Zona Morta
2 Capítulo 2
— Então não deviam estar quebrados? – Miguel perguntou cutucando outro pássaro no quintal. Fillipe estava ao lado dele observando tudo com certo nojo.
— Estão – Clarice deu um pequeno golpe com o galho e três partes do pássaro se dividiram ao rolar com o impulso – Talvez as penas ajudem a seguram os cacos de pássaro.
— Isso tá cada vez mais nojento – Fernanda recolheu-se para perto da porta de entrada.
— Acho que já estão descongelando – Otto comentou mexendo em outros animais por ali. Alguns estavam escorrendo sangue.
As criaturas pintavam levemente o chão de vermelho e o líquido formava pequenas poças bem lentamente. Tempo depois elas começavam a escorrer.
— Também né, com esse calor – Miguel olhou para o céu. – Não faz sentido algum. Está muito calor hoje. Tem alguma possibilidade de a atmosfera ser mais gelada que aqui embaixo?
— Acho que sim – Clarice foi até a sombra da garagem. – Mas bem lá para cima, onde quase nem tem mais oxigênio. Acho que os pássaros não voam nessa altitude.
— Faz sentido – concordou Otto, completando: — e outra coisa, se estivesse uma onda de frente fria acima de nós, ela se chocaria com a quente e teríamos chuva, ou no mínimo muitas nuvens. Mas o céu ta limpinho.
— Vou esperar minha mãe voltar para limpar isso – Fillipe disse. – Não quero mexer mais nessas coisas.
— E vai deixar ai até segunda? Eles vão feder e atrair moscas – Fernanda reclamou mais uma vez.
— Fillipe, você pesquisou sobre o caso que falou?
— Não – ele respondeu virando-se para Clarice -, a internet de casa caiu. E meu celular tá sem torre. Alguém me empresta um?
Todos remexeram o bolso para pegar seus respectivos aparelhos. Quando desbloquearam, notaram que nenhum celular havia torre.
— É um belo dia para os celulares estarem sem sinal – zombou Otto. – Espero que essa chuva de pássaros não tenha causado nenhum acidente grave que deixe alguém dependendo de uma ligação.
— O número de emergência funciona mesmo sem sinal – comentou Miguel.
— Ah, eu não sabia disse. Se fosse eu, então, provavelmente morreria.
Da porta da sala saiu um labrador de pêlos lisos e bem penteados. Ele farejou os pássaros um por um, curioso, enquanto abanava o rabo freneticamente. Ele pisou em algumas poças de sangue e começou a marcar com pegadas vermelhas por onde passava.
— Ah, Toro, que nojo! – Fillipe reclamou pegando o animal pela coleira e puxando até a torneira ao lado do gramado. Ele ligou e se pôs a jogar água nas patas do animal
— Será que na TV tá passando algo?
— Não custa ver. Acho que não. Duvido muito que tenha acontecido isso na cidade toda e, mesmo que tenha, o jornaleco daqui é horrível – Fillipe disse enquanto entrava na casa puxando Toro pelo caminho mais limpo possível.
Miguel entrou logo em seguida. A entrada dava para um pequeno hall. Virando à direita, revelava-se uma sala de estar bem ampla com três sofás e algumas poltronas. O pé direito era alto e as janelas iam até lá em cima. Um degrau separava o primeiro cômodo de uma sala de TV, que ficava rebaixada do nível dela. Possuía só um sofá grande e aconchegante que ficava de frente para a TV. Miguel jogou-se e ligou-a.
Ao lado da sala de televisão havia uma porta ampla que dava para um pátio coberto e a área da churrasqueira que continha uma cozinha externa. Havia mais pássaros mortos na parte descoberta do pátio. Fillipe arrastou Toro até lá e o prendeu a uma coleira ao lado de sua casinha, perto de uma área com plantas. Ele encarou o quintal com desgosto pelos pássaros mortos boiando na piscina.
— Não funciona – Miguel relatou mexendo no controle. A tela da TV estava preta.
— Ué – Fillipe reclamou retornando ao cômodo. Todos já estavam no cômodo. O garoto tomou o controle de Miguel – Nem mesmo o sinal comum, sem ser da TV paga, está funcionando.
— Eita, gente.
Fernanda pegou o telefone da mesa de centro e testou – Não funciona, também.
— Será que é melhor a gente ir pra rua e ficar com as pessoas que estão lá fora?
— Acho que não. Curioso eu sei que é, bastante. Mas melhor a gente deixar pra lá. Logo a gente fica sabendo sobre o que realmente aconteceu – sugeriu Fernanda. Quase todos ali afirmaram, concordando.
Os cinco adolescentes se entreolharam e, naquele momento, a luz diminuiu. Toda a claridade que entrava pelas janelas se abafou gradualmente até ficar cinza, como um fim de tarde anoitecendo. Clarice foi até a área da cozinha externa e olhou o céu.
— Acho que a chuva do Otto está vindo.
Os quatro a seguiram e fizeram o mesmo. No céu, uma nuvem uniforme e grande preenchia o espaço azul com uma velocidade moderada. Uma brisa fresca cortou seus corpos. Em seguida, um vento leve capaz de mexer os cabelos longos de Fernanda.
— Se eu disser que estou com medo, vai parecer ridículo demais? – Fernanda comentou.
— Está ficando... – Otto disse não conseguindo conter sua surpresa engraçada – Cada vez mais frio!
— A gente vai presenciar uma nova era do gelo bizarra? – brincou Miguel.
Sem mais nem menos, um vento violento bateu contra eles como um baque. Ele durou pouco, como um leve tapa, mas foi seguido de outro mais longo. Poeira atingiu os olhos dos jovens e daí vieram as folhas e penas dos pássaros. Depois, o vento não parou mais. Era gelado.
A nuvem andou mais rápido e cobria totalmente o céu. As portas começaram a bater, violentamente. Uma luminária de chão e magricela da sala tombou. Sons vinham do andar de cima, de objetos balançando e caindo, além das janelas batendo. Toro estava agitado e tentava se livrar a coleira desesperado.
— Fechem todas as portas e janelas! – Fillipe pediu para os amigos. Ele correu até Toro, agarrou seu corpo enorme e arrastou para dentro da casa. Quando entrou, todos já estavam lá dentro fazendo o que ela pedira. Ele fechou a porta da sala de TV e trancou, cansado. O cachorro correu para de traz do sofá e encolheu-se, chorando.
O cômodo estava cheio de folhas, gravetinhos e penas pretas. Não só ele. A casa toda. Miguel retornou da cozinha e os outros do andar de cima.
— Caramba – retrucou Clarice, cansada. – Vocês precisam ver isso.
Ela subiu as escadas novamente e todos a seguiram. O corredor não era comprido, era amplo e dava para três quantos. Ela foi até a suíte. A porta de madeira que ligava o cômodo à sacada balançava no mesmo lugar. Parecia que romperia a fechadura devido à tamanha violência que se rebatia. Encaminhou os amigos até uma das janelas do quarto e puxou as cortinas. Eles olharam para fora abismados. O céu estava cada vez mais escuro e a nuvem mais pesada.
Em questão de um minuto, a nuvem remexeu-se como um mar revoltado enquanto escurecia cada vez mais.
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