Zona Morta

1 Parte um - Quando o dia se foi


Notas iniciais
Nós também cometemos erros.

O primeiro pássaro caiu aos pés de Miguel. Ele levou um leve susto. O impacto fora até um pouco mais forte do que esperado pelo tamanho do animal. Algumas penas se soltaram durante a queda e desciam lentamente. Estava morto, antes mesmo de chegar ali. O garoto olhou para cima após analisar a criatura. Parecia um corvo, mas não sabia exatamente – sempre pensou que corvos eram maiores, ficando numa linha anterior aos urubus, mas talvez estivesse bem enganado.

Cutucou-o com o pé, mas depois se sentiu um pouco mórbido pelo ato. O céu estava claro e pertencia a um belo dia de uns vinte e cinco graus. Límpido, sem nuvem nem outros pássaros. Foi um encontro infeliz, pensou o garoto. Pássaros também morrem, oras.

Desviou do pequeno ser e continuou caminhando pela rua. O sol batia bem no seu rosto e, apesar de a temperatura estar agradável, Miguel sentia calor e a luz queimar sua pele. Gotas de suor brotavam em sua testa

Não.

Essa história não deve ser contada dessa maneira.

Não, elas não são anti-heróis. Elas são humanas, simples assim. E humanos cometem atrocidades. Humanos cometem erros. Atente-se a eles.

Mas essa não é a questão, talvez. Se você abrir o olho, talvez.

Não podemmos humanizar essas personagens e enriiquecer cada detalhe do que aconteceu com elas. Elas não devem ser objetos a serem afeiçoados por aqueles que leem, por mais que isso torne sua experiência melhor, cativante, envolvente, ggostosa. Precisamos mostrar os fatos. Se você quuer adotar um desses seres retrados, vá fundo. Mas nós não nos esforçareemos para isso.

Não. Descullpe.

Tambéem não podemos intervir dessaa maneira. Só queremos deixar claro que, quando o ccéu escureceu, o dia se foi e a escuridão engoliu tudo que hhavia lá foraa, tudo mudou. Inclusivve as peessoas. Fatos.

Esperammos que você esteja acompaanhando.

Esttamos aqui para explicar o que aconteceeu, não para te entreter. Você também é parte essencial disso e possui um objetivo, mesmo que não saiba.

Você não sabe quem soomos, mas sabemos quem você é. Sabemmos até mesmo o diia e hora que esse texto cheggou até as suas mãos, e achamos importante quue isto seja lido com o máximo dee atenção possívell.

Esperamos que tenha entendido. É importante ter esse segredo em mãos. Você pode depender dele. Pode depender dessas palavras. Todos podem.

Há mais de um segredo, há mais de uma tarefa. Você precisa entender o que aconteceu da maneira mais clara possível. Nós mostraremos o caminho.

Lembre-se: não nos culpe pelos nossos erros, tente entendê-los.

Miguel prosseguiu sem olhar para trás. Um quarteirão depois a chuva começou. O segundo caiu mais ou menos três metros ao seu lado. Estava chovendo pássaros. Chocado, ele correu para a cobertura de uma entrada de uma das casas. Vinham mais e mais. Pássaros caiam mortos do céu e estouravam contra o solo duro do chão. Caiam em cima de carros, piscinas, grama, telhados. As pessoas corriam chocadas. Miguel acabou soltando um riso arrotado de tanta surpresa da situação sem nexo algum.

Pararam de cair em menos de um minuto, mas todo o redor já estava coberto de aves pretas e penas que o vento levava para longe. Miguel correu para o seu destino.Todas as calçadas estavam cheias de curiosos que saiam das casas.

O garoto avistou de longe entre as pessoas quatro adolescentes e foi até eles.

— Mas que merda – disse rindo enquanto cumprimentava os amigos.

— Por que estão caindo? – perguntou Filipe, o mais baixo.

— Já vi algo parecido acontecer e alguns países – Otto comentou recuando.

— Não eram aranhas lá? – Clarice pediu.

— Deve ser alguma doença. Ou veneno de plantações – foi o palpite de Fernanda.

— Vocês vão mesmo ficar admirando corvos mortos? – Miguel disse passando pelo portão – Eu preciso de água.

— Entra. Pega água lá fora. O filtro de dentro tá desligado. Eu vou pesquisar sobre o caso que vi – Fillipe seguiu-o para dentro.

Otto foi até o meio da rua, onde havia mais pássaros.

— Eles não deviam, sei lá, sangrar? – perguntou ele agachado para observar melhor os animais mortos – Fizeram tanto barulho quando batiam no chão. Deviam estar com os miolos todos estourados.

— Ah, que sádico – reclamou Fernanda. Clarice foi até Otto com um rosto instigado.

— Acho que você tem razão. Eles deviam estar no mínimo sangrando.

Otto esticou a mão para passar por um dos animais, mas recuou quando outra voz surgiu ao seu lado e uma sombra cobriu o chão a sua volta.

— Garoto, não toque nisso. Pode ter uma doença, ou um encosto.

Era uma senhora. Corcunda e com uma feição bem desgostosa.

— Eu sabia que Deus ia jogar uma praga nessa rua – ela continuou. Otto levantou-se e olhou para Clarice clamando com os olhos para saírem dali – cheia de gente profana. Vocês não sabem o que eu vi acontecer aqui todos esses anos. Pecados e mais pecados.

— Acho que Deus tem coisa melhor para fazer, senhora. – Clarice pegou na mão de Otto e puxou-o para a calçada – Com licença.

— Criança insolente – retrucou a velha uma ultima vez e ficou encarando os três até que fechassem o portão e entrassem.

— Que vizinhança simpática. Velhas com bafo e chuva de pássaros – Otto disse enquanto ia até um pássaro no quintal. Ele tocou-o dessa vez.

— Se isso tiver uma doença que cause uma nova epidemia global, você vai ficar conhecido como o primeiro ser humano burro que se infectou e morreu – Fernanda esnobou do garoto. Clarice olhava para Otto com curiosidade.

— Ele tá... – o garoto soltou e voltou a ficar de pé – Ele tá, frio. Geladinho.

— Claro né, tá morto! – esnobou novamente.

Clarice Foi até embaixo da árvore e pegou um galho. Abaixou-se.

— Vocês são dois doentes.

— Fernanda, fica quieta – suplicou Clarice. Ela mexeu no pássaro com um galho. Duro feito uma pedra – Ele não tá só morto.

Clarice levantou-se e encarou o céu límpido com uma feição de dúvida e curiosidade.

— Ele tá congelado.

Notas finais
E aí, o que achou? Comente :)