seu Antônio, Mauro e eu estávamos presos na cena. Observávamos em silêncio os movimentos do velho índio.

— Meu irmão tem cinco mocinha em casa. — O cochicho dele soou rouco, como efeito de muitos anos de tabagismo. — Pra minha sorte eu tive mais rapaz do que moça. A gente fica pensando em que mão elas vão parar. Isso preocupa os pai e as mãe por toda a banda.

— Eu imagino, seu Antônio. — Respondeu Mauro.

O velho o encarou com ligeira raiva estampada no rosto.

— Não imagina não.

Diacho! Como eu gostava daquele velho. Era difícil encontrar alguém que tratasse meu irmão com tamanho desprezo.

O sabido lavrador só se tornou mais maleável quando enumeramos os tantos serviços que estávamos precisando na chácara. Ele tinha ainda todos os cinco filhos em casa e precisava colocá-los para trabalhar.

— Os meninos vão lá amanhã mesmo se os doutor quiser. A Cida e a Rosa pode ajudar também.

— Rosa é sua filha, não é? — Perguntou Mauro, sempre sorrindo. — José Marcos comentou que o senhor teve apenas ela de filha.

— Minha única menina. É sim. — O velho pensou um pouco nisso e se virou para o filho, que estava de cócoras ao seu lado. — José, pede pra sua irmã passar um café. Ela deve tá na horta agora com a Cida. É bom que os doutor conhece elas duas.

Minutos depois, enquanto ainda conversávamos na varanda, apareceu uma senhora simpática carregando uma bandeja de broa de rapadura que grudava nos dentes. Atrás dela estava uma mocinha... Trazia na bandeja o café que ela mesma havia torrado, servido em canecas esmaltadas, quentes para diabo.

Quase não pude ver o seu rosto e pouco me interessou na época. Hoje, quando recordo esse dia, imagino que ela estava sorrindo para mim. Rosa sempre sorria para mim. Tenho certeza de que estava sorrindo. Ou talvez eu apenas esteja desejando que tenha sido dessa maneira.

Um único encontro, só um breve momento, e traçou toda a nossa vida. Foi quando começou tudo, toda essa desgraça.