a Flor e o Vento
6 O nascer de um assassino
Ninguém começa a matar por curiosidade. É o que muitos ainda pensam, não é? No entanto, eu cresci acompanhando meu irmão em tudo que ele fazia e ninguém tinha tamanha curiosidade sobre a morte como ele. Mauro era obcecado por ver o processo da asfixia, ter a sensação de esganar, de ver um corpo afogado perdendo o ar e o fogo queimando a pele. Ele nunca me pareceu cruel por isso. Naquela idade eu pensava que ele era curioso e nada mais. Quando nossa mãe morreu e nosso pai se afundou no álcool, ele se tornou meu pai e minha mãe, e eu me tornei a própria sombra dele.
Mauro era endiabrado desde pequeno e seu hábito de queimar coisas lhe rendia boas surras de nosso pai. Eu não era de aprontar ou sequer de brincar, mas apanhava muito por estar sempre ao lado dele. A primeira vez que cometemos um crime de verdade foi em 1971, quando morávamos no Mato Grosso, em uma cidadezinha tão pequena quanto Divino. Mesmo depois de tantos anos, ainda recordo o cheiro da carne e da madeira transformada em cinzas.
Tudo começou com um segredo dos nossos patrões. Meu irmão foi quem o descobriu primeiro. Nós dois estávamos sempre juntos, caçando por aqueles matos, mas pela noite Mauro vivia enfiando o nariz aonde não era chamado. Era dessa maneira que descobria todos os segredos da região.
— Tem uma menina amarrada no galpão. — Me contou ele certo dia.
— Que menina?
— Uma negrinha. A patroa que colocou ela lá. Veio pra cá tem um mês, mas num trabalha direito, é preguiçosa. Não aguenta carregar os balde de água e nem cortar a lenha...
Os patrões eram um casal de meia idade e tinham três filhos militares. Nosso pai teve a permissão de fazer um barraco de pau a pique naquelas terras em troca de trabalho. Cuidávamos do gado principalmente, mas para comer tínhamos que caçar e pescar.
— Mentira sua. — Desafiei. Ele era muito mentiroso.
— Não acredita? Vem que eu te mostro!
Eu demorei a entender o que estava vendo na noite em que fui até lá com Mauro e olhei pela fresta entre as tábuas do galpão. De cara pensei que fosse um bicho, mas era mesmo uma menina com uma corda no pé, amarrada à parede. Tinha a pele escura e os cabelos crespos. Estava deitada no meio da palha, enrolada em trapos, em meio a excrementos, coberta de marcas roxas de espancamentos e mordidas de rato.
— Os patrões soltam ela de vez em quando. — Contou Mauro, sem qualquer emoção. — Mas ela sempre apronta de novo e volta pra cá.
Aquilo não saiu do meu pensamento, então comecei a ir lá todas as tardes para vê-la e passar comida para ela pelas frestas das tábuas. Era como alimentar um passarinho na gaiola que nunca engordava r nunca crescia. Ela tinha olhos de jabuticaba, arregalados e muito vivos, um rosto pequeno e manso. Não falava nunca, mas eu também não fazia questão. Quase sempre apenas colocava meus dedos pelo buraco e ela deitava a cabeça neles e cochilava até a tarde virar noite.
Em um dia, no fim da tarde, passei lá para ver a menina como sempre, mas o patrão estava dando passos pesados rumo ao galpão e precisei me esconder. Ele estava demorando lá dentro, então me arrastei por trás das árvores até lá. O que eu vi naquele dia foi sangue e lágrimas, mas ela não gritou nem uma única vez.
— Se quiser, eu te ajudo a botar fogo na casa dele. — Mauro propôs quando me viu chegar tão bravo. — Aí você pode soltar ela.
— Só dizer quando!
Os olhos do meu irmão brilharam com a minha resposta. Creio que ele não pensou que eu aceitaria, mas logo pareceu orgulhoso.
Éramos garotos e não esperamos ou planejamos qualquer coisa. Naquele mesmo dia, enquanto os patrões dormiam, Mauro roubou querosene e ateou fogo pela porta da frente. Enquanto isso eu fui soltar a menina do galpão cortando a corda com um canivete. Ela não ficou assustada ao me ver. Não estava olhando para mim quando a peguei no colo e sequer fez barulho quando saímos correndo.
Ao longe vi a silhueta de Mauro, estático em frente à casa em chamas. Ele abria os braços para o calor e ria enquanto as chamas subiam.
— Vou te fazer uma boneca! — Eu corri para a floresta com ela no colo, deixando a madrugada me engolir. — E te levar pra andar de cavalo comigo.
As lágrimas da menina desciam quentes em meu ombro, mas som algum saía de sua boca. Nunca descobri quantos anos ela tinha, mas era leve como uma palha e não aparentava ter mais de cinco ou seis.
— Matamos eles, você viu? Viu só? — Comecei a rir e os dedinhos dela agarraram minha camisa com força. Era o seu agradecimento.
Ela poderia viver com a gente ou eu faria para ela uma cabana no pasto, levaria comida e água todos os dias. Talvez encontrasse alguém na região que a adotasse. Eu era um garoto de doze anos e não havia pensado no que estava fazendo, apenas sabia que precisava tirá-la de lá. Eles não fariam mal àquela menina outra vez. Ela não era deles. Ela era minha!
Os galhos das árvores arranhavam meu rosto, mas eu continuava a me afundar no mato até despontar do outro lado, no pasto imenso e escuro. Nem meu pai, peão antigo, sabia tão bem quanto eu onde ficava os esconderijos das cobras.
— Aqui dá pra esconder!
Me sentei com ela debaixo de uma pedra grande onde costumava brincar com meu irmão. Nada vivia ali, exceto algumas lagartixas, mas eu estava com a arma do meu pai na cintura, para o caso de qualquer outra coisa viva aparecer.
A menininha agarrou meu pescoço com os braços que eram só ossos e assim ficou por muito tempo. Ela me lembrava a minha única irmã, Eva, que passou seus dias de doença abraçada comigo na cozinha de casa. Ela também era miúda e fraca daquele jeito. Eu a segurei no colo naquele inverno, enquanto ela se debatia com falta de ar. Meus pais não sabiam o que era aquilo, mas não demorou para que acabasse. Eu achei que ela tinha se curado ao senti-la tão quieta ao amanhecer, mas minha irmã tinha parado de respirar. Meu pai me bateu por horas seguidas quando a viu, enquanto minha mãe chorava baixo sobre o corpo de sua única filha.
Foi a primeira vez que alguém morreu na minha frente. Depois de Eva, todo filho que minha mãe paria morria antes do primeiro aniversário. Depois da última criança, foi a vez de minha mãe ir também.
Devo ter cochilado com as lembranças da minha irmã, pois despertei com o coração aos pulos ainda na madrugada escura.
— Alguém vem vindo atrás de nós. — Cochichei para a menina dormindo no meu colo e retirei a arma da cintura. Qualquer coisa que se mexesse iria tomar bala.
Meu pai havia colocado uma arma em minhas mãos pela primeira vez aos seis anos. Assim como havia ensinado meu irmão anteriormente, ele me passou cada passo do manuseio dela. Aos doze, graças à caça, eu já tinha uma mira melhor do que a dos dois.
A menina estava quieta, quente e trêmula, com as mãos encolhidas junto ao peito. Fechei os olhos e me encolhi com ela nos braços. A garrucha estava apontada para a escuridão silenciosa. Em poucos instantes comecei a ouvir o rosnado distante dos cães e o barulho das folhas secas quebradas por passos vagarosos. Se os animais nos achassem, arrancariam a nossa carne com os dentes.
— Vamos ter que fugir mais um pouco, tá? Continua quietinha.
Saímos do esconderijo e eu corri até encontrar um pequeno córrego. Entrei na água gelada com ela e, por sorte, a água estava rasa por causa da seca daquele ano. Atravessei para o outro lado e subi em uma árvore, equilibrando com dificuldade a menina semi desmaiada nos galhos acima e depois subindo atrás dela.
Quando estávamos no galho mais alto, entre as densas folhas, eu a coloquei junto de mim para que não caísse. Meu queixo estava batendo e minhas vísceras se contorciam. O frio que estava sentindo depois de atravessar o córrego ardia o meu corpo inteiro.
— Pode aparecer! Ninguém vai judiar de você não, garoto!
Em pouco tempo uma voz de homem soou ao longe. Eu não sabia quem era, mas ele não nos encontraria.
— Vou te fazer uma boneca! E te levar pra andar de cavalo comigo!
Ouvi os cães e ouvi a voz do homem se aproximando. Havia outros com tochas de fogo vasculhando o lugar. Os cães rosnavam mais perto. Eu senti medo. Ela era a única coisa bonita que eu tinha, meu único brinquedo, a primeira coisa viva que tenho certeza de ter amado depois de minha irmã.
— Vou te fazer uma boneca! E te levar pra andar de cavalo comigo!
Ouvi um estouro e despertei com o coração pulando, uma sensação gelada subindo pelas costas até os ouvidos. Abri os olhos. Eu havia dormido. O dia estava clareando e o sol ao longe despontava vermelho no crepúsculo. Tudo ocorreu em minha mente em poucos segundos. A sensação dos braços vazios e o som de um segundo estouro. Olhei para o chão e lá estava o corpinho dela, o rostinho virado para cima, os braços abertos e os dedinhos pequenos encolhidos. Ela havia caído dos meus braços depois que dormi. Despencou do alto da árvore. Estava morta. Os estouros vinham da espingarda de um homem de farda, mas ele não estava atirando para me matar.
— Achei que você deveria estar acordado pra ver isso. — O homem sorriu para mim e em seguida fez um sinal de cabeça para outros dois homens que vinham com ele. — Pode soltar.
Aqueles homens traziam quatro cães enormes na coleira. Ao comando do homem, as coleiras foram soltas e os animais voaram sobre o corpo da menina. Eu não me lembro de mais nada depois disso. Não me lembro de como desci daquela árvore, se foi por minha própria vontade ou se me derrubaram dela. Não me lembro sequer de como cheguei à casa daquele militar. Não me lembro de absolutamente nada que aconteceu naquele mês seguinte.
— Vou te ensinar a ser homem. — É tudo que me lembro de ouvir, dias e dias seguidos.
Aquele militar era amigo dos filhos do casal e nos ensinou a agradecer a ele por não ter nos matado como era a ordem. Meu irmão sempre agradecia, mas eu fiquei sem pronunciar uma única palavra por um ano inteiro. Na mão daquele militar, Mauro se tornou um habilidoso assassino. Eu me tornei um animal.
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