Durante as quase duas semanas seguintes, Mauro tentou persuadir os membros da família a falar sob suas suspeitas. Todos eles pareciam saber quem era o assassino, mas naquela época, e mesmo agora, Divino não é um lugar em que as pessoas abram a boca para denunciar um crime. Não foi difícil, no entanto, descobrir qual era a suspeita deles.

Estávamos passando à cavalo ao redor da chácara certo dia, mostrando aos filhos de seu Antônio a situação da propriedade quando, em determinado momento, meus ouvidos foram atraídos por uma convera.

— O seu Juca nem foi na missa do sétimo dia do tio Mudoca, cê viu? — Comentou José Marcos.

— E ia pra quê, rapaz? — Respondeu Elias, com a voz bruta do pai. — A tia Nenê merecia pelo menos esse sussego na hora da morte do tio.

Os outros dois irmãos, Beto e Carlos, estavam distraídos com a conversa fiada de Mauro. Diferente de mim, meu irmão conseguia fazer com que as pessoas gostassem dele naturalmente. Normalmente o respeito que me era dirigido derivava do medo que o meu silêncio e a minha cara de poucos amigos produzia nas pessoas.

— O tio Mudoca tinha que ter metido chumbo no barrigudo. — Cochichou o garoto com raiva, recebendo um olhar feroz do irmão.

— Deixa o pai ouvir cê falando assim. Vai te separ o reio!

Mauro não ouviu a conversa e, a bem da verdade, pouco se deteve naquele caso do assassinato. Ele só falava em Rosa, passava os dias vigiando a menina, a cada instante mais atento à esperteza dela.

— Vi o garoto José falando de nós pra Rosa. — Meu irmão comentou naquela manhã quando voltávamos da cidade, após comprar alguns materiais para consertar as cercas. — A menina pareceu desconfiada. Não entendeu pra quê viemos pra cá. Sorte que ele não deu atenção.

— O garoto gosta de nós.

— É, mas a menina não. A freirinha carcomida foge de mim. Sempre que eu tento me aproximar, ela dá um jeito de arrumar outra coisa pra fazer. — O demônio se virou para me dar o ultimato. — Vai ter que ser você, irmão. Vai ter que falar com ela.

Quase no fim da tarde, Rosa entrou na cozinha e não disfarçou a surpresa ao me ver sentado à mesa. Vinha trazendo lenha do terreiro para acender o fogo e logo começou a fazer o jantar. Durante todos aqueles dias ela e a mãe revezavam no trabalho na chácara.

— Acabei de coar o café, dotor. Aceita?

— Um cafezinho é sempre bom.

Ela estava mais corada naquele dia, mas seguia abatida, estranha...

— Deve ser ruim ser só uma filha em casa, não é? — Perguntei quando ela colocou a caneca de café preto à minha frente.

Rosa pareceu surpresa por eu lhe dirigir a palavra. Eu mesmo estava. Não achava nem um pouco estimulante a conversa com mulheres.

— Não, dotor, num fico triste, não. Eu fico alegre quando vejo pouca menina nas família.

Franzi o cenho, estranhando aquela resposta.

— Os homens são melhores na sua opinião?

Pude ver seu perfil à frente do fogo enquanto ajeitava os pedaços de madeira pelo buraco do fogão à lenha. Ela estava sorrindo discretamente.

— Justo o contrário, dotor. Por isso é mió que as menina não venha ao mundo.

Como um homem que havia crescido entre homens, e para o qual uma mulher se resumia ao que tinha entre as pernas, eu não compreendi toda imensidão do que ela estava me dizendo.

— Você foi pra escola, Rosa? — Perguntei, impaciente.

— Depois do segundo ano a minha mãe me tirou pra eu trabalhar. — Ela respondeu baixinho. — E o dotor? Parece ser estudado.

— Eu fui até onde era possível. — Mentira. — Mas tive patrões que me ensinaram muito mais do que a escola. — Verdade.

Ela colocou a panela de ferro no fogão cheio de brasas e começou a refogar o arroz.

— Se quiser eu posso te ensinar a ler e escrever, Rosa.

Ela se virou pensativa, mas se recompôs rápido.

— Carece não, dotor. Tanta coisa pro dotor preocupar...

— Não vai ser nada demais.

Me levantei da cadeira e fui até ela, me aproximando devagar como se Rosa fosse uma ave que levantaria voo assustada. Se eu queria que o plano de Mauro desse certo, precisava ganhar a confiança dela.

— Não quero te fazer nenhum mal, menina. — Busquei soar o mais agradável possível, apesar de meu desprezo. — Vi que você é muito mais inteligente do que seus irmãos, do que sua mãe e até seu pai! Posso falar com seu Antônio e explicar que quero ensinar você... e o José Marcos também.

Rosa parou e me deu um sorriso antes de voltar ao trabalho.

— Ah, dotor, vou agradecer demais... Eu trabalhei na casa de três professora. Quando eu limpava, eu aproveitava pra ler as revista, os livrinho e tudo que elas tinha. Eu sei ler, escrever e fazer conta, sei as capital dos estado e do Brasil, sei número romano, sei até o nome dos oceano e de algumas constelação do céu. Eu costumava até ensinar o catecismo pras criança... Eu falo errado, é verdade, mas nessas banda a gente tudo fala assim, mas eu conheço as palavra certa. Mas, se o dotor quer ensinar o Zezim, vai ser bom demais! Eu tentei por tanto tempo e nunca consegui. Quem sabe o dotor consegue?

Engoli a palavra e voltei em silêncio para minha cadeira. Fiquei olhando para Rosa, satisfeita em seu trabalho mecânico. Desgraçada, pensei, ela não precisa de mim. Ela nunca precisou de nenhum de nós.

— Seu tio tinha problema com o patrão dele, não tinha? — Perguntei de supetão.

— É, a verdade é que eles não se bicavam, não. — Ela não tinha medo de falar. — Isso vem de muitos anos, dotor, desde que eu era pequena. Começou por causa de laranja!

Beberiquei meu café pelando enquanto Rosa cozinhava e me narrava o causo mais antigo do tio, o que toda a família conhecia, e que toda geração seguinte tomaria conhecimento. Ainda me lembro de sua voz suave e de seu rosto iluminado pelas chamas naquela cozinha escura.

Em volta da fazenda de seu Juca Moreira havia uma quantidade enorme de laranjeiras — Rosa narrou cada detalhe. No mês de agosto os galhos chegavam a baixar no chão com o peso de imensas frutas, tão amarelas e gordas que pareciam rachar no sol ou explodir de tão cheias. Mas os patrões não dividiam nada com ninguém. Os empregados tinham de capinar ao redor das árvores, sentindo o cheiro das laranjas que a patroa, dona Célia, descascava com um canivete e chupava na frente deles. Era uma senhora de uns cinquenta anos que andava com dificuldade por conta de um reumatismo antigo, mas seus cabelos ainda eram tão negros quanto diziam ser quando ela era moça. Não se via muito bem que a idade lhe levara a beleza, mas por maldade do tempo também deixara uma quantidade notável de mesquinharia.

— O senhor gosta de laranjas, seu Mudoca? — A patroa perguntou um dia ao encarangado lavrador.

— Ah, uma laranjinha é bão demais, dona Célia.

Ela apontou para a árvore.

— Então pode pegar.

Havia galhos e mais galhos de laranjas arrastando aos seus pés. Dava para encher balaios e mais balaios com centenas de frutas e ainda assim sobrariam muitas. Seu Mudoca pensou que talvez ela lhe arranjasse uma saca para levar para seus filhos pequenos. Com toda a certeza a meninada ficaria doida de alegria. Porém, ao retirar o canivete da cintura e levar a mão em uma fruta à sua frente, a patroa o chamou.

— Ei, seu Mudoca! O senhor pode pegar as lá do alto, as de baixo são pra mim, que não alcanço.

Seu Mudoca contava que olhou para cima, onde não havia quase nenhuma fruta, e viu que era alto o suficiente para lhe custar um tempo considerável para derrubar alguma. Mesmo assim estava se aprontando para subir quando a patroa voltou a interromper.

— Não, seu Mudoca, pode deixar, eu pego pro senhor.

A frágil mulher olhou em volta dos pés de laranjas e escolheu duas frutas pequenas com bicadas de passarinho. Apenas duas frutas, e furadas, quando havia centenas diante dos olhos dele. Perguntei a Rosa porque ela achava que a patroa fez isso e ela me respondeu simplesmente:

— Porque ela podia fazer, dotor.

Mas não custou muito e seu Mudoca teve uma ideia. Todos os domingos pela manhã os patrões saíam para a missa e o casarão deles ficava praticamente vazio. Em um desses domingos ele acordou seus dois meninos, que não tinham mais de dez anos na época, pegou três embornais de pano e uma sacola com ossos de boi. Os três caminharam pelo pasto infestado de bichos de pé e carrapatos até chegar à grande fazenda. Ligeiros como fuinhas eles entraram e, antes do primeiro rosnado dos cães, atiraram os ossos de boi no terreiro.

Eles encheram os embornais com as mais lindas laranjas. Mesmo com medo de ser descoberto, a última coisa com que Mudoca se importava naquele momento, era com o futuro. Sua barriga roncava e suas tripas se contorciam de raiva. O presente é que precisava ser resolvido. Há anos não podia chupar uma laranja e sentia uma vontade imensa de dar um tiro no meio da testa dos patrões, que se faziam de bons na igreja, mas não valiam nem mesmo a merda de seus cães sarnentos.

Rosa disse que sua tia Nenê gargalhou alto ao ver o marido e os filhos pequenos chegarem vermelhos e exaustos de seu feito. Eles passaram para trás da casa e cavaram um buraco no chão, onde esconderam as frutas. Os meninos ainda colocaram uma camada de terra, madeira e pedras por cima. Era possível que os patrões vigiassem a frente da casa, mas não os fundos.

— Se, de todo jeito, os capeta descobrir que roubaro as laranja deles, num vai ter como provar que é nós.

As crianças se juntaram em volta do buraco, cortando as laranjas em quatro gomos, sem paciência para descascar. O doce suco descia por suas gargantas amargas e nutria seus corpos lombriguentos. O bagaço era comida, assim como o arroz e o feijão.

Então, naquele ano, mesmo que a patroa chupasse laranjas na frente deles, ninguém se ressentia. Nos dois anos seguintes, sempre na mesma época, pai e filhos executavam o plano sem nunca serem descobertos.

No entanto, certa vez, lamentou Rosa, o fazendeiro chamou todos os empregados para capinar debaixo dos pomares. Seu tio Mudoca trabalhou o dia todo observando as laranjas como sempre fazia, cheio de desejo, depois pousou seus olhos em dona Célia, vendo que a mulher estava ainda mais moribunda do que nunca. Não havia chupado nem uma única fruta naquele ano.

— Cês pode pegar os balaio. — Ordenou o patrão, avaliando o trabalho deles com um nariz torto e pousando a mão na barriga protuberante. — Descarrega os pé de laranja neles. Pode tirar tudo.

Esperançosos, os empregados encheram todos os balaios, felizes de poder levar as frutas para suas crianças e mulheres. Mas, assim que os galhos estavam vazios, o fazendeiro voltou retirando seu imenso cachimbo na boca e apontando para o chão.

— Agora cês cava uma vala bem grande aqui.

Imaginando o que viria, meu avô e os outros empregados se entreolharam cautelosos, cheios de tristeza.

Começaram a cavar a terra sob as árvores até o buraco chegar ao tamanho de uma cova de defunto. Sete palmos. Depois, sob as ordens do fazendeiro, despejaram as enormes e doces laranjas dos balaios lá dentro, cobrindo-as em seguida com a terra que haviam retirado do chão.

Voltaram para seus casebres com as mãos vazias e calejadas, o coração áspero e a barriga roncando com ferocidade. O mal, Rosa me disse, não poderia estar no inferno.