Zurezurê
2 Capítulo 2
Lição 2: Se alguém retornar depois de três anos,
é porque algo aconteceu.
— Você está atrasada, Ebisu. Para a sua sorte deixarei passar por você estar suja de sangue. Noite ruim? — falou o Informante.
Ebisu sentou-se em uma cadeira diante aquele homem. Alguém grande, que vestia um grosso casaco marrom com um capuz, que cobria a sua cabeça, assim ocultando o seu rosto nas sombras. A única coisa que podia ser vista da sua face era o brilho vermelho dos seus olhos.
— Nah, só esses magos irritantes, de novo — Ebisu disse ao pegar um dos espetinhos que estava sobre a mesa e arrancar a metade da carne com apenas uma mordida.
— Tome cuidado. Se sair matando todos os magos que te atacam, pode acabar se encrencando.
— Como sabe que eu os matei? — disse com a boca cheia de comida.
— Ei! Não fale com a bocha cheia! — O Informante apoiou os cotovelos sobre a mesa. — Eu a conheço. Sei que aqueles magos devem estar em um estado desprezível agora.
— Digamos que eu inutilizei mais um belo bastão. Mas, por favor, não se preocupe comigo. Eu ficarei bem. Não morrerei até me vingar.
— Então quer dizer que o momento da sua morte se aproxima? — O informante falou, entrelaçando os dedos e os colocando próximos do que seria sua boca.
— Do que você está falando? — Ebisu inquiriu com uma expressão de espanto.
— Ele está voltando. Malik retornará.
— O quê?! — Ela inclinou-se, batendo com as mãos sobre a mesa e olhando fixamente para as orbes escarlates daquele ser.
— Acalme-se. Não chame atenção, menina. Isso é algo que poucos sabem.
— É difícil me acalmar — ela falou em tom mais baixo — sabendo que o mandante daquele massacre voltou.
— Ele ainda não voltou. Ainda faltam alguns dias.
— E quando será?
— Nem mesmo eu sei. Só posso afirmar que ele estará no festival.
— Isso é daqui duas semanas.
— Exato. E então, o que fará? Irá matá-lo?
Ebisu sorriu.
— Não precisa nem perguntar.
— Haverão muitos subordinados dele por lá. Não parou para pensar que pode ser perigoso?
— Eu não me importo nem um pouco com a minha vida. Se eu morrer segundos depois de matá-lo, pra mim não terá a menor importância. Desde que eu o faça pagar.
— Você está cega pelo ódio. Gostaria de poder abrir os seus olhos.
— Ninguém pode, nem eu mesma. A única pessoa que podia não está mais aqui.
— Olhe para você mesma, acha que ele aprovaria o que está fazendo?
— É claro que ele não aprovaria... de forma alguma.
— Então por que faz?
— Porque é a única coisa que eu posso fazer, não é mesmo? — Um sorriso melancólico surgiu em seu rosto.
— Você deveria encontrar alguém que a fizesse se esquecer dele.
— Ninguém jamais será capaz disso...
Pelas redondezas de onde os dois estavam, um homem andava solitário pelas ruas. Ele vestia um terno marrom escuro, sobre o seu corpo estava um sobretudo de mesma cor, porém em tom mais claro. Seus tênis eram brancos, um contraste com o seu cabelo negro, que era moderadamente longo e um tanto quanto bagunçado. Trazia em seu rosto um lindo sorriso, capaz de encantar as mais belas mulheres — coisa que já aconteceu diversas vezes.
— Hm, então ele está voltando... interessante... — devaneou solitariamente.
Aquele sujeito andou por mais algumas quadras antes de chegar ao seu destino, uma casa velha, mas que possuía algo novo e de grande valor em seu interior. Sem dificuldades ele saltou por sobre a cerca de estacas de madeira, passou pela trilha de flores e chegou diante a porta de entrada redonda. Aquela decoração era típica de uma casa de contos de fadas. Certificou-se de olhar primeiro pela janela, para ter certeza de que não havia ninguém no local. Somente após isso resolveu agir. Com uma mistura de velocidade e delicadeza, ele pôs a mão sob o casaco e de lá tirou uma varinha mágica com cerca de meio metro.
O objeto foi apontado em direção à tranca da casa. A magia de seu interior lentamente começou a sair, na forma de uma neblina azulada, que aos poucos fora penetrando pelo buraco da fechadura. Em seguida um barulho de metal pôde ser ouvido. A porta estava destrancada. O jovem olhou uma vez para cada lado e então entrou.
Estava uma penumbra no interior na casa. O único ponto de luz que havia, provinha do lado de fora, pertencente à lua cheia que pairava sobre as nuvens cinzentas daquela noite. Mas logo a escuridão foi rompida pela luz de uma lanterna que o invasor tirou, sabe-se lá de onde. Em poucos segundos ele chegou onde queria e achou o que procurava. Estava na biblioteca, diante do livro que almejava.
Não se tratava de um livro comum. Nele estavam informações importantíssimas para ele naquele momento. Por isso se arriscou. Por isso decidiu roubar pela primeira vez. Haviam lhe dito que aquele item era belo, mas foi somente quando o viu com os seus próprios olhos que entendeu o que diziam. Era um livro de capa dura e vermelha, com escritos em dourado, que reluzia como se estivesse vivo.
O invasor colocou a lanterna sobre a mesa que estava ao seu lado, e então pegou o livro e começou a folheá-lo. Os escritos do interior eram semelhantes, só que da cor vermelha, mas da mesma forma parecia estar vivo. Emanava um fraco brilho. Aquele ser estava fascinado. Ele havia esquecido-se do mundo ao seu redor. Estava submerso nos seus pensamentos e nas informações que o livro lhe transmitia.
— Sabia que você viria até aqui — uma voz quebrou o silêncio da casa.
O jovem estava com o livro aberto sobre a sua mão direita, então o fechou e virou o seu rosto para olhar para o dono da casa. Ele segurava uma lanterna.
— Você acha que este livro é seu por direito — retrucou o invasor.
— Mas é claro que é. Eu paguei por ele.
— Se o problema é esse, eu o compro de você.
— Eu quero mais do que paguei.
— Céus, que seja! Pago o dobro.
— Não me faça rir. Se você invade a minha casa, ele deve possuir muito valor para você. Quero no mínimo dez vezes mais do que paguei.
— Não seja ridículo, velho. Por que pagaria dez vezes mais, quando posso simplesmente levá-lo sem pagar nada. Estou sendo generoso. Aceite minha oferta logo.
— Eu discordo disto — Ele acendeu as luzes.
O dono da casa segurava uma faca. Pela sua postura, estava preparado para atacar. E não estava disposto a deixar o invasor sair com vida, caso desejasse lutar.
— Está ficando cada vez mais ridículo, velho — o jovem falou ao se virar, ficando de frente para o outro. — Sabe sobre mim e ainda assim me desafia.
— Você não vai levá-lo.
— Me obrigue! — A expressão jovial em seu rosto desapareceu, dando lugar a uma face séria.
— Com prazer — o velho vociferou.
O invasor permaneceu parado, enquanto o mais velho avançou em sua direção. Subitamente começou a correr e mais subitamente ainda, parou. A visão do dono da casa começou a se retorcer na forma de um redemoinho, então ela se apagou por menos de um segundo. Quando ele voltou a si, não viu nada além de uma sala escura e vazia.
— Pensei que ele estava aqui. Devo ter me enganado — foi o que disse, então saiu da biblioteca.
— Ebisu, preciso lhe contar algo — disse o Informante.
— Hã? O que foi?
— Estavam acontecendo coisas estranhas antes da morte dele, depois do Massacre as coisas só pioraram. Existem pessoas se movendo pelas sombras desta cidade. Quem são ou o que querem é um mistério para todos. Apenas tenha cuidado. Um djinn desapareceu. Se isso aconteceu, tudo é possível.
— Quê?! Quem teria a coragem e o poder pra sequestrar um deles?
— Eu não faço ideia. Isso me preocupa. Talvez uma guerra se inicie. Quem sabe algo pior?
— Malik tem algo a ver com isso?
— Até onde eu sei, não há ligação nenhuma.
— Ótimo! Por enquanto ele é assunto exclusivamente meu.
— Tudo bem. Apenas tome muito cuidado e não caia nas mãos dessas pessoas.
— Eu sou a última pessoa com a qual você deve ser preocupar.
— Assim espero.
O invasor andava pelas ruas carregando o livro vermelho sob o seu casaco. Um sorriso de satisfação era esboçado. Ele mal podia esperar para chegar em sua casa e devorar aquele livro. Todo o conhecimento que nele estava contido era essencial para que os seus planos dessem certo. Isso o deixaria um passo à frente dos seus adversários. E quando tudo realmente começar, qualquer um que tenha uma vantagem, terá grandes chances de sair vencedor.
Fale com o autor