Notas iniciais
MEO, ME DESCULPEM PELO ATRASO ;-; Eu fiquei muito ocupada durante todos os dias e, agora, eu tive um tempo pra acabar o capítulo e postar. Perdoem-me, sinceramente. Mas, enfim, espero que gostem deste capítulo que... Bem, ele foi muito legal de escrever :3 Boa leitura s2

A mente clareou como sempre faz quando nós acordamos. Os pensamentos de ontem, falas e dúvidas do dia a dia inundaram sua cabeça e fizeram o barco de Will voltar a velejar. Ele abriu os olhos, olhou para cima por um momento e, ao enxergar algumas falhas na visão, fechou-os por uma breve pausa para se acostumar à claridade que vinha do alçapão. Abrindo os olhos novamente, Will sentou, arrumou os cabelos que caíam em seu rosto e tirou as cobertas da perna. Olhou para o alçapão e estreitou os olhos. Pensou ter ouvido algo, pois seu sono era leve e ele acordava todo dia às cinco e meia da manhã por conta dos pássaros que cantavam ali perto.

Levantou-se e, cambaleando, chegou até a escada. Subindo dois degraus, alcançou a maçaneta do alçapão e abriu-o, enxergou um opaco Sol no meio de um céu azul um tanto escuro, e resolveu subir para sentir a brisa da manhã. Há dias ele não acordava para relaxar, mas sim para trabalhar em algo a ver com a sabotagem da Zona A. Sentou-se na grama, ainda sonolento, e coçou os olhos quando um leve vento passou por seu rosto.

Ao seu lado, Marc estava envolto em uma coberta com um travesseiro entre as pernas cruzadas e o cabelo, agora um tanto grande, preso com um elástico de borracha. Eles se olharam, ergueram as cabeças num comprimento e voltaram a assistir ao grande espetáculo que a natureza era.

– Tá aqui faz quanto tempo? – Perguntou o mais velho. – Você tá com uma cara de sono que transparece uma madrugada acordado.

Marc bocejou de um jeito preguiçoso, típico de quem dormia mal e ficava sonolento o resto do dia. Deu de ombros e, colocando o travesseiro na grama, deitou.

– Acordei as duas, vim pra cá e fiquei olhando pras estrelas. Sabia que aqui na B o céu é mais limpo? Eu só percebi isso agora.

Will o fitou de um jeito preocupado e ao mesmo tempo bizarro.

– Você não está passando por uma crise de existência nem nada, certo?

– Não. – Ele soltou um riso do fundo dos pulmões. – Lembra-se quando eu era uma criança e você acolheu a mim e a Kyle? Eu lembro até hoje: Eu e meu irmão estávamos num bar, pedindo pelas sobras de um pedido, e você chegou, pediu um whisky e nos pagou dois pratos de almoço. Os melhores da minha vida. – Will assentiu e passou as mãos para trás da cabeça, lembrando-se também do dia. Em um canto de sua mente, o rosto de Marc quando viu pela primeira vez um prato de qualidade o deixou com os olhos lacrimejando. – Então você viu algo em nós, não sei o quê, mas viu. E eu agradeço por isso até hoje.

– Marc, onde você quer chegar?

Ele suspirou profundamente, e ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, começou a falar.

Só... Estava pensando em algo. Eu finalmente percebi que não tenho mais catorze, sabe? Eu tenho responsabilidades de um adulto, eu sou um adulto, mas nunca vivi minha vida. Eu nunca me apaixonei, Will. Nunca senti um frio na barriga ou um nervosismo por olhar por alguém. Minhas portas, janelas, nunca foram abertas. Nunca senti cheiros novos, vi luzes novas, somente as mesmas coisas de sempre. Eu preciso viver, Will. Eu preciso descobrir o que mais eu posso ser.

Repentinamente, Will ficou nervoso. Estaria Marc pensando em abandoná-los? Ele não podia fazer isso, podia? Em sua mente, Will já imaginava Marc partindo, com uma bolsa surrada e seguindo uma nova vida, sem Will, sem ninguém. Para ele, Marc era como um filho, alguém que você se apega desde o primeiro momento que você conheceu. Alguém que você sempre precisou ter na sua vida e, bum, quando aparece, você nunca mais quer perder.

– E o que isso quer dizer?

– Quer dizer que, assim que nós acabarmos com tudo, eu vou seguir minha vida. Sem roubos, sem rebeldia, sem... Vocês. Eu preciso experimentar a sensação de realmente estar sozinho. Somente eu e Deus. Não é isso que as pessoas fazem quando estão amadurecendo? Aprendem a viver sozinhas?

Um silêncio entre os dois se estabeleceu por alguns minutos. Somente o som dos pássaros assoviando uns para os outros, as águas batendo contra a pedra e o vento cruzando as folhas.

Will pensou por um tempo. Realmente, estava na hora de Marc seguir com sua vida. Afinal, ele não podia ficar na sombra paternal de Will para sempre, certo? Ele... Ele tinha que ser o que ele quisesse, não o que o impuseram a ser. Mas, mesmo que concordasse com isso, Will não aceitava. O sentimento de deixar uma pessoa ir é tão doloroso quanto se livrar de um curativo. Alguns são tirados de uma vez para que não haja muita dor. Mas outros, os mais especiais, mesmo que doa você os tira lentamente, pois, mesmo machucando, eles ainda estarão lá. E Marc era um de seus curativos mais especiais e mais antigos.

Por fim, Will somente suspirou, fechou os olhos e soltou a frase que tanto pensou e repensou.

– Se essa é sua decisão, eu a respeito.

Marc sorriu.

– Obrigada, William.

Fazendo uma careta, Will balançou as mãos no ar, como se dissipasse um pensamento.

– Credo, não me chama assim. Até parece minha mãe.

Os dois caíram no riso e passaram a manhã assim, observando o céu e jogando conversa fora. Um pouco de paz no mar agitado da mente dos dois.

***

– Jen, vamos?

Dilan abriu a porta e enxergou a namorada sentada na cama, com as pernas levantadas para cima e equilibrando um travesseiro com os pés. Ela parecia concentrada em não deixar o objeto cair, pois suas pernas tremiam com a força e ela fazia uma careta de concentração que se usa quando se faz testes para vestibular. Vagarosamente, ele se deitou no chão e começou a se arrastar até o pé da cama dela, como fazia em alguns treinos antigamente.

Jennifer! – Ele gritou e o travesseiro caiu justamente em sua cara. Dilan ouviu um grito agudo que, é claro, veio dela, e a garota sentou-se para enxergar o outro.

Ela estreitou os olhos e o rapaz tirou o travesseiro do rosto, enxergando-a de cabelos presos desarrumados e com as bochechas vermelhas. Sempre que ela se assustava – O que acontecia muito, ela ficava daquele jeito.

– Dilan?

Ele demorou a falar, pois estava sentando na cama e ajeitando o cabelo.

– Eu vim te buscar pro nosso... Passeio.

Jenni acertou o moletom que usava e abaixou-a para esconder a calcinha. Por mais que fosse um casal, ela ainda era muita vergonhosa com relações “íntimas” ou até ser vista em seu estado natural. Na frente dele, ela não ficava de roupa íntima nem que a pagassem, não por enquanto.

– A-ah, tudo bem. – Ela se levantou, foi até o guarda-roupa que compartilhava com Sam e Rose e pegou uma roupa que sempre guardou para um “passeio” com Dilan. – Espera lá fora, por favor.

– Claro.

Sobre os pés, Dilan caminhou lentamente e olhou para trás para ver Jenni entrar no banheiro. Ele nunca se sentiu mais sortudo na vida. Ela estava com a sua blusa: a blusa que ele a deu anos atrás para fazer um treinamento, quando ela apareceu de regata e ele a deu o seu moletom. É claro, ele ficou com alguns machucados aqui e ali, mas o que importava era ela. Sempre era ela.

Ele saiu do quarto, encostou um pé na parede ao lado, cruzou os braços e abaixou a cabeça. Eram cerca de nove horas da manhã e ele não teve uma boa noite de sonho, então o resultado era quase dormir em todo lugar que escorasse.

Os olhos estavam quase fechando, mas ouviu o som da porta e, num pulo, tirou o pé da parede, descruzou os braços e assumiu uma postura totalmente ereta, como se algum general passasse por ali.

– Estou pronta. – Dilan olhou para o lado e arregalou os olhos, quase deixou a boca abrir, mas engoliu em seco e ficou estático. – Eu to... Bonita?

Ela estava mais que bonita. O vestido era branco com alças finas e o tecido deslizava sobre o corpo, deixando aparecer algumas curvas. Havia um cinto fino marrom acima da cintura, que dividia o vestido entre a parte de cima, que era um pouco mais solta, e a parte de baixo, que deixava transparecer as curvas da cintura e da perna. Dilan estava sem palavras para o que via.

– Você está... – ele começou, querendo achar uma palavra que a definisse. – Não existem palavras que possam te descrever, Jennifer.

Ela enrubesceu e deu um sorriso cheio de vergonha.

– E isso é bom?

– Pra você pode ser, mas pra mim é péssimo. – Ele deu de ombros. – As pessoas irão ficar olhando e eu não quero ninguém olhando pra minha namorada.

O rosto dela passou do tom de pele normal para um vermelho tão intenso de simplesmente ouvir a palavra: namorada. Ela nunca o ouviu dizer isso, e olha que estava contando. Aquela era a primeira vez e fez um efeito tão grande nela que, por um segundo, ela arfou. Nunca teve um namorado na vida, nunca teve um cara tão bonito de quem gostar. E, pelo menos por algumas semanas ou meses, ele seria só seu.

– Vamos? – Dilan estendeu a mão a ela; Jenni aceitou e ele entrelaçou os dedos. – Então, por onde quer começar? Saiba que nós não temos muitos lugares aqui.

– Nós podemos andar pelo jardim.

E assim foram. Saíram do dos dormitórios, e Dilan passou o braço por sua cintura quando dois caras chegaram, olhando descaradamente para as pernas de Jenni. Ela, inocente, não notou. Mas ele convivia com homens e sabia de algumas coisas.

Passaram pelo refeitório e compraram duas garrafas d’água e algumas frutas, para depois comerem no jardim dos fundos. Jenni insistiu em pagar pelo menos metade das frutas, mas, como Dilan era mais alto, este pegou seu dinheiro e impossibilitou que ela fizesse ou pagasse alguma coisa.

Chegaram então ao jardim e procuraram alguma sombra para sentar. Pensaram em ir à árvore para sentar-se ao tronco, observar o ambiente e comer as frutas, mas ao enxergarem Jack e Julian sentados no lugar, conversando amigavelmente e, por mais estranho que pareça a Dilan ver Jack assim, o garoto estava rindo simpaticamente para Julian, como se estivesse feliz de estar ali. E, vai ver, ele estava.

– Quem é aquela garota? – Perguntou ele. – Eu nunca vi Jack com uma garota a não ser Charmin.

– O nome dela é Julian Parker. Ela chegou recentemente aqui e, pelo que eu ouvi, é péssima em combate corpo a corpo, então pediu ajuda de Jack.

O casal se sentou em um banco de madeira apodrecido nos cantos com musgo, fora da vista dos outros dois. Observaram Jack e Julian por alguns minutos, e soltaram risos surpreendidos quando Julian sentou-se de pernas cruzadas e Jack colocou a cabeça sobre elas. Então a menina começou a acariciar os cabelos compridos de Jack enquanto conversava com ele, olhando-o carinhosamente. Ele, por sua vez, estava de olhos fechados, numa expressão serena de quem não se preocupava com nada além de um simples momento como aquele. Talvez, finalmente, Jack deixasse mostrar seu lado bom a alguém que não fosse Dilan, ou do sexo masculino. Talvez, ele revelasse seu modo de ser a alguém que achasse especial. Talvez, ele teria a chance de se apaixonar novamente.

– Eu fico feliz que Jack esteja assim tão alegre. – Dilan suspirou e tirou duas maçãs de uma sacola. – Fazia anos que ele não ficava tão risonho assim, não tão naturalmente.

– Essa garota pode fazer bem para ele. – Jenni sorriu. Apesar de não conhecer muito Jack, sabia como ele era amargo por fora, mas doce por dentro. E, em seu pensamento, ela achava que Julian seria a única a descobrir o lado doce de Jack. – Muito bem.

***

– Onde nós estamos indo? – Perguntou ela.

Eram cerca de dez horas da manhã, o sol estava raiando e alguns pássaros cantarolavam entre os galhos. Nick acordou Charmin às sete, vendou-lhe os olhos e a guiou por entre a floresta perto do alojamento, a cidade e, mais para frente, a outra parte da floresta, na zona norte da B.

Ele mandou que Charmin vestisse algo especial, então ela colocou uma das roupas que usaria na A. Estava usando um vestido preto reto, indo até os joelhos, com mangas três quartos e duas faixas brancas verticais que davam ao vestido um toque de classe e moderno. Nick, no mesmo estilo, usava uma calça jeans que emprestou de Josh e um paletó de Will, dado por Collin através do correio em sua adolescência.

Mas, é claro, ela não sairia com algo tão chique no meio de uma zona em decadência, onde poderia ser reconhecida e flagrada, assim como Nick. Então, por cima das roupas arrumadas, colocaram sobretudos beges um tanto rasgados que os deixavam “normais” para o lugar que habitavam. Além disso, Charmin colocou um lenço para tampar os cabelos negros e Nick, para tampar os olhos, colocou os óculos que Kyle usava como disfarce. Como resultado, eles pareciam estar indo a um lugar casualmente, e não para um encontro.

Charmin sentiu o cheiro das folhas queimadas por incêndios que aconteciam repetidamente naquela área. Ela pisou em um galho e chegou a tropeçar, mas Nick a segurou pela cintura e ela voltou a andar. Ele riu e a voltou a guiá-la pelos ombros novamente, enquanto ia tentando lembrar o caminho que fez para chegar ao lugar.

– Estamos chegando? – Perguntou Charmin novamente.

– Quase lá.

Finalmente parados, Nick soltou-lhe os ombros e, abrindo uma bolsa que vinha carregando desde o alojamento, estendeu uma toalha pelo chão e, voltando-se para Charmin, sentou-a no centro do tecido e, depois de se certificar que ela ainda não enxergava, sentou-se também e começou a tirar as comidas da bolsa: frutas, um bolo e um pacotinho de bolachas caseiras de mel com chocolate; Uma jarra d’água e uma de suco.

– Ok. Vou tirar a venda. – Avisou e, depois de arrumar tudo e sentar-se mais perto dela, desamarrou o tecido e deixou que o mesmo caísse sobre o colo dela. Charmin ainda estava com os olhos fechados de tão acostumada que ficou. – Abra os olhos, Charmin.

E ela os abriu. E ficou maravilhada.

Aquela parte da floresta era totalmente preenchida por árvores que tampavam quase todo o chão, havia somente um círculo pequeno com grama, que era onde estavam. Não se via muito bem o sol, pois as folhas o tampavam. Mas, através de algumas falhas, feixes de luz eram vistos na toalha branca rasgada nas pontas e remendada no centro, onde estavam sentados. Involuntariamente, Charmin sorriu e olhou para Nick, que tinha os olhos brilhando de expectativa.

– Isso é...

– É...?

Charmin riu pelas narinas e pegou a mão de Nick, entrelaçando os dedos.

– Existe algo melhor que incrível?

– Existe: eu. – Ele sorriu de modo galanteador e Charmin riu do fundo dos pulmões, chegando a chacoalhar o tecido do sobretudo. – Ok, então este lugar é Nícolas.

Pegando copos de plástico dentro da bolsa, Nick colocou suco de laranja para os dois e, cortando um pedaço do bolo e o colocando num guardanapo, estendeu para Charmin, que aceitou, e pegou outro pedaço para ele mesmo.

– Tire o sobretudo, Charmin. – Disse ele, tirando a roupa e deixando aparecer a outra social. – Nós estamos num encontro romântico.

Ela sorriu e arqueou as sobrancelhas.

– Nem me pagou um jantar e já quer que eu tire a roupa?

Mesmo sendo uma piada, Nick ficou vermelho. Para disfarçar, comeu todo o bolo e tomou todo o suco, depois colocando mais novamente e fazendo o máximo de movimentos possíveis para que a garota não notasse seu rosto enrubescido.

– Então, por que estamos aqui? – Indagou Charmin enquanto bebericava o suco. – Você geralmente só é romântico quando eu estou brava.

Ele tirou, de dentro da blusa, o pingente que Charmin o deu anos atrás.

– Eu só pensei que merecíamos um tempo para nós, e como você não se lembra de muita coisa sobre nós, eu resolvi criar o momento em que você me deu isto. – Ele segurou especificamente o pingente. – Você lembra porque me deu o pingente?

Ela encolheu os ombros e mordeu os lábios.

– Sinceramente, não.

– Vou explicar. – Ele voltou o colar para dentro da camisa. – Quando nós tínhamos... quinze, nós viemos para cá, eu deixei Jack no comando da gangue naquele dia para você, para nós. Então, eu te trouxe aqui, sentamos na grama e ficamos comendo frutas enquanto conversávamos. E, do nada, você resolveu me dar o pingente, dizendo que era a prova de que nós ficaríamos juntos, e eu aceitei, mesmo não crendo muito na ideia. – Ele deitou no colo dela e, comendo um pêssego, continuou a história. – Dias depois nós tivemos o acidente e eu fui para o exército. Eu pensei que não teria a chance de te ver novamente, pois você não se lembrava de mim, mas, como o pingente diz, mesmo depois de coisas ruins, nós sempre voltamos às nossas raízes, e você é a minha raiz Charmin, entende? Mesmo depois de tanta coisa, nós voltamos a ser nós mesmos. É por isso que me importa tanto ter esse pingente.

Ela começou a fazer carinho nos cachos dele e enrolando-os em seus dedos.

– Eu nunca entendi o porquê de minha mãe ter me dado isso. No começo, era tão assustador, sabe? Mas, agora, eu entendo o motivo.

– E qual o motivo?

– Saber que eu sempre volto para você.

Nick apoiou as mãos na toalha, esticou os cotovelos e aproximou seus lábios dos de Charmin, dando-lhe um beijo leve. Eles se separaram e Nick sorriu um tanto infantil e mole demais, como quando você ganha o presente que sempre queria da sua pessoa preferida e o sorriso escapa de seu rosto, como se, assim que você abre o presente, ele se abre também.

– Você é a minha raiz, Charmin. Sempre será.

Notas finais
E aí, vocês acham que o Marc vai embora? Me respondam ^^ E quanto ao pingente, o que vocês acham que é? Aposto que quase ninguém vai acertar... Até a próxima, amores! Bye bye :3