Zugzwang

2 Capítulo 2 - Com você


Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=1xNmpOF0PZ0 ♥

Maeve se deitou ao meu lado, beijando minha bochecha. Eu a abracei, cheirando aquele cabelo perfumado e apertando cada parte daquele corpo lindo. Ela não se importou em sujar a saia, e nem se a grama estava pinicando e um pouco molhada. Ela queria ficar perto de mim.
Os lábios dela tocaram os meus.
— Eu te amo, Spencer.
— Eu também te amo, Maeve. Te amo muito.
De súbito, uma nuvem escura começou a se aproximar das árvores. O vento balançava os cabelos de Maeve quase de que uma forma violenta, a chuva caía como uma punição. Então, Diane apareceu.
Os olhos cheios de lágrimas, a maquiagem borrada, mas ela sorria. A arma em sua mão trêmula.
Tentei me manter a frente da minha amada, todas as lembranças de um dia não tão distante vieram como flashes. Proteger Maeve, eu tinha que protege-la.
Pisquei, e Maeve estava lá. Diane com a arma na cabeça dela, chorava.
Percebi que eu também chorava. Maeve em meus braços, a arma em minha mão. Eu a tinha matado.
Eu a matei!
Já não chovia mais.

Na manhã seguinte acordei e tateei o lado da cama.
— Maeve? Onde você está? — perguntei levantando.
Não houve resposta. Ela deve ter ido trabalhar.
O telefone ao meu lado fazia um "bip" irritante. Apertei na caixa postal.
"Reid, aqui é o Morgan, preciso falar com você"
"Reid, é a Jennifer, me liga de volta"
"Atende o telefone, é urgente, é o Morgan"
"Reid, não sei o que andou acontecendo mas a polícia veio até a BAU procurando por você. Falamos que você estava de folga e não era um bom momento, eles nos disseram que você foi visto no parque a frente dos seu apartamento gritando pela Maeve, socando o ar, parecia bem alterado. Espero que não esteja se drogando de novo. Hotch está preocupado"

Desliguei o aparelho e o joguei na cama. Eu não conseguia ligar o que estava acontecendo.
Peguei o metrô e fui até a BAU. Entrei no elevador e fui encarado por olhares de pena e de curiosidade. Quando entrei no departamento dei um empurrão ao passar correndo pelo Rossi.
— Reid? — ele gritou mas eu continuei andando.
Estava fora de mim. O que Morgan estava falando?
Avistei a cabeça de Morgan e o puxei pelo braço.
— Ei, Reid. Você voltou, crian...
— O que você estava falando? Hein, Morgan?
— Calma, Spencer... — a testa se enrugou num olhar de preocupação.
— O que você estava querendo dizer no celular? Que eu enlouqueci?
— Não, mas é que foi estranho... Sabe, depois da morte da Maeve...
— Morte? Morgan? Você está louco? — berrei com todo o ar dos meus pulmões.
Jennifer veio até mim, as mãos maternas no meu ombro me fazendo encara-la.
— O que está acontecendo? Calma — acariciou o meu rosto
— Morgan está dizendo que Maeve morreu! Ela não morreu! Eu não a matei — gritei enquanto me deixava cair de joelhos. O Departamento todo já estava olhando nesse momento.
Morgan e Jennifer trocaram olhares preocupados. Ela acariciava meu cabelo.
— Reid, olha... — começou mas sem a chance de continuar.
— Na minha sala, agora — Hotch deu a ordem.
A sala de Hotch era igual a ele. Séria e fechada, as janelas nunca deixavam uma luz entrar. As prateleiras empoeiradas e a mesa sempre bagunçada de papéis.
O rosto dele era cansado, sempre com grandes olheiras abaixo do rosto e o celular em mãos pronto pra atender alguma ligação importante.
Ele fez sinal para que eu sentasse no sofá, obedeci. Ele me alcançou um copo de água e sentou a minha frente, me encarando como se esperasse algo. Me senti intimidado.
— Reid, o que aconteceu?
— Eu não sei — voltei a chorar baixinho.
Era o choque de realidade. Eu sabia que Maeve estava morta, só não conseguia aceitar.
Naquele momento eu só conseguia invejar Hotch. Tudo o que ele passou com Foyet e ainda assim continuou normalmente o trabalho, mesmo com o medo eminente do assassino estar com sua família, mesmo com todas as cicatrizes no peito, ele estava lá. Como sempre foi.
Eu sabia o que estava acontecendo. Alucinando e deprimido. Tenho BA em psicologia, consigo identificar bem. Então, a dúvida surgiu: esquizofrenia?
Depois que Hotch me liberou eu saí as pressas ignorando todos. Entrei no elevador vazio e quis sumir.

Meus olhos fechavam aos poucos, o cansaço era um peso que pendia em minhas pernas, logo que a cidade se tornou um centro noturno, eu desejei dormir, mas como era impossível com a ansiedade crescendo em meu peito eu me mantive olhando para a parede.
Maeve veio até mim novamente. Usava um vestido branco e tinha um cheiro leve de lavanda. Deitou-se ao meu lado, o nariz a poucos centímetros do meu, os olhos fixados.
— Eu sou sua — as palavras flutuaram dos lábios com o hálito doce e eu a abracei.
Fui levado a uma memória distante de um surto psicótico da minha mãe. Houve um dia que eu permaneci na escola até tarde e quando cheguei em casa, percebi que mamãe não tinha sentido minha falta e nem sabia que eu havia chorado, ela estava alucinando.
Abri os olhos e encarei Maeve.
— Você não é real — sussurei.
— Claro que sou, Reid. Eu estou aqui — ela disse tocando meu coração — e aqui — e a testa.
— Vá embora — eu podia sentir o soluço se formar na minha garganta.
Fechei os olhos e puxei meus próprios cabelos. Berrei contra o travesseiro.
— Você não é real. Não. É. Real.

4 A.M
"Spencer, é a JJ. Espero que esteja bem. Estou com saudades"

8 A.M
"Spencer Reid? Aqui é do Hospital Psiquiátrico. Sua mãe tem relatado grande preocupação com você. Já faz uma semana que você não escreve... ela estava acostumada a receber cartas. Tenha um bom dia."