Zurezurê
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Lição 3: Pessoas parecidas não precisam
necessariamente ter ligações genéticas.
— Deixa comigo, eu já estou levando — Ebisu carregava uma caixa cheia de objetos.
Ela atravessou a porta de trás do restaurante que dava em um beco; ambas as extremidades eram cortadas por ruas movimentadas. O fluxo de pessoas não é alto em dias comuns, mas estava intensificado por causa da feira que estava acontecendo nas redondezas. O que trazia mais pessoas, e consequentemente, mais clientes.
— Obrigado! — A voz do seu chefe soou antes da porta se fechar atrás da garota.
— Deixe-me ver onde eu ponho isto... — Ebisu falou consigo mesma. — Ah, ali!
Ela começou a andar até uma grande lata de lixo, mas então alguém passou pela rua que cortava o beco. Por uma fração de segundo o coração de Ebisu parou de bater. Um intenso frio subiu pela sua espinha. Seus grandes olhos demonstravam o espanto que sentia. Seu corpo não reagia, e ela não conseguia fazer nada além de observar aquela pessoa passando diante dos seus olhos, até que desapareceu por completo da sua vista. É ele!, foi tudo o que conseguiu pensar.
Quando a caixa cheia de objetos caiu no chão, fez um tremendo barulho. Ebisu havia a abandonado, e agora estava correndo desesperada em direção ao fim do corredor.
— Dessa vez você não escapará! — declarou ao deslizar sobre o chão e olhar para a esquerda.
Seus olhos moviam-se velozmente, observando diversas pessoas e tentando achar aquela em particular. A rua estava abarrotada de pessoas, o que dificultou a tarefa. Barracas estavam armadas por cima das calçadas, umas ao lado das outras. Vendedores mostravam e anunciavam os seus produtos à todo tipo de pessoas. Para ela pareceu ser uma eternidade, mas apenas três segundos se passaram até que conseguiu localizá-lo! A pessoa em questão estava mais alta e com o cabelo mais comprido e com uma cor diferente, mas definitivamente era ele! Aquele que morreu no Massacre, agora andava diante dos seus olhos.
Um jovem andava despreocupado entre a multidão. Relaxado, ele se espreguiçava despretensiosamente enquanto andava. Em seguida colocou a destra na nuca e começou a mexer em seus cabelos alaranjados. Esse ato apenas deu mais certeza à Ebisu de que era ele.
O garoto em questão vestia jeans, tênis vermelhos e uma camiseta branca de mangas curtas. Seus cabelos chegavam próximos de seus ombros. Ele era magro. Não dava para saber, mas aparentava ter alguns poucos músculos.
Sua descontração se tornou em espantou quando sentiu uma mão cair sobre o seu ombro, o fazendo girar. Sua visão desfocou-se. Quando voltou, a primeira coisa que viu, ao olhar um pouco para baixo, foi a imagem de uma garota de cabelos verdes com uma expressão que misturava espanto e dúvida. Um estava olhando nos olhos do outro em silêncio. O garoto ficou nervoso e sentiu a sua garganta fechar. Quando pensou em dizer algo a garota se manifestou.
— Não é você. — Sem dizer mais nada, Ebisu deu as costas e saiu andando.
Com uma cara de idiota ele observou enquanto a garota se afastava.
— Quê? — perguntou a si mesmo. — Ei! Espere! — disse ele ao correr atrás dela.
— Não é você. Eu me enganei — Ebisu falou para o garoto que agora estava andando ao seu lado.
— Do que você está falando?
— Não importa. Eu o confundi com alguém. Isso é tudo.
— Ah, então foi só isso?
— Sim. Agora me deixe em paz.
Eles já haviam passado do beco onde ficava os fundos do restaurante. Não por um descuido, Ebisu apenas queria espairecer um pouco, antes de voltar para o trabalho. Mas naquele momento isso pareceu algo impossível. A máquina de uma das tendas explodiu, arremessando o braço amputado do dono para um lado e dezenas de estilhaços de metal para o outro. Ambos perceberam que algo vinha em sua direção. Frações de segundos se passaram, a garota já estava empunhando o seu bastão. O jovem observou aquilo com uma curiosidade singular. Ele não pôde deixar de pensar que aquela atitude parecia tão humana. No fundo gostaria de ver como ela reagiria, mas sabia que havia chances dela se machucar seriamente, então resolveu intervir.
Os pedaços de metal que avançavam brutalmente em direção aos dois de repente pararam e começaram a rodar dentro de uma esfera de ar, que estava a poucos centímetros dela. O rapaz estava com ambas as mãos apontadas em direção ao metal, que foi perdendo o movimento aos poucos até que paralisou e caiu sobre o chão.
— Por que uma usuária de magia tenta se defender como um humano? — o garoto perguntou ao tirar os olhos do metal e repousar sobre ela.
— Você fala isso como se fosse algo ruim. — Ebisu levantou um pouco a cabeça para olhar no rosto do rapaz. Ele era cerca de duas cabeças mais alto que ela.
— Só acho que é menos eficaz. Talvez até inútil.
— Eu não quero ouvir isso vindo de um completo estranho.
— Então vamos resolver esse problema. Olá, eu me chamo Watanuki.
— Não me interesso em saber quem você é — Ebisu falou com frieza. — Que saco! — findou após um longo suspiro.
Watanuki não se ofendeu, apenas sorriu. Fazia tempo que não cruzava com um tipo daqueles.
— Ei, mas o que é isso? Mais um tipo de comportamento humano? — dessa vez ele falou com desdém.
Ebisu falou algo que Watanuki não conseguiu ouvir direito.
— O que foi que disse?
— Cale-se! — A fúria estava estampada em seu semblante. — Não fale mal dos humanos!
— Você é uma deles ou por acaso é uma defensora?
— Eu sou uma usuária de magia, se quer saber, seu idiota! Você não tem o direito de falar assim deles! Quantos humanos já conheceu em toda a sua vida?! — cada palavra que Ebisu proferia só servia para aumentar a sua raiva, ao passo que já estava gritando. Todas as pessoas da rua pararam de fazer o que estavam fazendo, voltando a sua anteção à ela, que não parecia se importar nem um pouco.
— Bem, para falar a verdade, nenhum — Watanuki respondeu, enquanto observava o céu azulado. — Havia só um humano de quem eu ouvi falar, não cheguei a conhecê-lo. Coitado. A noite do Massacre foi realmente terrível.
— Já chega disso! — ela vociferou.
— Ei, calma. Por que isso te irrita tanto?
— Eu o confundi com ele. Mas foi só de perto que consegui notar que não há semelhança alguma entre vocês. — O ódio de Ebisu estava controlado, mas ainda estava presente em cada palavra dita por ela. Watanuki pôde perceber que ela estava se controlando para não explodir.
— Mas ele já está morto. Então como poderia andar por ai? — Agora Watanuki olhava para ela.
— Eu não sei... noite passada eu tive a impressão de vê-lo entrar em um beco.
— Noite passada você diz? — O olhar do garoto ficou distante.
— Sim.
— Você é aquela garota maluca que matou sozinha uma gangue?
— O quê?! Não me diga que era você?! — Espantada Ebisu olhou para ele.
— Sim, era. Quando eu notei que você correu até mim eu me escondi.
— E por que fez isso? — ela indagou ao suspirar.
— Fiquei com medo. — Watanuki riu envergonhadamente.
— Você é lamentável, não acredito que o confundi com ele. Como posso tê-lo confundido com um inútil?
— Ei, por acaso a sua magia é do tipo destruidora de autoestima?
— Não. Se fosse você não estaria vivo — dito isso, Ebisu andou em direção à algum lugar que a fizesse se sentir melhor.
— Você é uma garota interessante — Watanuki comentou, enquanto observava Ebisu se afastando.
Um sorriso iluminou o seu rosto.
Cada passado dado por Ebisu tinha o impacto de uma martelada em seu coração. Tanto tempo havia se passado e de forma alguma ela havia superado. Será que algum dia conseguiria? Poderia a sua vingança ser a única forma de liberdade? Não havia uma resposta, mas, com certeza, ela a teria quando o dia chegasse. Tudo que desejava é que a dor parasse.
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