Zona Morta
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Aquela seria a primeira vez de muitas que os jovens presenciariam o desespero de outro ser humano.
Foi tudo muito rápido, mas uma coisa todos viram com clareza: a fumaça negra, densa e raivosa, consumir e envolver os corpos de Léo e Toro. Eles sumiram na escuridão e a aquela coisa pôs-se a prosseguir.
Ela movia-se como um ser violento, não como uma névoa comum. Ela era espessa, grave e consistente, mas ainda com certeza leve como água em vapor. Mas não leve o suficiente para imediatamente rumar ao ponto mais alto do cômodo. Ela se expandia para preencher cada espaço de uma maneira uniforme, como uma explosão. Veloz e voraz.
Os corações dos cinco jovens estavam paralisados. A visão era horrível. O grunhido de Toro e grito desesperado de Léo surgiram imediatamente que foram consumidos por ela. Quando sumiram da visão dos garotos, o silêncio retornara, como se não houvesse mais nada ali além de escuridão.
Assim que o vidro quebrou, antes mesmo da fumaça começar a invadir a sala, uma onda gelada adentrou em uma velocidade estupenda e acertou todos. Essa mesma onda gelada despertou a atenção de Miguel, o mais próximo da porta. Ele havia se recolhido junto com os outros, perto da cozinha, logo depois que Léo agarrara Toro. Atrás dele estavam Fillipe, Otto, Clarice e Fernanda.
Quando o frio o atingiu, recuou para trás levando consigo todos os jovens para dentro da cozinha. A nuvem negra já estava na metade da sala de TV e Miguel fechou a porta da cozinha com tudo, trancando-os lá. Naquele meio segundo, uma aflição preencheu seus nervos. Ficou olhando fixadamente para a porta, com receio de a nuvem conseguir violar o caminho pelas frestas ou fechaduras, mas contatou que nada acontecera.
Não demorou muito para Fillipe se jogar contra a porta da cozinha aos berros. Ele chamava pelo no do irmão desesperado. Se Miguel não tivesse segurado seus pulsos e empurrado o garoto para trás, ele teria alcançado a maçaneta e aberto a porta, deixando a nuvem entrar. Dessa vez não Miguel não o repreendeu com gritos, pois ele também continha um frenesi parecido com o dele, mas não tão forte, é claro – não era seu irmão, ali do outro lado, dominado por algo completamente desconhecido. Além disso, a adrenalina em seu corpo o deixou atento o suficiente para conseguir agir daquela maneira veloz e impedir Fillipe.
Fillipe levantou-se correndo e rumou à porta mais uma vez. Agora já estava chorando e gritando mais alto. Miguel entrou em sua frente e barrou sua passagem com o corpo estufado. Arrastou o amigo de frente até o balcão do centro do cômodo e olhou nos olhos dele.
— Não faça isso! – Miguel disse aflito.
Fillipe tentava se soltar.
— Me deixa! Eu preciso ver ele!
— Não adianta, você sabe que não adianta, é perigoso demais.
Miguel o abraçou, mas não como afeto, e sim para contê-lo. O garoto estava uma pilha de desespero. Tempo depois, Fillipe retribuiu os braços de Miguel com um abraço de verdade. Ele o agarrou pelo tronco e se pôs e chorar em seu peito. Era um choro engasgado, apertado, como de um garoto sem dono. Otto ficou ao lado, embasbacado. A cena que presenciara passava em replay em sua mente. E mais assustador que os gritos de Léo quando a escuridão o atingiu, só o silêncio absoluto que vinha do outro lado da porta agora.
Quando entrou na cozinha, Fernanda correu aos tropeços ao ponto do cômodo mais longe da porta, na passagem para a área de serviço, perto da pia principal, que possuía um filete de janela horizontal entre ela e balcões que iam até o teto. Fernanda também chorava, agora encolhida no chão gelado, mas transitava para um estado de choque. Seu olhar tornou-se vidrado e freneticamente assustado. Ela soltava uns sons esquisitos da garganta, como se o ar que tentava entrar desse um nó em sua garganta e explodia para retornar.
Clarice a seguiu com medo. Ela segurou a mão da amiga com força e pedia calma constantemente. Fernanda acalmou-se apenas quando Fillipe parara de gritar e estava nos braços de Miguel. Os olhos verdes da jovem encontraram os preocupados e castanhos de Clarice. Eles se conectaram por um tempo.
— Está tudo bem – Clarice sussurrou. Não sabia o que dizer. Ela procurou algo ao redor e apontou para o teto. – Está claro aqui, vê? Olhe para a luz, foque nela.
Fernanda fez o que ela dissera, mas depois retornou com os olhos para Clarice.
— Não é isso... – ela disse sussurrando como se houvesse alguém perigoso por perto escutando a conversa.
Clarice a encarou com estranheza.
— Vai ficar tudo bem, calma. Vai passar. O Leonardo... deve estar bem... – mentiu para tranquilizá-la por hora.
— Não... – Fernanda resmungou. O choro retornou à sua voz, mas ela engoliu a seco e respirou fundo para falar. Seus olhos agora estavam perdidos. – Eu vi tudo...
— Eu sei, eu também vi. Foi horrível. Mas tire a cena da cabeça, por favor... – Clarice estava começando a sentir que ela não ia conseguir lidar com o estado de choque de Fernanda.
— Eu vi – agora Fernanda assumiu uma expressão preocupada. Preocupada consigo mesma. — Antes.
— O que?
— Eu vi tudo isso. Antes. Eu sonhei com tudo isso – sussurrou para Clarice, de tal forma que só ela a ouviria. Clarice a encarou perdida novamente e não respondeu. Fernanda esperou algo sair de sua boca, mas pela demora continuou: — os pássaros, a nuvem, o cachorro, a morte.
— Quando?
— Algum dia. Eu sei que sonhei.
— Você não tá delirando?
— Não fale assim – ela voltou a começar a se desesperar, mas Clarice segurou seus pulsos para acalentá-la.
— Me explique direito, então.
— Eu me lembrei do sonho só agora. Mas na rua, quando vi os pássaros, já tinha me dado um deja vu. Agora faz mais sentido – ela foi dizendo enquanto limpava o rosto com a manga da blusa. – Acho que a primeira coisa que vi foi um pássaro, preto. Um corvo, acho, né. Ele tinha as asas abertas, vinha descendo de um céu escuro, avermelhado. Das costas dele saia uma fumaça escura que se mexia muito rápido. Ele desceu até tampar minha visão, ficou tudo escuro. E depois ouvi um rosnado, de cão e tudo clareou, mas depois ficou escuro de novo. E ai um grito humano. Uma pessoa sofrendo, morrendo.
Clarice estava perturbada ouvindo. Ficou um tempo em silêncio.
— Você viu mais alguém morrer? – perguntou com medo da resposta.
— Não. Mas eu vi algo... alguém, uma ameaça.
— Quem?
— Era uma pessoa alta, bem alta, adulto. Só me lembro da silhueta. Ela andava por uma rua e as luzes foram se apagando uma por uma atrás dela. Ela segurava um facão. Acho que escorria sangue dele.
— Não consegue mesmo lembrar-se do rosto? – Clarice perguntou e Fernanda fez que não com a cabeça.
— Meu deus – Fernanda disse depois de um tempo.
— O que?
— Eu não me lembrava de nada disso que te contei até começar a falar. Eu tô... assustada.
— Eu imagino... Isso é tudo muito. Eu não sei. É só muito. – Ela finalmente relaxou o corpo e se jogou no chão ao lado de Fernanda, encostando-se ao balcão da pia e relaxando a cabeça nele.
— Você está bem? – Fernanda perguntou. Ela já estava mais controlada, mas sua mente estava um turbilhão de informações.
— Não – Clarice respondeu e Fernanda não disse mais nada. A garota de olhos castanhos ficou olhando os três meninos perto do balcão central, do outro lado do cômodo. Fillipe chorava e os outros dois diziam coisas para ele. Às vezes ele estourava e tentava sair dali, mas era impedido. Não conseguiu se concentrar no que eles diziam. Seus ouvidos desligaram e apenas sua visão funcionava, mas captava tudo lentamente. Bem lentamente.
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