Zona Morta

3 Capítulo 3


— Meu Deus... – Fernanda balbuciou e levou a mão à boca – eu nunca vi uma nuvem tão escura.

Naquele momento, ela ia enegrecendo.

— Parece uma massa de modelar – comparou Otto. Fernanda deu uns passos para trás a fim de se afastar da janela – que fica cada vez mais pesada.

Os outros olhavam para o céu maravilhados.

— Acho que vai vir uma tempestade das pesadas por aí.

Fillipe encostou o rosto e as mãos no vidro para conseguir ver melhor lá fora. O nariz de batata ficou pressionado. Seus olhos arregalaram-se e as sobrancelhas grossas subiram por espanto. Podia ver a rua agora. Estava cheia de gente, apesar do vento brando – estavam admirando o céu. Pareciam assustadas, mas estavam ali, encarando tudo. Penas voavam rua acima e depois retornavam sem destino. As árvores balançavam muito. Havia no mínimo duas na rua quebradas e deitadas no chão.

O bairro ficava em uma das regiões mais altas da cidade. Quase no horizonte já dava para ver o limite do município, onde o verde dos campos e plantações se espalhava quase infinitamente. Lá a nuvem parecia mais densa e escura, tanto que riscara o ar com um tremendo raio que a percorrera por dentro até atingir o solo. Era grosso, luminoso e violento. Segundos depois o som chegou até os jovens – era forte, como um grito de um. Fillipe sentiu nas mãos e rosto o vidro chacoalhar com se fosse uma bandeira ao vento. Os demais sentiram o piso tremer. Clarice jurou notar o quadro da parede balançar. Além disso, o som atingiu-lhes o corpo, como um baque de uma explosão. Eles se entreolharam assustados. Otto esboçou um sorriso.

— Uau – disse ele.

— Ok – disse Fernanda após um pequeno período de silêncio tenso – agora eu estou com medo, bastante.

— Acho melhor a gente descer – Miguel disse engolindo em seco. Estava começando a ficar aflito e receoso -, se a casa cair, a gente tá mais perto da saída.

Fillipe viu as pessoas da rua se assustarem também. Algumas delas começaram a voltar para suas casas. Ele virou-se e seguiu s amigos até o andar debaixo.

— Estou com frio – Clarice queixou-se passando as mãos sobre os braços e instantaneamente todos notaram que também estavam ficando com frio. O vento que conseguia entrar na casa trazia um ar cada vez mais gélido, tornando um frio que começava a exigir um casaco.

— Está mesmo – comentou Fillipe. – Vou pegar casacos.

Ele foi até seu quarto e retornou segurando duas blusas e vestindo um moletom azul marinho. Deu uma jaqueta preta pra Miguel e um casaco vermelho para Otto. Saiu novamente e dessa vez dirigiu-se ao quarto da irmã, onde pegou um moletom cinza para Fernanda e uma jaqueta de couro para Clarice.

— Obrigada – a garota disse baixo.

— Está frio em pleno dezembro, algo de errado não está certo – disse Otto rindo, mas os amigos não entraram muito na onda. Os sons que vinham lá de fora os deixavam aflitos e silenciados. Vinha do andar debaixo.

Mas um novo som surgiu e ligou a atenção de todos ali. Esse som se destacara, pois era muito diferente dos outros – nitidamente vinha ali de dentro. Fillipe arregalou os olhos e encarou os amigos. Fernanda desenhou uma expressão completamente assustada, até dera um passo para trás.

Miguel hesitara, mas começou a rumar para a escada. Fernanda protestou:

— Miguel, fica aqui...

— É só a porta batendo. Vou fechar – disse ríspido e continuou descendo os degraus. Os quatro o seguiram.

A escada encontrava o chão da sala de entrada, perto da porta da cozinha. Quando Miguel atingiu o patamar, parou nos últimos degraus que faltavam e deu um sobressalto. Vira a silhueta de uma pessoa parada no meio do cômodo.

— Oi – dissera a pessoa.

Quando a reconheceu, relaxou os músculos.

Era uma pessoa alta, branca, magricela e com cabelos negros com cachos longos. Parecia uma versão mais velha de Fillipe.

— Léo! – Fillipe disse animado atrás de Miguel, correndo até o rapaz e abrançando-o forte – Não sabia que viria!

— Resolvi fazer uma surpresa – disse o garoto. Parecia ter uns vinte e poucos anos. Seu cabelo tava totalmente bagunçado. – Ainda bem que cheguei antes de começar a chover. Tá um tempão bem feio lá fora.

— Pois é, a gente tava vendo – o garoto mais jovem disse, afastando-se.

— Oi para vocês – Léo dirigiu-se simpático para os demais presentes. Eles cumprimentaram de volta. Fernanda estava mais aliviada com a presença dele. – Os pais não estão em casa?

— Não, eles foram pra casa da vó – respondeu Fillipe. – Voltam na segunda.

— Poxa. Mas sorte que pretendo ficar até terça.

— Que bom! Mamãe tava com saudades. Faz tempo que você não vem.

— É – Léo foi andando até o aparador perto da entrada, depositou as chaves do carro e foi até o sofá da sala e jogou-se. – Porra, que viagem estressante. O tempo virou do nada.

— Tá um pouco macabro – comentou Fernanda.

— Macabro é pouco! – Léo riu – O que são esses corvos mortos?

— Então, né – Miguel disse aproximando-se dele.

— Quando eu tava chegando à cidade um atingiu o teto do meu carro. Eu dei uma olhada rápida agora e vi que deu uma amassada. Depois outros caíram pela estrada, mas quando entrei na cidade vi que as ruas estavam lotadas deles. Depois que o vento começou a levar alguns para longe. Por um momento achei que o vento capotaria meu carro.

— Isso é muito estranho – Fernanda soltou.

— É. Nunca vi uma tempestade de vento tão forte. Imagina como deve ser um tornado.

— E se for? – perguntou Otto.

— Acho que não – Clarice respondeu. – Acho que nunca na vida um tornado ou algo do tipo passou por aqui.

— Também acho, guria – Léo disse levantando-se e indo até a cozinha. — Mas ainda bem que cheguei de boa. É mais seguro ficar aqui dentro mesmo. Eu vou comer algo e deitar para dormir, to destruído.

Um passo de Léo fora interrompido por outra luz forte. Foram quatro rajadas velozes de uma iluminação branca. Segundos depois o estrondo chegou, estremecendo toda a casa. Esse trovão conseguira ser mais forte que o primeiro.

— Caralho — Otto disse tampando os ouvidos.

Do lado de fora, algo começou a descer, mas não era chuva.

Os garotos olharam para as grandes janelas da sala de estar, que vinham do teto. Era algo negro, totalmente ausente de luz. Descia como uma cortina fechando horizontalmente toda a visão que havia lá de fora. Negritude total e densa. Todos os orifícios por onde entravam luz na casa se apagaram.

Parecia que o céu estava caindo e cobrindo toda a superfície da terra.