Zugzwang

3 Capítulo 3 - Novamente no buraco escuro da minha mente


Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=Pw-0pbY9JeU Espero que gostem ♥

A primeira pancada foi leve. A segunda, nem tanto. Na quinta eu já tinha lágrimas nos olhos. A dor era agoniante. Como se milhares de garrafas de vidro quebrassem ao mesmo tempo, como se alguém afundasse os dedos nos meus olhos.
Me deixei gritar.
Pouco depois alguém bateu na porta. Ao levantar da cama a tontura me puxou para baixo, mas seguindo pelas paredes cheguei até a porta. Abri e o Zelador me encarava como quem tinha visto um fantasma.
— Tudo bem? — perguntou
— Tudo — respondi entre um gemido.
Tapei os olhos a dor era alucinante. Me ajoelhei e vomitei, meu estomâgo revirava. Minha visão era turva.
Num piscar de olhos já havia mais pessoas em volta da minha porta. Eu estava deitado em uma cama diferente. Homens me levavam apressados e uma moça tentava acertar uma luz nos meus olhos.
Virei para o lado e vomitei naquela cama também.
— Minha cabeça dói muito — eu disse.
Mas só piorou a partir do momento que eu ouvia sirenes. Aos poucos fui entendendo que estava em uma ambulância e sendo encaminhado para o pronto socorro.
Mantive os olhos fechados até um médico vir me examinar.
—Desidratação — ele disse.
A enfermeira anotava.
"Crise de enxaqueca", continuou.
"Possivelmente, esquizofrenia e depressão", outro médico disse. "A equipe o encontrou em um apartamento bagunçado, parece que ele não arruma por dias. Um estado preocupante o lugar. Depois fui informado que enquanto ele estava vindo para cá teve alucinações, chamava por uma Maeve e conversava com ela. Chegou a fazer gestos como se estava a tocando."
"Dê soro e um remédio bem forte para dor", continuou "então, acha que internação é necessário?"
"Os documentos constam que ele é maior de idade, mas a recepcionista disse que há caso de esquizofrenia na família. Depois ligamos para alguns números na agenda, um Aaron Hotchner atendeu dizendo que trabalha com Spencer Reid, o paciente, e que passou por um trauma muito grande nas últimas semanas. Possivelmente, está realmente em depressão, então não podemos ignorar o caso de uma depressão psicótica, mas esquizofrenia também pode vir ao caso."
Eles saíram, era apenas eu e a luz forte no quarto branco. Ouvia os passos apressados no corredor, vozes de mulheres.
O tempo corria de forma diferente. Quase que como líquido, escorrendo pelo relógio e a parede, espalhando pelo chão e imundando o quarto. Delta é igual B ao quadrado menos quatro vezes A vezes C. X é igual a menos B mais ou menos raiz de delta divido por duas vezes A.
Setes horas. Noite ou dia?
Papai foi embora depois que mamãe disse que havia homens verdes perseguindo ela e a chamando pra ir pra casa. Ele colocou todas as suas roupas numa mala e quando já estava no quintal, ela o seguiu chorando dizendo que ele não podia ir embora por causa do dilúvio de Noé. Ele apenas me olhou de forma triste e se foi.
Não, não. Não é verdade. Não foi isso.
Ele deixou um bilhete. Eu sei.
Nove horas. Noite ou dia?
— Spencer Reid? Eu sou o Dr. John, você consegue me entender?
Meus olhos se fixaram no homem a minha frente. Era mais alto que eu, provavelmente, e usava muito gel no cabelo.
— Eu também sou Doutor — respondi.
Ele riu.
— Muito bem, sabe por qual motivo está aqui?
— Não exatamente, lembro de sentir muita dor.
— Sim, por isso mesmo — ele mexeu nos papéis da prancheta — Vou fazer algumas perguntas, ok?
"Bebe?" Não
" Fuma?" Não
"Algum vício?" Dilaudid me veio a cabeça. Não, respondi.
— Ótimo — ele terminou — Soubemos do caso de esquizofrenia na família... Bom, o Dr.Gale disse que possivelmente você está passando por um momento depressivo, mas seria bom uma avaliação, mas... recomendamos uma internação... por precaução...
— Não — respondi — Não.
— Olha, pense bem...
— Não.
Como um anjo caindo do céu para me salvar Jennifer entrou no quarto.
— Oh! — ela exclamou — Não sabia...
— Jennifer! Fica! — eu gritei sentando na cama.
Ela se aproximou da cama e segurou minha mão. Trocamos olhares e depois o dela se fixou no médico.
— Ah, bom, vou deixar vocês a sós.
Jennifer beijou o topo da minha cabeça e me abraçou.
— Fiquei preocupada. Achei que tivesse acontecido algo muito ruim.
— Eles querem me internar.
Os olhos dela carregaram de uma sensação preocupada.
— Ninguém vai te internar.

Quando já anoitecia Jennifer me levou para casa. O carro deslizando na estrada, as luzes da cidade passando como um borrão. Minha cabeça já não doía mais. Jennifer estava estranhamente quieta.
Deixei minha cabeça pousar no vidro. Ela sorriu.
— Emily sente sua falta.
Eu sorri.
— Todo mundo sente, Reid.

O Zelador abriu a porta do meu apartamento, sem perguntas. Eu agradeci.
Novamente, só eu e o buraco escuro da minha mente. Me pregando peças, me levando a loucura. Me levando ao lugar mais errado de todos. Sendo quem eu não era, ela me transforma, me conduz, quer ser eu.
Um pedaço de mim se foi junto com Maeve, os outros eu perdi. Deixei que se fossem com as lágrimas. Agora estou sozinho com cada um deles, cada uma das minhas memórias.
A figura sombria se arrastou até mim, deixava marcas no chão. Subiu pelo meu corpo, as mãos envolveram-se no meu pescoço, o hálito gélido no meu rosto, estava levando minha respiração.

Meu corpo é como vidro, cai e quebra, se espalha. Os livros estão indo para o céu e eu continuo no chão. Por que a menina não me ajuda? É Diane, mas ela está em uma caixa de vidro. Eu sou o vidro.
"Não. Quem está dentro é Maeve", eu digo.
"Você me ama, Reid'', ela diz.
Maeve esta com os pés no teto, o cabelo caí deixando um ar sinistro. Ela está muito pálida.
Eu não posso ir até ela. Eu estou no chão, ela no teto. Nunca chegaremos ao mesmo ponto, nunca estaremos juntos.

Deixei que a água escorresse pelo corpo até que eu estivesse acordado o bastante.
Alucinando. Alucinando.
Eu não quero ser como minha mãe.
Isso tem que parar.
Bati com a cabeça na parede. O sangue escorreu junto com a água.

Encarei minha imagem. Não era um espelho. Era eu mesmo.

Eu não quero mais viver assim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.