a Flor e o Vento
5 A encomenda
Se eu bater vinte e duas vezes meu calcanhar direito no chão... e depois o esquerdo... e em seguida contar as vinte e duas barras da cela vinte e duas vezes... então pode ser que eu consiga dormir por uma hora... ou duas horas.... é um alívio breve... sempre desperto desorientado, com o coração à galope, sem notar que estou gritando o nome dela...
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Naquele ano, ter uma televisão de tubo, com imagens em preto e branco, era um grande luxo em qualquer casa. Raras pessoas possuíam e as que possuíam, sofriam com a quantidade de visitas e de gente pendurada em suas janelas, ansiosas por assistir Os Trapalhões.
No praça da Matriz de Divino os comerciantes tiveram uma ideia que agradou a todo mundo. Juntaram dinheiro e compraram uma televisão para deixar no alto de uma plataforma no meio da praça. Cada comércio mandou confeccionar uma placa e armou ao redor dela com seu anúncio e os cidadãos de todas as idades se amontoavam para assistir as novelas durante a noite.
— A gente devia comprar uma televisão, irmão. A Rosa iria gostar. Parece que você e ela tem se dado bem.
Meu irmão pôs o braço na janela da caminhonete e soprou a fumaça do cigarro para fora, ciente de que eu odiava aquele fedor de morte. Estava distraído com as pessoas amontoadas na praça quando fez o contorno.
— A eguinha tá mais mansa. — Admiti, contrafeito e irritado com o trabalho que ele me deu. — Mas não tenho tido sorte ainda.
— É até bom que seja feia, não é? — Mauro se virou com malícia nos olhos. — Pensa comigo. Imagina se fosse bonita. Fica direto na chácara. Um de nós iria acabar levando ela pro mato.
Sua voz debochada era também satisfeita. Eu estava chegando perto da garota à pedido dele, mas Mauro não deixaria de caçoar.
— Provavelmente você levaria. Eu prefiro fazer isso na cama. Tem lugar que eu não tenho vontade nenhuma de ter carrapato.
Trocamos uma meia dúzia de palavras sujas e a gargalhada de Mauro soou alta quando chegamos ao Morro do Sabão, uma íngreme subida que nos levaria à segunda parte da cidade.
Divino tinha dois locais mais movimentados, sendo eles a Praça da Matriz e a Rua Nova, partes nas quais se situavam os principais comércios e setores públicos. Nosso destino naquele dia era o Bar do Adolfo Ruiz, que ficava na Rua Nova, em uma avenida com muitos bares e famosa por brigas e assassinatos.
Entramos quando ainda havia pouca gente, mas escolhemos, como sempre, a mesa mais afastada.
— Boa tarde pros doutor! — Sorriu Martinha ao depositar duas garrafas na mesa, dois copos grandes e um guardanapo dobrado. Eu estava me acostumando a ser chamado de doutor, mesmo que aquilo não fizesse o menor sentido na minha cabeça. — Hoje tem torresmo, cês vão querer?
— Filha, eu como tudo que você me oferecer a ainda lambo os beiços. — Respondeu Mauro, deixando a garota sem voz ao encará-la sem piscar.
— Homem, não vá se meter com a filha do seu Adolfo. — O censurei enquanto a menina se afastava, mas não consegui evitar o ar de riso. — O velho vai te furar todo de bala.
— Uma noite comigo e essa guria fica uma semana sem conseguir andar, quem dirá rebolar desse jeito. — Ele delirava enquanto a observava passar de mesa em mesa. — Olha essa diaba como faz, olha só! O pai dela que não coloque uma rédea nessa potranca pra ver o que acontece. Fica usando a filha pra atrair cliente, vai atrair outra coisa.
— Potranca? — Aquilo foi demais de se ouvir. — Que diacho de língua é essa que você tá aprendendo?
— Vi uns meninos rindo e chamando a Martinha assim. Mas olha só se não combina com ela, olha só!
Dei uma bela olhada nela. A garota era perdição certa. Carregava alguns traços ciganos da mãe, como a pele clara e o cabelo bem escuro e cheio, que passava do meio das costas. Mauro não conseguia tirar os olhos dela desde que chegamos. Ainda que ele levasse mais mulheres para a cama do que é humanamente possível, nunca havia deixado de desejá-la.
Mesmo próximo dos trinta, meu irmão adorava as moças abaixo dos vinte. Sua preferência era por moças virgens e se irritava quando era enganado por elas. Mas o pai de Martinha era alguém com quem não se brincava. Adolfo Ruiz não era matador, mas era conhecido por aleijar seus inimigos. Tinha punhos fortes e uma mente limitada que o deixava sem freios em momentos de briga.
— É o Carlinhos do Vicente. — Sussurrei o nome que estava escrito no guardanapo que a menina havia deixado sobre a mesa.
— Vai dizer que não gosta dela, irmão? — Mauro continuava a observar o movimento das saias rodadas da moça, mas eu sabia que tinha me ouvido. — Imagina montar naquela pele quente e macia a noite toda.
— Não chego nem perto. — Sussurrei, ainda que meu sussurro fosse como um trovão. — Tenho apreço à vida, Mauro.
Ele deu um suspiro longo e retirou com pesar os olhos de Martinha. Sabia que eu estava certo, ainda que jamais admitisse.
— É ele então, o menino do Vicente. Vamos esperar por ele hoje?
Apertei automaticamente a mandíbula e as palavras saíram espremidas pelo ódio.
— Acho que não precisa perguntar.
— Certo então. — Mauro sorriu, satisfeito. — Vamos conversar com o garoto.
Tomamos nossas cervejas e comemos os aperitivos que Martinha havia nos trazido enquanto esperávamos o bar lotar. De vez em quando algum peão vinha nos falar de cavalos, de colheita e plantio, mas nada que se sustentava por muito tempo. Quando, por volta da meia noite os homens pararam de jogar sinuca e os gritos ficaram mais altos e incompreensíveis, Mauro e eu nos preparamos para sair.
Era noite de lua cheia e o caminho de volta estava claro. Entramos na caminhonete e pegamos o caminho para os Viletes como em qualquer outro dia. Estacionei na metade do percurso e desci para esticar as costas. Mauro abriu a porta do motorista e acendeu mais um cigarro. Não havia nem uma viva alma naquele pedaço de mundo.
Não foi preciso esperar muito. Antes das duas da manhã ele chegou.
— Eu falo ou você fala? — Mauro jogou o resto do cigarro no chão e pulou para a estrada.
— Você fala. Mas não demora, ou eu vou interromper.
— Tenha paciência, eu gosto de bater um papo!
— Resume então, diacho!
Coloquei as mãos nos bolsos e baixei um pouco o chapéu sobre o rosto enquanto esperava pacientemente pela chegada de Carlinhos. Em instantes ouvi o bater lendo dos cascos da égua castanha cada vez mais próximos. O cavaleiro estava muito bêbado para segurar as rédeas e o animal o trazia nos ombros como uma esposa resignada que recolhe o marido na sarjeta.
Quando nos avistou, à poucos passos, o rapaz inicialmente não nos reconheceu. Depois de alguns instantes, no entanto, abriu um sorriso e fechou os olhos. Seu corpo foi para frente e para trás em uma gargalhada muda.
— Os dois queria me dar um susto, né?
Ele tinha uma risada boa. Ela ainda está em minha mente, junto de outras vozes.
— É o Rômulo? E o Mauro? — Ele pareceu surpreso e feliz. — Eu conheço cês dois!
— Claro que conhece. — Mauro foi andando até ele e eu segui atrás. — Você não tem idade pra sair sozinho a essa hora, tem?
— Macho não tem medo de andar de madrugada, não, peão!
Ver aquele sujeitinho pegar nas bolas para dar ênfase à sua fala, só fez arrancar risos de Mauro. Carlinhos era um garoto de dezesseis anos, mas se imaginava um homem.
— Você é realmente muito macho. — Mauro aproveitava o momento. — Sabemos muitas histórias suas. Infelizmente nenhuma boa. A sua mãe deve estar preocupada com o que você vai virar, não acha?
— Pode ir pro inferno, você e a puta da minha mãe! — A voz dele se enrolou e o garoto pareceu cochilar em cima da cela.
Antes que Mauro prosseguisse com a conversa, no entanto, eu me adiantei e arranquei o garoto da montaria. Ele não fez força para se erguer do chão. Quando vi o brilho da lua refletir um sorriso abusado em sua cara, dei um forte chute em sua boca. Depois do primeiro, foi difícil parar. Ouvir os ossos se partindo e os dentes trincando me dava certo prazer desde a adolescência.
Carlinhos se encolheu como um feto e gemeu alguns sons incompreensíveis enquanto a urina escorria de suas calças e inundava a terra seca da estrada. Fiz questão de espancá-lo por alguns bons minutos antes de permitir que Mauro acertasse um tiro em sua testa. O padrinho do Luizinho ficaria satisfeito ao saber que a besta que sodomizou seu afilhado de cinco anos tinha sofrido bastante antes de morrer.
— Pagaram três mil e quinhentos por isso? — Mauro cuspiu sobre o corpo finalmente inerte do garoto. — Essa gente mata porco com machado e acha uma coisa assim difícil. Eu tenho muito mais apreço por um suíno, você não?
Limpei o suor da testa e senti uma onda de energia revigorante circular por meu corpo.
— Um porco não faz o que esse desgraçado fez com aqueles meninos no mato! Um porco não desmaia a mãe à porretada!
— Não se preocupe que esse agora não faz mais nada, irmão. Vem, vamos embora.
Mauro abriu a porta da caminhonete e eu segui ao seu lado. Deixamos o cadáver esfriando sob a luz da lua e seguimos para a chácara.
Dois ou três dias depois, quando passamos ali à cavalo, havia uma cruz fincada no barranco onde o corpo foi encontrado. Estava enfeitada com fotos, fitas coloridas, terços e velas. Desci do cavalo e meu irmão me acompanhou. Retiramos o chapéu da cabeça e fizemos o sinal da cruz.
— Descanse em paz, guri. — Disse Mauro, com os cantos da boca voltados para cima. Era impossível saber o que ele sentia, mas eu penso que não sentia nada.
— Que o diabo o tenha. — Coloquei o chapéu de volta na cabeça e dei as costas à cena. — E que Divino descanse.
De todas as lembranças colocadas na beira da estrada, até o fim do mês, sobrou apenas a cruz de madeira, coberta a cada dia por mais camadas de poeira. Era apenas mais uma cruz entre as dezenas de cruzes sem nome espalhadas por aqueles caminhos tortuosos.
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