Zurezurê

8 Capítulo 8


Notas iniciais
Esse capítulo é a introdução para um arco.

Lição 8: Quando o Rei Vermelho retorna,

o jogo recomeça!

— Nós poderíamos ter morrido! — Watanuki reclamou. — Tch! Você é realmente maluca!

Eles haviam acabado de sair pelo telhado do Las Noches. O mago utilizava rajadas de vento que saiam de seus pés para impulsioná-los, dando a impressão de que estavam voando, quando na verdade estavam apenas sendo empurrados. Primeiramente iam por cima dos telhados em grande velocidade. O que importava era se afastar daquele lugar. Quando tomassem mais distância se enfiariam em um beco, e ai desapareceriam por completo no meio da escuridão noturna.

— Não me questione por isso. Você entrou na briga por livre e espontânea vontade, Wakizashi!

— É Watanuki! E o que teria acontecido se eu não tivesse entrado, hein? Você conseguiria parar?

Ebisu deu um longo suspiro. Ela ainda estava nos braços dele. Embora odiasse ser carregada, não havia nada que pudesse fazer. Havia machucado o pé quando Malik a prendeu. Não conseguiria andar. Por, ora, conteve-se em ficar nos braços dele e segurar a ponta da saia com ambas as mão para que o vento não a levantasse. Olhando para Watanuki podia-se afirmar que se ele visse a calcinha de uma garota, ficaria um tanto quanto envergonhado.

— Estava tudo sobre controle — ela respondeu.

— Difícil de acreditar. Você estava descontrolada!

— Não sabe o ódio que tenho dele. — As mãos de Ebisu apertaram o tecido da saia com força. — Ainda mais depois dele tentar me enganar com aquelas palavras podres. Como se o Kin pudesse ser um perigo para alguém.

— Eu não conheci o humano, mas sei um pouco sobre o Malik. Já o vi lutando, ele é imperdoável. Suas vítimas sempre acabam em pedaços. Não é normal alguém sobreviver. Eu mesmo só escapei com vida porque fui esperto. E também porque ele não foi atrás de mim. Mas por alguma razão ele não quer matá-la, mesmo depois do seu ataque.

— Por algum estranho motivo ele quer falar comigo e tentar me convencer que o Kin é uma péssima pessoa. Isso me irrita! Quem ele pensa que eu sou?! Ele acha que acreditarei em um assassino?

— Está ficando cada vez mais estranho. Ele deve estar tramando algo. Deve haver um motivo forte por trás disso. Por hora, não arranje mais problema. Estou exausto, preciso me recuperar... para continuar te tirando de confusões — dessa vez Watanuki soou bem-humorado.

Alguns segundos se passaram, Ebisu não respondeu.

— Ei, Ebisu o que foi? Ebisu? Quê?

Watanuki que esteve o tempo todo olhando para frente para não esbarrar em nada, resolveu olhar para a sua companheira. Ela estava dormindo, com a cabeça apoiada em seu peito. Desinibida de todo ódio e agressividade, ela descansava. Pela primeira vez ele conseguiu reparar nela com atenção. Foi a primeira vez que a viu com a guarda baixa, o que lhe deu uma forte vontade de protegê-la ainda mais. Watanuki observou como era belo o formato do seu rosto, as linhas da sua boca e tudo o mais. Um sorriso surgiu em sua face ao pensar que ela precisava dele, mesmo que negasse isso. Em silêncio e para si mesmo prometeu nunca mais sair do seu lado.

Malik, Dex, Juri e Shinji andavam pelas ruas da cidade mágica.

— Bem, parece que o jantar foi um desastre — Dexter comentou.

— Pelo menos comemos pudim — falou Shinji.

— É — Juri concordou.

— Pelo menos vocês! — Malik reclamou. — Não deixaram nada pra mim!

— Não se preocupe, haverão outros — Dex tentou consolá-lo.

— Estou aqui reclamando, mas nem mesmo isso melhoraria o meu humor. Vou encurtar a minha ida pra casa. Amanhã teremos trabalho a fazer. — Dito isso, Malik invocou uma porta mágica e passou por ela, entrando em seu quarto. Ela se dissipou como a anterior.

Na manhã seguinte todos os membros estavam reunidos na sala de estar. No local haviam dois sofás de três lugares, um estava de frente para o outro, entre eles havia uma pequena mesa de madeira. Malik estava sentado em um dos sofás com Juri à sua esquerda e Asuka à direita. No outro estava Shinji no meio, com Dex à sua esquerda e Hanako do outro lado.

— Onde vocês foram ontem a noite? — Malik inquiriu os três. — Demoraram pra voltar.

— Fomos buscar informações — Shinji explicou. — Você foi atacado, não podemos ficar de braços cruzados. — Shinji parecia irritado.

— E algum progresso foi feito? — o chefe perguntou.

— Claro — Dex respondeu. — Temos um nome. E um endereço. — Ele esboçou um sorriso.

— Como estou orgulhoso de vocês. Tem como ficar mais?

— Sim — Juri interveio. — Nós iremos trazê-la até aqui.

— Arrastaremos aquela vagabunda pelos cabelos — Hanako vociferou.

— Alguém buscará ela, mas será apenas Shinji e Asuka. O restante ficará na mansão.

— Por quê?! — Juri e Hanako perguntaram ao mesmo tempo.

— Porque vocês querem matá-la. No momento não quero que causem nenhum mal a ela.

— Mas, Malik! — Hanako tentou questionar.

— Eu não vou repetir — O mago das areias falou ao se levantar. — Shinji, Asuka, já podem ir.

— Ah, certo — Shinji falou ao se levantar vagarosamente. — Fazia tempo que não fazíamos uma missão juntos — comentou ao olhar para Asuka.

— Sim, vai ser divertido. — Ela sorriu para ele.

Os dois partiram em direção à rua.

— Dexter, quero falar com você — Malik falou ao se levantar e ir em direção ao escritório.

— Okay. Tudo bem — ele respondeu ao acompanhá-lo.

Hanako e Juri ficaram sozinhas na sala de estar, olhando para a parede.

— Mas que merda! — foi tudo que Hanako disse.

— Isso é nostálgico, né? — Shinji perguntou para a sua parceira, ao pararem em frente a porta da mansão.

— É um pouco. Me faz lembrar dos dias antes do Massacre, em que a gente saia direto pra fazer missões.

— Eu também me lembro disso... — Shinji estava perdido em pensamentos nostálgicos, de uma época em que era feliz. Foram três anos difíceis, mas aos poucos os dias estavam voltando a ser o que eram.

— Faz mais de três anos que não vemos o outro usando magia. Acho que não precisaremos usar hoje, mas se tivermos, quero que me surpreenda.

— Pode deixar. Você não perde por esperar.

— E nem você.

— Asuka. — Shinji havia avistado algo, seus olhos cintilavam. — Três anos atrás eu não tinha idade suficiente, mas agora eu já posso dirigir.

— Você está falando de.... não brinca!

— Eu tô falando sério! — Shinji riu e correu em direção ao objeto.

— Cara, eu nunca andei em uma dessas — Asuka comentou, com o mesmo brilho nos olhos que o companheiro.

— Eu já, elas são muito rápidas, mas essa daqui é do Malik. É a mais rápida de toda a Cidade Mágica.

— E nós podemos?

— Bom, claro que não.

— Nós devemos?

— Com certeza, não.

— E nós iremos?

— Mas é claro que sim! — Shinji disse com a alegria de uma criança.

O item em questão é uma moto. As motos do Mundo Mágico são incríveis. Elas possuem rodas que são pouco usadas. Todas possuem dois escapamentos de cada lado, que quando o motor é ligado, soltam uma densa fumaça negra repleta de faíscas. A mesma fumaça é solta pela roda dianteira. Ela possui todos os mecanismos para ignorar as leis da física e voar. Shinji não está empolgado pelo fato de que irá voar, mas sim, por voar em grande velocidade.

O motor trovejou ao ser ligado. Conforme o mago acelerava, mais fumaça e faíscas eram lançadas para trás. Asuka observava aquilo, admirada. A fumaça já havia tomado conta da parte inferior do veículo.

— Suba de uma vez! — disse Shinji. — E segure-se!

— Okay.

Asuka saltou no banco de trás e abraçou Shinji. Poucos instantes depois a moto arrancou. Ela andou sobre o solo menos de dez metros até que começou a subir pelos ares, deixando apenas um rastro de fumaça que de dissipava por completo poucos segundos depois. Eles estavam voando à 180 km/h. Os cabelos de Asuka esvoaçavam. Os dois gargalhavam com a adrenalina que sentiam.

— Economizaremos muito tempo, então vamos dar uma volta antes! — Shinji sugeriu e acelerou ainda mais a moto, que rasgava o ar.

Aos poucos a escuridão em que Ebisu se encontrava fora se dissipando. Após abrir os olhos e esfregá-los para afastar o sono, virou o rosto e viu Watanuki do outro lado do quarto, dormindo desajeitado no sofá. Ela não lembrava ao certo como havia parado lá, ao forçar a memória, lembrou-se que estava nos braços dele da última vez. Seu rosto corou, sua vergonha era evidente. Ela ainda estava com as mesmas roupas, só estava sem a sua jaqueta. Além de dormir em seus braços, ele tirou o seu casaco antes de botá-la na cama.

Então ela empurrou os lençóis com as pernas e o chamou:

— Ei, Watanuki!

Ele não ouviu. Ebisu o chamou por mais três vezes até que desistiu. Então foi até ele e começou a empurrá-lo com o pé, enquanto o chamava.

— Arrg! — ele gritou ao sentar-se com a mão no peito, em seguida olhou para a garota. — Que droga Ebisu! Pensei que estava tendo um terremoto, ou sendo atacado.

— Quem te atacaria? — Ela levantou uma sobrancelha.

— Não sei, talvez, quem sabe... a família Malik! — Watanuki se exaltou.

— Ah, mas se isso acontecer é só você jogar o seu ventinho neles, como na noite anterior — Ebisu ironizou, enquanto gesticulava.

— Espero que seu poder seja maior que o seu sarcasmo, para poder nos tirar dessa.

— Quer dizer que insistentemente você fica reclamando por eu tê-lo atacado, — Ebisu falou enquanto ia em direção a TV — mas se nega a deixar eu me virar sozinha? — Ela ligou o aparelho.

— É uma forma de ver os fatos.

— Isso é irritante. A guerra já começou. Ou você pula fora, ou terá que matar o Malik. Acredite, é melhor você pular fora.

— Eu vou... — Watanuki fora interrompido pelo som da televisão. Estava passando o jornal da manhã.

Parece que as coisas ficaram mais agitadas do que já estavam após o retorno do Rei Vermelho, foi o que disse. Malik mal retornou e já fora atacado duas vezes. A primeira foi no início da noite, enquanto ele se dirigia ao restaurante Las Noches. Os vinte magos que fizeram isso estão em pedaços e ainda espalhados pela rua. É melhor alguém fazer alguma coisa, porque já está começando a feder! O segundo ataque foi dentro do restaurante. Uma garota iniciou um ataque contra ele, que o atingiu e quebrou o seu braço. Entretanto os dois fugiram antes que as coisas ficassem mais sérias. Não troque de canal. Voltamos já com mais notícias!

— Agora todos sabem. Perfeito! — Watanuki resmungou ao se levantar.

— Não reclame. Pior seria se tivesse mostrado o nosso rosto.

— Eles não fizeram isso porque não são os maiores fãs do Rei Vermelho.

— Por mim tanto faz o motivo. Mas, Watanuki, eu quero te perguntar uma coisa.

— O quê? Pode falar.

Shinji estacionou a moto na rua em que ficava a casa onde Ebisu mora. Após desligar os motores, os dois ficaram sobre o veículo mais alguns minutos, apenas para recuperar o fôlego. Estavam agitados e com o coração disparado, a respiração ofegante.

— Precisamos fazer isso mais vezes — Shinji comentou.

— Dá próxima vez me avise com antecedência, para que eu possa prender os cabelos. — Asuka passava a mão pelos fios negros, tentando desembaraçá-los.

— Você não tem do que se queixar, fica bem até escabelada. — Shinji desceu da moto. — Agora vamos ao trabalho. — Um sorriso sádico iluminou o seu rosto.

— Sim, apenas não se empolgue muito. Okay?

Os enviados de Malik agora estavam em frente a porta da casa de Ebisu.

— Vamos ser rápidos — Shinji afirmou.

— Seja cuidadoso. Aquele cara pode estar com ela.

— Se ele estiver, melhor ainda. — Os olhos de Shinji assumiram uma expressão que demonstrava os seus desejos assassinos. — Poderemos matá-lo, afinal, Malik não tem nenhum interesse nele.

— Você não mudou nadinha — Asuka afirmou sorrindo.

— Watanuki, eu só queria saber... — Ebisu começou a dizer.

A porta da casa ficou em pedaços após um chute do mago. Shinji entrou correndo, Asuka o seguia de perto. Eles subiram as escadas e entraram no quarto. Para a sua infelicidade Watanuki e Ebisu não estavam lá.

— Eles não estão aqui — Shinji falou com um ar cético.

— Será que a informação estava correta? — Asuka perguntou ao parar em frente a uma escrivaninha.

— A informação era precisa.

— Então ela deve estar na casa dele. — Asuka pegou um porta-retratos, ela observou a foto em que Kin estava sorrindo. — Shinji, alguma vez você já parou para tentar entender o lado dela?

— Pra falar a verdade, não. — Ele sentou-se na cama, pois sabia que uma longa conversa se iniciaria. — Sou um assassino. Se eu parar pra pensar nesse tipo de coisa, ou enlouquecerei ou abandonarei a minha carreira.

— Eu concordo, mas não consigo evitar. Acho que o humano era tudo que ela tinha. Em outras palavras, essa garota perdeu tudo. Por isso o ódio que sente pelo Malik. Tem aquele cara que estava com ela, mas ela parece se importar apenas com a sua vingança e nada mais.

— Isso aqui é um jogo, Asuka. Alguém tem que perder para podermos vencer. Ela apenas decidiu estar do lado do rei errado. Malik faria qualquer coisa para proteger as pessoas. Tem coisas que ele gosta e outras que não. Eu arrisco de que isso é uma das coisas que o devoram por dentro. Não deve ser fácil tomar estas decisões, mas são decisões que precisam ser tomadas.

— Você tem razão. Isso precisou ser feito, não há espaço para lamentações. E já faz tanto tempo, mas, mesmo assim, ela não consegue esquecer...

— Por que você me trouxe para a sua casa? — Ebisu quis saber.

— Só pensei que seria mais difícil procurarem na minha casa do que na sua.

— E que garantia tem disso?

— Digamos que sou mais sociável do que você, e se alguém se aproximasse, eu seria avisado — Watanuki afirmou, confiante.

Um forte estrondo ecoou com uma força colossal. Uma construção teve uma de suas partes destruídas de dentro para fora, iniciando uma chuva de pequenas rochas, enquanto poeira invadia a cidade. Aterrorizadas, as pessoas pararam as suas atividades e observaram o acontecimento, tomando cuidado com as pedras. O tremor que essa explosão causou pôde ser sentido na casa de Watanuki, que ficava um pouco distante daquele local.

— Mas que droga foi essa? — Watanuki indagou ao correr junto de Ebisu até a janela.

— Houve um desmoronamento, aparentemente — Ebisu constatou.

— É o que parece, mas aquele lugar... não é lá que fica a Forgotten Souls?

— Sim. Por acaso acha que...?

Atenção! Notícia urgente!, falou o repórter. Um mago assassino conseguiu escapar da Forgotten Souls. O que parecia impossível, aconteceu! Nem mesmo aquele lugar abissal conseguiu conter o seu poder e loucura! Um aviso a todos, evitem sair de casa. Os Mage Hunters iniciarão uma busca. Qualquer um que andar pelas ruas pode se tornar alvo deste maníaco.

— Mais essa agora... — Watanuki reclamou.

Ebisu pegou a sua jaqueta que estava sobre o sofá e foi na direção das escadas.

— Ei, onde você pensa que vai? — Watanuki perguntou, ele sentiu medo da resposta que receberia.

— Não é óbvio? Eu vou atrás desse cara — declarou ao vestir a jaqueta.

— Por quê? Os Mage Hunters já estão cuidando disso. Por favor, não se envolva em problemas desnecessários.

— Watanuki, — Ebisu falou com firmeza — o que acontece se esse mago encontrar pessoas inocentes antes de ser pego?

— Bem, elas...

— Morrerão! Eu me nego a deixar que pessoas inocentes morram! Pode ser que o que farei seja uma coisa inútil, mas não posso ficar parada enquanto um louco tenta destruir a cidade que ele tanto amou!

— Então é assim que você pensa? — Watanuki estava um pouco assustado com a repentina mudança.

— Sim, é.

— Então eu irei com você. — Watanuki sorriu, confiante.

— Eu já esperava por isso. — Ebisu lançou-lhe um olhar de agradecimento antes de descer as escadas correndo.

— Quero aprender mais sobre essa sua filosofia de vida. — ele falou ao seguí-la. — Apenas prometa me contar mais sobre esse humano quando voltarmos.

— Você tem a minha palavra.

Ebisu abriu a porta. Os dois a atravessaram, indo rumo ao mago que poderia por um fim às suas vidas.

Notas finais
E se inicia o arco sobre o fugitivo da Forgotten Souls! Poderia ele destruir a Cidade Mágica? Descubra isso e muito mais nos próximos capítulos de Zurezurê!