Zurezurê

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Um pouco sobre o passado da Ebisu.

Lição 4: Quando os mortos se levantam,

é melhor você ter um bastão por perto.

— Droga, Ebisu, onde você estava? — perguntou o dono do restaurante ao ver a garota passando pela porta.

— Algumas coisas aconteceram, chefe — disse ela ao se aproximar do balcão de madeira em que ele estava apoiado com os cotovelos.

— Coisas sempre acontecem quando se trata de você — ele disse com cara de desânimo.

— O que posso fazer? É a vida — Ebisu deu de ombros, então sentou-se em uma cadeira que havia ali perto. O restaurante estava vazio.

— Mudando de assunto. Um dos meus clientes precisa de você.

— Huh? Por quê? — indagou ela ao erguer uma sobrancelha.

— Parece que eles vão se levantar.

— Tsc! De novo? — Ebisu se aborreceu. — Por que eles não ficam de uma vez por todas em suas covas?

— E como é que eu vou saber? Sou apenas o dono de um restaurante.

— Que é bem meia-boca, por sinal.

— Não esqueça que sou eu quem paga o seu salário — ele advertiu.

— Não esqueça que sou eu que segura as pontas por aqui — ela retrucou.

— Empate? — sugeriu o chefe.

— Empate.

— Ebisu, apenas tome cuidado... porque se você morrer eu não terei mais à quem pedir todo o tipo de coisas.

— Cruel — a garota falou ao encará-lo com os olhos semicerrados.

A dupla continuou conversando por mais alguns minutos, até que alguém bateu à porta da frente do restaurante, ignorando por completo a placa de “Estamos fechados! Caia fora!”.

— Droga, quem poderia ser? — indagou Ebisu. — Algumas pessoas dessa cidade não sabem ler. — Ela se levantou e andou lentamente em direção à entrada.

— Ah, deve ser um dos funcionários do meu cliente. Ele enviaria alguém para mostrar o caminho, eu quase esqueci de dizer.

— Isso não é um quase, você definitivamente esqueceu de dizer.

— E importa agora.

— Ah, que seja!

Ebisu abriu a porta. A luz dos sol adentrou ao local desenhando a sombra da silhueta de um homem no chão. Após os olhos dela se acostumarem com a luminosidade ela pôde ver aquele sorriso, que era apenas a segunda vez que via, mas já estava achando irritante. Aqueles olhos laranja escuro a encaravam com um brilho singular.

— Que tipo de stalker é você, watamote?

— Não sou um stalker! E é Watanuki! — ele falou exaltado, seu sorriso havia sumido.

— Ah, tanto faz! — Apoiada no batente da porta, Ebisu falou desdenhosamente e com cara de tédio. — Apenas pare de me seguir.

— Você está se achando. Eu não a segui, estou aqui para guiar um mago poderoso para o meu chefe.

— Não é mago, é maga. Está olhando para ela. Mas sério, não acredito que é você. Não tinha alguém menos irritante?

— Posso dizer algo parecido. Não havia alguém menos desagradável? — Watanuki proferiu ao dar as costas a ela e cruzar os braços sobre o peito.

— Que seja. Chefe, — Ebisu olhou para dentro do restaurante — o esquisito do enviado do seu cliente já chegou. Eu vou lá e depois vou para casa.

— Mas são apenas dez da manhã! — o chefe declarou.

— Minha recompensa por este trabalho.

— Espere... — Antes que ele terminasse de falar a porta se fechou, o deixando sozinho. — Maldita!

— Bela manhã. Não sei se me irrito mais com você ou com os zumbis — a garota ironizou.

Ebisu e Watanuki estavam andando pelas ruas, que estavam quase que totalmente desertas. Eles iam em direção oposta à feira. Quase toda a cidade estava lá, o que deixava todos os outros lugares desolados.

— Você é sempre desagradável com todo mundo? Quando a conheci tive uma boa impressão de você, mas ela está sendo destruída.

— Excelente! Uma das coisas que eu não quero é causar uma boa impressão em você.

— Pra mim chega! Eu não falo mais com você! — Watanuki colocou ambas as mãos na nuca.

— Você não consegue.

— Eu consigo sim!

— Ah, você não consegue.

— Ah, eu consigo sim!

— Prove.

— Eu vou te provar.

Watanuki não disse nem mais uma palavra.

Dez segundos se passaram.

— Ei, Ebisu...

— Tagarela Irritante...

Sem perceber, ela foi desacelerando aos poucos, até que estagnou no meio da rua. Ebisu não conseguia fazer nada além de observar aquele local. Fazia tempo desde a última vez que esteve ali, era inevitável que sentisse uma sensação nostálgica. Tudo naquele lugar a fazia lembrar dele. Dos maiores aos menores detalhes. Cada centímetro daquele asfalto. Cada bloco de tijolo de cada casa. Cada metro daquela grade que levava a uma quadra. Tudo. Exatamente tudo a lembrava de como o conheceu.

“Ebisu”, seu nome ecoou em sua mente. Será que ele estava a chamando? Poderia tal coisa acontecer? “Ebisu”, mais uma vez. “Ebisu”, a voz ficava mais alta. “Mas que droga. Ebisu!”, a voz estava zangada com ela, mas não havia um motivo para isto. “EBISU!”, dessa vez a voz soou com brutalidade o suficiente para despertá-la do seu transe. Quando a garota de cabelos verdes olhou para o lado, havia um zumbi em frente ao seu rosto. Ele rosnou. Ela pôde ver os seus dentes podres e sentir o seu hálito com cheiro de carne decomposta.

Ebisu, arregalou os seus olhos. Estava distraída, e aquilo foi um senhor susto. Ao tentar andar de costas, ela tropeçou e caiu sentada. Todo o esforço que ela fez para se concentrar foi em vão. Tudo aquilo serviu como um gatilho para lembranças de um passado distante. Lembranças do dia em que foi atacada por um zumbi.

Ebisu aos 12 anos corria pelas ruas da cidade mágica, naquele mesmo local, parou. Estava exausta. A menina curvou-se e apoiou as mão sobre os joelhos enquanto tentava recuperar o seu fôlego. “Droga, estou atrasada!”, pensou. Mas por mais que tentasse se mover, o seu corpo não obedecia. Então ela ouviu um grunhido, e aquilo chamou à sua atenção. Se tratava de um morto-vivo que marchava em sua direção. Um ser de feições esqueléticas e putrefatas. Cada vez mais ele se aproximava. Cada vez mais ela tentava fugir, mas o seu corpo teimava e não obedecer. A sua perna finalmente se moveu, mas quando ela foi se apoiar, as suas forças sessaram o que acabou a derrubando. Tentar se arrastar era igualmente inútil. E usar magia seria mais ainda.

Ao chegar até ela, o monstro se jogou para frente com um violento rosnar, arreganhando a sua boca. O grito de desespero de Ebisu ecoou por aquela rua e um denso esguicho de sangue jorrou para cima após um rápido estalo.

A visão da garota que estava desfocada, aos poucos voltou ao normal, então ela pode ver perfeitamente enquanto aquele morto-vivo tombava para o lado com a cabeça esmagada. Em seguida ela observou o outro ser que havia surgido; um garoto que tinha mais ou menos a sua altura. Ele tinha cabelos dourados e olhos laranja e estava com um taco de basebol apoiado sobre o ombro, enquanto exibia um largo sorriso. Ele vestia uma camiseta negra, jeans e tênis verdes. Todas as suas roupas estavam cobertas por sangue.

— Me desculpe — foi o que ele disse. — Eu estava cuidando deles, mas este escapou. — Seu sorriso se desfez em frações de segundos, seu olhar perdeu o brilho. — Você se machucou?

Ebisu estava em estado de choque. Não conseguia fazer nada além de apenas observar aquele garoto que surgiu do nada e salvou a sua vida. Quem era ele?

— Olá. Você está bem? — O garoto indagou ao olhar para Ebisu com mais atenção.

Após alguns segundos ela voltou a si.

— Ah, sim... estou bem, graças a você... então, obrigada — ela agradeceu com o rosto corado.

— Não tem porque agradecer. A culpa foi toda minha. Ele não deveria ter escapado. Me desculpe.

— E-está tudo bem.

A garota tentou se levantar, mas o seu corpo ainda parecia pesar toneladas.

— Deixe-me ajudá-la — ele falou ao lhe estender a mão.

Ebisu conseguiu levantar-se com a sua ajuda. Um sorriso de constrangimento surgiu em seu rosto, enquanto ela tirava a poeira das suas roupas.

— Qual o seu nome? — ele perguntou.

— Ebisu. E o seu?

— Eu não tenho um nome.

— Quê? — Sua voz demonstrou espanto. — Não possui um nome. Mas como? Seus pais não lhe deram um?

— Bom, já que você mencionou isso, — o garoto coçou a cabeça — talvez eu possua um, mas não saiba qual é. Isso é engraçado, não?

— É um pouco triste.

— Bem, eu não recordo se conheci os meus pais. Estou sozinho desde que me lembro, então ninguém nunca me chamou pelo nome. Mas as pessoas me chamam de Garoto, Ajudante, Aprendiz, Moleque e Idiota. Acho que são nomes, não é mesmo?

— Não. Definitivamente não são nomes para uma pessoa — Ebisu estava espantada com o que aquele garoto dizia. — Por que não escolhe um nome?

— Eu tentei, mas sou horrível com essas coisas, então resolvi deixar para lá.

— Huh, eu lamento — seu tom era consolador.

— Sem problemas... Ei! — o jovem a chamou empolgadamente, o que fez Ebisu dar um pequeno salto, divido o susto. — Por que você não escolhe um para mim?

— Eu escolher um nome para você? Mas isto é algo tão pessoal que acho que não poderia. Além do mais a gente acabou de se conhecer. Por que não pede para alguém que o conheça a mais tempo.

— É que você foi a única pessoa a se importar com isso, então pensei que poderia me nomear.

— Nunca ninguém se importou... — Ebisu virou seu rosto para o chão. Sua expressão demonstrava tristeza. Ela reclamava de seus pais e da sua vida, quando bem na sua frente havia alguém que esteve sozinho desde que se lembra e mesmo assim parece não se importar com isso. Uma pessoa que tinha problemas de verdade, mas os enfrentava com um sorriso. — Está bem — ela olhou para ele e sorriu. — Você tem o cabelo dourado. Além do mais, parece ter uma alma de ouro, que tal Kintama?

— Não... — O garoto a fitou com um olhar sombrio. — Definitivamente é melhor não ter nome do que ter esse ai.

Ebisu levou alguns segundos para perceber o que estava acontecendo.

— Não! — ela falou, seu rosto já estava vermelho. — Eu me referia à alma de ouro! N-não me entenda mal. Mas existem outras variações, talvez Kintaro, ou apenas Kin.

— Kin? — ele repetiu pensativo.

— S-sim... você gostou?

— Sim! É um nome incrível! — Facilmente podia-se notar a sua euforia.

— Fico feliz que tenha gostado. — ela exibiu um sorriso sincero.

— Eu que agradeço! A partir de hoje seremos grandes amigos!

— Eu espero que sim — ela respondeu.

— Bom, agora eu tenho quer ir. Ah, apenas uma dica: sempre carregue um bastão de basebol, ele pode ser útil em diversas situações.

— Hum, obrigada. Vou me lembrar disso.

Em uma fração de segundo todas aquelas lembranças que corriam pela sua cabeça se estilhaçaram como se fosse vidro, desaparecendo em pleno ar. Sua mente retornou ao seu corpo. Sua consciência voltou. A primeira coisa que viu foi um morto-vivo se lançando sobre o seu corpo, pronto para morder a sua carne fresca. Apenas um segundo se passou, um esguicho de sangue saltou. Ebisu estava com o rosto sujo de sangue, a cabeça do zumbi havia sido dividida em dois, Watanuki estava atrás dele.

Ele envolveu a sua mão com uma lâmina de vento e desferiu um golpe certeiro, que dividiu o crânio do morto-vivo, rasgando a sua cabeça como se fosse papel. O corpo da criatura tombou para o lado. Um rio de sangue rubro escorria da parte restante da sua cabeça, uma poça já começava a se formar. Watanuki observava Ebisu com um olhar sério.

— Me disseram que mandariam alguém poderoso para me ajudar, — foi o que disse — mas só me mandaram uma desastrada que está sempre no mundo da lua.

— O quê?! — a garota indagou com ódio. — Será que eu devo lembrá-lo do que viu na noite anterior? — Ela se levantou vagarosamente, enquanto invocava o seu bastão. O corpo tremia de puro ódio.

Ebisu sabia da ignorância dele em relação aos fatos ocorridos ali, mas simplesmente não podia perdoá-lo por dizer aquelas coisas. Ela o odiava por falar o que pensava, achando que ela era apenas uma lunática, quando não sabia nem da metade da sua história, e do peso que carregava.

— O que pensa em fazer?

— Saí da minha frente, lixo desgraçado! — Ela passou por ele o encarando.

Tão repentinamente quanto o rugido de um trovão, Ebisu partiu correndo em direção à um grupo de mortos-vivos, suas cabeças foram sendo estouradas uma à uma. Minutos mais tarde, toda a horda infernal havia sido derrotada — a maior parte por ela, alguns poucos por Watanuki. Quando terminou, estava inteiramente coberta de sangue e miolos podres. Os dois estavam longe um do outro.

— Watanuki! — ela rugiu, apontando o bastão para ele. — Nunca mais me irrite! E nem diga coisas das quais você não tem conhecimento! Ou eu juro que irá se arrepender! — As suas pupilas estavam comprimidas, aqueles eram olhos de uma verdadeira assassina.

Ao terminar de falar, ela deu as costas à ele e seguiu andando pela rua.

“Hum, então essa é a sua verdadeira força, Ebisu? Interessante”, Watanuki pensou. “Você me deixa cada vez mais intrigado. O que aconteceu no seu passado?”.

Notas finais
Finalmente foi revelado o nome do Humano! O que mais se esconde no passado de Ebisu? Descubra isso e muito mais nos próximos capítulos de Zurezurê. Um dos meus personagens favoritos aparecerá no próximo capítulo, então não me decepcionem! -Q