Zona Morta
6 Parte dois - Um novo mundo
Notas iniciais
Fernanda levantou-se alguns minutos depois, quando já estava mais calma e centrada. Ela andou até Fillipe e ficou ao lado dele. Colocou-o para se sentar em uma das cadeiras e ficou por perto. Ele já havia parado de chorar. Estava calado, vidrado e constantemente olhava para a porta da cozinha. Miguel ficou de longe observando com receio que ele se levantasse repentinamente e corresse até ela, abrindo-a em desespero para alcançar o irmão. Mas o silêncio que vinha de lá, passava a sensação de que poderia ser pior ao mesmo tempo em que era tensa. Se viessem gritos agonizantes ou desesperados de lá, pensou Miguel, Fillipe não resistiria em fica ali na cozinha sem fazer nada. Então, o silêncio transmitia uma afirmação: não havia nada para ser feito.
Otto recolheu-se a um canto da cozinha e ficou por lá algum tempo. Miguel estranhou sua reclusão, mas, apesar de esquisita e incomum para o comportamento do garoto, durou pouco. Logo já estava inquieto observando as janelas, tentando ouvir algo por trás da porta e coisas do tipo.
Miguel ssentou-se ao lado de Clariice no chão. Não disse nada no começo, mas depois pergguntara se elaa estava bem. Ela respoondeu com um grunhido que ele não identificou ser, mas interpretara como um “me deixe em paz”, então ficou ali em silêncio até que ela quebbrasse essa barreira.
— Era pra gente estar vendoo algum filme tranquilamente lá na sala nesse exato momento – ddisse a garota, séeria.
— Era pra estar acontecendo qualquer coisa, menos isso – Miguel desabafou. Acabou soltando um riso frouxo de perplexidade irreal no final. Ele olhou para ela, que virou o rosto lentamente para encará-lo. – Você realmente tá bem? Nunca te vi assim tão quieta.
— As pessoas não são consistentes cem por cento do dia. Pode ser um choque de realidade para você, mas a Clarice aqui também chora.
— Eu sei – ele disse rindo. – Me lembro muito bem. Aliás, não tem como esquecer uma cena dessas.
— Do que está falando?
— De quando a gente era pequeno. Eu lembro que nossos pais viajaram juntos pra um hotel fazenda numa cidade bem pequena onde meus avós cresceram. Não me lembro de tudo da viagem, mas sei que quando estávamos em uma fazendo da minha família quando aconteceu. A gente tava perto do curral, ou sei lá o que. Você ouviu os gritinhos dos porcos e entrou em transe. Ficou quieta por um tempo. Quando fomos almoçar, a surpresa: era porco. Você começou a chorar caladinha, mas quando sua mãe forçou a comer você esperneou.
— Meu deus – ela disse rindo um pouco -, isso é algo para se recordar. Foi horrível.
— Posso dizer uma coisa?
— O que?
— Estava delicioso – ele riu e ela deu-lhe uma emulação de soco no braço, mas acabou rindo também.
— Pensei que ia dizer que eu tinha agido feito fofa, algo assim. Canalha.
— Não tenho culpa. Mas tudo bem, confesso, apesar de engraçada, sua sensibilidade com animais para abate foi notável.
— Os nossos pais – ela perguntou com uma feição mais séria -, será que eles estão bem.
— Acho melhor a gente não ficar pensando nisso.
Eles olharam para Otto, que estava perto da porta da cozinha levemente inquieto. Não demorou muito para colocar seus pensamentos para fora:
— Há espaço o suficiente para a fumaça passar por aqui, pelas frestas das portas, das janelas, da fechadura. Mas simplesmente não entra.
Ninguém respondeu de imediato, então Clarice disse para não deixá-lo no vácuo:
— Ela pode ser mais densa que aparenta, algo assim.
— A minha teoria é que utilizar dessas frestas a torna lenta. Então ela simplesmente não vem – ele completou reflexivo.
— Você vai tratar como se ela tivesse sentimentos e raciocínio lógico agora? – Fernanda perguntou, mas não brava. Estava tentando apenas ser racional.
— Não. Estou apenas supondo.
— Quer dizer que qualquer pessoa que esteja dentro de algum local que tenha uma fresta menos singela foi atingida por essa coisa? As pessoas na rua... – Fillipe disse um pouco soturno. Ninguém esperava que ele fosse entrar na conversa, então ficaram olhando para ele por um tempo. Estava de cabeça baixa e com o rosto inchado.
— Calma, não sabemos se isso aconteceu só nessa rua – Clarice disse para não criar um alarde desnecessário ou deixá-lo ainda mais desconfortável com a situação pela qual o irmão passara -, na cidade toda. Não se preocupe com isso... Acho que é exagero pensar que seja uma grande escala.
— Ela tem razão – mentiu Fernanda. No fundo, ela sentia que aquilo não terminaria logo. A imagem do homem com o facão revisitava seus pensamentos constantemente e criava-lhe uma onda de aflição.
No fundo, todos sabiam que, empiricamente, observando a situação de Léo, todos aqueles que tiveram contato com a fumaça não estavam, no mínimo, em uma boa situação. Mas para poupar Fillipe, não falaram nada. Por fim, ele mesmo sabia disso.
— Pode não parecer uma situação tão simples – confessou Otto -, mas a variável de possibilidades é tão grande que existem, sim, chances de ser algo muito mais simples e solúvel que aparenta. Eu só fico incomodado com essas incertezas. E ansioso.
Fillipe voltou a ficar amargo depois de um tempo. Miguel não tinha tanta paciência para situações assim, mas retornou até o amigo para apoiá-lo. Clarice levantou-se para andar até Fernanda, puxando-a discretamente para um canto da cozinha.
— Você vai contar sobre os sonhos para eles? – Clarice perguntou baixinho.
— Não. Não me sinto confortável expondo isso. Pelo menos por enquanto.
— Você deveria. Não agora, mas deveria.
— Por favor, não fale nada.
— Não vou falar. É uma decisão sua. Só quero deixar claro que acho essencial que você compartilhe com todo mundo. Se algum de nós se deparar com o homem de facão, por exemplo, saberemos que é uma ameaça de ficaríamos atentos.
— Não acho que a gente vá se deparar tão facilmente com um cara assim – Fernanda disse olhando para as janelas negras.
— Eu sei. Mas, de qualquer forma...
— Tudo bem, eu conto. Mas não agora.
— Ok.
Lá fora, o frio ia diminuindo.
Fale com o autor