A casa do velho Antônio era fria, pequena e muito velha. Aranhas grandes e inofensivas, que todos ali acreditavam dar azar matar, teciam teias ao redor das telhas de barro. Havia galinhas ciscando soltas pelo terreiro e cães caçadores presos à correntes em troncos de árvores, latindo e salivando, loucos para estraçalhar qualquer ser vivo.

O que mais chamou minha atenção, contudo, foi a cruz na parede. Em quase toda casa da área rural de Divino havia uma igual. Sempre no dia três de maio, dia de Santa Cruz, as pessoas ali enfeitavam cruzes de madeira com tiras coloridas de papel de seda, pendurando-as nas paredes das casas. A lenda dizia que isso protegia de desavenças familiares, das invasões e dos maus espíritos.

Todas essas cruzes foram o primeiro sinal. Estavam nas igrejas, nas curvas das estradas e mesmo nos casebres. Representavam o olho de Deus, mas também representavam a morte. Eu sabia que aquela terra me castigaria, mas que antes eu faria sangue verter por elas.

Enquanto tomávamos café, seu Antônio e o filho ouviram sons distantes que os meus ouvidos não tinham a mesma capacidade de captar. Segundo eles, alguém parecia estar subindo pela estrada à galope.

— O velho tem muito azar não acha? — Sussurrou Mauro quando seu Antônio e o filho se afastaram às pressas. — Teve só uma filha e tão feia! Parece uma freira carcomida.

— Que importa? — Respondi, distraído e desinteressado. — Debaixo das saias as moças são todas iguais.

Eu não havia realmente colocado os olhos em Rosa. Vi apenas seu vulto fantasmagórico passar entre nós carregando as bandejas para a cozinha.

— Ela é tão formosa, não acha, Rômulo? — Mauro debochou quando a garota retornou à varanda. — Deve ter um monte de pretendente, não é, Rosa?

A menina forçou um sorriso triste e inocente. Esperamos que ela respondesse, mas ela continuou a ajeitar as canecas na bandeja. A observei por um minuto: Ela era ágil, mas parecia doente, com os olhos fundos e os lábios sem cor. As bochechas não tinham a gordura que se espera ver em uma moça jovem e ela tinha sardas escuras nas maçãs do rosto. Usava os vestidos da mãe, que ficavam largos e compridos nela, além de um lenço preso na cabeça, sendo impossível saber sequer como era seu cabelo.

— Cês quer mais café? — Ofereceu ela, com voz gentil.

— Servido por você, com certeza. — Respondeu Mauro, com a ruindade clara em cada sílaba. — Bom que, enquanto não se casa, pode ajudar sua mãe, não é? Me diga, acha que é dela que você puxou toda essa boniteza?

Me virei furioso para Mauro. Não estávamos em condições de arranjar confusão tão cedo, muito menos com aquela família.

— Meu pai é família de puri e minha mãe família de purtuguês. — Respondeu ela, quase sussurrando. — Eu queria ser parecida com a gente do meu pai, mas Deus quis eu assim.

— Mas você é de uma boniteza, só! Não acha irmão?

Eu não respondi.

Rosa já estava de saída quando uma das canecas caiu aos pés de Mauro e ela se abaixou rapidamente para recolher. Naquele instante, meu endiabrado irmão fez que afastava as botas imundas para em seguida pisar nos fracos dedos da menina.

— Oh, Jesus Cristo! Me desculpa! — Ele se levantou enquanto o rosto da garota se contorcia e ficava mais branco do que eu achava possível. — Só posso ter ficado tonto com sua formosura. Posso dar um beijo pra sarar?

Rosa foi depressa para dentro da cozinha e mal tive tempo de rosnar para Mauro todos os palavrões que me vieram à mente, pois José Marcos e o pai voltaram no mesmo minuto. Os dois quase tropeçaram na garota, mas não notaram nada. Meu irmão ainda estava se recompondo da risada quando vimos as expressões ansiosas dos dois.

— Está vindo alguém mesmo, seu Antônio? — Perguntei, tentando disfarçar a situação.

— Logo nós vai saber quem é. — Disse o velho, como se fosse óbvio. — Mas, notícia boa num é, não... Ninguém sai de galope assim num domingo pra dar notícia boa.

Apenas seu Antônio, a mulher e os caçulas estavam em casa naquele dia. Dois dos filhos mais velhos estavam na casa das namoradas, enquanto que o mais novo dos três rodava a região à cavalo, gastando as economias em cachaça e sinuca.

— Pai! Mãe! Rosa! — A notícia ruim havia chegado.

Todos os três saíram correndo para o terreiro. Os gritos eram de Elias, o filho mais velho que chegava às pressas à cavalo. Era um rapaz moreno e alto, de semblante judiado, muito comum a todo primogênito daquela época. Ficamos um pouco à distância, observando a confusão. O velho não se abalou nem um pouco com a chegada do filho e esperou que viesse a ele.

— O tio Mudoca enfiou bala na cabeça, pai! — Disse Elias, retirando o chapéu da cabeça. Seus olhos estavam arregalados. — A tia num acredita, acha que mataro ele!

— Meu Jesus! — Exclamou Cida, ficando trêmula na mesma hora. Ela era uma velha bondosa, mas fraca e de mente débil. Mudoca era casado com sua irmã mais nova e ela nunca teve nada o que reclamar dele.

— Me dá o cavalo. — Ordenou o velho índio, sem mostrar qualquer emoção. — Cela a égua e vem depois de mim.

— Não, mas não precisa! — Mauro estava em êxtase ao chegar perto deles. — Nós podemos levar vocês! — Meu irmão era fascinado por suicídios.

Elias nos encarou com a mesma desconfiança que o irmão mais novo havia nos encarado mais cedo na praça da matriz. Mas ele era um homem e não um menino, portanto, nos cumprimentou com cordialidade.

— Mas cês deve ter muita coisa pra fazer. — Respondeu ele, da forma como havia sido educado desde criança. — A gente pode ir de cavalo.

— Uai! — Ralhou o pai. — Se os dotor quer ajudar, deixa ajudar, meu fio! Nós não tá em condição de fazer recusa! — E para nossa surpresa, seu Antônio se virou para Rosa. — Venha, fia, o José Marcos vai ficar com a sua mãe! Cê vem com o seu pai.

Mauro não precisou dirigir por muito tempo. O casebre ficava há poucos minutos, no meio de um pasto. Logo descobri que os fazendeiros divinenses faziam casas para os meeiros de forma estratégica, apenas em locais em que pudessem ser vigiadas do alto, assim sabiam a que horas seus empregados iam e voltavam do trabalho.

A viúva e os filhos haviam sido levados por vizinhos solidários, mas alguns peões curiosos estavam ali, com as mãos na cintura, chapéus na cabeça e botinas cheias de barro. Falavam alto, lamentavam e faziam seu próprio tribunal.

Rosa passou sorrateiramente entre eles e entrou na casa antes mesmo do pai. Eu esperei ouvir um grito agudo de mulher, mas o silêncio perdurou. Os homens da família logo entraram atrás dela e nós os seguimos. Encontramos Rosa ajoelhada ao lado do corpo, olhando de perto, sentindo o cheiro do ambiente. Parecia acostumada àquilo.

— Não tem mais de três hora, não. — A menina disse, esfregando o sangue com as pontas dos dedos. Ela não se lamentava pelo tio.

Seu Mudoca era um homem magro, de cabelos encaracolados e brancos, de pele lívida castigada de sol. Ele estava caído de costas ao lado do fogão de lenha, com os olhos fixos nas telhas de barro acima dele. A bala havia entrado logo acima do ouvido direito e o sangue escorrido estava sendo parcialmente absorvido pelo assoalho de tábuas enquanto o restante passava pelas gretas, caindo em gotas suaves na terra abaixo da casa. Todos ali baixaram o tom de voz e fizeram o sinal da cruz.

— Minha Nossa Senhora, o tio vai pro inferno. — Se lamentou Elias, se afastando horrorizado. — Deus, tem misericórdia! Tem misericórdia!

Mauro não piscava, aquilo era o paraíso para ele.

— O senhor devia falar com o padre Cesário, pai. — Disse a menina, se levantando. — O pessoal da igreja vai dizer que o tio Mudoca nem merece missa, que nem merece ser enterrado com os outro.

— Se ele tirou a vida e deixou mulher e filho pequeno, ele não merece mesmo! — Comentou Mauro, intrometendo-se em assuntos alheios.

— Ele não fez isso não, dotor. — Rosa baixou os olhos e sua voz era trêmula ao se dirigir a Mauro, mas ela parecia segura do que dizia.

— E como você sabe? — Desafiou ele, mas mantendo o tom cortês por conta dos homens ao redor.

— Num é difícil de saber, dotor. O tio Mudoca fazia tudo com a mão esquerda. — Rosa explicou calmamente e de forma clara. — Foi por isso que ele fugiu da escola com nove ano. Ele contava que a professora arrebentou as mão dele com a palmatória pra fazer ele parar de pegar no lápis com a mão esquerda. Dizia pra ele que era coisa do bicho ruim.

— E o que é que tem isso? — Meu irmão continuava com seu olhar interrogativo para ela.

— O dotor pode ver que a bala entrou do lado direito da cabeça dele e, como eu disse, o meu tio era canhoto. — Continuou a menina, dessa vez olhando fixamente para meu irmão. Ela havia notado que era mais esperta que ele. — E tem o caso de olhar que dois dedo da mão direita dele num dobrava. Num tinha como ele ter atirado, nem com a esquerda, nem com a direita, dotor.

— De vera. — Seu Antônio franziu o cenho e balançou a cabeça com pena. — O Mudoca cacetou os dedo da mão direita com marreta quando era mais novo. Três dedo da mão era quente e dois era frio. A Rosa tá certa. Ele num atirou na própria cabeça não.

Mauro ficou sério, observando Rosa de uma forma que nunca o vi observar ninguém. Não a via como uma mulher, muito menos como igual. Ele a via como uma ameaça.

— A filha do senhor é esperta. — Comentei com seu Antônio ao sairmos da casa.

— Gente esperta é gente que faz mardade com os outro. — Censurou ele. — A Rosa é ativa e põe sentido nas coisa. Aprendeu a falar mais cedo que todo menino dessa varge e faz conta de cabeça mais ligeira que eu. Ela é uma bênça. Cuida mais de nós do que nós dela. Meus quatro menino junto não dá metade da minha única menina.

Como eu já esperava, Mauro comentou sobre Rosa ao voltarmos para casa.

— Eu tenho um plano pra essa garota.