Zurezurê

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Não tenho muito mais o que comentar. Desejo uma boa leitura e peço que deixem a sua opinião após ler. Obrigado.

Lição 1: Se você não abandonar o passado,

ele eventualmente voltará para lhe assombrar.

Mundo dos magos.

Chove torrencialmente. O frio da rua contrastando com o calor do interior daquela casa embaçou os vidros da janela do quarto. Uma garota chamada Ebisu estava deitada em sua cama de madeira, totalmente coberta pelos edredons. Era três da tarde, ela não queria levantar tão cedo, mas definitivamente precisava ir ao banheiro. Maldita bexiga, por que você não pode ser maior?, foi o que pensou. Ela sentou-se na cama, buscando forças, enquanto passava a mão pelo seu cabelo verde desgrenhado que chegava próximo aos seus ombros. A garota usava apenas as suas roupas íntimas.

Voltando do banheiro ela limpou o vidro com a mão e do segundo andar da sua casa observou as ruas quase desertas através da janela. Não havia nada de interessante lá. Aquelas poucas pessoas que andavam pela rua não interessavam a ela. Muito menos observar os estabelecimentos que estavam abertos. Ebisu também pôde ver a sua imagem refletida naquela superfície transparente. A imagem de uma garota pálida com cara de sono não a agradou nem um pouco. Então, após um suspiro ela se lançou sob as cobertas e dormiu até as sete.

Seu quarto estava escuro. Ela abriu os olhos e ficou observando o teto por alguns segundos, até que o despertador tocou. Estava na hora. Ela sabia disso e não poderia se atrasar. Aquilo era muito importante. Prontamente começou a se vestir. Cobrindo o seu corpo com uma saia e meias 5/8 negras. Uma camiseta laranja e uma jaqueta marrom com capuz. Em seguida desceu as escadas e comeu algo que pôde ser preparado em cinco minutos. Pegou algumas cápsulas na mesa que ficava ao lado da porta e saiu, com o headphone envolvendo o seu pescoço.

Fazia frio naquele início de noite. Ebisu fechou o zíper da jaqueta e cobriu a cabeça com a toca, em seguida enterrou as mãos nos bolsos do casaco. Já havia parado de chover, isso aliviava um pouco a nostalgia que estava sentindo, o que a deixava menos irritada. Andando por aquelas ruas escuras, alguns olhos recaiam sobre ela, junto com alguns comentários sussurrados. Ela tinha uma certa reputação. Alguns a amavam, outros a odiavam por estar se enfiando onde não deveria. Isso não a incomodava, pelo contrário, ela se enchia de alegria ao saber que estava sendo um incômodo para aquelas pessoas.

Duas quadras antes de chegar ao seu destino, em uma rua deserta e quase completamente imersa na escuridão, uma voz ecoou:

— Parada, garotinha — a voz veio por trás dela.

— Lixo! — Ebisu proferiu ao se virar.

— O que disse?! — A voz era de um homem que usava roupas brancas e máscara de hóquei. Havia mais quatro homens com ele. Todos igualmente vestidos. — Com quem pensa que está falando?!

— Repito: lixo!

— Ei, desgraçada...! Ei, você não é a Ebisu?

— Sim, — interveio um outro homem mascarado — é ela mesmo.

— Então vamos acabar com ela, caras! — disse um terceiro.

— Sim, vamos! O chefe irá nos recompensar — disse um quarto.

— Morra, maldita! — bradou o quinto mascarado.

Todos partiram em direção àquela garota. Somente dez metros os separava. Em meio ao seu avanço, cada um sacou uma faca, que reluziu com um brilho prateado e melancólico sob a escuridão daquela rua, sendo iluminada apenas pela fraca luz de um poste que estava ao lado dela. Naquele momento os olhos de Ebisu parecia negros. Ela fitou cada um deles com uma raiva crescente e deu uma leve mordida no seu lábio inferior, enquanto pegava uma das cápsulas que estava em seu bolso. A garota a esmagou, colocou se braço esticado para o lado e abriu a mão. Um estranho tipo de matéria disforme ergueu-se da sua palma, dançando no ar, enquanto tomava a forma de algum objeto.

— Acabou! — bradou o primeiro mascarado, ao chegar em frente a ela, com o braço encolhido para trás, pronto a dar a primeira estocada.

A estranha matéria que tinha a consistência de uma nuvem tomou a forma de um bastão e solidificou-se. O segurando firmemente, Ebisu o balançou para o lado oposto, acertando a lateral da cabeça daquele homem. O som de dois “cranks” distintos pôde ser ouvido. O primeiro referente a sua máscara que rachou, todo o lado esquerdo — onde o bastão havia atingido — fendeu-se em dezenas de cacos. O segundo som foi referente aos ossos da face daquele ser, que teve o mesmo destino da máscara. O bastão se afundou em seu rosto, estourando um de seus ouvidos e fazendo com que um de seus olhos saltasse para fora da máscara. Todos os outros quatro mascarados pararam de avançar. Não tinham mais olhos para Ebisu, apenas para o corpo de seu líder, que caía diante aquela garota. Se o seu companheiro estava vivo, isso era uma dúvida. A certeza que ficava é a de que ficaria cego de um olho e sem o seu equilíbrio por algum tempo, talvez a vida toda. Sem falar dos danos que aquele golpe poderia ter causado à sua sanidade.

Com a sua destra, a jovem usuária de magia girou o bastão na mão e o pôs sobre o seu ombro direito. Ela observava os adversários que restaram, enquanto imaginava se estavam com expressões de fúria ou horror. Aqueles caras provavelmente não seriam problema. Magos de quinta, que se contentam em andar em grandes grupos para se protegerem e ganhar batalhas por estarem em maior número. Das duas uma, ou eram do tipo que tem magias insignificantes, ou ainda não sabem usar as suas habilidades com eficiência.

— Ei, — Ebisu falou com eles — vocês não iam me matar? Parece que as coisas mudaram. Então vamos mudar de lugar. Agora eu sou o predador e vocês — Ebisu descobriu a cabeça — as minhas presas! — e proferiu sombriamente.

Gritos de dor e clamores por misericórdia ecoaram daquele local. Mas ninguém apareceu, como sempre. E nenhuma clemência foi disposta, como sempre. Agora em vez de um corpo sem vida largado no chão, havia quatro.

— Por favor... — o sobrevivente clamou com a voz chorosa. Ele estava deitado de barriga para cima sem a sua máscara, sua cara estava destruída.

— Vocês está clamando por misericórdia, é isso? — indagou Ebisu, que estava ao seu lado, segurando o bastão sujo de sangue.

— S-sim... eu estou clamando.

— Que pena — ela proferiu com ar de deboche. — A misericórdia é um dom divino e eu sou apenas uma maga.

Antes que algo mais pudesse ser dito, ela golpeou a cabeça do homem com força. A sua cara se afundou e a parte de cima arrebentou-se, lavando o chão com sangue, cérebro e seus fluidos. O silêncio novamente predominou naquela rua. Ebisu saiu andando calmamente da cena daquele crime como se nada de importante houvesse acontecido. Naquele instante ela sentiu uma sensação, algo a incomodou, então a garota olhou para o lado e viu, naquele exato momento, alguém entrando em um beco. Seus olhos arregalaram-se e tremeram. Ela sentiu calafrios e o estômago embrulhar.

— V-você...! — Ebisu sussurrou — Não pode ser...! Você está morto, não está?

Ela correu em direção aquela pessoa, que a essa altura já estava no beco. Ebisu avançou freneticamente pela rua, quando entrou no beco deu um grito chamando pelo nome daquela pessoa. Mas o beco estava vazio. Não havia ninguém lá. Seja lá quem houvesse entrado no beco, não estava mais lá.

— Não pode ser você... ou será que pode...?

A insistente chuva que parou de caír no inicio da noite, retornou, trazendo com ela um turbilhão de sentimentos e emoções.

— No fim das contas é o aniversário da sua morte, talvez isso seja apenas uma aluscinação.

Chove torrencialmente. Após o massacre, em todo o aniversário de sua morte a chuva cai. Como um lamento, um choro, ou talvez, apenas uma forma de lembrar às pessoas de que você não está mais aqui. E de que não voltará nunca mais. Sua ausência era sentida, mas todos se conformaram, menos uma pessoa: eu. Eu não posso esquecer, eu não me permito esquecer, enquanto não conseguir me vingar. Enquanto não puser um fim aos mistérios que envolvam a sua morte.

Notas finais
Uma sombra do passado surge diante dos olhos de Ebisu. Seria algo real ou apenas uma alucinação? Descubra no próximo capítulo de Zurezurê! E então, como foi? Agradeço por ler. Até a próxima!